domingo, 12 de julho de 2009

Aquele sofá


Eu estava deitada no sofá da sala, após um dia exaustivo. Meu trabalho exige que eu passe muitas horas de pé, então deitar naquele sofá macio era tudo o que eu realmente precisava naquele momento. Com tanto cansaço e aconchego não seria difícil pegar no sono, mas ele estava ali. Entreabria meus olhos e ele ainda estava ali, sorrindo para mim, com todos os dentes necessários para compor um sorriso perfeito, além do olhar doce, que sorria junto com ele. Minhas vistas estavam embaçadas, mas pude ver que ele segurava em uma das mãos uma taça de vinho tinto.

Acho que dei algumas cochiladas, inevitáveis, devido ao avanço da hora e à televisão, sintonizada na TV Senado, canal este, que descobri ser de grande utilidade pública: fazer as pessoas dormirem. Apesar disso, não conseguia dormir profundamente, pois volta e meia sentia que ele me observava, e quando abria os olhos, era fato: ele me observava. Não me contive e já menos sonolenta acabei por perguntar:

- Por que me olha tanto? - perguntei como quem deseja uma única resposta, que veio de fato:
- Por que você é linda.

Sorri envaidecida, pois tinha acabado de ouvir o que queria.

- Sua taça de vinho ainda te espera, mocinha!
- Nossa, eu dormi no seu sofá! Perdi até a noção da hora... Faz muito tempo que deitei aqui?
- Na verdade não. Nem faz tanto tempo que chegamos. Saí do banho e te vi dormindo, fiquei com pena de te acordar, sei que você tem trabalhado muito.

Aos poucos fui me espreguiçando, sentei no sofá e ele perguntou ironicamente:
- Posso me sentar aqui ao teu lado?
- Claro que pode! Ora essa, o sofá é seu!
- Se quiser, posso me sentar no outro, ao lado. Ficaremos um em cada sofá, você quem sabe! Ou, se preferir, podemos ir para o meu quarto. – disse isso com carinha de criança levada - É que lá no quarto ficaremos mais à vontade, ouvindo música. - completou, como quem tenta justificar algo.
- Vai ser uma pena, pois a televisão está imperdível - brinquei.

Fomos para o quarto dele, território até então desconhecido para mim. Era um quarto normal, de rapaz solteiro, como o quarto do meu irmão, por exemplo. A não ser pelos livros por sobre a cama. Muitos livros: Nietzsche, Platão, Kant... O que nos rendeu uma boa conversa sobre questões filosóficas. Na hora eu não pude deixar de lembrar da máxima de Rubem Fonseca, de que na cama não se fala sobre filosofia, mas o papo estava realmente bom.

Ele era diferente... Além da beleza física, ele possuía uma beleza de alma. A inteligência brotava nas palavras sutilmente, sem a intenção de fazê-lo, o que me causava uma admiração ainda maior. Conforme ele falava, eu ia pensando, numa espécie de prece silenciosa: Meu Deus, eu quero esse homem para sempre, mas com a urgência do agora. Imagino minha expressão enquanto ele defendia suas idéias: provavelmente eu estava com cara de boba, talvez até de boca aberta. Acho que ele percebeu que fiquei estática e resolveu então ligar o som (afinal, ouvir música era o propósito inicial de irmos para o quarto). Para minha surpresa ouvi uma sucessão de clássicos do Rock. Embora eu não soubesse precisar a quanto tempo nos conhecíamos, eu sabia que ele não curtia esse tipo de som, digamos que ele era mais erudito. Percebi que ele tinha feito isso para me agradar e obviamente, conseguiu.

Era intrigante o que ele provocava em mim: um misto de admiração pelo discurso inteligente e uma forte atração física. A tal ponto que eu poderia ficar horas naquela conversa e outras tantas horas deixando nossos corpos conversarem. Foi o que aconteceu... Logo éramos dois corpos unidos por beijos molhados, regados a muito vinho seco. Dançávamos à nossa maneira cada música que tocava, num embalo constante de corpos afinados e corações descompassados. Palavras agora eram desnecessárias, o que se queria saber, lia-se no olhar.

Para mim foi uma espécie de experiência mística, cabalística, transcendental, sei lá... Só o que eu sei é que foi a primeira vez que estive com um cara assim, capaz de reunir tantas coisas de uma só vez: uma inteligência, ora exposta despretensiosamente, ora usada como estratégia; um olhar que, ora me confortava, ora me despia; mãos que, ora me acariciavam a face docemente, ora me apertavam o corpo fortemente. Depois de tantas horas dialogando de diversas formas, nos mais diversos níveis de linguagem, e como eu já estava cansada anteriormente, acabei caindo em sono profundo e dormimos abraçados em questão de poucos minutos.

No dia seguinte, acordei com a luz do sol batendo em meus olhos e com o barulho de uma discussão, que parecia estar longe. Sentia frio nos pés, estava encolhida. Tentei voltar a dormir, mas a discussão não deixava. Entreabri os olhos e não mais vi a imagem dele. Olhei ao redor e aos poucos pude perceber que estava deitada no sofá da minha sala, sozinha e ainda com a roupa com a qual havia trabalhado no dia anterior. Levantei depressa, andei pela minha casa, sem encontrar, obviamente, o quarto onde estive. Procurei taças de vinho e nada encontrei. Minha cama estava intacta, colcha esticada por sobre ela. Na minha cabeça inúmeras dúvidas bagunçavam os pensamentos: Será que não passei uma noite maravilhosa ao lado dele? Será que nunca estive no quarto dele? Quem era ele? Será que não existe "ele"?

Fui até o banheiro, abri a torneira da pia, deixei a água correr, enquanto me olhava no espelho. Uma cara amassada, de quem dormiu de maquiagem, de quem dormiu no sofá, de quem dormiu sozinha, de quem tem de se recompor e ir trabalhar. Joguei uma água gelada em meu rosto pálido e decepcionado. Fui até a cozinha, preparei um café forte e, ainda meio tonta voltei para sala e sentei no sofá, tentando entender porque aqueles homens do senado discutiam tanto na televisão...

6 comentários:

Andréa Amaral disse...

Ui! Senti até tesão ...quem "é" este ser alado, que só existe nos dias de hoje, na imaginação "íssima"? Só os homens no Senado mesmo, pra desmistificar.Amei.Acho que vc pode investir em contos eróticos (também).Só uma coisinha: qual era a marca do vinho?

Camilíssima disse...

Ai, Andrea, adoro sua espontaneidade! Infelizmente esses seres só existem nos contos (não os de fada, os de foda). Sobre o vinho, serve qualquer um que nos faça ter sonhos assim e quanto aos homens do senado, bem... os jornais já falam o suficiente sobre eles. Obrigada pelo comentário!

Lohan Lage Pignone disse...

Camilíssima!
Nossa, que conto maravilhoso, você sabe mesmo explorar o universo feminino - esse universo complicado, porém, divino, rs.
Fico impressionado com a praticidade em que você trabalha com as palavras.
Quando me aproximava do final, pensei que a discussão fosse relacionada ao homem que a personagem idealizou em seu sonho voluptuoso (rs). Imaginei ele discutindo com a esposa, ou amante... Depois pensei que fosse seu marido, discutindo com o vizinho, um homem bem bronco, indelicado com as palavras. E a personagem, coitada, despertando do seu sonho encantador, rs, se deparar com aquela realidade masculina em sua casa.
Gostei de verdade. Um misto de conto de fada com foda, rs. Fodástico!
Bjs!

Camilíssima disse...

Obrigada pelos elogios, Lohan. Aguarde... muitos contos ainda virão e não só sobre o universo feminino, o masculino também!!! Bjs!

João Luiz disse...

Ai,ai Camilissima...você realmente brinca com as palavras e com as nossas imaginações,lembrei das aulas de Ana Lucia falando de alguns autores e suas descrições pormenorizadas,admiro quem sabe fazer isso bem e você sabe,posso dizer que viajei e visualizei mentalmente as cenas descritas.Muito Bom!
Parabéns!!!

Camilíssima disse...

Obrigada, João! As palavras é que brincam comigo, ficam no quintal do meu imaginário me convidando a aprontar algumas traquinagens literárias, eu apenas aceito o convite e deixo a brincadeira fluir. Bjs!