terça-feira, 20 de outubro de 2009

Janelas abertas, por Reinaldo Kelmer

Este texto foi escrito pelo querido professor Reinaldo Kelmer. Um grande literata, que espontaneamente resolveu escrever para o nosso blog. Em nome de todos os autores s/a, agradeço a ele por ter nos concedido este prestígio. Aos professores que se interessarem contribuir como ele, as portas estão abertas!

Boa leitura a todos!








Os olhos corriam pelas janelas misteriosas do trem. Janelas abertas e fechadas que traziam expressões diversas. Uma, porém, chamou-me a atenção pela insistência num lugar perdido. Mirava o distante numa acompanhada solidão. Jamais tinha visto alma tão inexpressiva. Era uma janela aberta ao nada; contemplava a não-existência, o não-ser absoluto de um mundo fora do mundo. Seria possível?
No entanto, lá estava aquela janela aberta. Estivesse fechada, nenhum efeito faria, nenhum mal ou bem, nada. Estações andavam lentamente empurrando o comboio da vida. E vidas. A janela mantinha-se muda. Esqueci-me dela um instante para esquecer a obstinação que me atormentava; passei por outras menos importantes, talvez, e menos comunicadoras.
Libertei-me, enfim.
Percebi ser bom observar as janelas fechadas, pois nada dizem, nada expressam; não me envolviam. Elas não me apresentavam movimento. Não moviam sonhos e escondiam o ouro do sol da alma. Súbito veio-me a idéia de fechar, também, minhas janelas; mas, antes, resolvi olhar para a estação que ficara para trás e a próxima. Lembrança e sonho, rio que afaga e devasta, fecunda e destrói. Minha vida passou instantânea em quatro estações e o convite foi inevitável: voltar os olhos para a janela dos primeiros momentos; aquela da solidão.
Acomodei-me. Acompanhei-a. A viagem tornou-se serena e abstrata. Desci na estação da alma. Todas as janelas se abriram em sincronia e os sonhos alcançaram o absoluto fantasiado; tudo-nada. Então a janela sorriu-me em brilho verde sincero e amante. Doce cumplicidade que ficou na última plataforma. A estação da vida viajou sem volta. Restaram apenas os trilhos da alma a viajar em direção ao brilho verde de seus olhos cristais.
E tais sonhos! Breve viagem no comboio de cordas fingindo-se coração. Breve vida que se perde num piscar de olhos, num fechar de janelas. Saudade do último namoro dos olhos na perdida plataforma da última estação.

7 comentários:

Andréa Amaral disse...

Uma janela atemporal...ora vislumbra paisagens, ora vislumbra detalhes. Ora vislumbra movimentos, ora vislumbra momentos. Nossos olhos enxergam o que o coração quer ver. Sua viagem é pura emoção e sentimentos, great teacher. Adorei.

Camilíssima Furtado disse...

Estou aqui escolhendo palavras que sejam suficientemente claras para expressar o quanto gostei deste texto... É difícil elogiar algo escrito por uma pessoa de alma tão bela quanto a tua, Kelmer, é difícil encontrar palavras à altura...
Me identifiquei muito. Mais do que ler, tive a sensação de ser lida. Posso dizer que às vezes me sinto como a janela inexpressiva, que contempla o nada, solidária à solidão, sou muito assim, tem horas...
Que bom ter seu texto aqui no Autores, espero que seja a primeira de muitas outras vezes! (só assim posso matar a saudade do mestre, rs)
Beijinhos...

Lohan disse...

Kelmer, conforme já lhe disse no e-mail, sua ''viagem ao centro de si mesmo'' foi algo... Insólito, profundo. As janelas de minh'alma se abriram todas para receberem esta linda mensagem.
Parabéns, professor. Q venham mais textos!
Abraços

Erlanem Araújo disse...

Grande Rei.

Deixa-me desembarcar desta viagem, obrigada por levar-me contigo.
Nesta breve viagem, percebi tbém que minha Minha vida passou instantânea em quatro estações, já é 2010.rs
O texto é assim , né mesmo? Vivo, progressivo, quase que individual. Tirei do texto minhas reflexões. Das janelas deste trem enxergamos o que nos é possível ver.

Obrigada Mestre,bjo no coração.

Anônimo disse...

Como aluna, sinto-me honrada em tê-lo
como professor e como simples leitora
deixei-me ser conduzida até a janela
por onde pude observar toda a minha vida.
Parabéns querido professor e poeta!

Vitalina Fernandes

Anônimo disse...

Obrigado professor por mais um texto belíssimo!!! Sinto-me honrada por ter um professor tão talentoso.Parabéns!!!


Eliane Peixoto

Anônimo disse...

Meu professor, lendo este texto que tive o privilégio de já tê-lo ouvido por ti, declaro a imensa saudade de momentos vividos comtemplados pelas janelas da vida. Parabéns, querido professor!