sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marcas do que se foi...

Já faz quase dez anos que aconteceu, mas ele até hoje lembra dela, nunca mais se viram, a vida de cada um tomou um rumo, ele casou tem filhos e vive bem com sua família, ela, ele não sabe, mas de vez em quando ele se pega pensando nela e fica se perguntando se ela pensa nele também...

Tinham trabalhado juntos num evento por uma semana, ele supervisionava o stand da empresa em que trabalhava e ela era a promotora contratada, ela era quem recepcionava as pessoas, apresentava os produtos enquanto ele tomava as decisões, atendia os clientes e fechava negócios, logo no início, ainda na montagem do stand, ele estava lá com sua equipe quando ela chegou de táxi, até hoje ele se lembra de quando ela saiu daquele carro, volta e meia se pega lembrando daquela cena, ela vestia uma bermuda jeans até os joelhos e uma blusa branca levemente transparente com um colar por cima, seus cabelos castanhos balançando ao vento, óculos na cabeça e uma sandália que amarrava na perna, ele mesmo lembra que teve que se tocar e parar de ficar olhando dando aquela bandeira toda, pois era ele que tinha de falar com ela, era ele o responsável pelo evento e ela era a contratada, tinha de passar as orientações, apresentar os produtos, enfim ele ia ter de lidar diretamente com aquela mulher que lhe encantou tanto logo ao sair do carro.

Encheu-se de coragem e foi recepcioná-la, já foi prevenido, pois sabia que já estava diferente, aquela mulher desconhecida com aquele sorriso enigmático e ao mesmo tempo angelical tinha deixado o jovem supervisor de “cabeça pra baixo”.

Quando ele chegou e se apresentou, ela lançou-lhe um olhar que ele chegou a ficar arrepiado, no momento em que seus olhares se encontraram os dois sorriram ao mesmo tempo, numa sintonia que foi se tornando uma afinidade mútua, em pouco tempo ela já tinha aprendido tudo que tinha de saber da empresa e dos produtos em exposição e os dois já estavam falando da vida como se eles se conhecessem há anos, logo saíram para almoçar e já no carro ela se comportava como se já tivesse entrado naquele carro várias vezes, ele ficava impressionado com ela, como ela era inteligente, ele ficava a observando falar, olhava para sua boca, para os seus dentes e imaginava que gostoso seria beijar aquela boca bonita, grande, com dentes tão brancos e tão perfeitos, mas ele não pensava em cantá-la ou fazer piadinha, estava vivendo momentos tão bons que ele tinha medo de ser mal interpretado e estragar tudo, acabar com aquele clima.

Ao fim do dia ele foi pra casa e não conseguia dormir, ligou a TV, viu o jornal da noite, o programa do Jô e nada,quando fechava os olhos ,só via a imagem dela saindo do carro, ela almoçando com ele, ela olhando para ele,ela sorrindo...

Que sorriso mágico, encantador, contagiante. Ele pensava e queria que chegasse logo a manhã para que ele pudesse estar com ela de novo.

O dia seguinte chegou e cedinho ele já estava lá, nem precisava chegar tão cedo, pois podia deixar a abertura do stand com os promotores, mas ele tava lá,marcando, olhando lá pro começo da rua para ver se ela estava chegando e finalmente ela apareceu dessa vez ela vinha de calça jeans e uma blusa rosa chá, virou a esquina e vinha caminhando com calma e leveza, logo que ele a viu, saiu de onde estava, pois não queria que ela notasse que ele a estava esperando,ficou lá dentro do stand e fingiu surpresa ao se deparar com ela, arriscou ainda dizer que ela estava bonita e ela sorriu com certa modéstia (em pensamento ele dizia que ela estava linda, radiante, exuberante e tantas outras palavras que não conhecia para expressar o que estava sentindo).

Este dia foi mais agitado, não conseguiu muito estar com ela, pois tinha de atender vários clientes e ainda passar no escritório para pegar documentos,quando ele voltou,já era hora do almoço e quando estacionava o carro pensava que ela já tinha saído para almoçar, estava remoendo aquilo e se lamentando quando escuta aquela voz doce chamar seu nome, ele estava tão distraído que tirou o pé da embreagem e o carro deu um solavanco e chegou a dar uma leve batida no carro da frente, nada de grave, só o suficiente para disparar o alarme e fazer um alarde, coisa que ele detestava.

Após resolver aquela situação, pedir desculpa ao dono do carro e combinar de pagar qualquer despesa que ele conseguiu sair dali para almoçar, mas, contudo estava feliz, pois ao seu lado ela estava sentada e ainda ria de toda aquela situação.

Enquanto dirigia ele olhava para ela com o canto do olho,quando o sinal fechava, ele olhava mais e ela fingia que não via,mas ele sabia que ela via,sentia que ela gostava daquele joguinho. Ele estava totalmente envolvido por aquela mulher que conhecera há dois dias.

E a semana foi transcorrendo sem problemas, nosso amigo totalmente entorpecido por ela e já nervoso com aquela situação, pois uma informação muito importante ele havia no mínimo omitido e no ultimo dia do evento, quando novamente estão almoçando ela olhando diretamente em seus olhos pergunta-lhe:

- E essa aliança aí na sua mão?Você não vai falar nada?

Ele chegou a se engasgar com a comida, passara uma semana vivendo praticamente um sonho, e realmente ali, naquele momento era a hora de voltar para realidade, pois sim, ele tinha uma noiva, uma mulher linda e companheira que há tempos já vinham construindo um relacionamento sério, com cumplicidade e amizade, já estavam juntos há mais de dois anos e ele nunca tinha sequer pensado em ter outra mulher, mas naquela semana tudo ficou diferente para ele, viu toda a sua segurança ficar abalada, viu que toda sua construção não tinha a base sólida que ele imaginava. Todos estes pensamentos passaram por sua cabeça naquele instante,

neste mesmo momento se sentiu um canalha perante as duas,não tinha o que fazer não tinha o que responder,se viu numa situação difícil consigo e mesmo e disse:

- Eu não sei.

Ela olhou bem fundo em seus olhos e ele ao olhar também para seu rosto não teve coragem de encarar por muito tempo, abaixou o olhar e continuaram almoçando.

A partir dali o encanto estava quebrado, não falaram mais nada durante o almoço e seguiram para o evento que já estava em seu encerramento. Ele estava desesperado, pois sentia que eram os últimos momentos com ela, no fim do evento eles ganharam alguns brindes das outras empresas e ela havia pedido para ele guardar os dela no carro, após o encerramento, na hora de irem embora os dois vão caminhando juntos em silêncio pela rua escura e arborizada até o carro dele para ela pegar suas coisas.

Quando chegam ao carro eles se aproximam e novamente se olham sem nada dizer, ficam assim um tempo, se observando, cada vez mais perto e vão sentindo o calor de seus corpos e chegam a se encostar, chegam a sentir a respiração, o hálito de cada um bem pertinho e ele mais uma vez não consegue levar adiante, desvia a cabeça rapidamente e abre o porta malas do carro para que ela pegue suas coisas, ainda sem jeito oferece uma carona que ela recusa e logo ela vai caminhando,quando chega à rua principal ela faz sinal para um táxi que imediatamente para e antes de entrar, lança-lhe aquele olhar que o havia conquistado dias atrás.

Ele ficou olhando ela ir embora sem nada fazer,atônito,besta,com raiva de si mesmo.

Nunca mais a viu, nunca mais ela saiu de sua cabeça.

8 comentários:

Camilíssima Furtado disse...

"As paixões são como as ventanias que incham as velas do navio. Algumas vezes o afundam, mas sem elas não se pode navegar." Voltaire
Isso diz tudo... por enquanto.

Andréa Amaral disse...

Sempre que não fazemos algo que gostaríamos muito de ter feito, ficamos com a impressão de não ter chegado ao final da história. Poderia ter sido assim ou assado. E se... Às vezes nos arrependemos, às vezes não. Mas nunca nos esquecemos, justamente por ter ficado o gosto de quero mai ou melhor, qual seria o gosto?

Lohan disse...

Ótimo texto, meu caro John!
Esta mulher representa todos os nossos desejos irrealizáveis, devido às circunstancias que estão aquém do nosso controle. Uma vida paralela que, se por ventura for tomada como a vida principal, tudo que antes foi alicerçado pode desmoronar em poucos segundos...
Mas como bem disse a Andrea, se esta pessoa for mesmo uma peça de encaixe no seu destino, será inevitável a presença dela em sua vida. Uma hora ou outra, ela voltará. Como bem disse Fernando Sabino, "se não deu certo ainda, é pq ainda não chegou ao fim"...
Abraços amigo!

João Luiz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Luiz disse...

rsrsrsrs

Por favor amigos,não me comprometam,isso é Literatura,ficção,quem ta falando é o "Eu Lírico".Lembrei até daquela vez que demos parabéns a Juliana pela sua filha "Luiza"...rsrsrs

Abraços!!!

Andréa Amaral disse...

João, quem tá se comprometendo é você mesmo...ninguém disse que não é ficção(?!#@%¨&*(()

Lohan disse...

É João!! Ngm disse nada! rsrs

Simone Prado disse...

Muito legal ter lido esse texto,João.
Parabéns.
Amores mal resolvidos é assim... uma dor boa que carregamos por estimação, por naõ ter se consumido de fato, nesse caso, ainda há amor que não se findou, mas que passeia num eterno platonismo.
Abraços e continue escrevendo.