segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Andréa

Meia noite do dia dezessete de Agosto. Andréa agora se tornara uma flor de Lótus no centro de sua sala de estar. Bem posicionada, ela praticava yoga, sibilando seu mantra. Estava só, a meia luz. Havia alcançado uma meta – uma das que escrevera em uma lista, aos dezessete anos. Uma página arrancada do diário, que se tornou muito mais importante que o próprio diário.

Esta era sua meta número cinco: Viver cinqüenta anos. E, toda vez que conquistava um desses objetivos listados, adentrava em seu mundo mais particular, mais etéreo. Para agradecer, talvez. Ou regozijar-se em seu mais profundo silêncio. Seria uma forma de egoísmo? Não, decerto ela comemoraria depois, com os amigos e familiares. Antes, teria que ser dela para ela.
O choro do filho a sobressaltou. Aquele som característico viajou milhares de quilômetros invisíveis dentro de sua mente e sua alma, contornado-a, e repousando, por fim, em seus tímpanos. A primeira coisa que pensou antes de se desfazer da posição para se levantar foi: Não é possível esse menino chorar justo agora! Todavia, ao chegar no quarto, debruçar-se no berço daquela linda criança, Andréa culpou a si mesma pelo pensamento anterior. Precisava amamentar o pequenino, e, ao consumir este ato, viu que aquela foi a melhor meditação que podia existir.

O dia seguinte foi marcado pelo corre-corre dos empregados de sua casa. Ela, logicamente, não dedicaria aquele dia ao trabalho ou a qualquer exercício que a fizesse transpirar toda sua energia recarregada e seus odores adquiridos especialmente para o início da noite. Deixou-o nas mãos das pessoas que confiava. Arrumação, refeição, bebidas... Se dependesse de seus serviçais, a casa estaria tinindo para mais uma comemoração festiva. Andréa, como era de se esperar, estava deitada em uma confortabilíssima maca, em um spa, com uma rodela de pepino em cada olho. Cinquentinha, algumas ruguinhas já começavam a “bater ponto’’ em suas feições avermelhadas e rechonchudas. Nada que um bom tratamento de pele resolvesse.

Merecia aquele momento “relax”. Ultimamente vinha sendo muito requisitada pela editora a qual prestava serviço. Era uma escritora de destaque, seus livros, cujo universo feminino era a temática mais decorrente, tinha uma ótima vendagem. Ademais, escrevia para um jornal renomado, todas as segundas-feiras. Tinha sua vida profissional realizada. Mas... Pessoalmente, não se sentia realizada com a função que exercia. Não por completo. Desejava algo mais de sua capacidade criativa. Algo que ainda não conseguira. Talvez pelo tempo corrido das coisas. Talvez pela pressão que a editora exercia sobre si. Às vezes pensava em ocultar-se, no escuro do seu quarto, na penumbra de um lampião aceso. Ali, encolhida no canto da cama, com um caderno e caneta nas mãos, escrever o que bem entendesse, e nunca mais divulgasse nada, nada. Mais um egoísmo de Andréa? Não! Antes de ser para o mundo, ela precisava ser para ela.

Andréa idealizou uma festa discreta, com apenas cinqüenta convidados, fazendo uma analogia a sua idade. Além do mais, tinha poucos amigos. No entanto, os melhores que podia ter. Os amigos do seu ex-marido não lhe perturbariam desta vez. Homens inconvenientes, beberrões. Lá, antigamente, as festas eram regadas à carne mal passada e cerveja. Duas coisas que odiava. Seu marido a fazia de empregada. Queria mostrar aos amigos que sua mulher era sua subordinada. Mas Andréa se cansou desse posto. Hoje ela programa sua festa, ela convida seus amigos, ela tem à disposição as pessoas certas para ajudá-la com os preparativos.

A noite chegou. Andréa vestiu-se com janota. Um vestido preto, que lhe caia muito bem. Recepcionava seus convidados com muito bom humor, marca característica de sua personalidade. Sentia-se feliz por tê-los presentes, vê-los espalhados, cada um em um canto da casa, conversando, tomando seus drinks, curtindo a música lounge que mantinha a serenidade do ambiente. A maioria de suas amigas cercavam o berço de Davi, seu filho.

-Vejam, como ele está lindo!
-Fruto de um milagre. Este menino é uma dádiva dos céus, Andréa!

Andréa reconhecia. Foi, de fato, um milagre. Quarenta e nove anos, e uma vida é gerada de seu ventre. As amigas mais próximas sabiam do quanto aquela mulher lutou para conquistar aquele objetivo: gerar um filho. Esta era sua meta número quatro. Ela precisava alcançá-la, a qualquer custo. Uma mulher que não é agraciada pela maternidade é uma mulher, apenas. Mãe é um outro ser. Divinal, que contribui com a perpetuação da humanidade. Mãe é um outro sexo. É um ser santo.

Andréa tentou, dos trinta aos quarenta e nove anos, se tornar santa. Sofria de um problema grave que atingia seu útero. Para não perdê-lo, realizou todos os tipos de tratamento possíveis. Os dispêndios foram inevitáveis. O marido reclamava, como quem já dissesse: Vamos esquecer esta idéia, estamos felizes assim. Ora! Mas ela havia escrito aquela meta na lista! E além do mais, ele seria pai e ser pai... Ser pai não é ser mãe. Seria uma outra forma de egoísmo? Não, não... Não existe comparação neste caso.

Persistiram, e já nos últimos minutos, marcaram o gol. Foi uma gravidez de tremendo risco. Mas dela nasceu Davi, um anagrama perfeito.
Ele chegou. Carlos, seu ex-marido. Ela o convidou por conveniência e a consideração de vinte anos de casamento que ainda restava.

-Seja bem-vindo, Carlos. Fique a vontade. A casa... É sua.
-Isso eu já sei, Andréa.

Carlos era professor. Boa pinta, Andréa sempre sofreu por ciúmes por ele. Na escola onde trabalhava, “chovia” garotas assanhadas em sua horta. Garota... Coisa que Andréa já não era mais. Por vezes, achava que ele a traía. Mas, logo em seguida, descartava essa idéia da cabeça. Olhava-se no espelho, e recuperava sua segurança. Era mais ela. Seria egoísmo? Egocentrismo? Não. Seria ela, apenas.

A crise aumentou na gravidez. Ele não a apoiava como devia. Não ansiava pela paternidade. Chegou a dizer que estavam gerando uma prisão. Andréa não suportou tudo isso. E, no ápice de sua sensibilidade de gestante – na flor da pele – ela decidiu por aquele que mais amava. Carlos a acusou de egoísmo. Que se sentia usado por ela. Mas não... Andréa sabia dividir.

Assim que Davi nasceu, Carlos se sentiu tocado. Mas já era tarde demais. Andréa não costumava voltar atrás com suas decisões.

-O Davi está lindo. Nosso filho. – Disse ele, enquanto admirava a criança.
-Sim... Nosso filho.


Andréa percebeu em Carlos um tom de cinismo. “Ele disse isso propositalmente”... “Nosso filho... Ele faz questão de enfatizar isso. Pensa que me aflige com isso”.

-Filho que você abandonou antes mesmo de ser gerado.
-Você me fez abandoná-lo. Você vive só para si. Com licença, vou beber alguma coisa. Tem cerveja?


Andréa o olhou com esgar. “Eu vivo só para mim??”, pensou. “Ele sempre almejou a liberdade acima de tudo! Ele sim vive só para ele”.

Preferiu manter-se calada. Não queria, de maneira alguma, estragar aquela noite.

Chegada a hora tradicional de cantar o parabéns. Cinqüenta velinhas acesas, fincadas em um magnífico bolo de nozes. Emocionada, Andréa assoprou uma, duas, três vezes, até apagarem todas. Fechou os olhos e pensou em um pedido. Apesar de estarem cerrados, se via as lágrimas romperem aquela barreira e escorrerem pelo seu rosto. Era uma mulher emocionalmente sensível, não obstante sua rigidez e sua força aparente. Era forte no tom de voz, na expressão, o olhar, o discurso. Era forte em todos os sentidos. Só não gostava de ser considerada forte fisicamente. Obviamente, interpretava como sendo um eufemismo.

Fim da festa. Hora de se recolher. Vestiu todas as roupas que ganhara. Apreciou rapidamente os livros e os cds que também lhe presentearam. As flores que Carlos havia lhe trazido. Um romantismo que chegava a ser burlesco... Acarinhou seu amado filho durante um tempo, e o amamentou, dizendo:

-Eu sei dividir... Eu sei dividir...

Apanhou na gaveta de sua escrivaninha uma folha de papel já meio amarelada. Sua lista de metas. Eram seis. Odiava números ímpares. Aos quinze, teve sua menarca. Tardia, o que a levou a avaliar o problema que lhe tiraria muitas noites de sono. Detestou aquilo, foi uma péssima experiência. Não queria virar mocinha. Sonhava em ser a esposa do Peter Pan. Coisas de menina. E o número quinze nunca lhe reservara boas lembranças. Daí em diante, foi como uma maldição. Os números ímpares sempre guardaram más surpresas para Andréa; momentos que não valeriam a pena discorrer neste texto.

Já havia plantado oito árvores ao redor de sua casa. Já tinha ido ao show da Madonna. Já tinha tido um filho, e alcançado os cinqüenta anos. Agora restavam duas metas. Pensou em concretizá-las com uma “cajadada só”. Imaginou que uma não poderia ser incongruente a outra.

Apanhou uma pílula cor de abóbora no fundo falso de sua gaveta. Um copo d’água. Sentou-se na cama, com a lista de metas em sua outra mão. Ingeriu a pílula. Pronto. Quem lhe vendeu afirmou que causava uma morte suave, sem sofrimento algum. Mas havia sofrimento, era inevitável. Os pensamentos. Estes turbilhavam em sua cabeça. Sofreu um ataque cardíaco. Caiu deitada na cama. A lista, segura na mão.

No dia seguinte, ao encontrá-la morta, uma de suas empregadas ligou rapidamente para a emergência. Depois, muito consternada, apanhou a lista da mão de Andréa. Sua meta número um: publicar uma autobiografia de Andréa de Souza. Meta número seis: Morrer na mais perfeita paz.

Ambas as metas foram alcançadas. Com sua morte, uma homenagem póstuma aconteceu. Uma amiga, também escritora, escreveu um livro sobre a vida de Andréa de Souza. Livro este que teve mais vendagem do que todos os que Andréa já tinha vendido em toda sua vida.

Egoísmo de Andréa deixar este mundo por conta própria, sem mais nada para oferecê-lo? Deixar o filho por causa de uma meta banal idealizada por uma menina de dezessete anos? Não. Ela tinha o direito de morrer para ela.
No entanto, um pedido, um último pedido, não fora atendido. Este não constava na lista. O pedido de aniversário. Naquele momento, Andréa pediu a Deus que a perdoasse. Perdoasse pelo ato que ia praticar em breve. Mas não há um Deus sequer que perdoe o suicídio de Andréa de Souza, aquela mulher forte. Já era esperado... O pedido número sete. Números ímpares não lhe traziam sorte.

(Hoje é aniversário da nossa querida amiga Andréa Amaral! Uma das autoras deste blog. Andréa, o seu dia me inspirou para este texto. Obrigado. E feliz aniversário!)

11 comentários:

João Luiz disse...

Rapaz você matou a Andrea ?Ainda bem que foi a de Souza...rsrsrsrs

Excelente texto Lohan,suas palavras são esculpidas com muito talento,toda vez que leio e releio seus textos,aumento minha admiração pela sua escrita.

Parabéns!!!

Andréa Amaral disse...

Lohaaaaaannnnn!!!!!!!!!!!!!Estou me sentindo!!!!Que presentão, meu amigo. Ser fonte de inspiração, é coisa para poucas musas..Garota de Ipanema 2.kkkkkkkk.Ainda bem, que nem todos os fatos são verídicos.Eu não sou autora suicida, nem empregada de marido beberrão. Aqui quem manda sou eu! Mas o Davi...é isso tudo mesmo...o milagre da vida que há em minhas primaveras. Quando vc estiver famoso, quero este texto publicadíssimo no se livro, hein.E tomara que suas palavras sejm proféticas para esta Andréa que vos fala: ser reconhecida no ofício que me inspira muita paixão.Obrigada mais uma vez.Amei.

Andréa Amaral disse...

Cá entre nós - estou usando o formol certo, não estou? Alguém diz que tenho 5o?kkkkk

Lohan disse...

kkkkk
Dps que eu postei este texto, qse me arrependi e fui excluí-lo. Caraca, pensei, eles podem pensar que estou falando da Andréa que conhecemos, ou até mesmo os que não a conhecem, pensarem que isso tudo é verídico rsrs. Mas não, foi apenas inspiração pela data de aniversario dela mesmo, rs. E claro, outros pequenos traços, como o filho dela, e sua ótima escrita. Ainda bem que nossa amiga está muito bem viva!!! kkk Obrigado João, minha meta é essa, sempre tentar esculpir mto bem as palavras para q todos usufruam de tres ou quatro minutos de uma leitura agradável.
Vc será, Andrea. Será reconhecida, com certeza. Se isso não acontecer, passarei a acreditar que as injustiças prevalecem neste mundo. E será em vida! Esse negócio de livro publicado dps de morto nem tem graça! rsrs
As portas já estão se abrindo pra nós, Andrea. Nós, autores deste blog. Qndo nosso livro for publicado, se Deus quiser, e Ele quer, entraremos na fase do reconhecimeto. Eu tenho mta fé nisso.
Agora, vc não tem cinquenta anos não Andréa! Só a de Souza! rsrs Precisei escolher essa idade, pra encaixar no contexto da história q tinha em mente. Vc aparenta mto menos que isso, o formol está na validade kkkkkk
Bjão, e obrigado amigos!

João Luiz disse...

Andrea tem no máximo 35...rsrsrsrs

Lohan disse...

Eu chuto uns 38 pra ela. (putz, que coisa indiscreta, coitada da Andréa kkk)

Andréa Amaral disse...

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!MONSTROS!!!!!EU SOU MUUUUUUUUUITO MAIS NOVA; SÓ TENTO PARECER MAIS VELHA PARA TER CREDIBILIDADE NO MEIO ACADÊMICO E LITERÁRIO,TÁ? KKKKK. SE ALGUÉM ADIVINHAR SEM PROCURAR NO MEU PERFIL, EU PAGO UM CHOCOLATE.

Camilissima disse...

Caraca, Lohan... amei!!!! Que texto bacana e que talento vc tem! Andréa, vc tem a idade da sua criatividade, a idade do seu espírito, a idade do seu bom humor, você não vai envelhecer nunca, ainda acho que você casou com Peter Pan e deu uma escapadinha pra ter o Davi e depois voltou pra Terra do nunca. Parabéns ao Lohan pelo texto e para Andréa pelo aniversário!!!

Ernesto Ulysses disse...

Excelente,Lohan. Eu chuto 40 para a Andréa. Será que acertei? rsrsrsrsrsrs

Lohan disse...

Que isso, rapaz...rs Agora vc pegou pesado.
Andrea é a mulher sem idade. Ela é alma, e alma não possui idade.

Nully Campos disse...

Muito Bom Lohan =)