quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fragmentos de uma expedicionária nos mares tortuosos do pensamento literário.



Um apanhado de pensamentos difusos que se concatenam em qualquer ponto num gráfico, onde a exaltação de ânimos quente e frios se encontram. Uma desfaçatez numa mente e num corpo que abrigam múltiplas personalidades que a alma num estado etéreo, por uma mera questão de sobrevivência, não pode se sobrepor. Assim, eis que volto ao túnel do tempo mais uma vez, e como Jasão, em busca do Velocino de Ouro, percorro com minha memória estatística, uma jornada cheia de incidentes cuja missão parece usurpar-se de um poder de provocar acontecimentos, confrontar sentimentos, proporcionar soluções, amargar a falta de respostas e tentar transcender a minha compreensão consciente. Eis que me encontro novamente nos anos 1990...e viajo dentro do meu Argos interior. Quantas vicissitudes me aguardaram depois disso.... em quantas tempestades meu papel e minha caneta se projetaram em dilúvio. E o final ainda não chegou.


I

Uma aflição brota do meu peito. A falta de coordenação dos pensamentos absorve meu tempo, consome minhas ideias, limita minhas ações exteriores. Tento associar palavras, construir um bom alicerce estrutural, mas a dificuldade é maior do que o que posso calcular. Milímetros de confusão me separam da lógica e nada posso fazer que possa evitar este mal entendido entre minha ideologia sã e a minha emoção desordenada.

II

Se queres crêr no seu potencial, trabalhe-o com disciplina e coragem, sem medo de errar. Sejas humilde e sereno perante as críticas e saibas discernir entre o verdadeiro e o falso julgamento.
O simbolismo neste pensamento messiânico que se apossou de minha natureza flamejantemente aventureira e nada filosófica, sem causa primária, aparente ou ardente, na verdade me expurga de uma culpa cristã pelo que nem sei ser o que é que quer que seja. Liberta, em transe, sem queixas ou tremedeiras, sem dogmas ou pudor, inebriante em contentamento, salubre em desfrutar, insignificante em seus convexos, fatídica ao transmutar. Passei pelo vale da loucura e não me deixei sucumbir.

III

Frases dispersas em bolos indigestos ao raciocínio. Os ingredientes não se complementam, não há como deglutir sem empapar. A mistura deu em confusão: tremendo pastelão!

IV

Há de se compreender que não ando muito bem da cabeça, não levem em consideração tudo que escrevo. Eu mesma sou uma receita mal elaborada que tinha intenção de ser saboreada, saborosa e digesta ao estômago do mundo. Eis no que deu! Uma massa propensa a fermentar em demasia, que mesmo lavada, amaciada, sempre corre o risco de ser depositária de fungos e apodrecer antes de ser aprovada ou provada por alguém quem quer que seja.

V

Me poupem! Não sou obrigada a ouvir besteiras de outrem. Minha jornada se inicia no final do beco onde os lassos, as lascivas, os lázaros, os insanos, os bestiais, se comungam e se remetem em idas e voltas ao terreno de Hades. Quero mais é me divertir com o que observo do mundo. Poços não faltam, mesmo que vazios. Por isso mesmo, depositem ali sua carga de fezes. "O mal é o que sai da boca do homem".

VI

Oxalá eu possa ter o prazer de ver o mundo acabar. Pode ser a maior experiência de vida a qual uma mente atormentada pelos grilhões das ambiguidades pode sofrer ou simplesmente experimentar antes da dose final. Mas devo querer poder vivenciá-la numa sã consciência de criadora de tormentos por letras atemporais. Será incrível descrever os orgasmos múltiplos dos sadomasoquistas; a exacerbação retórica e retangular dos filósofos em sua última tentativa de comprender e explicar os fatos de um mundo circular e giratório. Onde se encontram o início, o meio e o fim? As bestas não pouparão esforços para se ajoelhar e orar por perdão por suas inquisições pervertidas em nome do Criador; os muçulmanos se ajoelharão tentando encontrar o ponto onde Meca deveria estar, sem saber ao certo se o que procuram é Alah ou as sete virgens prometidas no seu paraíso corrompido pelo aroma queimado de carne.
As crianças estarão a pensar estar em mais um show de efeitos especiais de seus heróis japoneses; os animais continuarão a pastar. Sua sina há muito se tornou fatídica num mundo de misérias onde eles são os principais personagens explorados de uma máquina de moer seres, que respiram o que um dia foi chamado de oxigênio.
Os mercenários não terão tempo nem mãos suficientes para guardar as toneladas de papéis cheios de sifrões que acumularam sugando em conta-gotas o sangue dos seus (semelhantes ?). Os drogados acharão este itinerário da viagem fabuloso, nunca obtiveram tamanha OnDa onde navegar sua insuficiência cardíaca; os jogadores correrão para a última aposta: acaba tudo ou não acaba? Os ditadores acharão em sua insana sede de poder , que poderão controlar o processo e se utilizarão de suas defesas para destruir o que já está por ser detonado sem sua permissão. Pobres almas cegas e solitárias...

VII

Os escritores...estes se regozijarão por mais uma fonte de inspiração; a mídia, infame, maldita, espetaculosa e frenética, tentará confundir nossa visão apocalíptica diante dos trovões de anunciação do final, com flashes de papparazzis em busca do entrevistado mor, para que no Ibope, sua audiência não venha a despencar. De quantos anjos tocando suas cornetas é formada a orquestra celestial?

VIII

Tudo isso me desce como profecia diante das minhas culpas subliminares de coito impregnado de maldições diante do Pai, do Filho e do Espírito Santo...porque somos feitos de mortalidade e carne que apodrece de tão vil... Deus com seus dedos gigantescos manuseando seu fliperama particular. Somos a sua máquina, ao seu dispor. Bolas pré-programadas, bandeiras e túneis, valendo mais pontos que outros. Livre arbítrio. Onde? Porque Moisés foi ele e não eu? Os escolhidos então serão eternamente salvos por serem escolhidos. E eu não fui escolhida por qual razão?

IX

Viajei no tempo. Quero parar de escrever, mas não consigo parar de pensar. Parte de mim se encontra neste planeta. A outra parte se encontra onde não posso identificar por nome ou parentesco definido. Pudera eu, com essa pré-disposição, encontrar em uma dessas esquinas Fernando Pessoa e sair pelos parques e vielas, em sua companhia tão deliciosamente Nata de Belém e aroma de café passado na hora, delirando poesia e desasossego na alma-------------------------
------------------------literatura por todos os poros-----------------------------------------------------
Não possuo esta vocação latente. Eu tento. Às vezes tudo o que vaza de mim é tão medíocre que me analiso terapêuticamente e me julgo masoquista em tentar o que não foi me dado sublimemente. Não fui escolhida. Não fui Camões. Não suo as águas marítimas do descobrimento. Não lambo o sal da língua portuguesa em formação.
Autopiedade? Teimo em escrever. Teimo em querer transmitir. Teimo em querer transmutar alquimicamente o papel em narinas que respiram alma e vida. Sopro de ar.
Tudo é tão insalubre. Nada do que escrevo me dá água na boca ou brilho nos olhos. Tenho a sensação íntima de que nem um doente em estado terminal, teria vontade de sobreviver com esta máscara de oxigênio. Pasto neste sentimento vazio e contínuo, nesta busca desenfreada, tentar me encontrar. Tentar a fórmula milagrosa que possa mover meus dedos, sem tanto sofrimento por cada tentativa inglória.

X

Secou-se a fonte da verdade do meu cotidiano. A verdade temida era outra que não aquela, joguei-a no lixo. Tomou o seu lugar uma energia mais forte e clara, que resolvi definir como verdade primordial. A anterior já não me satisfazia mais. Ficou encalhada num canto empoeirado. Agora foi para onde deveria estar há muito tempo. Não senti pena, não consegui me comover com seus lamurientos pedidos de segunda chance. Falhou tantas vezes antes, que só consegui ser indiferente a ela, com um certo toque de crueldade que eu sabia desnecessário, me despindo da fantasia literata de autora. Sou tradutora, uma traidora do que outros escreveram em primeira mão e tento sempre, eternamente, inutilmente , herméticamente, hermenêuticamente imitar. Para que nos sinais encontrados pelos arqueólogos do futuro, eu possa me enquadrar como possibilidade de escrita. Com gosto de expedição por mares que já foram navegados, mas não explorados da mesma maneira que eu os explorei e provei do seu sal, do seu espírito, do seu ar.

6 comentários:

K@rininh@ disse...

Adorei seu texto Andrea! Parabéns! Remeteu bastante coisa a minha mente!
Em muitos trechos senti como se fosse eu escrevendo... rsrsrsrs
Nossa como eu também adoraria encontrar Fernando Pessoa por aí a flanar... teríamos tanto assunto a tratar!!!
A eterna procura de nós mesmos, as vezes dá um surto na gente que a vontade é de explodir, botar tudo pra fora.
Adorei a comparação de que somos uma receita mal feita, eu acho que minha mãe errou em algum ingrediente, mas ta bom assim mesmo!
eu também de as vvezes me dou uns beliscões pra ver se volto a Terra, porque passo grandes momentos em outros planetas, a passear, sonhar e de repente lembro que é isso aqui mesmo, pra que ficar sonhando, pensando, temos que ter os pés no chão, é uma crueldade isso, maltrata-nos mas, as vezes a vida cheia de ilusão tbm nos faz mal...
Nossa, as vezes tenho tbm a sensação de que nada que eu escrevo é bom, nada me dá brilho nos olhos, nem faz meu coração bater aceleradamente, chego até pensar em parar de postar aqui, porque tenho vergonha, não sou tão alto nível assim como vocês.
Posso até chama-la de Fernanda Andrea Pessoa, a própria.
Um bjão

Andréa Amaral disse...

Karininha querida, quem sabe em outra encarnação eu venha com uma pequena poeira do talento do nosso amado mestre. Como eu mesma disse acima, sou uma falsária tentando imitar algo que não é meu por escolha divina ou transpiratória, como atesta João Cabral. Mesmo assim, agradeço suas palavras gentis. Estamos aqui para nos encontrar nas Letras, não é?

Lohan disse...

Andrea, hoje reservei um tempo especial para ler seu texto. Um texto que requer um cuidado meticuloso. Gostei muito, e fiz uma associação ao Poema de sete faces do Drummond. No caso, o seu com dez faces, rs. Adoro qndo menciona personagens da mitologia grega tbm, isso enriquece ainda mais a leitura dos seus textos. Que a fonte da verdade do seu cotidiano continue secando. Na vida de uma grande escritora como vc, não deve existir nem a verdade, nem o cotidiano. Deve existir a sua verdade, e um mundo surreal, de acontecimentos esporádicos, alternados e alternativos. Grande bj!

Andréa Amaral disse...

Obrigada, Lohan. Não conheço este texto do Drummond, vou procurar lê-lo. Aliás, eu pouco leio poesia. Deveria fazê-lo mais. Minha intimidade maior com este tipo de texto, é com Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos e Vinicius de Morais, que amo de paixão, com toda sua simplicidade. Talvez por isso, seja tão complicado eu escrever poemas. Me sinto meio fora de contexto, Morro de inveja dos poetas....

Lohan disse...

rsrs, não morra de inveja, Andrea, suas poesias tbm são ótimas.
Mas se gosta de simplicidade em poemas, Drummond DEVE ser lido por vc. Mais simples do que ele e o grandioso Poetinha eu até hj não li. Vc deseja algo mais simplório do que esta leitura...

Cidadezinha qualquer

"Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar, amor, cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar...as janelas olham.
Eita vida besta, meus Deus."

Carlos Drummond de Andrade

Um dos meus livros de cabeceira atualmente é a antologia poética do Drummond. Todas as suas poesias presentes num livro que dá vontade de devorar de tão bom. Eis a dica de leitura, rs.
Bjão!

Camila Furtado disse...

Andréa, adorei o texto. Acho incrível que você leia pouco poesia, pois você tem uma forte veia poética, como eu já pude observar algumas vezes. Também adorei as nuances mitológicas e a aura mística do texto... Gosto do vocabulário, tão elaborado. Parecem frutos escolhidos e colhidos cuidadosamente. Acho que é natural essa descrença no que nós mesmos escrevemos. Eu escrevo por necessidade, sinto um comichão de pegar uma caneta e papel ou digitar num teclado de computador. Mas no fundo é pura teimosia, porque nunca acho que meu texto está bom. Não sabemos reconhecer a arte em nós, somente nos outros. Estranho isso, não? Enfim... Continue escrevendo brilhantemente como sempre fez, ainda que pareça algo desimportante, para nós é um deleite de leitura. Bjs!