quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Souza e cruz? Salva e luz.


Estou em uma fase saudosista... e confesso que sinto um "lack" de inspiração. Por isso, vou postar mais um texto dos anos 1990. Escolhi este, pois ele representa uma fase de auto-afirmação e descobertas .


Eu era fumante desde os 15 anos. Comecei a fumar informalmente com colegas no colégio, movida pela curiosidade. Fumava para fazer charme e porque sentia um certo tesão pelo cheiro do cigarro também. É verdade! O cigarro me atraía profundamente pelo cheiro. Fumei por quinze anos ininterruptos. Depois, já mais consciente, mais velha e dominada pelas campanhas antitabagistas, resolvi que queria parar. Meu fôlego já não era o mesmo, eu sempre tive o espírito dinâmico, atleta... gosto de caminhar, pedalar, dançar , patinar....cigarro não combina com nada disso,não é? E para completar, meu namorado odiava cigarros e me vi tendo que redobrar minha vontade de eliminá-lo da minha vida. Eu tentei parar de fumar algumas vezes.... e confesso também que depois da segunda vez eu não parei definitivamente, por um apego ao hábito e por acomodação. Quando aos 35 anos, decidi num certo dia, que não queria mais fumar, com uma certeza e uma clareza quase divinais, não senti nenhum problema em fazê-lo. Nunca mais senti vontade de colocar um cigarro na minha boca. Nem quando eu bebo café, termino as refeições, em volta de fumantes, quando estou em alguma balada ou festa que chamam pela dupla bebida/cigarro...NADA!
Muito pelo contrário, eu peguei verdadeira ojeriza por cigarro. Eu sinto tanto nojo, que quase rompi meu relacionamento com o pai do meu filho, pois só de chegar perto dele (fumante inveterado), com cheiro de cigarro da ponta do sapato ao último fio de cabelo, eu me sentia enjoada, querendo vomitar, como se estivesse grávida.
Agora ele está passando por um problema severo de apnéa, que o cigarro só veio ajudar a aumentar e por imposição médica e forçado pela vontade de viver, parou na marra. Eu, Davi e os pulmões dele, agradecemos.
Isso tudo para dizer, que o cigarro é uma droga e que o meu texto não é uma apologia a ele. Como disse, ele foi um coadjuvante na minha história e serve para me fazer entender, que quando estamos dispostos a mudar qualquer coisa em nossa vida, por mais difícil que ela possa parecer, temos que ter força de vontade, acreditar e impôr nossa vontade, como única verdade que temos que seguir de toda alma e coração. Isso pra mim é sentir Deus. Quando nos transformamos em protagonistas e superheróis de nossa própria vida, sem nos deixar abater pelos obstáculos e pelas vozes que querem nos puxar para um abismo de falta de coragem e de fé. Boa leitura a todos.



O cinzeiro está cheio.
Cheio de cinzas que carregam em sua composição
Todas as ansiedades
de um peito mal resolvido
e cheio de dor.
Olho para ele, que parece zombar de mim
de minhas neuroses radicais.
As guimbas tortas, amassadas
são representações concretas
de minha imagem patética.
Fumar é careta!
E a modelo que come um Big Bob
parece tão linda
com todo aquele veneno químico
que ingere tão charmosa!
Meu cigarro perturba com sua fumaça
o ar do meu irmão.
Mas o seu bafo de bebida no ônibus
só incomoda minha vontade de chegar
mais rápido ao destino final.
Composição Souza Cruz.
O Souza pode ser qualquer um.
Mas a cruz carregam todos, querendo ou não.
Por isso, não deixo de engolir e soltar fumaça.
Só respeito no momento, a minha dor, obrigada.
Quero arrebentar meus pulmões contagiados,
congestionados e absorvedores passivos
de outros venenos sociais que me atingem.
Não posso ter o prazer de soltar na cara dos outros
fumaça de automóvel.
Não tenho dinheiro.
Portanto, me deixem a vontade
para me poluir do jeito que quero e posso.
Os incomodados que se mudem.
O cinzeiro está cheio
E vai continuar cheio
por muito tempo.

4 comentários:

k@ disse...

Gostei mto do seu texto... Legal, mts vezes tbm me sentia atraida pelo cheiro do cigarro... Q atração besta!! rsrsrsrs
Parabéns!Parabéns, Parabéns!

piedadevieira disse...

Andrea, como sempre escrevendo para nos alegrar, seja com imagens ou palavras, o certo é que convence.Sua mensagem foi muito agradável e convincente.Adorei.

Lohan disse...

Show, Andrea! Caramba, esse texto realmente, tocou bem lá no fundo do coração. Senti-o como um relato profundo, de uma transformação exemplar na sua vida. Fumantes, leiam este texto! Não fumantes tbm, pois um dia poderão cair nessa armadilha de fumaça, nicotina, cinzas... E, no fim, não dá outra, senão cinzas...
Parabéns pela sua força de vontade em abandonar este vicío antes que ele a tornasse uma pessoa abandonada. A sua poesia está belíssima, mostra perfeitamente o cigarro como sendo a válvula perfeita de escape de um mundo tão nocivo quanto esta droga! Engraçado que as coisas nocivas geralmente dão prazer, não é? Mas pra que se apegar a elas! Tanta coisa saudável, e que dá prazer tbm... rsrs
Esses dias estava conversando com um amigo, no bar onde trabalho, e ele me dizia: ''Engraçado, hoje em dia percebo que as pessoas têm se afastado muito do cigarro. Não vejo tantas pessoas fumarem como há dez anos". E eu concordei com ele. Não sei ao certo a razão dessa diminuição do cigarro, mas suponho que seja por dois motivos: As campanhas antibagistas, como sempre, rigorosíssimas, sempre mto convicentes tbm. E claro, o uso de outras drogas crescem dia-a-dia - drogas ilegais, muito piores que o tabaco. Infelzimente, é largar um vício pra se apegar a outro. Nesse mundo tudo evolui muito rapido, a busca pela novidade é séquida. E principalmente os jovens é que caem nessas armadilhas plantadas pela mídia (alienadora), pelas Souzas Cruzes da vida... Jovens que estão formando suas opiniões, suas posições perante a "sociedade nociva". E a maioria deles só desejam se formar, rs, mas se informar que é bom...
É isso! Caraca, falei demais rsrs!
Bjão Andrea, e meus parabéns again.

Eduardo Trindade disse...

Muito bom! Sou encantado por fatos assim, que mostram o quanto podemos dar à nossa vida o rumo que queremos - mesmo que seja, a princípio, em coisas pequenas, e mesmo que seja difícil.
Nunca fumei; mas eu me lembrei de um poema que fiz, inspirado numa ex-fumante, e que está no meu livro:


ISQUEIRO

Ela fumou o último cigarro
E ele tinha um gosto acre.
Lembrou de algo querido
Que tinha ficado para trás.

Memória da massa de modelar
E da moeda de brinquedo
Com gosto de chocolate.
Haviam ficado para trás.

Mas era o último cigarro.
Então guardou o último isqueiro
E com ele o amargo da língua.

Reviu enfim a cor esquecida
Que havia ficado para trás:
Estava pronta para o beijo.



Abraços!