segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O homem que queria ser outro - Parte 2 - O amor

Olá amigos!

Eis a segunda parte da história "O homem que queria ser outro". Uma história densa, repleta de situações que podem ser consideradas cotidianas nas nossas vidas. Basta termos um olhar mais atento, e isso se comprova. Para aqueles que estão entrando agora, e lendo esta postagem, sugiro que vá até a postagem de segunda-feira passada, pois lá se inicia a história, esta é a segunda parte. Pois bem, antes de mais nada, quero me desculpar pela falsa promessa! (rs). Tinha dito que finalizaria a história na próxima segunda, ou seja, hoje. Mas não foi possível. As palavras ganharam mais vida do que imaginei. Os personagens, na verdade, praticamente "me pediram" pra sobreviverem a mais uma semana, rs. (Podem me xingar nos comentários, se quiserem, rs) Mas creio que vocês, leitores, não irão se arrepender, pelo menos espero. Não farei outra promessa, mas tudo indica que semana que vem, a história chega ao seu fim. Outra coisa: Nomeei a parte 2 como "O amor". Fiz o mesmo com a parte 1, subtitulada "A amizade". Enfim... Isso é tudo. Boa leitura a todos!


Convulsão. Perda da consciência. Esses são os dois principais sintomas de um homem com epilepsia. Mas o homem de olhar epilético tem convulsões em seu espírito. Ele revira a noite inteira na cama, sua, bate com a cabeça contra a parede, morde o travesseiro. Ele reflete toda a sua perda de ciência através do espelho dos olhos. Já não sabe mais quem é, quem foi. Ou se já foi. Ou se ainda será.

O mal do espírito aflige tudo que vem pela frente. Corpo, mente, e os que estão a redor. Ninguém é poupado. A busca da consciência perdida, do regozijo espiritual e do próprio corpo são, é a busca mais agonizante que existe para o homem. Ele não busca a sua felicidade, mas sim, a felicidade do outro. Dentro de sua crise de identidade, ele precisa roubá-la, sugá-la, extraí-la como um sedento escava um oásis no deserto. Ele precisa disso porque já não sabe a origem do ser que lhe foi esvaído. Está em desespero, apesar da aparência tranqüila, do sorriso sadio. Está desesperado! Pobre homem, seu olhar diz tudo. Seu olhar epilético.

Naquela noite, Ariano, deitado em sua cama, molhou o travesseiro com seu rio de lágrimas. Mas de onde viera aquele pranto? Logo de Ariano, que sempre transparecia ser uma pessoa tão firme, resoluta... Ora, mas todos sentem a necessidade de chorar. Até mesmo o mais severo dos generais. As pessoas choram por ódio ou amor. Existem uma série de outros sentimentos, mas todos – eu disse todos – são advindos do amor ou do ódio. Amor e ódio... O maior antagonismo da vida. E se choramos por amor e ódio, Ariano chorava por amor. Ele não era de sentir ódio.

Suas investidas amorosas sempre foram um fracasso. E nunca encontrava explicação para isso. A dúvida punha em xeque sua própria identidade. Já não sabia se era feio ou bonito, se era arrogante ou tímido, se era intolerante ou calmo em demasia. Às vezes achava que o erro estava nos olhos que o declinavam sem piedade. Mas logo em seguida preferia reconhecer que o erro estava em sua pessoa, pois o contrário o tornava pretensioso demais. Sua humildade não permitia exceder o limite dos sentimentos mais soberbos. No entanto, todo homem, por mais perfeito que seja, sofre com suas imperfeições, suas dúvidas ocultas. Sofre por amor.
Mas daquela vez, estava insistindo além do habitual com a mesma mulher. Geralmente deixava logo de lado, sem muita esperança. Mas aquela mulher... Aquela lhe despertou um sol antes apagado em seu peito. Um sol que, na verdade, jamais havia sido acendido. Necessitava apenas uma faísca. O amor é uma faísca.

Esperava o fim do mundo – o seu mundo interior - com o apagar lento das chamas do sol; mas sabia que isso estava bem distante de acontecer. Ariano era capaz de qualquer loucura por aquela mulher. Chegou a prometer a si mesmo, em pensamento, que se não a conquistasse, preferia abandonar todas as outras coisas. Trabalho, estudo, e quiçá, a própria vida. De que adianta ser o melhor aluno da classe, o empregado mais empenhado e talentoso, o “menino de ouro”, o jovem de caráter inigualável e... Não ser amado por quem ele ama.

Aquele sofrimento invisível maltratava ainda mais Ariano naqueles últimos dias. Estavam ele, Euclides e Ana Lucia, uma colega de classe, a realizar um trabalho em equipe, na Universidade.
-Que carinha é essa, Ariano? Te conheço pouco, mas está visível a sua tristeza. – Disse Ana Lucia, com seu olhar de águia que muito já voou e capturou soluções para os problemas da vida.
-Não é nada, Ana Lucia. É que ando meio cansado ultimamente.
-Tire folga do trabalho, rapaz. Dê um tempo, pare de escrever um pouco. Não acha que é muito novo pra se estressar dessa maneira? – Aconselhou Euclides.
-Não é o trabalho! – Alterou-se - Será que vocês podiam me dar licença, eu vou ao banheiro.

Ariano se levantou da carteira, inquieto. Pediu licença ao professor que ministrava aquela aula e saiu da sala, muito estranho.
-Por que esse menino ta assim, Euclides?
-Mal de amor. Como pode, não é, Ana... O amor, um sentimento tão puro como dizem, ser a razão da decadência espiritual de um menino como o Ariano.
-Ele é muito novo ainda. Vai aprender a lidar com o amor com o decorrer do tempo. Mas... Enquanto esse tempo não chega, que tal uma cervejinha hoje, depois da aula?
-To dentro.
-Vou chamar ele. Pra distrair a cabeça, nada melhor do que uma mesa nos fundos de um barzinho, uma música “lounge” ambiente, e uma cerveja de gelar a alma! – Sorriu Ana, com seus dentes amarelados pelos venenos do cigarro.

Um pouco desanimado, Ariano aceitou o convite. No bar, os três discutiam sobre vários assuntos. Ana Lucia era uma mulher de espírito jovial. Os quarenta anos que o tempo lhe atribuía, os dois filhos e o marido mal-humorado não a fazia, nem de longe, uma mulher amarga. Era perseverante com seus objetivos.
-Ai meninos... Que bom ter me aproximado de vocês. Eu sempre notei em vocês duas almas incríveis, sabem?
Ela dá uma golada na cerveja e acende um cigarro.
-Digo o mesmo de você, Ana. – Compartilhou Euclides.
-Eu leio vocês direto no jornal, é o máximo! Você entrou há duas semanas, não foi, Euclides?
-É, to lá na luta, com meus textos esportivos. Fui aprovado de cara, graças a Deus e... Ao Ariano. Se não fosse por esse irmão, eu não estaria agora em meu primeiro emprego.
-Primeiro emprego?
-É, por que o espanto?
-Por nada... E você, Ari? Tão novinho, já tão responsável. Ser maduro tão cedo nos torna velhos bocós. – Ana soltou uma gargalhada sonora, já sob o efeito do álcool.
Ariano, que mal pronunciava uma palavra, soltou um risinho sem graça.
-Você manda muito bem, Ariano...
Ana Lucia, após dizer essas palavras, parou, em transe, com o cigarro empinado numa das mãos, a observar aquele jovem atormentado pelo amor que não desgarrava do seu peito. Euclides a olhou com estranheza. De súbito, ela voltou a si.
-Ai, garotos! Tenho uma coisa pra mostrar aos dois.
Ela pegou sua carteira na bolsa a tiracolo e dela, retirou uma foto 3x4 de uma linda criança sorrindo. Ana debruçou seu corpo sobre a mesa, levando a foto à vista de ambos rapazes.
-Estão vendo esse menino? É meu filho mais novo. Cinco aninhos. Se chama Pietro.
-É uma graça. A sua cara. – Disse Ariano.
-Parabéns, Ana. Seu filho é lindo.
-Vocês querem ouvir uma coisa agora?
Euclides e Ariano entreolharam-se, encabulados.
-Eu quero que quando ele cresça, seja igual a vocês.
Euclides abaixou a cabeça, lisonjeado, não contendo um largo sorriso. Ariano não teve a expressão transfigurada pela consideração da mulher, dizendo:
-Não diga isso.
-Por que não? – Espantada.
-Ninguém é igual a ninguém. As coisas não funcionam dessa maneira. Não faça dele uma cópia de quem ele não é.

Já em casa, antes de ir se deitar, Ana Lucia acendeu a luz do quarto do seu pequeno Pietro. Ele já havia adormecido, como um anjo. O edredom azul que o cobria estava despencando da cama. Ela foi até ele, e com uma expressão materna de orgulho, ajeitou o edredom sobre o corpo daquele que um dia se tornaria um homem de verdade. Ela refletiu, naquele momento, as palavras diretas de Ariano. Acarinhou os cabelos negros do garoto e disse, baixinho:
-Te amo.
E saiu do quarto.

Dois dias depois, na redação do jornal, Euclides conversava animadamente com os demais colegas do departamento esportivo enquanto Ariano pesquisava, ao computador, sobre o novo assunto que ia tratar em sua próxima crônica. Então ele percebe uma presença ao seu lado. Era Julia Medeiros, a redatora-chefe do jornal.
-Venha até minha sala, preciso falar com você, mocinho.
Em sua sala, Julia acomodou o jovem escritor e sentou-se por detrás de sua mesa.
-Não precisa ficar com essa carinha de assustado, Ariano Bezerra. – Disse ela, sorrindo da expressão apreensiva dele.
-O que está havendo?
-Venho notado que, nas duas últimas semanas, você imprimiu bastante sentimentalismo às suas crônicas. Não que não tenha gostado, longe disso. Você é brilhante, o melhor cronista que tenho aqui, e que muitos outros jornais cobiçam... Mas... Me desculpe me intrometer na sua vida pessoal, mas como gosto muito de você e sei que, apesar de sua tamanha genialidade, aí dentro bate um coração adolescente, repleto de dúvidas e angústias, estou aqui disposta a te ajudar com essa sua aflição tão transparente.
-Eu me sinto bem, dona Julia.
Julia o olhou com ternura. Ariano acabou cedendo...
-Ta, pode falar que já sabe.
-Claro que sei. Ela me contou.
-Que droga, por que ela fez isso? – Irritou-se.
-Ora, Ariano! Isso mostra que ela se importa com suas investidas, com seus sentimentos. E pelo o que me pareceu, você tem grandes chances.
-Está falando sério? – Disse, a um repentino entusiasmo.
-E por que não estaria?
-Pra não ver seu melhor cronista triste pelos cantos.
-O rendimento no seu trabalho não foi alterado, rapaz. Me preocupo com você, de fato. Olha... Vou te ajudar. Ela recusa sair com você, ou namorar você porque perdeu o pai, há dois meses, e no mesmo período, terminou um namoro de três anos e meio. Isso ela não te disse, disse?
-Não...
-Pois então. Ela é bem tímida. Não gosta de se abrir com ninguém. Só que eu dei mais abertura, sou mulher experiente, sei dar conselhos. Ela é menina ainda, está muito confusa com tudo isso, é somente dois anos mais velha que você. Portanto, saiba lidar com ela. Olha, chame-a para sair nesta sexta-feira. Eu fui com ela a um restaurante japonês aqui perto que ela adorou. E sexta é aniversario dela. Mas ela não quer que ninguém saiba... Nem quer comemorar. Chame-a para sair, finja que não sabe de nada. Fale que é pra distrair, que não vai tentar nada. Seja amigo dela. Se importe mais com ela. Não vá com tanta sede ao pote. Ela vai cair na sua, tenho certeza, meu geniozinho.

Ariano abriu um sorriso radiante, o mais iluminado das ultimas três semanas.
-Agradeço sua atenção comigo. Olha, obrigado mesmo, de verdade.
Desajeitado, ergueu-se da cadeira, apertando a mão de Julia. Saiu da sala aos tropeços. Não contendo sua euforia gritante, chamou por Euclides.
-O que ta acontecendo, amigo? Que sorriso é esse? – Indagou Euclides, suspeitoso.
-Você nem vai imaginar...
-Já sei, envolve a Lia.
-Certo! Vou te contar tudo, meu amigo, tudo!

Extasiado, ele e Euclides se sentaram e ficaram conversando, ali, durante meia hora.

Então, eis que aparece Lia Neide, a mulher. Ela entra na sala aonde Ariano trabalha. Toda ela, cada partícula do seu ser, encantava a Ariano. Seu andar ímpar, repleto de charme; sua graciosidade expressa a cada balanço do corpo, seus cabelos castanhos escorridos, seu olhar pequeno e dócil, seus lábios finos e bem delineados, clamando por um ósculo fervoroso que a fizesse esquecer da própria existência. Seu perfume logo invade todo o recinto, atiçando as narinas de Ariano, fazendo logo com que ele vire seu pescoço em direção a entrada da sala.
-Lia...

Ela só entrou para apanhar uma papelada sobre a mesa. Deu um sorriso e um aceno para os rapazes que ali estavam. Em seguida, se retirou.
-Essa aí que é a gloriosa Lia Neide... – Murmurou Euclides, apoiando o queixo em sua mão direita, com os olhos fitos na jovem que deixava a sala.
-Ela mesma, Euclides. Escreva o que vou dizer: depois de amanhã ela vai aceitar sair comigo e tudo irá fluir como eu sempre sonhei. Eu vou conquistar essa menina, ou não me chamo Ariano Bezerra!
Euclides fitou Ariano e disse:
-Torço por você, amigo. Você merece que todos os seus desejos se realizem.
-Ela já não é mais um desejo. É um sonho constante, uma tristeza presente, uma alegria ardente. Ela é... Eu já nem sei mais como defini-la. – Sorriu, em devaneio.

Apenas um olhar epilético de um homem pode derrubar outro homem. E foi assim que aconteceu, no dia seguinte. Estavam saindo da sala de aula, Euclides e Ariano. Ariano parecia agitado com a aproximação do novo dia. Não conseguia esconder a ansiedade. Mal prestou atenção na aula.
-Acho melhor conter essa ansiedade, irmão. Vai que ela se recuse a sair. Já pensou a fossa que vai ser?
-Eu sou uma pessoa otimista. Não acredito em livros de auto-ajuda, mas uma coisa é certa: pensar positivo é meio caminho andado.
-Pensamento positivo é o alicerce do homem frustrado. Falo por mim. Quantas vezes fiquei assim em véspera de encontros ou jogos. É melhor não pensar em nada. Seja como for, pense assim.
-Você quer manobrar meus pensamentos, Euclides? To até te estranhando, amigo. – Disse Ariano, a um sorriso confuso.
Pararam a beira de uma escadaria. Euclides fixou um olhar compadecido em Ariano.
-Eu não disse por mal, está bem? – Disse Euclides, demonstrando ressentimento.
-Claro que não. Amigos só desejam o bem dos amigos, não é assim que funciona?
-Está insinuando o que, Ariano?
-Nada, ora! – Disse, abrindo os braços a um riso – Por que sempre acha que estou insinuando algo a seu respeito?
-Não sei...
-Quem não deve, não teme, amigo. Agora vamos descendo que esse diálogo já está me enjoando.

Ariano pôs-se a descer a escada. Euclides ficou imóvel, olhando-o partir. Aquele olhar poderoso denunciava um pensamento mórbido. O dono daquele olhar desejou, com todas as suas forças negativas, que Ariano tropeçasse e caísse da escada. Pensar positivo era arma dos derrotadas... E quanto o pensamento negativo? Sim, esses pensamentos que adentram a mente de um homem aparentemente comum, inofensivo. Mas que ganham vida; braços, pernas, olhos. Mãos que derrubam, pernas que servem de obstáculo de tropeço, olhos que contemplam a derrocada do alvo.

Ariano parou na metade da escadaria e volveu-se para trás.
-Não vai mais descer, Euclides?
Euclides desperta do transe, e diz:
-Não, pode ir. Eu... Eu preciso averiguar uma situação, na secretaria. Já ia me esquecendo. Adeus, irmão.

E saiu, sem mais explicações. Ariano ficou ali parado por um instante, sem compreender aquela atitude súbita do amigo. Ele não era uma pessoa esquecida. “Decerto que ficou chateado comigo por algum motivo...”, pensou. E deu o próximo passo.

No dia seguinte, já à noite, Euclides recebeu uma mensagem pelo celular. Ele estava ao lado de Ana Lucia, num dos corredores da Universidade. Ao ler a mensagem, fez um semblante de preocupação.
-O que houve, Euclides?
-O Ariano... Ele acaba de me enviar uma mensagem... Ele caiu da escada, foi internado, e agora passa bem. Ele pede para eu pegar sua prova, e no final, diz em que hospital está...
-Nossa! Como assim, caiu da escada?
-Caiu, tropeçou, ficou zonzo e desequilibrou-se, não sei. Mas ele diz que agora passa bem, isso que importa.
-Não vai telefonar pra ele, Euclides?
-Não, prefiro falar com ele pessoalmente. Amanhã eu vou visitá-lo.
-Estranho... É, ainda bem que hoje só teremos entrega de provas. Coitado... Logo o Ari...

Na sala de aula, o professor chama pelo primeiro nome da pauta:
-Ariano Bezerra.

Euclides se levanta de sua carteira e vai apanhar a prova do amigo, justificando sua ausência. O professor aceita, e lhe entrega a prova, dizendo:
-É uma pena. Quero muito conversar com esse menino, ele me surpreendeu. Euclides sorri, meio sem graça, e olha para a nota. Fica espantado, com os olhos vidrados na prova.
-Ai, Euclides, to nervosa... Acho que tomei bomba nessa prova. E o Ari, foi bem, aposto. Quanto ele tirou? – Perguntou Ana.

Euclides divagou por um instante.
-Como?...
-Quanto ele tirou?
-Ele... Ele tirou dez. Aqui diz que a redação dele ficou... Esplêndida.
-Nossa, que bom! O Ari é um gênio mesmo. Deixa eu ver a prova dele.
-Pra que você quer ver?
-Ué – Sorriu, sem entender – Preciso xerocar uma prova dessas!
-Não sem a permissão dele. Desculpa, mas não posso fazer isso sem falar com ele antes.
-Ele não vai se importar, Euclides.
-Eu o conheço, vai sim. Ele é todo metódico.
-Não é o que parece...
-Eu o conheço melhor que você.

Ana Lucia estranhou o comportamento de Euclides. Ele estava esquisito, parecia sentir uma raiva que não cabia em seu peito.
-Ana Lucia! – Chamou o professor.

Ana Lucia apanhou sua prova.
-Droga... Tirei seis e meio.

Minutos depois, o nome de Euclides é chamado. Ele se levanta a um rompante da cadeira.
-Tome sua prova, rapaz. Bela prova. – Elogiou o professor.

Euclides confere diretamente sua nota.
-Nove e meio? Mas professor... Bela prova e nove e meio?
O professor, que atentava para as provas sobre a mesa, ergue seu olhar até o semblante atônito de Euclides.
-Sim, Euclides. Nove e meio. Quer contestar algo? Nem leu a prova ainda.
-Não é justo me tirar meio ponto.
-Eu não tirei meio ponto de você, rapaz. Eu apenas não lhe dei dez. Em nenhum momento eu lhe dei dez para ter tirado meio ponto seu.
-Mas, mas... O senhor mesmo disse que minha prova está... Perfeita.
-Eu não disse isso. Aliás, pegue a prova do seu colega, o Ariano. Ali sim você verá uma prova perfeita. Ele mereceu a nota dez que recebeu.

A turma inteira estava paralisada diante daquela discussão entre Euclides e o professor. Ninguém podia acreditar como um aluno discutia por meio ponto quando este havia tirado nove e meio! A maioria havia tirado uma nota inferior a sete.

Euclides retornou para sua cadeira, desolado. Inconformado. Enraivecido. Ana Lucia o olhou, e preferiu ficar calada. Ele estava vermelho. O sangue fervilhava em suas faces. Seus neurônios digladiavam entre si. Nem conseguia pensar em nada. Naquela noite, Euclides comparou sua prova com a de Ariano em todos os aspectos. Analisou cada detalhe, cada vírgula. Reconheceu que Ariano foi brilhante na escrita, sem ter cometido um mínimo erro gramatical qualquer. Expressou claramente sua idéia, argumentando-a com afinco e com um embasamento incrível.
-Ele citou teorias de Freud, Hegel, e até Aristóteles em sua redação... Meu Deus, como eu não pude ter pensado nisso... – Sibilou Euclides, enquanto lia pela vigésima segunda vez a prova de Ariano, deitado de bruços em sua cama.

Ao dizer isso, lembrou-se de Ariano, vividamente, lhe dizendo: “Tem pessoas que podem mais que as outras...”.

Euclides passou aquela noite insone. Recusou-se a ligar para Ariano. Na manhã de sexta, Euclides foi visitar Ariano no hospital. Ariano tinha a expressão mortificada, mais pela tristeza do que por qualquer outro fator. Tinha também uma mancha roxa na testa.
-Meu irmão, como tudo isso foi acontecer, tão de repente? – Indignou-se Euclides, rente à cama hospitalar onde estava Ariano.
-Não sei... Como você disse, foi mesmo de repente. Foi ontem, enquanto descia a escada, na universidade, não se lembra? Você se despediu, estranhamente, e fiquei sozinho.
-Estranhamente?
-Se você estivesse do meu lado, talvez pudesse me estender a mão, tentava me segurar.
-Com certeza! Mas eu não estava! Como ia prever uma fatalidade dessas?
-Eu perdi o equilíbrio, não sei... Senti como se um vento muito forte me empurrasse escada abaixo, mas lógico, foi coisa da minha cabeça. Deu nisso: um tornozelo torcido, uma testa inchada, e uma noite tão ansiada, no ralo. É inacreditável que isso esteja acontecendo comigo. Justo hoje, justo hoje!
-Acalme-se! Não adianta ficar reclamando, agora você precisa repousar, cuidar da sua saúde. Em dois dias, ou até mesmo amanhã, já terá tido alta.
-Azar... Deus não existe. – Disse, com lágrimas nos olhos.
-Eu também acho. Andei lendo algumas obras de Nietzsche ultimamente, e não é que seus argumentos ateístas são bem pertinentes? – Reforçou.
-Ou então ele não existe para certas pessoas. Por que, Euclides? Por que Deus não existe para mim quando mais necessito?
-Não sei... Vai ver não é pra ser. Vai ver não há ser superior. Vai ver o mal seja superior, e aí?
-O mal superior... Segundo a Bíblia, o mal foi expulso do Reino dos Céus pois enfrentou a Deus. Quando se enfrenta alguém, é porque temos consciência de que podemos vencer esse alguém? Não acha?
-Ele está vencendo, Ariano. Ele está vencendo. – Disse, em tom sinistro.

Ariano sentiu um leve tremor arrepiar-lhe o corpo inteiro. Como se o mesmo “vento” que o derrubara da escada, agora estivesse de passagem ali, penetrando em sua alma. Percebeu que Euclides havia reforçado o sentido da não existência de Deus... "Geralmente as pessoas recriminam a blasfêmia das outras", pensou. Tentou se livrar daqueles pensamentos que o aturdiam, puxando um novo assunto:
-Hoje de manhã acordei inspirado pela minha melancolia profunda e... Digitei isso aqui.

Ariano apanhou um laptop sobre a mesa ao lado de sua cama, sentou-se na cama e o apoiou sobre suas pernas. Abriu o aparelho e acessou o documento onde havia salvo o que digitou.
-Veja...

Euclides aproximou-se de Ariano, virou o laptop para si e iniciou a leitura.
-“Donde”? Uma poesia de amor, meu irmão? – Riu, desconcertado.
- e entregou a Euclides. Ao bater os olhos no escrito, o homem sorriu, desconcertado, como se nunca tivesse lido nada parecido.
-Uma poesia... “Donde”? Não sabia que escrevia poesia também.
-Sim. Poesia de amor... Lixo. Fiz pensando na Lia. Ela curte poesias do tipo, mas... Eu tenho vergonha.
-Vergonha do que? Do seu talento? Cara, você pode utilizar o seu talento para conquistar a mulher que ama!
-Não com essa poesia ridícula. Vou deletá-la. Tenho outras em arquivo, melhores que esta, que falam do mesmo assunto: amor, amor, e amor.
-Não, espere... Antes, queria te pedir pra enviá-la pro meu e-mail.
-Pro seu e-mail? Por que está me pedindo isso agora, Euclides?
-Ora! Você sabe que sou seu fã número um. Sabe que adoro ler o que escreve. Gostaria de imprimi-la lá no trabalho, e guardá-la comigo, como recordação. Já que irá apagá-la mesmo... Claro, se você não se importa.
-Não, na verdade eu não me importaria, mas... Ah, está bem, eu envio. – Resolveu, sem mais delongas.
-Obrigado.
Euclides rachou um leve riso e despediu-se.
Naquela tarde de sexta-feira, Euclides foi até a sala de Lia Neide.
-Posso entrar?
Ela, surpresa:
-Claro, pode. Você é aquele novo do esporte?
-Ah, sim, sou eu mesmo. – Respondeu, a um riso apagado.
Lia ergueu-se de seu assento, abandonando a digitação.
-Em que posso te ajudar?
-Nada, eu... É que eu escrevi uma poesia, sabe, e me deu uma imensa vontade de mostrá-la a alguém. Como só vi marmanjos nas salas ao lado, lembrei de você, aqui, e... Lógico, mulheres absorvem melhor a magia de uma poesia. Inda mais você, uma mulher aparentemente tão delicada.
-Obrigada. Sou delicada, mas não sou fresca, sim?
Os dois riram.
- Uma poesia? Então você gosta de escrever poesias?
-Sim, gosto. E quanto a você?
-Escrever... Não é o meu forte. Mas eu amo ler poesias, sobretudo as de Vinicius de Moraes, bem românticas.
-Que legal... Você se chama Lia, não é?
-Isso. E você, Euclides dos Santos.
-Nossa, pra saber meu nome inteiro, é sinal que lê minhas crônicas esportivas!
-Não, na verdade, eu só li um texto seu. Eu sou mais voltada à literatura, sabe? Não que seu texto seja ruim, longe disso. Mas é questão de preferência.
-Então eu imagino que prefira os textos do Ariano Bezerra.
-Ah, com certeza. O Ariano é fantástico.
Euclides congelou todos os seus gestos possíveis. Seu olhar perdeu-se nos próprios cílios.
-Desculpe, não quis te magoar... – Disse, ao notar o estado de abatimento do rapaz – Aliás, o Ariano está hospitalizado, voce soube?
-Soube. Mas ele passa bem.
-Ah, me perdoe de novo... Você veio me mostrar uma poesia, e eu já ia puxando outro assunto!
-A poesia... Tome.

Euclides entrega a folha de papel impressa nas mãos suaves de Lia Neide. -“Donde”... Fala de amor? -É, bem ao seu estilo.
-Nossa...

Lia Neide sentou-se e iniciou a leitura. Cautelosa, a cada palavra, ela exprimia um riso e outro. O mover singelo de suas pálpebras, o olhar percorrendo a folha, a respiração ofegante... Tudo isso encantava a Euclides, que se vangloriava por uma obra que não era de sua autoria.
Ao término da leitura, ela abriu um largo sorriso, e apertou a folha contra o peito.
-Linda. Perfeita.
-Obrigado.
-Está apaixonado?
-Apaixonado...? – Riu-se – Que nada, é preciso estar?
-Bem, geralmente sim.
-Pode ficar pra você. Essa poesia. Ela é toda sua.
-Minha?
-É um presente. Não aceito recusa, ouviu? Afinal, esse é o nosso primeiro contato, e nada melhor do que eu poder presenteá-la com algo do seu agrado.
-Essa sua faceta é encantadora. Devia abandonar o mundo do esporte e mergulhar na poesia. Aí sim, seria sua leitora assídua.
-Poxa, fico até avexado com esses elogios todos...
Lia Neide se levantou, caminhou até Euclides e beijou-lhe a face.
-Obrigada pelo presente. Ele veio na hora certa.
-De nada... A propósito... Hoje eu não terei faculdade, então, estava pensando em jantar num restaurante japonês aqui perto. Eu adoro comida japonesa. Você conhece?
-O restaurante? Claro que conheço! Eu o adoro. – Disse ela, a um riso surpreso.
-Pois então. Está a fim de me acompanhar? Olha, eu pago! – Sorriu, erguendo o braço.
-Ai... – Lia mordisca os lábios, pensativa – Infelizmente não vai dar. Eu tenho um compromisso.
Neste momento, a redatora Julia se aproxima da porta da sala de Lia, e interrompe os passos ao notar que ela e Euclides conversavam ali. A porta estava aberta, e a conversa podia ser ouvida.
-Compromisso? – Indaga Euclides, cerrando a sobrancelha.
-É, eu combinei com a Julia de irmos visitar o Ariano mais tarde. Como eu disse há pouco, ele caiu da escada, e foi hospitalizado. Ele é meu amigo, entende.
Euclides engoliu a seco.
-Entendo, claro que entendo.
-Você também é amigo dele. Vejo vocês quase sempre juntos.
-Somos amigos. Hoje eu fui visitá-lo.
-Me desculpa, Euclides...
Julia entra na sala.
-Desculpe interrompê-los. Lia, preciso falar com você um instante. Como vai, Euclides? – Saudou, em tom irônico.
-Bem, e a senhora?
-Igualmente bem. Lia, venha até a minha sala, por favor. Preciso te passar uma papelada. Com licença.
Julia se retira. Lia guarda a poesia em sua gaveta.
-Não quer ir com a gente hoje?
-Não sei... Qualquer coisa eu te ligo. Ah, me esqueci, não tenho seu telefone.
-Não seja por isso. Vamos trocar.
E assim fizeram.
-Até mais. E mais uma vez, obrigada pela poesia.
Os dois saem da sala. Lia fecha a porta.
-Por nada. Fica pra próxima então o nosso programa?
-Com certeza.

Lá se foi Lia Neide. Euclides sentiu uma raiva incomum brotar do seu peito. Não. Não era incomum, era apenas uma raiva maior. O ódio. Tudo era Ariano, Ariano era tudo. Ele fechou a mão esquerda, fincando suas unhas na palma da mesma. Apertou com tanta força que arrancou sangue da própria mão. Ao notar o ferimento, foi até o banheiro masculino lavá-la. Lá, abriu a torneira e a colocou sob a água corrente. Enquanto isso se olhou no espelho a sua frente. Lá estava ele, no espelho. Mas... Seria mesmo ele?

O homem, ao tentar ser outro, é ele mesmo, sem saber. Sim, aquele era ele. E como em todas as vezes que se defrontava com sua própria imagem, sentia uma náusea inexplicável, uma vontade de arranhar o rosto, perfurar seus olhos com as mesmas unhas que cortaram sua mão. Queria ter as faces de Ariano, os olhos de Ariano. Aqueles olhinhos brilhavam tanto! Mas não adiantaria... O brilho dos olhos não pertence aos olhos. Ele é apenas refletido pelo olhar. O brilho vem de dentro. Vem da essência. É reflexo de um espelho ocular. E esse brilho era o que Euclides almejava. O brilho de Ariano.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA...

9 comentários:

Andréa Amaral disse...

Acabei de ler uma frase do Victor Hugo que cabe direitinho dentro do contexto deste enredo: "A maior felicidade da vida é estarmos convencidos de que somos amados."
Ariano em sua descabida insegurança, sofre por não saber ser amado. Euclides, por ter esta certeza sobre Ariano ,epiléticamente deseja ser o "amigo",por quem não sente o menor remorso de trair e invejar.Já podemos antever a tristeza e a decepção de Ariano ao constatar que algumas suspeitas que nutre sobre este amigo se transformarão em realidade. O mais triste é saber que para Euclides não há uma solução: ele não é amado e mesmo que queira ser o outro, continuará não sendo. Qual será o desfecho deste enredo digno de telenovela? Aguardo mais uma vez ansiosa, pela próxima segunda-feira. Parabéns. Você construiu uma ponte impecável entre os seus personagens sem inspirar piedade ou pieguice.Tudo muito conciso, nú e crú.

Ivelise Zanim disse...

Impecável Lohan esse seu segundo episódio!!! Está se tornando uma trama bastante envolvente!!!! Vamos a ela!!
Hoje nos deparamos com um Ariano apaixonado...quase cego de amor.... e como voce bem coloca,o Amor/ Ódio é o maior antagonismo da vida,,,mas ao mesmo tempo estào bem próximos um do outro...como podemos ver claramente nas atitudes de Euclides para com Ariano...Ele ama Ariano tanto, que quer ser igual a ele, mas ao mesmo tempo, nào conseguindo ser o Ariano, o odeia de tal forma, que deseja literalmente o MAU a ele. Tanto que, "seu olhar poderoso denunciou um pensamento mórbido", vindo acontecer a Ariano o q Euclides desejou....o coitado despencou da escada, perdeu o almejado encontro c/ sua suposta amada, etc..Ainda rouba a poesia q Ariano escreveu p/ Lia, e da a ela como se fosse ele q tivesse escrito, ja tbm querendo se apossar da pretendida amada do amigo.. Enfim,conseguimos extrair dessa trama, q a crise de identidade de Euclides pode vir a produzir efeitos devastadores a vida de Ariano ainda...por isso Ariano terá q "'äcordar"a tempo e ver q o inimigo está mais próximo do q ele imagina ou supõe... mais uma vez, parabens Lohan!!!Espero o próximo capítulo!!!

Camila disse...

Lohan, sou do tipo que não curte novela, não consigo esperar pela solução das tramas. Talvez por isso eu "dê cabo" de alguns personagens rapidinho, rs. Mas essa história que você está escrevendo, está prendendo a minha atenção como nenhum programa de horário nobre seria capaz. Fico aflita, ansiosa, irritada com as atitudes de Euclides, solidária pela ingenuidade de Ariano. Mas, meu jeito é um só e eu não posso negar: não vejo a hora desse sujeitinho ter o que merece. Lugar de vilão é sete palmos abaixo! Ótima trama! Continuo acompanhando... roendo as unhas.

bambu disse...

Essa história demonstra o quanto devemos Dar valor a nossas amizades e mostrar a importância sobre o que é amar uma pessoa e ser amado.Demonstra a alegria de saber que tera uma chance única que pode transformar tudo aquilo que sonhou em realidade....E que nada é impossivel....E que sempre devemos estar de olhos abertos com a inveja...
Mas quanto ao texto,esta absolutamente fascinante,prendeu minha atenção do inicio ao fim....Meus parabens meu caro amigo!!!

Sidarta disse...

Lohan,


Lendo esta segunda parte de tua trama, devo te dizer que me sinto um agraciado pelos deuses, por ter a oportunidade de estar trabalhando num projeto ao lado de um cara com tanto talento.

Se a priori eu achava que esse texto era longo demais para a internet, quando comecei a lê-lo obtive uma ideia completamente diferente, devido à maneira que você consegue envolver o leitor desde o princípio.

A mim não importa mais até quando e onde esta série nos levará. Meu desejo é que deixe tua alma de artista conduzir a história sem censura nenhuma, por que tenho a certeza de que cloncluirás quando chegar o momento final dos dilemas de Ariano e Euclides. Ou não.

De todo modo, senti muito prazer lendo essa história, obrigado.


Abraço!

Lohan disse...

Amigos, mais uma vez, deixo meu agradecimento a todos os elogios, a força que vcs tem me dado para dar continuidade a essa história. Essa história que vai crescendo a cada semana, repercutindo mais do que eu esperava até. Espero poder finalizá-la magistralmente, pois vcs, leitores, merecem!
Obrigado pela presença, Ivelise, mais uma vez; e Bambu, rs, grande Roberto, deixa seu nome na próxima, rapaz! rsrs Seu comentário ficou mto bom.
Sidarta, Camila e Andrea, vcs são ''dezes'', rs, nem preciso falar nada.
Grande abraço e até a próxima!

João Luiz disse...

É Lohan,essa novela ta com mais ibope do que a novela das nove da Globo,com certeza está bem mais interessante,a cada capítulo fico querendo saber como é que vai acabar essa história.
Muito bom!

Parabéns pelo talento e pela habilidade de prender a atenção do leitor do início ao fim.Como o Sidarta falou,para mim,é também uma honra esta aqui ao seu lado.

Abraços!!!

piedadevieira disse...

Somente hoje pude ler o capítulo seguinte.Acho que não vai parar não, esse enredo vai dar samba, ou melhor, livro.rsrsrs
Beijos e até o próximo.

Lohan disse...

João, Piedade, obrigado pelos comentários!
Piedade, acho q vai dar livro mesmo rsrs. Se depender das ideias que tive pra continuidade... Mas terei que sintetiza-las, infelizmente. Fica enjoativo com o tempo, não sei. Depende de vcs! Por favor, se tiver ''sacal'', me avisem, mandem q eu pare, q eu paro! rs
Valeu!!