sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Quando se sabe o que quer

(por Camila Furtado)

       Finalmente conseguiu se separar! Assim que voltou do banco com a última prestação da casa própria quitada, sentiu que chegara o momento em que não precisaria mais da outra metade para nada. O carro, pago. A casa, paga. O carnê dos móveis terminou antes do último natal. Difícil era separar os discos e livros -  quais eram seus e quais eram dele?- tanto fazia... que ficasse com todos, porque até o repertório precisaria mudar. Só queria a cama toda para si, queria as camas estranhas também e toda sorte de aventuras que a solteirice pudesse trazer.

Um ano experimentando a sensação de desamar alguém. Um ano ensaiando a fatídica frase dita no meio do jantar, à queima-roupa. Um ano pesando prós e contras e ensaiando respostas para os que achavam que eles formavam um casal perfeito. Nenhum argumento pesou tanto quanto a falta de romance. Acreditava que o amor poderia sobreviver à qualquer coisa, à falta de dinheiro ou à qualquer outra falta, até de pão. Mas descobriu que nenhum amor resiste à falta de romance. Nenhum pró foi capaz de segurar essa, nem o sexo garantido, nem a sensação de proteção. É fácil, quando se sabe o que quer.

Agora vinha a parte operacional da coisa. Separar fotos, documentos, enxoval e mais um monte de tranqueiras. Esboçou um sorriso ao ver quão espaçosos ficaram seus armários agora que as coisas dele estavam encaixotadas e prontas para ir. Abriu o champanhe e deliciou-se andando pela casa, que de repente ficou enorme. Abria e fechava portas, encantada com os espaços vazios. Gostou tanto da sensação de liberdade que nem se deu conta de que a solidão estava à espreita, esperando passar o efeito da bebida para chegar e apossar-se de cada cantinho deixado por ele. 


domingo, 7 de setembro de 2014

Subúrbio

(por Priscilla Franco)


Se a Zona Sul soubesse a harmonia em que convivem a doçura e o caos nas ruas irregulares do subúrbio, certamente estaria de mudança para Madureira. Devo pedir perdão previamente à Urca, Copacabana, Leblon, Garota de Ipanema e Manoel Carlos. Mas tudo parece morno quando comparado à energia pulsante que move pessoas, carros, trens e metrôs por esse pedaço esquecido da cidade maravilhosa. É o lugar onde não é praxe esbarrar em uma celebridade e dificilmente se é descoberto por um caça-talentos. É dormitório de domésticas, serventes e operários, abriga o imenso staff que move a engrenagem dos famosos bairros cariocas. É um refúgio sem flashes, recanto dos anônimos.
       Lá amanhece quando ainda não há sol. Uma multidão de despertadores move trabalhadores até a condução. O ônibus é a extensão da cama para quem tem a sorte de conseguir um lugar. Os vagões do trem são mercados, bazares e até mesmo igrejas, quando alguém leva a bíblia para pregar. Dizem que todos os dias algumas almas são salvas entre o Engenho de Dentro e a Central do Brasil.
          Donas de casa rompem o marasmo da manhã encontrando-se nos muros para comentar sobre a vida alheia. A pauta inclui a programação das novelas e pessoas interessantes, que cabem ou não nas revistas de fofoca. Quem vê essas senhoras de longe até acredita que voltou no tempo. Não é o máximo que em uma cidade imensa ainda existam pessoas que dedicam seu tempo a uma boa prosa?
       Crianças brincam na rua, interrompendo o futebol vez ou outra para dar passagem a um carro, moto ou qualquer outro veículo inconveniente. As bonecas são compartilhadas, os carrinhos, pipas e bolas de gude. Creio que o subúrbio é um dos últimos lugares onde as pessoas ainda têm prazer em compartilhar. Compartilha-se desde o “gato” da TV a cabo até o bolo de fubá batido em uma tarde de quarta-feira.
      Na hora do almoço, os cheiros se confundem. Muitas panelas chiam feijão cozido enquanto alhos torram nas frigideiras. O burburinho das crianças cede lugar aos barulhos de pratos e talheres. Nessa hora, o passeio por uma rua de Marechal Hermes é o bastante para nos abrir o apetite.
    Apesar de conservar costumes deliciosos que a vida moderna tenta a todo custo extinguir, o subúrbio não está parado no tempo. Os prós e contras da vida contemporânea também são percebidos por lá. Se a máquina de lavar acabou com as reuniões de vizinhas no tanque, nas lan houses, o contato com a tecnologia é uma ótima desculpa para confraternizar.
       Se na Zona Sul as pessoas vivem com glamour, é no Subúrbio que se vive de verdade. Nem o orçamento apertado ou a falta de acesso aos serviços públicos desanimam esse povo. Posso afirmar que em toda madame cheia de roupas de grife, champanhe e prozac falta a alegria descontraída de um passeio no calçadão de Madureira.

     O subúrbio é assim, difícil de ser desvendado em apenas um olhar. Se é feio, inseguro ou esquecido, se não tem frescura ou se faz figuração no mapa do Rio de Janeiro, já foi imortalizado na poesia de Chico e está guardado com todo carinho nas minhas memórias afetivas.


sábado, 6 de setembro de 2014

Para Monica Vitti


(Por Thiago Carvalho)

Furta-cor
(Talvez fosco...)
Esse hieróglifo
Que pintaram
No teu rosto?



sábado, 30 de agosto de 2014

A sua mão

(Por Iara  Caldwell)

Novamente Paris. Estava prestes a chegar. Férias...  Não podia esperar pela hora de caminhar às margens do Sena, naquele pedacinho da Île Saint Louis; ver as luzes e as largas avenidas que rasgam aquela cidade espetacular. As tardes nos cafés; pensar em Deus diante da Notre Dame ou Sacré Cœur. Talvez entrar e rezar. Mas não antes de dar umas voltinhas profanas e excitantes pelo Marais. "Senhores passageiros, em breve estaremos pousando no aeroporto Charles de Gaulle. Hora local: 16h, temperatura média de 10ºC e faz tempo bom", falou, pausadamente, o comandante da aeronave.
Não posso acreditar que estas angustiantes onze horas de voo estão terminando. Desde que decolamos do Rio, segurei a sua mão e não larguei mais. Larguei. Preciso comer, beber, me levantar para esticar um pouco as pernas, ir ao banheiro... Ah, o banheiro... são idas e idas ao banheiro. Tudo incomoda: o barulho, a pressão, a turbulência, o espaço mínimo entre os assentos, o frio... Há uma estreita relação frio x bexiga que precisa ser estudada. Você, gentil, não reclama. Apenas me olha, acompanhando meus movimentos inquietos, parece me entender perfeitamente. Deixa a mão estendida sobre o braço da cadeira, esperando que eu encaixe a minha. Encaixo.
Tudo isso já está acabando, o negócio é ter paciência, falta pouco. Outra vez a vontade de voltar ao banheiro... Não, eu espero. Gostaria de pensar que já estamos descendo, mas o piloto não diz nada. Ninguém diz nada. Você também não diz nada. Mas segura a minha mão e isso me conforta.
 Tenho um tremendo problema com altura. Lugar para mim, no avião,  é no lado do corredor, janela nem pensar! Olhar para baixo me aterroriza. Procuro nem prestar atenção quando o piloto começa  a sua explicação sobre a altitude: "... estamos a tantos mil pés de altura". Informação desnecessária. De que me adianta saber? Melhor dizer que é muito alto e pronto. E, daqui de cima, acontecendo qualquer coisa, nada a fazer senão rezar. E segurar a sua mão. Seguro. Melhor que nada aconteça.
 Não, não sou medrosa, caso esteja passando essa impressão. É que altura nunca me deixou lá muito à vontade, eu disse: tenho problema com ela. Quando era criança, vivia subindo em árvores. Mas antes do terceiro estágio de forquilhas já olhava para baixo, media mentalmente a distância e logo procurava me agarrar a algum galho forte mais próximo. Assim, como faço com a sua mão. Só por precaução. Com a árvore, dava certo: nunca caí, nunca quebrei nada, um ossinho que fosse. Por que não daria certo com a sua mão?
Acho que o avião já se aproxima do solo. Estamos descendo?  O passageiro ao lado levantou a janela, me ergo um pouco e... ah, confirmado! Estamos baixando, mas bem lentamente. Vou me preparando então. Não demora, pedirão que atemos os cintos. Estranho o piloto não falar nada... Êpa! Estamos subindo de novo? Gelei. Gritos, falatório, desespero, pedidos de calma. Confusão armada no avião. O que é isso? Que guinada! "Senhores passageiros, por favor, mantenham os cintos atados!" - fala um comissário, quase gritando. Alguém me explica o que está acontecendo? E o avião continua subindo, subindo e aumentando a pressão nos ouvidos... Ai, me falta o ar... ; me falta a sua mão. A sua mão, onde está a sua mão? Aqui. Fica aqui, por favor. Assim... Calma, preciso manter a calma. Respira! Estamos voando reto de novo? Ai... meu coração está  acelerado, parece querer saltar pela boca. E sem paraquedas! 
Tudo calmo agora. Nunca havia passado por isso antes... Por um momento pensei que estivéssemos a caminho da lua. Que desespero! "Senhores passageiros, pedimos desculpas pela manobra brusca. Tivemos que arremeter, pois não nos foi autorizada a aterrissagem no Charles de Gaulle. Voaremos para o aeroporto de Orly. Por favor, mantenham seus cintos atados".  Que susto! O ar me volta aos poucos.  Por favor, me dê a sua mão. Não solte. Ordens do comandante.
Menos apavorada, fico pensando o quanto poderá ser complicada a saída de Orly para o centro de Paris.  Ah, por que me preocupar com isso agora se ainda estamos aqui em cima, voando, voando... ? E quanto tempo mais teremos de esperar? Nada do comandante falar.  Aeromoça, por favor, ainda falta muito para o pouso? Perguntei como uma criança impaciente no carro dos pais, em viagem de férias. "Em breve". Apenas isso? Grande ajuda!
Acabo de pensar na semelhança de sons das palavras: aterrissar e aterrorizar... É isso! Voo que não aterrissa, aterroriza.
Depois de toda aquela adrenalina, o melhor a fazer é fechar os olhos e imaginar Paris. O anúncio do comandante quebra o silêncio: "Senhores passageiros, dentro de mais alguns instantes estaremos aterrissando no aeroporto de Orly, hora local: 17h, temperatura média: 9ºC e faz tempo bom". Dentro de instantes, em breve... essa tripulação gosta de uma imprecisão. E continuamos voando...
"Tripulação, senhores passageiros, preparar para o pouso: mantenham suas cadeiras na posição vertical e afivelem os cintos". Enfim, a nossa deixa. Seguro forte a sua mão, como na decolagem. Tocamos o solo. Aplausos para o comandante. Que alívio! Cintos desatados. Pegamos nossa bagagem de bordo e nos preparamos para o desembarque.  Nos olhamos e com um sorriso, agradeço: Merci, monsieur.
Um beijo no rosto e um aperto de mãos sela nossa despedida.








domingo, 24 de agosto de 2014

Literatura salva... ou distrai?

(Por Ana Beatriz Manier)

Tenho algumas lembranças de infância que me remetem a livros. Uma bem tenra, de dois personagens raposas de roupa e chapéu. O que faziam? Em que livro moravam? Não sei. Lembro apenas de sua imagem e de pronunciar seus nomes alto e lentamente, com o orgulho de quem já lia, apesar da dificuldade de quem ainda traduzia sílabas.
Aos dez anos, vivi as aventuras de uma personagem menina que, com olhos curiosos e infantis, extraia vida até de muros lascados e terrenos baldios. Depois joguei com Polyanna o seu jogo do contente, uni dedos com Tristão e segui o príncipe que me fazia olhar para o céu à procura de estrelas que sorrissem.
Livros estiveram presentes ao longo da minha infância, encurtando horas de dias arrastados e ampliando os limites das paredes que me protegiam do vento gelado do Sul. Me foram dados como presentes, lidos em voz alta por minha mãe, até eu ter idade para me apoderar deles. Não me foram impostos, eram amigos que eu gostava de ter, companheiros inesquecíveis.
Mais tarde, alguns viraram fardo nas leituras obrigatórias da escola, que me empurrava clássicos nacionais com autoridade militar, quando o que me interessava eram o susto e o medo de Horror de Amityville e os mistérios de Agatha Christie.  A sutileza de Machado e a profundidade de Clarice viriam depois.
Hoje, tantos livros mais tarde, vivendo de literatura, estudando, traduzindo e escrevendo, acompanho com curiosidade opiniões sobre o que ela representa para cada um e me surpreendo com algumas delas, em especial as que a ligam à salvação.
“Li porque ficava muito sozinho e não tinha o que fazer, a literatura era minha tábua de salvação”, disse-me um amigo escritor, ao se referir a sua infância.
         “Os livros me deram respostas, me salvaram do desespero”, repetiu minha mãe ao longo da vida, nos intervalos de suas crises de depressão.
A palavra salvação − com o perdão de quem a usa para falar de literatura − para mim, que sempre se distraiu com livros, me parece um tanto pesada demais. Vejo a literatura como algo a mais na vida, como a possibilidade de nos aventurarmos por novas searas e de voltarmos às já conhecidas com um olhar diferente. O olhar do outro. Vejo-a como uma forma preciosa de diversão que nos permite viajar pelo imaginário e nele encontrar prazer. Mas nunca, jamais, a vi como substituta de ausências em outros campos de atuação. Algo perigoso, se pensarmos bem.
Meu amigo, tão carente de pais presentes e de outras crianças, encontrou companhia nos livros, mas não salvação, continua lutando a luta diária, se superando, ora vencendo ora perdendo, em constante combate e experimentação. Minha mãe não se salvou; os livros, sua fonte quase exclusiva de conforto, prometeram ganhos que não se tem só com eles.


Coloque o peso da salvação na literatura, recorra a ela transbordando de expectativas à procura da solução para os seus problemas, e se frustrará a cada recaída. A resposta não está ali. “Trouxeste a chave, leitor?”.
 “A literatura não salva, mas adia o inevitável. E nos distrai durante o nosso percurso. Eu procuro fazer algo que gosto enquanto não me esfarelo”, disse André de Leones, num debate na FLIP de 2012.
“Nenhum romance ou conto, nem a soma do que li me humanizou ou me induziu a ser uma pessoa melhor”, posiciona-se André Resende, escritor e editor, acrescentando mais à frente que os livros, num dado momento, o induziram a uma arrogância que só a psicanálise resolveu.
Livros fazem parte do percurso vital do qual nos fala Leones, adiando a indesejada ao nos ocupar e distrair. Nem sempre são companheiros maravilhosos, como diz Resende, podendo às vezes nos levar a posturas que merecerão ser reformadas ou desconstruídas. Mas com certeza, nos ajudam a pensar, exercer a crítica, a procurar a chave dentro de nós. Livros podem muito.
E por poderem tanto e fazerem tanto, tenho ainda dentro de mim a criança que mal vê as horas passarem com a literatura e que adora comentar e debater o que lê. Tenho amigos que fazem o mesmo e, assim, vamos crescendo, construindo, reformando e acima de tudo, nos distraindo nessa vida, a meu ver, não passível de salvação.




domingo, 10 de agosto de 2014

O dedo do Cristo


(Por Lohan Lage)

Presuntos condimentados em revoada. Dois milhões on the lottery não fazem verão. Quero meu inverno de volta. Congelar essa rotina e marcar reuniões com meu cobertor, Woody Allen e meus chás de ervas legais. Minha lixeira transborda. Sheiks árabes, Viagras, congratulations (for what?), viagens para o Caribe com acompanhante (é quando eu penso “antes só...” como inconsciente disfarce da minha solidão). Eu me excluo. Invisível, caminho pelas ruas como carta dentro do pacote mais escuro e lacrado, enviado por Sedex com destino ao...

            Meu escritório tem vista para o Cristo Redentor. Da parte lateral superior esquerda da minha janela eu consigo enxergar a ponta do dedo mais extenso. Às vezes acho que anseio ver o mar. Eu choro salgado quando rio amargo. Rio amargo de janeiro a novembro (esse trocadilho será a Framboesa do ano). Dezembro, férias. Nas últimas, fui me estacionar numa boate em La Paz. Beijei uma bruxa boliviana e provei todos os tipos de drogas possíveis alojadas naquela literal boca de fumo, ervas e fetos de lhamas.

            Queria fazer um curso de “como arquitetar um plano para fugir dessa vida”. Cansei de arquitetar casas geniais repletas de grades e mecanismos de segurança – gaiolas da liberdade em 3D. Sou um carcereiro dos nossos dias. Eu desenhei a minha própria jaula. Ao menos é uma jaula com uma sala de cinema e uma Internet de 20mb. Fui à caça de livros de autoajuda e, por fim, eu fui a presa capturada por milhares de títulos pedantes. O que mais me interessou foi o “Como se suicidar sem sujar a casa”. A caixa, uma jovem com olheiras, se assustou ao conferir a minha compra.

-Tem certeza?

-Falou comigo?

-Você aparenta ter trinta anos de idade, ser bom de cama e um profissional bem sucedido. Tem certeza que quer aprender a se matar com esse livro?

-Tenho vinte e sete, a idade ideal para o ato, embora eu não seja nem um guitarrista estrondoso nem um cantor de blues... E quanto ao bom de cama... É, eu não acordo cedo.

-Não leve este livro, é bobagem.

-Então por que vendem?

-Porque noventa por cento do que vendemos é bobagem. Eu sou apenas uma caixa, não gerencio o que passa pelas minhas mãos todos os dias.

-Mas quer gerenciar a minha escolha. O que você é, uma daquelas fanáticas religiosas panfletárias anti-aborto, anti-camisinha, anti-filme pornô, anti-suicídio? Veja bem, eu comprei um livro e atrás de mim tem uma fila imensa, já demonstrando sinais de irritação. Quer que eu seja linchado?

-Pra começar, você ainda não comprou o livro. E pra quem quer se matar, ser linchado poderia resultar, no mínimo, em uma morte justificável.

-As razões do meu suicídio só quem sabe sou eu!

As pessoas da fila se entreolharam, espantadas. Me contive.

-Eu não quero impedir o seu suicídio, pelo contrário. Só acho esse livro uma porcaria pra quem deseja, realmente, dar um tiro no pé. Como te disse, você aparenta ser um homem bem avançado pra consultar esse nível de leitura.

-Então... Você já leu esse livro?

-Olha pras minhas olheiras, pra esse cabelo, pra essa gordura. Tenho vontade de morrer todos os dias quando me olho no espelho. E esse livro é tão ridículo que me deu ânimo de viver.

-Conclusão: você quer que eu morra, é isso?

-Quem sabe.

-Fique com esse livro, cansei desse bla-bla-bla. Amanhã, quando você ler no jornal “jovem e promissor arquiteto se joga do segundo andar da sua casa”, eu espero, sinceramente, que o seu remorso te estrangule até você cortar os pulsos!

            Empurrei o livro sobre ela e deixei a loja, a passos firmes. Funcionária atrevida, quem é ela, nem funcionária do mês é, se intrometendo na minha escolha...

                       

            Morri de tédio, de sono, e não morri de morte morrida, como dizia o meu avô antes de morrer ao tropeçar na dobra do tapete da sala. Na tarde seguinte, lá estava eu de novo, engravatado, na mesma loja. Estava pronto para causar a demissão de alguém.

            E a loira Biondina com o buço por fazer, emitindo uma voz de quem acordou às cinco da manhã, pegou trem, pegou ônibus e já chegou ao trabalho com os sovacos em petição de socorro (alguns animais, quando acuados em situações de perigo, exalam um odor bastante desagradável):

- Senhor, é proibido furar fila.

- Em qual artigo da Constituição Nacional consta essa lei?

- Senhor, não me fale de Constituição, nunca mais. Já cansei de estudar aquela porcaria que só existe pra ser desrespeitada, e nunca passei num concurso. Eis-me aqui, nessa lojinha de merda, tendo que lidar com um cliente que não sabe o que é ficar numa fila indiana.

- Taí, eu sempre me perguntei por que chamam essas filas de filas indianas... Ah, vou deixar isso pra ocupar a minha noite de insônia. Olha, não me importa a sua frustração profissional, eu só quero fazer uma pergunta.

- Senhor, as pessoas estão incomodadas, não pode furar fila.

- Mas eu não furei fila! Olha, eu, eu... Eu sou deficiente! Eu sou deficiente, vocês podem ver isso?

            Os quatro integrantes palermas da fila se assustaram com a minha demonstração.

- Querem que eu prove isso? Pois eu provo, eu... Basta irem até o estacionamento, o meu carro está na vaga dos deficientes.

- Cara, você enlouqueceu, quer que eu chame a Segurança?

- Que estranho, eu já estava me acostumando com o “senhor”. Ô moça, serei breve: poderia me informar se aquela menina, que trabalha no caixa, uma branquinha, com olheiras e cabelos engordurados, está por aqui hoje?

- Me desculpe, mas essa descrição é bem relativa por aqui... Difícil identificar. Só isso?

- Ela, ela... Ela estava ali, ontem, no terceiro caixa, por volta das três da tarde...

- Senhor, me desculpe, ontem não foi o meu expediente.

- Nossa, como você sabe das coisas.

            Uma baixinha, do caixa ao lado, ao terminar de atender uma cliente, meteu o bedelho.

- Tá nervoso, senhor?

- O mais educado não seria perguntar “algum problema, senhor?” Pois eu pareço nervoso? Olha, eu só quero identificar uma colega de vocês. Você pode me ajudar?

            “Ô moço, vambora, eu tenho varizes!”

            “Respeite a sua vez, cara!”

- Além de nós duas, só um rapaz e uma outra moça trabalham no caixa desse loja.

- Então, só pode ser essa outra moça!

- Ela é mais negra que a minha bisavó senegalesa, senhor. Não bate com suas descrições.

- É, claro, não bate... Sua avó era mesmo senegalesa?

            Um homem-rã de baby look Billabong veio me abordar com sua característica cara de mau.

- Ô manézão, quer dar linha na tua pipa e parar de caô aqui na frente?

- Ah, sim, me desculpe por estar atrasando a sua aula de muay-thai, ou não seria o seu encontro com o personal trainer?

- Tá tirando onda com a minha cara, rapá?

- Imagina, eu tenho cara de quem tira onda? Eu sou um deficiente e você está me acossando.

- Eu to o que?

- A-cos-san-do. Já viu “Acossado”, do Godard?

- Acossado... God... Que porra é essa, malandro?

            Ele segurou em meu colarinho.

            Uma octogenária, utilizando uma bolsa de crochê como arma.

- Larga ele, larga o moço! Ele é doente!

            A segurança do local se aproximou. Discretamente, agradeci às entediantes moçoilas do caixa pelas informações nulas, à nobre senhora que me salvou das mãos do Stallone carioca e dei o fora daquela loja. Acho que não retornaria mais. Não, eu tenho certeza.

            Terminei o dia assistindo a “Rosa Púrpura do Cairo”, já pela sétima vez. Como eu queria que a Mia Farrow escapasse daquela minha tela de plasma e invadisse o meu quarto, a minha cama, vingando-se de Woody Allen, envolvida em meus braços... Eu amaria a Cecilia como nunca amei outra mulher (se é que já amei alguém). Ok, Mia, eu não diria o mesmo se estivesse vendo o “Bebê de Rosemary”... Ou seja, me apaixonei pela sua personagem, Cecilia, e não por você.

- Você é um perfeito idiota.

            “Tem alguém lá fora?”...

- Pode ficar prostrado em sua cama. Não reconhece a minha voz?

            Recostei-me à cabeceira da cama, assustado. Olhei para os lados. Uma trilha sonora hitchcockiana ressoava em minha cabeça.

- Não seja tolo. Look at me!

            Grudei os olhos à TV. Engatinhei, lentamente, sobre o meu colchão. Me aproximei o máximo possível do aparelho. “Preciso de uma dose tripla de uísque com Rivotril”.

- Eu odiei aquele “joãozinho” do Rosemary’s baby. Estou mais bonita nesse papel, não acha?

- O que... O que eu acho? Devo mesmo conversar com a minha televisão, isso é recomendável?

- Você está conversando comigo, Mia Farrow. By the way... Eu te acho um idiota. Não me deitaria com você.

- Eu também não me deitaria com uma ilusão!

- Antes uma ilusão loira do que uma solidão invisível. Vazia.

- A minha relação com a solidão vai de vento em popa. Ela não fala enquanto vejo meus filmes, não reclama dos meus vícios e não muda os meus móveis de lugar.

- Você está tão feliz que pensa em suicídio.

- Se eu fosse você, também teria pensado em suicídio após aquela merecida indicação pro Framboesa de Ouro por “Sonhos eróticos de uma noite de verão”.

- A crítica quis pegar no meu pé. Invejosos... Você é um deles!

- Não acredito que estou discutindo com uma loucura. Quer saber? Hora de acabar com essa brincadeira de mau gosto.

            Pronto. Televisão desligada.

- Não adianta. Aprendi esse artifício com aquele traste neurótico do Woody.

            Lá estava ela, sentada ao meu lado, na cama.

            Desespero. Um grito aterrorizado.

            Não devia ter projetado o meu quarto no segundo andar.

            Pulei a janela.

           

            Até que uma queda do segundo andar não fratura muitos ossos. “Como eu vim parar nessa cama de hospital?”.

- Um vizinho, ela me respondeu. Um vizinho que estava fumando em sua janela, numa casa em frente a sua. Ele disse que você rolou feito um dublê de filme nacional no telhado da sua casa.

            Ela era a enfermeira. De olheiras.

- Você é... Eu conheço você?

- Bem que você avisou, hein. Eu não acreditei em você, claro. Pensei que te contrariar fosse uma solução infalível.

- Você...

- É, eu não cortei meus pulsos. Não sinto o mínimo remorso por você. Nem no jornal você saiu, sinal de que nem é tão famoso quanto pensa...

- Eu não sou famoso, nunca fui e nem quis ser, eu, eu... Eu não tentei me matar também, só fugi de uma assombração, eu... E que diabos você tá fazendo aqui?

- Este é o meu trabalho. Fique quieto, estou fazendo um curativo no seu cotovelo. Por sorte, você só sofreu luxações. Não vai ser dessa vez que seus amigos irão escrever bobagens no seu gesso.

- Meus amigos não são colegiais. São pessoas sérias, pais de família.

- Duas classes que você não se encaixa.

- Quem é você pra falar assim comigo, o que sabe da minha vida?

- O que sei da sua vida... Que você quer perdê-la, talvez?

- Você é uma fraude, estou sendo atendido por uma farsante aqui! Até ontem você era uma atendente infeliz numa loja infeliz, e agora surge vestida de branco, dando uma de enfermeira?

- Eu sou uma enfermeira. Curo enfermidades: do corpo e da alma.

- Ok, agora você é uma daquelas personagens de filme evangélico, diz que foi amiga de infância de Jesus Cristo e me prega um sermão libertador.

- Você precisa de um sedativo. Está muito agitado.

- E você precisa de algumas compressas de camomila nessas olheiras.

- Elas não servem... Nunca te disseram isso?

- Minha avó nunca foi dermatologista. Agora me deixe sair daqui.

- Infelizmente, não posso.

- Quer que eu grite?

- Pois não. Se quiser pular a janela de novo, fique à vontade também. Basta ir na direção dessa luz, os raios de sol.

- Da última vez que tentou o efeito oposto, viu no que deu.

            Ela apanhou um comprimido sobre um carrinho de metal e um copo de plástico com água.

- Não vou tomar, nem insista.

- Deixarei sobre a mesa. Morfeu estará a sua disposição, basta ingeri-lo. Agora me dê licença, preciso atender outros pacientes.

            Ela não apareceu mais naquele dia. Nem no outro. Tive alta. Não havia quem me aguardasse na saída. Nem o vizinho fumante... Aquele velho negro mal encarado, fissurado em vender objetos usados pelo Mercado Livre. Até a esposa já colocou à venda. Precisava lhe dizer “obrigado”.

            Bati à porta dele, com o braço esquerdo. O direito estava repousando em uma tipoia desgastada.

- Primeiramente... Quero agradecer por ter me resgatado.

- É... – com o cigarro pendendo da bocarra – eu tenho que te pedir desculpa por ter burlado o seu plano suicida ou o quê?

- Eu não tentei me matar, eu... A Mia Farrow saiu da tela da minha televisão e se sentou do meu lado, na minha cama, então...

- Sério?... Anda assistindo Woody Allen demais.

- Nossa, que surpresa. Então já assistiu a esse filme? Conhece Woody Allen?

- Por que a surpresa? Negros não podem assistir a filmes do Woody Allen?

- Não, imagina!, eu, eu... Eu não quis dizer isso de jeito nenhum. Eu só fiquei contente por... Por ter alguém tão próximo com quem dividir opiniões sobre ele.

            Ele expeliu uma baforada de fumaça em mim. Busco desesperado e discretamente uma dose de ar puro.

- Quero poder dividir um dia o meu câncer de pulmão também...

            Aquele homem era repugnante.

- Vendi todos os meus filmes do Woody Allen pelo Mercado Livre. Exceto um, talvez por ser o mais caro.

- É, e qual seria o último dos woodyanos?

- Don’t drink the water. Ridicularmente chamado de “Quase um sequestro”, nesse idioma metido a besta.

- Uau! Você tem esse filme? É uma relíquia! Nunca consegui encontrá-lo, sem ser usado, claro. Ele cairia bem na minha coleção. Quanto custa?

            Ele lançou a guimba sobre o seu gramado.

- Duzentos e vinte reais.

- Du, du, duzentos?

- E vinte.

- Duzentos e vinte... Bem, quanto o Sr. faria para mim, que sou seu vizinho, recém-saído de um hospital...?

- Duzentos e vinte reais, meu chapa. Está pensando que pode ludibriar um negro só porque é branco?

- Claro que não!, eu, eu só quis negociar, só negócios. Por que esse valor tão alto, isso é quase uma extorsão, não acha?

- Estava demorando para me associar ao mundo do crime... Brancos...

- Senhor, me desculpe, não foi a intenção. Olha, acho que não vai haver negociação, certo? Mas nem por 180 reais?...

- Duzentos e vinte, e fim de conversa, meu chapa. Acha que vou aceitar a pechincha de um branco que tem uma BMW na garagem?

            Selei o fim da negociação inegociável com um aperto de mão. Lar doce...

- Lar. Ué, e as minhas chaves? Mas...

            Trancar a casa, acionar os alarmes e pular pela janela não era uma atitude recomendável.

            De repente, não enxerguei mais aquela situação como uma estupidez, a maior da minha vida. Era um sinal, só podia. Eu não podia por os meus pés naquela casa novamente. Estava amaldiçoada, esconjurada, ou algo do gênero. E se a Mia Farrow estiver me esperando, deitada em minha cama, com o bebê do belzebu do lado? Aquele filme me causou pesadelos constantes na infância... Céus, eu serei rotulado como o arquiteto do diabo. Perderei minha clientela. O que fazer?

            Tomei a rua. Meu destino foi caminhar sem destino. Aliás, o destino estava se encarregando por transformar a minha sagrada rotina num caos. Eu precisava de um psicólogo, ou psiquiatra, nunca soube a diferença ao certo.

            Agora, eu precisava de um café.

- Moça, por favor, um pingado e um croissant desse aqui.

            Aposentados e moscas ao meu redor. E a mulher, a atendente, continuou de costas.

- Moça, eu...

- Já te ouvi – virou-se, com um sorriso.

            Os cabelos sob a touca... Um jaleco cor de papel de pão. Mas aquelas olheiras... Aquelas olheiras, que sobressaíam como auréolas... Elas não me enganavam.

- Seu pingado e seu croissant. Um pão na chapa combinaria melhor com o seu pingado. Pingado com croissant é uma espécie de... Martinho da Vila com Carla Bruni.

            O pingado esfriou. O croissant caiu da minha mão. A mulher foi atender outras pessoas. Sempre dando seus pitacos. Ela me olhava, e sorria, zombeteira; e servia, satisfeita. Parecia ter encontrado o ofício dos seus sonhos. E eu... Eu parecia ter encontrado a mulher dos meus sonhos.

(Por: Lohan Lage Pignone)