sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Quando se sabe o que quer

(por Camila Furtado)

       Finalmente conseguiu se separar! Assim que voltou do banco com a última prestação da casa própria quitada, sentiu que chegara o momento em que não precisaria mais da outra metade para nada. O carro, pago. A casa, paga. O carnê dos móveis terminou antes do último natal. Difícil era separar os discos e livros -  quais eram seus e quais eram dele?- tanto fazia... que ficasse com todos, porque até o repertório precisaria mudar. Só queria a cama toda para si, queria as camas estranhas também e toda sorte de aventuras que a solteirice pudesse trazer.

Um ano experimentando a sensação de desamar alguém. Um ano ensaiando a fatídica frase dita no meio do jantar, à queima-roupa. Um ano pesando prós e contras e ensaiando respostas para os que achavam que eles formavam um casal perfeito. Nenhum argumento pesou tanto quanto a falta de romance. Acreditava que o amor poderia sobreviver à qualquer coisa, à falta de dinheiro ou à qualquer outra falta, até de pão. Mas descobriu que nenhum amor resiste à falta de romance. Nenhum pró foi capaz de segurar essa, nem o sexo garantido, nem a sensação de proteção. É fácil, quando se sabe o que quer.

Agora vinha a parte operacional da coisa. Separar fotos, documentos, enxoval e mais um monte de tranqueiras. Esboçou um sorriso ao ver quão espaçosos ficaram seus armários agora que as coisas dele estavam encaixotadas e prontas para ir. Abriu o champanhe e deliciou-se andando pela casa, que de repente ficou enorme. Abria e fechava portas, encantada com os espaços vazios. Gostou tanto da sensação de liberdade que nem se deu conta de que a solidão estava à espreita, esperando passar o efeito da bebida para chegar e apossar-se de cada cantinho deixado por ele. 


domingo, 7 de setembro de 2014

Subúrbio

(por Priscilla Franco)


Se a Zona Sul soubesse a harmonia em que convivem a doçura e o caos nas ruas irregulares do subúrbio, certamente estaria de mudança para Madureira. Devo pedir perdão previamente à Urca, Copacabana, Leblon, Garota de Ipanema e Manoel Carlos. Mas tudo parece morno quando comparado à energia pulsante que move pessoas, carros, trens e metrôs por esse pedaço esquecido da cidade maravilhosa. É o lugar onde não é praxe esbarrar em uma celebridade e dificilmente se é descoberto por um caça-talentos. É dormitório de domésticas, serventes e operários, abriga o imenso staff que move a engrenagem dos famosos bairros cariocas. É um refúgio sem flashes, recanto dos anônimos.
       Lá amanhece quando ainda não há sol. Uma multidão de despertadores move trabalhadores até a condução. O ônibus é a extensão da cama para quem tem a sorte de conseguir um lugar. Os vagões do trem são mercados, bazares e até mesmo igrejas, quando alguém leva a bíblia para pregar. Dizem que todos os dias algumas almas são salvas entre o Engenho de Dentro e a Central do Brasil.
          Donas de casa rompem o marasmo da manhã encontrando-se nos muros para comentar sobre a vida alheia. A pauta inclui a programação das novelas e pessoas interessantes, que cabem ou não nas revistas de fofoca. Quem vê essas senhoras de longe até acredita que voltou no tempo. Não é o máximo que em uma cidade imensa ainda existam pessoas que dedicam seu tempo a uma boa prosa?
       Crianças brincam na rua, interrompendo o futebol vez ou outra para dar passagem a um carro, moto ou qualquer outro veículo inconveniente. As bonecas são compartilhadas, os carrinhos, pipas e bolas de gude. Creio que o subúrbio é um dos últimos lugares onde as pessoas ainda têm prazer em compartilhar. Compartilha-se desde o “gato” da TV a cabo até o bolo de fubá batido em uma tarde de quarta-feira.
      Na hora do almoço, os cheiros se confundem. Muitas panelas chiam feijão cozido enquanto alhos torram nas frigideiras. O burburinho das crianças cede lugar aos barulhos de pratos e talheres. Nessa hora, o passeio por uma rua de Marechal Hermes é o bastante para nos abrir o apetite.
    Apesar de conservar costumes deliciosos que a vida moderna tenta a todo custo extinguir, o subúrbio não está parado no tempo. Os prós e contras da vida contemporânea também são percebidos por lá. Se a máquina de lavar acabou com as reuniões de vizinhas no tanque, nas lan houses, o contato com a tecnologia é uma ótima desculpa para confraternizar.
       Se na Zona Sul as pessoas vivem com glamour, é no Subúrbio que se vive de verdade. Nem o orçamento apertado ou a falta de acesso aos serviços públicos desanimam esse povo. Posso afirmar que em toda madame cheia de roupas de grife, champanhe e prozac falta a alegria descontraída de um passeio no calçadão de Madureira.

     O subúrbio é assim, difícil de ser desvendado em apenas um olhar. Se é feio, inseguro ou esquecido, se não tem frescura ou se faz figuração no mapa do Rio de Janeiro, já foi imortalizado na poesia de Chico e está guardado com todo carinho nas minhas memórias afetivas.


sábado, 6 de setembro de 2014

Para Monica Vitti


(Por Thiago Carvalho)

Furta-cor
(Talvez fosco...)
Esse hieróglifo
Que pintaram
No teu rosto?



sábado, 30 de agosto de 2014

A sua mão

(Por Iara  Caldwell)

Novamente Paris. Estava prestes a chegar. Férias...  Não podia esperar pela hora de caminhar às margens do Sena, naquele pedacinho da Île Saint Louis; ver as luzes e as largas avenidas que rasgam aquela cidade espetacular. As tardes nos cafés; pensar em Deus diante da Notre Dame ou Sacré Cœur. Talvez entrar e rezar. Mas não antes de dar umas voltinhas profanas e excitantes pelo Marais. "Senhores passageiros, em breve estaremos pousando no aeroporto Charles de Gaulle. Hora local: 16h, temperatura média de 10ºC e faz tempo bom", falou, pausadamente, o comandante da aeronave.
Não posso acreditar que estas angustiantes onze horas de voo estão terminando. Desde que decolamos do Rio, segurei a sua mão e não larguei mais. Larguei. Preciso comer, beber, me levantar para esticar um pouco as pernas, ir ao banheiro... Ah, o banheiro... são idas e idas ao banheiro. Tudo incomoda: o barulho, a pressão, a turbulência, o espaço mínimo entre os assentos, o frio... Há uma estreita relação frio x bexiga que precisa ser estudada. Você, gentil, não reclama. Apenas me olha, acompanhando meus movimentos inquietos, parece me entender perfeitamente. Deixa a mão estendida sobre o braço da cadeira, esperando que eu encaixe a minha. Encaixo.
Tudo isso já está acabando, o negócio é ter paciência, falta pouco. Outra vez a vontade de voltar ao banheiro... Não, eu espero. Gostaria de pensar que já estamos descendo, mas o piloto não diz nada. Ninguém diz nada. Você também não diz nada. Mas segura a minha mão e isso me conforta.
 Tenho um tremendo problema com altura. Lugar para mim, no avião,  é no lado do corredor, janela nem pensar! Olhar para baixo me aterroriza. Procuro nem prestar atenção quando o piloto começa  a sua explicação sobre a altitude: "... estamos a tantos mil pés de altura". Informação desnecessária. De que me adianta saber? Melhor dizer que é muito alto e pronto. E, daqui de cima, acontecendo qualquer coisa, nada a fazer senão rezar. E segurar a sua mão. Seguro. Melhor que nada aconteça.
 Não, não sou medrosa, caso esteja passando essa impressão. É que altura nunca me deixou lá muito à vontade, eu disse: tenho problema com ela. Quando era criança, vivia subindo em árvores. Mas antes do terceiro estágio de forquilhas já olhava para baixo, media mentalmente a distância e logo procurava me agarrar a algum galho forte mais próximo. Assim, como faço com a sua mão. Só por precaução. Com a árvore, dava certo: nunca caí, nunca quebrei nada, um ossinho que fosse. Por que não daria certo com a sua mão?
Acho que o avião já se aproxima do solo. Estamos descendo?  O passageiro ao lado levantou a janela, me ergo um pouco e... ah, confirmado! Estamos baixando, mas bem lentamente. Vou me preparando então. Não demora, pedirão que atemos os cintos. Estranho o piloto não falar nada... Êpa! Estamos subindo de novo? Gelei. Gritos, falatório, desespero, pedidos de calma. Confusão armada no avião. O que é isso? Que guinada! "Senhores passageiros, por favor, mantenham os cintos atados!" - fala um comissário, quase gritando. Alguém me explica o que está acontecendo? E o avião continua subindo, subindo e aumentando a pressão nos ouvidos... Ai, me falta o ar... ; me falta a sua mão. A sua mão, onde está a sua mão? Aqui. Fica aqui, por favor. Assim... Calma, preciso manter a calma. Respira! Estamos voando reto de novo? Ai... meu coração está  acelerado, parece querer saltar pela boca. E sem paraquedas! 
Tudo calmo agora. Nunca havia passado por isso antes... Por um momento pensei que estivéssemos a caminho da lua. Que desespero! "Senhores passageiros, pedimos desculpas pela manobra brusca. Tivemos que arremeter, pois não nos foi autorizada a aterrissagem no Charles de Gaulle. Voaremos para o aeroporto de Orly. Por favor, mantenham seus cintos atados".  Que susto! O ar me volta aos poucos.  Por favor, me dê a sua mão. Não solte. Ordens do comandante.
Menos apavorada, fico pensando o quanto poderá ser complicada a saída de Orly para o centro de Paris.  Ah, por que me preocupar com isso agora se ainda estamos aqui em cima, voando, voando... ? E quanto tempo mais teremos de esperar? Nada do comandante falar.  Aeromoça, por favor, ainda falta muito para o pouso? Perguntei como uma criança impaciente no carro dos pais, em viagem de férias. "Em breve". Apenas isso? Grande ajuda!
Acabo de pensar na semelhança de sons das palavras: aterrissar e aterrorizar... É isso! Voo que não aterrissa, aterroriza.
Depois de toda aquela adrenalina, o melhor a fazer é fechar os olhos e imaginar Paris. O anúncio do comandante quebra o silêncio: "Senhores passageiros, dentro de mais alguns instantes estaremos aterrissando no aeroporto de Orly, hora local: 17h, temperatura média: 9ºC e faz tempo bom". Dentro de instantes, em breve... essa tripulação gosta de uma imprecisão. E continuamos voando...
"Tripulação, senhores passageiros, preparar para o pouso: mantenham suas cadeiras na posição vertical e afivelem os cintos". Enfim, a nossa deixa. Seguro forte a sua mão, como na decolagem. Tocamos o solo. Aplausos para o comandante. Que alívio! Cintos desatados. Pegamos nossa bagagem de bordo e nos preparamos para o desembarque.  Nos olhamos e com um sorriso, agradeço: Merci, monsieur.
Um beijo no rosto e um aperto de mãos sela nossa despedida.








domingo, 24 de agosto de 2014

Literatura salva... ou distrai?

(Por Ana Beatriz Manier)

Tenho algumas lembranças de infância que me remetem a livros. Uma bem tenra, de dois personagens raposas de roupa e chapéu. O que faziam? Em que livro moravam? Não sei. Lembro apenas de sua imagem e de pronunciar seus nomes alto e lentamente, com o orgulho de quem já lia, apesar da dificuldade de quem ainda traduzia sílabas.
Aos dez anos, vivi as aventuras de uma personagem menina que, com olhos curiosos e infantis, extraia vida até de muros lascados e terrenos baldios. Depois joguei com Polyanna o seu jogo do contente, uni dedos com Tristão e segui o príncipe que me fazia olhar para o céu à procura de estrelas que sorrissem.
Livros estiveram presentes ao longo da minha infância, encurtando horas de dias arrastados e ampliando os limites das paredes que me protegiam do vento gelado do Sul. Me foram dados como presentes, lidos em voz alta por minha mãe, até eu ter idade para me apoderar deles. Não me foram impostos, eram amigos que eu gostava de ter, companheiros inesquecíveis.
Mais tarde, alguns viraram fardo nas leituras obrigatórias da escola, que me empurrava clássicos nacionais com autoridade militar, quando o que me interessava eram o susto e o medo de Horror de Amityville e os mistérios de Agatha Christie.  A sutileza de Machado e a profundidade de Clarice viriam depois.
Hoje, tantos livros mais tarde, vivendo de literatura, estudando, traduzindo e escrevendo, acompanho com curiosidade opiniões sobre o que ela representa para cada um e me surpreendo com algumas delas, em especial as que a ligam à salvação.
“Li porque ficava muito sozinho e não tinha o que fazer, a literatura era minha tábua de salvação”, disse-me um amigo escritor, ao se referir a sua infância.
         “Os livros me deram respostas, me salvaram do desespero”, repetiu minha mãe ao longo da vida, nos intervalos de suas crises de depressão.
A palavra salvação − com o perdão de quem a usa para falar de literatura − para mim, que sempre se distraiu com livros, me parece um tanto pesada demais. Vejo a literatura como algo a mais na vida, como a possibilidade de nos aventurarmos por novas searas e de voltarmos às já conhecidas com um olhar diferente. O olhar do outro. Vejo-a como uma forma preciosa de diversão que nos permite viajar pelo imaginário e nele encontrar prazer. Mas nunca, jamais, a vi como substituta de ausências em outros campos de atuação. Algo perigoso, se pensarmos bem.
Meu amigo, tão carente de pais presentes e de outras crianças, encontrou companhia nos livros, mas não salvação, continua lutando a luta diária, se superando, ora vencendo ora perdendo, em constante combate e experimentação. Minha mãe não se salvou; os livros, sua fonte quase exclusiva de conforto, prometeram ganhos que não se tem só com eles.


Coloque o peso da salvação na literatura, recorra a ela transbordando de expectativas à procura da solução para os seus problemas, e se frustrará a cada recaída. A resposta não está ali. “Trouxeste a chave, leitor?”.
 “A literatura não salva, mas adia o inevitável. E nos distrai durante o nosso percurso. Eu procuro fazer algo que gosto enquanto não me esfarelo”, disse André de Leones, num debate na FLIP de 2012.
“Nenhum romance ou conto, nem a soma do que li me humanizou ou me induziu a ser uma pessoa melhor”, posiciona-se André Resende, escritor e editor, acrescentando mais à frente que os livros, num dado momento, o induziram a uma arrogância que só a psicanálise resolveu.
Livros fazem parte do percurso vital do qual nos fala Leones, adiando a indesejada ao nos ocupar e distrair. Nem sempre são companheiros maravilhosos, como diz Resende, podendo às vezes nos levar a posturas que merecerão ser reformadas ou desconstruídas. Mas com certeza, nos ajudam a pensar, exercer a crítica, a procurar a chave dentro de nós. Livros podem muito.
E por poderem tanto e fazerem tanto, tenho ainda dentro de mim a criança que mal vê as horas passarem com a literatura e que adora comentar e debater o que lê. Tenho amigos que fazem o mesmo e, assim, vamos crescendo, construindo, reformando e acima de tudo, nos distraindo nessa vida, a meu ver, não passível de salvação.




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

No ponto

(por Camila Furtado)

Não conseguia desviar os olhos dela. Fingiu olhar a paisagem em movimento lá fora. Há uma linha tênue entre admirar uma mulher e assediá-la; não queria interpretações errôneas. Mas no fundo, no fundo, ela parecia corresponder. Se ela descesse no mesmo ponto, seria um sinal de que ele deveria aproximar-se, cogitou. Ele pediu licença à senhora sentada ao lado e levantou-se. Ela deu lugar a uma grávida e levantou-se também. Coincidência, ele pensou. Ela puxou a corda e fez soar a campainha de parada. Será o destino? Questionou. Logo estavam um à frente do outro, esperando o momento de saltar. Ele sentiu o perfume dela, mas conteve-se em olhar para trás. Ela reparou a nuca dele, cabelo bem aparado.

O motorista precisou reduzir bruscamente. Trombaram-se. Ela pediu desculpas. Ele sorriu. Ficaram ali, presos a uma eternidade dos segundos que não passam, assistindo à paisagem de um trajeto sem novidades. Ele imaginava o primeiro encontro não casual. Ela imaginava o momento de apresentá-lo à família. Tentavam conter a ansiedade de encarar-se, contentavam-se com olhares diagonais, daqueles em que se finge estar olhando outra coisa qualquer.  Aos olhos dos desatentos, nada mais que dois distraídos. A essa altura ele já imaginava se ela era do tipo que gosta de um bom vinho. Ela pensava se ele comeria comida japonesa.

Finalmente o ônibus parou e ele desceu. Decidido a não olhar imediatamente para trás, para não demonstrar o interesse pela direção dela. Ela decretou que se ele não olhasse, tudo não teria passado de especulação. Foram andando na mesma direção. Ele retardando o passo e tentando ficar lado a lado. Ela tentava acelerar, equilibrando-se no salto.

Emparelharam-se. Mas até quando? Pensaram, simultaneamente. Se ela olhasse, sim, iria falar com ela. Senão, pronto, aquela teria sido a história deles.
Mas o que ele falaria? E se ela fosse casada? E se ela fosse chata? E se tivesse voz fina demais? E se fosse bipolar por opção? E se sofresse de TPM num grau insuportável? E se pedisse pra ele parar de jogar futebol com os amigos?
Pensou isso tudo, mas olhou mesmo assim. E novamente, eles acertaram no segundo. Ela olhava. Ela pensava que poderia não ser a mulher ideal para ele, já que a carreira para ela era algo muito importante, que talvez ela não pudesse corresponder aos sonhos dele de ter família grande, que talvez ele não entendesse que ela tem um trabalho que exige demais.

Em cerca de dez segundos ela precisaria virar à direita. Ele precisaria virar à esquerda. Eles não sabiam de quantos segundos dispunham. Ele pensou em todos os defeitos que ela poderia ter. Ela pensou em todos os defeitos que ele poderia achar que ela tinha. Continuaram marchando em frente. Nenhuma palavra. Conformaram-se. Foi legal, ele pensou, enquanto durou. Virou à esquerda, conforme todos os dias. Poderia ter sido legal, ela pensou, mas não deu. Virou à direita, como havia de ser. Cada um no seu caminho, pensando no caminho diferente que poderiam ter traçado.

O instante se foi. O encontro já exigia mais que seguir em frente, significava voltar atrás. Ele precisaria voltar atrás na sua velha mania de colocar defeitos em todas. Ela precisaria voltar atrás no seu hábito de colocar defeito em si mesma. Não havia, de nenhuma das partes, disposição para uma nova rota. Ah, mas se ela tivesse virado à esquerda, pensou ele... Ah, mas se ele tivesse virado à direita, disse ela em voz baixa... Foi apenas coincidência, concluíram ao mesmo tempo.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Dominó

(por Marcelo Asht)

Uma calapsita, dois cactos, um peixe feio que refletia o neon, uma televisão de 1985 (que só deu problema duas vezes até hoje), um gato branco de porcelana na estante bamba, um sofá com a marca do lugar preferido e uma cortina florida (um lar de ácaros). Orandina no meio desses elementos, cosia, vendo o filme da tarde. Bastava um pio de bem-te-vi vindo de fora e a velha imitava o pássaro, numa mania besta. O café esquentando no bule novo, um pão quentinho que ela trouxe agora-agora, chinelas com meias, ar abafado, sorriso mental. Paz na terra às senhorinhas aquietadas, vida mansa que só.

O telefone toca. A velhinha pequena fica na dúvida se é em sua casa - há muito não ligam pra lá. Atende dizendo "pronto". É Ângela, que demora a reconhecer. "Ângela... Ângela... ah! Ângela, quanto tempo! Me desculpa, minha filha, é que já tô meio tan-tan."

A mulher que ligou não ligava há uns 3 anos. Era sua ex-nora. Ela e o filho de Orandina moravam em Gramado, sul do Brasil - foram pra lá há muitos anos e abriram uma sorveteria que não deu certo. Aliás, nada por lá deu certo, nem o casamento. Mas ficaram; a cidade era bonita. Ligou pra dizer que o ex-marido, filho da ex-sogra, o Everaldo, tava no CTI e que... 

Orandina gelou e desligou o telefone na hora, sem mais ouvir, porque CTI é caso sério. O nervosismo tomou conta e ela chorou sem saber o que fazer, parando imóvel ao lado da calapsita que ficou também nervosa em ruídos descontrolados. Saiu da casa a velha, ruminado uma quantidade imensa de "meu Deus" e esquecendo o café esquentando no fogo. Foi chamar no muro Ruth, vizinha boa, mas a voz não deu. Foi picada ali por uma abelha estranha que se enfiava entre as graxas - a flor feia que dava no lado de lá do muro da Ruth. A velha foi ficando tonta, inchando o rosto, mudando a cor. Entrou novamente pra sentar, perdendo o ar. Seu pé entrou por debaixo da dobra do tapete grosso e ela caiu batendo o ombro da bursite na mesinha de centro. A calapsita insistia berros, o peixe olhava assustado. Os ácaros de nada souberam. 

Por sorte o telefone tocou novamente - na raridade de duas vezes no mesmo dia. Era Ruth - que ligava pouco porque tinha o muro -, querendo saber se Orandina estava a fim de jogar dominó com ela. As duas jogavam vez ou outra pra passar o tempo, tomando café e falando da Igreja. Orandina atendeu golfando um "meu Deus" numa voz sem jeito, de agonia, e Ruth correu esbaforida num galope, deixando a Bíblia cair de debaixo do braço e deixando-se esquecer das coxas roliças assadas na saia de crente. 

Abriu o portão e por sorte Orandina não tinha colocado a tranqueta. Deu água pra velha, gritou Tijolo pra pegar o carro - que guardavam na vaga do prédio da frente. Correu pro hospital e, no caminho, deitada no banco de trás do Passat com Ruth, teve um infarto. Ruth gritou e Tijolo foi rezando alto e forte - um desespero desmedido. Foi pro CTI desacordada. Ruth se chocou, passou um tempo com Tijolo por lá, resolvendo as coisas, e ligou pra uma irmã que Orandina tinha na cidade. 

Quando Ruth voltou pra casa, cansada e abatida, com olhos fundos e opacos, sentiu cheiro de queimado e correu pra casa da velha vizinha. O café esquentando não era mais café: era uma massa preta fundida com o ferro do bule novo que já tinha queimado, junto a um pano de prato que dava início a um incêndio feio na cozinha tomada de calor. A calapsita de Orandina ficava na cozinha e já tinha morrido - coisa horrorosa mesmo de se ver. Ruth foi gritando pro Inimigo sair dali, pedindo ajuda de Deus e tentando falar a língua dos anjos (como os pastores faziam no culto). Inacreditável, uma brabeira. Tijolo providenciou água pra apagar o quanto podia e ligou pro 193.    

Everaldo nem ligava muito pra mãe, só dava um toque por mês - quando muito. Mas era filho, isso era verdade. Ela não ligava pra não incomodar. E ligar pra lá era mais caro. A velha poupava em tudo. "Filho a gente cria pro mundo". Ele trabalhava no CTI - Centro de Taekwondo IMPERADOR, ao lado da Gramado Fitness. Era dono da academia e professor de Taekwondo. Isso tudo depois da sorveteria não dar certo. Orandina não sabia pronunciar o que o filho fazia de jeito nenhum. "Essas lutas malucas de japonês". E também não era de ficar lembrando o nome da academia do filho, lá longe no Sul.

O que aconteceu foi um equívoco - talvez trapaça do Inimigo. É que Everaldo dava muita aula e pediu pra sua ex-mulher Ângela (com quem tinha agora um bom relacionamento, como amiga, e que trabalhava como secretária do CTI) pra que entrasse em contato com sua mãe pra convidá-la a passar uns dias em Gramado, chegando até mesmo antes do preparo da festa de debutante da neta Priscila. E pediu pra dizer que mais tarde, à noitinha, ligava de volta pra saber se a velha tinha se decidido a ir. A ex-mulher não entendeu o motivo de Orandina desligar o telefone em sua cara. Ficou pê da vida e disse pra Everaldo ligar depois - que ela estava sem paciência pra chilique de ex-sogra caquética.

Não teve telefone de volta. A irmã de Orandina foi pro hospital acompanhá-la, ligou pro Everaldo e contou o que havia acontecido - ou pelo menos uma pequeníssima parcela dos fatos ocorridos com a mãe dele naquele dia. Têm coisas que só quem vive é que sabe. 

Ângela recebeu a notícia, chorou feito criança e se lembrou com assombro da última vez que ouviu a voz de Orandina - sem saber que era ela que havia impulsionado, sem querer, a última peça da fila de dominós que a vida de Orandina dispunha secretamente.


sábado, 8 de março de 2014

de vagalumes e esperas


(Por Dani Santos)

era como um eco, sabe. a realidade toda descolorida, manchada. as incompreensões todas espalhadas pelo chão da sala. eram os anos, passando. os meses, os dias. as manhãs que se abrem e fecham. era amor? as verdades recolhidas, oculta nos velhos retratos. eram as fotos queimadas, os olhos vermelhos pelo choro. era o cigarro, a espuma, o verso, o mandamento. o escuro, as visitas inesperadas, as horas sem cabimento. a vodca. o gelo seco. o gole raso. as distâncias e imprecisões todas, todas. era maior, o silêncio. era maior, a falta de paz, a impaciência. e depois, todas as coisas indignas. tudo em tom menor. tudo menor, ainda que não. tudo menor, ainda que sempre. como um quase, sabe? mesmo que quase seja um tanto odiável. antes as coisas doloridas. antes o amargo da língua, antes mesmo a dor. o fel, o absurdo. mas o indizível que vai ganhando espaço e tornando tudo prenhe de outonos e preenchendo todas as memórias e espaços e aí? e aí? alguém aí? alguém atrás da porta, de onde vem os passos soltos e contaminados de mistério sempre válido? eis, então, o mistério! a matéria mais bruta onde todas as coisas se deitam e se projetam, vivas ou estéreis, para o fora. para o sem rumo e para o inalcançável, onde se é tudo e nada. onde se cai e se levanta. e se diz sobre arranhões e protestos e os progressos não são contados no relógio. lá onde o tempo pára e só resta lugar para o inominável. e é já. é agora. mesmo que venha de longe. ecoando, ecoando. ressonâncias nos vazios e esperas. era amor? é? parecia um começo e um fim. e depois um começo. e depois. 




... E, como hoje, 08 de março, se comemora o Dia Internacional das Mulheres, deixo aqui também um pensamento-poema de Clarice, para nos lembrar com toda a intensidade o que somos...

“Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Assim como a chuva não é grata por não ser uma pedra. Ela é uma chuva.
Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.”

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quando se vai


(Por Cinthia Kriemler)

escuta este grito
(é meu)
grito de besta impotente
que ainda faz sangue
vivo embaixo das crostas
é meu este flagelo que mil
porres não aplacam
e o sofrimento-capataz
que se entranha nas vísceras 
—  e comanda a casa



escuta meu berro, meu urro
que não sou surdina ou elegância 
imbecil 
eu bato o portão 
{fazendo muito alarde !
porque sou rangido, atrito
nesta dor  de corte 
porque não há silêncio 
no que mutila a alma

partir é sempre mais que se afastar
das grades
: é cedo, é desterro
inferno com deus
céu do diabo
dia sem som, sem tom
straight flush incompleto em noite
de mão de mando
vontade de esconder embaixo
do lençol a vida
amarfanhada
o gesto, o afeto, o ar
que falta
mas nada disso adianta
                     [o grito, o berro, o urro, as grades]
que quando se vai
já se foi

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quarto de tralhas

(por Cinthia Kriemler)


Carmem enterrou o marido e, quatro meses depois, a sogra. Estava finalmente livre daquela família que fora sua por conveniência. Uma conveniência que tinha se arrastado por muitos anos. Não fosse a recompensa que agora desfrutaria, não teria aguentado Nestor ao seu lado. Tinha nojo do marido. Do seu corpo, da sua risada, dos seus dentes amarelados pelo cigarro importado que fedia tanto quanto fumo vagabundo. E um nojo maior ainda do sexo morno que fazia com ele sem vontade. Mas se entregava à função como esposa apaixonada. Precisava ser assim.
Não fora apenas o dinheiro que a mantivera naquele casamento por 14 anos, mas também o status de ser casada com um homem tão rico e importante. A infância de pobreza e abusos fizera dela uma mulher insensível. Por isso comprazia-se em obrigar as pessoas à reverência, ao servilismo, à obediência. Dava ordens em tom de voz cortante e tratava os empregados com rispidez. Mas o que mais a fazia feliz era sentir a inveja nos olhos das amigas. Quanto mais era admirada ou temida, com mais intensidade e sensualidade fingia o sexo com o marido.
Cuidou para não ter filhos. Não precisava de crianças para satisfazer nenhum desejo primitivo de maternidade. Um filho só serviria para fazê-la ter que disputar ou dividir, mais tarde, a herança do marido. Além do mais, crianças são criaturas cruéis que falam a verdade. E havia coisas, como um ou outro amante ocasional, que ela preferia manter longe de testemunhas.
Quando a sogra foi morar com eles, Carmem mal disfarçou a fúria que tomou conta dela.
— Mas a sua mãe aqui, amore? Por que é que ela vem para cá?
— Mamãe está velha e cansada, Carmem. Eu fico preocupado com ela lá naquela casa imensa, só com os empregados.
— E as enfermeiras, meu bem?
— Essas só fingem que tomam conta dela! Mas vivem vendo TV, dormindo no horário de trabalho, falando ao telefone. Não, não. Sem ninguém para supervisionar, é um risco muito grande mamãe morar sozinha.
— Coloque uma enfermeira para vigiar a outra — ela sugeriu, desesperada.
— Não dá! Dois dias atrás, mamãe caiu de uma escada. Subiu para pegar uma echarpe que estava no alto do armário e a enfermeira nem viu. Caiu, fraturou o fêmur e ainda bateu a cabeça. Pois assim que ela sair do hospital, vem morar conosco e não se fala mais nisso. Já pedi até ao pessoal do escritório para mandar avaliar a casa dela e vender.
Para Carmem, nenhum argumento era mais convincente do que esse. Aumento de patrimônio era sempre assunto de sua preferência, o que serviu para amenizar a decisão de Nestor. Uns anos antes, quando o marido lhe perguntara se ela gostaria de saber mais sobre os negócios da família, sentiu-se tentada. Mas depois, pensou que demonstrar interesse poderia ser visto como um gesto de ambição e desistiu. Quando chegasse a hora de herdar a fortuna do marido, não queria que as pessoas dissessem que ela havia se casado por dinheiro nem que era a oportunista que realmente era.
Nestor morreu de causas naturais. É verdade que, muitas vezes, desanimada pelas finas rugas que começavam a surgir ao redor da boca e dos olhos, desesperava-se.Vou estar uma velha quando esse traste morrer! Imaginava, então, se seria capaz de matar o marido. Não, não seria. Tratava-se, na verdade, não de ser capaz, mas de avaliar os riscos. Uma investigação mais aprofundada, um passo em falso e, em vez de dinheiro, cadeia. Não. O marido tinha 18 anos a mais do que ela e seria normal que morresse antes. E, de um jeito ou de outro, ela estaria bem. Com Nestor vivo, não lhe faltava nada. Com ele morto, se livraria daquela boca murcha e molhada que fazia carícias frouxas no seu corpo.
Após a morte de Nestor, a presença da sogra na casa passou a ser um tormento a mais. A mulher não lhe dirigia quase a palavra e era óbvio que não gostava dela. Fora contra a decisão do filho, à época viúvo e sem descendentes, de casar-se outra vez com uma quase criança. Para piorar, ela percebera, desde cedo, que Carmem manipulava Nestor de modo a não dar-lhe filhos. E esse foi o ponto final em qualquer tentativa pacífica de aproximação entre as duas.
— Sua mãe não gosta de mim!
— Não gosta mesmo não. Ela acha que você se casou comigo por interesse — ele dizia, sem meias palavras, sempre que o assunto vinha à tona.
— E você, meu bem, o que você acha?
— Que todas as mães são assim mesmo, ciumentas.  Não se preocupe, bebê, eu sei que você me ama e que não vive sem mim.
Homens! Sempre tão autoindulgentes, tão cheios de si. Uma lingerie provocante, gemidos fingidos de prazer em troca de sua atuação medíocre e eles se acreditam inesquecíveis.
Enfim,  quando o marido morreu de ataque cardíaco, Carmen se empenhou com afinco no papel de esposa arrasada. Foi fácil fazer crer às pessoas que seu abatimento se devia à perda do parceiro. Estava, realmente, abatida. No entanto, o que a devastava era o medo do futuro. E agora? Como é que ele foi morrer antes dessa velha horrorosa? O que vai ser de mim com essa mulher no meu pé? Eu queria tanto ficar livre dela e desta casa.
Detestava a casa. Nestor nunca tinha permitido que ela mudasse nada de lugar ou que se desfizesse de nada. Os móveis antigos; as paredes pintadas e retocadas com uma cor apagada; o escritório do marido, austero e sombrio. Mas, acima de tudo, o que mais lhe dava repugnância era o quarto de pesca, um cômodo no qual Nestor tinha entulhado objetos variados, durante anos. Varas, molinetes, iscas artificiais, caixas pesadas ou pequenas repousavam ao lado de equipamentos mais sofisticados. Tentou convencê-lo a guardar a tralha fora de casa, num galpão construído especialmente para isso, mas pura perda de tempo. Nestor não abria mão daquela extravagância.
— Meus objetos de pescaria são sagrados. Eu quero tudo bem perto de mim, dentro de casa.
Só havia uma vantagem naquele quarto de entulhos: quando ia para lá, Nestor se esquecia dela por uma, duas noites, livrando-a do sofrimento de tê-lo por perto antes de dormir. Devia isso, também, a Júlio Cortes, o administrador dos negócios da família, único amigo de Nestor. Os dois se conheciam desde meninos. Estudaram no mesmo colégio e consolidaram uma amizade que se estendeu pelos anos. Quando assumiu a empresa, a pedido da mãe, Nestor convidou o amigo, no mesmo dia, para trabalhar com ele. Agradecido, sempre disposto a ouvir, Júlio foi a única visita que o marido recebeu em casa durante anos. Sua rotina era sempre a mesma: ficavam primeiro no escritório, por pouco mais de uma hora, para os despachos da firma, e depois seguiam para o quarto de pesca, onde conversavam e riam por horas.
Não houve surpresas no testamento de Nestor. Conforme previa a lei em caso de não haver descendentes, cinquenta por cento de seus bens iriam para a esposa e a outra metade para a mãe idosa, caso ainda estivesse viva. Em cláusula única, deixava para o amigo Júlio a caixa de iscas artificiais importadas, como “um gesto simbólico”, explicara o testamenteiro. Que ideia! Ainda bem que não deixou o iate — Carmem pensou, debochada. Após a partilha, a sogra não a incomodou mais. Melhor dizendo, passou a ignorá-la totalmente, evitando qualquer contato, até que, quatro meses depois, amanheceu sem vida. Morrera dormindo, de algum mal súbito próprio das pessoas de idade. Finalmente, Carmem estava livre. Rica, rica, rica! Rica e livre! —repetiu para si mesma durante toda a noite, rolando excitada na cama.
Naquela mesma noite, Júlio Cortes sentou-se no pequeno escritório instalado em um dos quartos do seu apartamento e abriu a caixa de iscas artificiais importadas. Pegou cuidadosamente um dos dois envelopes sobrescritados com a letra de Nestor e retirou de dentro dele o bilhete que lera inúmeras vezes :

Meu querido,

Deixo para você tudo o que é meu. Tenho medo do meu coração, que anda me dando sustos. Mas tenho mais medo de pensar que tudo o que construí pode ir parar nas mãos de Carmem. Por isso, escondi este último testamento num lugar onde só você o encontrará.
Se você está lendo este bilhete é porque eu morri antes de mamãe. Por isso, no outro envelope, está o testamento dela, fazendo de você também o seu herdeiro. Mamãe está muito doente. Cuide dela com carinho durante os dias que lhe restam, sim? E, principalmente, proteja-a de Carmem.  Eu lhe peço apenas que deixe para tomar posse de tudo depois que mamãe morrer, porque eu tenho receio que Carmem a ponha num asilo se souber que não herdou nada.
Só lamento não poder estar presente quando a notícia for dada. E não se preocupe, meus advogados estão instruídos a não deixar este testamento ser contestado. Eles estão de posse de algumas informações sobre o passado de Carmem.
Espero que esta tenha sido uma boa surpresa. Já estou com saudade, mas sei que um dia vamos nos reencontrar, meu amor. Até lá, seja feliz.

Beijos eternos

Nestor


domingo, 25 de agosto de 2013

Acontece sempre aos personagens

(Por Cinthia Kriemler)

Um dragão exausto. Isto sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e uma pingada leve de licor. Aceita uma xícara?
Estou escutando músicas antigas, enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho, mais tarde, e assisto a um filme em casa mesmo.
Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...
Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante esse tal de tempo! O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice. 
Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é este: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável mesmo só as desigualdades das nossas percepções.
Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, pela mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu! — gritamos. — Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para termos uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento estende-se a um futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você, aos 35; ele, nunca. Você aprende o sofrimento aos 10; nós, aos 38; eles ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe.
Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
Ah, não? Você não acha? Deixe ver se eu entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de “maturidade” o assassinato dos meus sonhos. Aliás, melhor dizer: massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
O tal do amor maduro, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar, tipo: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder o fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
O que foi? Apavorou-se? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender como o tempo é ladrão? Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Eu sei como é isso, portanto, não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.

Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também te abandonam, mudam de corpos.
É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens!




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Puta



(Por Cinthia Kriemler)

Cuspiu na pia. Junto com a saliva, os restos do sexo. Estremeceu. Não tinha nascido para aquela vida. Fazer dinheiro trepando é pra quem tem estômago. Lembrou de antes. De quando não contava as rugas e as unhas estavam sempre feitas e o perfume francês e as roupas eram recebidos de presente, pagos por homens importantes.  E de quando cada encontro era uma festa de bebida e pó. "Cheira aí, meu bem". E ela fungava tudo. Pra aguentar as trepadas alucinadas, os tapas, as humilhações. Tinha que cheirar. E beber. Que o champanha e a vodca deixavam qualquer porra com gosto de importada. 
Sacudiu a cabeça. Em seguida, estremeceu de novo. Dessa vez, mandou embora o tempo. Porra de madrugada fria! Porra de úlcera maldita que dói toda hora
Mas tinha coisa que doía mais. Os murros do cafetão; a penetração por trás, forçada, apressada, arrebentando tudo. Não se acostumava. As outras debochavam: "Onde já se viu puta com frescura?" Pois ela era uma puta danada de fresca. Desconsentia. Negava. Argumentava. Depois fazia. Tinha medo de o freguês reclamar para o cafetão. Mas não entregava a bunda sem lutar.
Até que não é caro o remédio da úlcera. Só não adianta de nada. Vai ver é este conhaque vagabundo que está cortando o efeito dos comprimidos. 
Jogou na boca dois chicletes de hortelã. Testou o hálito. Retocou o batom vermelho e limpou os dedos na moldura de madeira apodrecida do espelho. Parou um instante para ver o coração rabiscado na parede. Não estava ali na semana anterior. "Marcelo ama Polaca". Mais uma idiota achando que cliente se apaixona por puta. Polaca, Polaca, fica esperta! Deve ser menina nova. Tinham chegado umas catarinenses que ela ainda não tinha visto. Só gente bonita essas gurias do sul. Duro era trabalhar ao lado delas na rua. Altas, cabelos loiros, pele sem marcas. Droga! E ainda trepavam bem, as vacas. Atraíam os homens mais novos. Os melhores. Desses que transam com a puta falando poema e prometendo amor. Uns fodidos, isso sim! 
Depois, ia sobrar pra ela falar a verdade. Que puta não sonha. Que puta não faz planos. Que puta não fala de amor. E juntar os pedaços. Oferecer o pó, a pedra. Entregar o conhaque vagabundo. Estancar o sangue nos pulsos frios numa noite de navalha cega.
Porra! Quem será essa Polaca? 
Cuspiu no chão da rua. Estava ficando velha. Sentindo pena da menina do sul. Sentindo falta daquele antigamente de merda. A dor da úlcera queimando por dentro. O coração rabiscado na parede mostrando o pesadelo dos sonhos. O poema ausente em cada transa fazendo falta, finalmente.
Pegou os comprimidos na bolsa minúscula. Aquela desgraça toda ia passar.