quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sobre a preservação de raças favorecidas na luta pela vida.

"A luta pela existência é a causa de toda a variabilidade existente entre as variedades biológicas, as espécies, os gêneros." (Charles Darwin)




Hugo não parava de se olhar no espelho. Narcisista de parto, só sabia olhar para seus próprios dedinhos enquanto bebê. Para fortalecer esta fraqueza de caráter, sempre foi bonito. Não extraordinariamente belo, mas o suficiente para se destacar entre os de beleza comum.
Mimado pela mãe e pela avó, só conheceu o pai através de uma fotografia. Sua mãe ficara viúva quando ele tinha apenas três anos de idade. Seu pai morreu num acidente de moto. A única foto que sua mãe possuía do seu pai, ele guardava dentro de uma bíblia. O pai sentado na moto, vestido com uma jaqueta de couro, cabelos penteados para trás, pinta de James Dean: olhar voluntarioso, postura rebelde, com os braços cruzados no peito e pernas bem abertas. Puxou dele a beleza e o charme.
Hoje, aos vinte e nove anos,  Hugo não tinha moto, nem jaqueta de couro, mas era ambicioso e gostava de coisas boas, caras, conforto, sem ter que se esforçar muito pra consegui-las. Ele era mais um retrato de sua geração.
Passava as manhãs na praia. Enquanto caminhava ou jogava vôlei com parceiros de um nível social bem diferente do seu, adquiria um bronzeado  acobreado, daqueles de enlouquecer homens e mulheres, enquanto desfilava e exibia seu corpo sarado, à  custa de  muita musculação à tarde. Se auto-intitulou "modelo", como todos os que são belos e sem profissão definida o faziam. Terminou o Ensino Médio com a convicção de que nasceu para se dar bem, sem grandes traumas ou sentimentos de culpa em relação  a muitas coisas na vida. Afinal, não teve nenhum modelo de grande caráter em quem se pautar. Só fazia questão de não roubar e nem de  usar drogas. Sua mãe e sua avó foram felizes com estas prerrogativas na sua educação. Além do mais, a própria vaidade se incubiu de fazer com que ele tivesse aversão a qualquer coisa que pudesse macular sua aparência saudável.
Foi assim que para custear suas roupas de grife, suas idas às baladas mais interessantes, suas tardes de malhação na academia da zona sul, seu ap de dois quartos em Botafogo, resolveu ser garoto de programa. E dos mais requisitados. Seu nome de guerra: Apolo.



Iracy não podia mais se conter dentro de si mesma. Seu ego estava mais inflado do que os silicones que havia colocado nos seios e nos glúteos. Sessenta e oito anos, nove meses e dezenove dias...Sua obsessão por parecer mais jovem, bonita e sarada a levou a extremos jamais sonhados por sua mãe ou avó em sua idade.
Ao ser abandonada pelo marido a quem se dedicou a vida toda, por uma mulher quarenta anos mais jovem que ele e com a mesma idade de uma de suas filhas, ela resolveu iniciar um tratamento psicanalítico para se conhecer. Sua busca por respostas a conduziu por becos e ruas sem saída dentro de si mesma, enquanto seguia esta viagem interior na garupa de uma Harley Davidson. Descobrira dentro de si, uma mulher cheia de atitude, rock'n roll e fogo, muito fogo, capaz de incendiar uma cidade em questão de segundos. E a partir de uma sessão em grupo, pelo método Reichiano, descobriu o que era gozo, orgasmo, masturbação, voyerismo, tudo ao mesmo tempo e a partir deste dia, seu nome passou a ser Jezebel, para todos que contratava para lhe dar prazer.



E foi assim que ela e Hugo se conheceram: ela, Jezebel; ele, Apolo.


Seu Arantes não tinha do que reclamar da vida. Empresário de sucesso no ramo têxtil, adquiriu um patrimônio sólido e expansivo o suficiente para deixar sua ex-mulher feliz da vida com a recheada pensão a qual tinha direito após um divórcio conturbado. Além da pensão vitalícia , o divórcio lhe rendeu quatro imóveis comerciais supervalorizados, dois automóveis, três casas e cerca de 50% das ações de sua empresa.
Agora ele estava livre, ou melhor, completamente livre. Vinha de um tempo  em que o homem ter relações extraconjugais e sua esposa fechar os olhos para isso, era comum. O que valia era manter a instituição matrimonial. Era importante não deixar os filhos se sentirem humilhados por terem pais divorciados. Graças à Deus, conseguiu chegar ao tempo em que o divórcio se banalizou e filhos não seguram casamento. Ainda bem que podia viver aos setenta e dois anos, um romance de invejar qualquer homem. Sua atual companheira tinha a idade de uma de sua filhas, quarenta anos mais nova, mas ele não se importava e nem era ingênuo de pensar que ela só estava com ele por amor. Aliás, nem ele mesmo estava preocupado com isso. Amor ele tinha de sobra através dos netos lindos que seus três filhos lhe deram. O que queria agora, era curtir a vida, com muita disposição , bom humor e sexo, com a ajuda milagrosa do Viagra.
Assumir suas rugas, seus cabelos brancos , uma barriga saliente e pele flácida, não mexiam com sua vaidade. Para ele, ser belo era poder ter a oportunidade de desfilar com Jennifer, a beldade que ele bancava em um flat na Barra da Tijuca. Aparecer em publico com aquela jovem, o tornava mais viril e poderoso, e ele gostava de se mostrar assim.


Jennifer tinha trinta e dois anos de vida bem vividos. Educada em uma família de classe média alta, mas muito conservadora, resolveu dar seu grito de liberdade quando estava então no segundo ano da faculdade de Direito. Percebeu que aquela vida não era o que havia pensado para si mesma. Seguir o exemplo de sua mãe, uma Amélia de corpo, alma e mente, não estava nos seus planos ambiciosos de conquistar o jet set internacional, frequentar as melhores festas, recheadas de pessoas bem sucedidas e belas, ser fotografada por paparazzis, e de quebra, quem sabe, se tornar uma atriz de sucesso. Atributos físicos não lhe faltavam. Descendente de alemães, alta, com olhos azuis, nariz fino, lábios grossos, cabelos lisos e muito loiros, percebeu logo que se tornou mulher, o quanto provocava os olhares de cobiça nos homens.
Contudo, era rigorosamente controlada por seu pai, um homem rude no falar e no agir. Não podia sequer emitir opiniões próprias sobre os assuntos mais banais, e cursar Direito, foi quase uma imposição por aquele que fazia questão de jogar em sua cara tudo o que sempre fora gasto em sua educação, como se ela fosse um patrimônio na bolsa de valores e não um ser humano com vontade própria. Nem o que ela mais gostava de comer ou sua cor favorita, seu pai sabia. Resolveu então secretamente juntar o dinheiro de sua mesada e da faculdade particular que ela mesma se incubia de pagar através de boleto, e aos vinte e um anos, se mudou para o Rio de Janeiro. Saiu do Sul, num dos poucos dias de calor. Abraçou a mãe com lágrimas nos olhos e um pedido urgente de atitude. A mãe não entendera o motivo para tal pedido, mas quando achou a carta que Jennifer deixou explicando os motivos para sua partida, entendeu o que quis dizer e continuou no seu mutismo acomodado.
No Rio de Janeiro, as coisas não se encaminharam do jeito que ela achou que seria. Sua beleza, sem dúvida, abriu-lhe as portas: as portas para a prostituição. Se auto-intitulou modelo, como fazem as belas que nunca trabalharam na vida e nem têm ocupação definida. Com sua falta de experiência, conseguiu trabalhar inicialmente, como modelo fotográfico para catálogos de lingerie e ganhava uma mixaria.
Alugou um quarto em um pensionato para moças, e lá conheceu duas garotas de programa, com histórias parecidas com a sua. Elas insistiam em dizer que estavam ganhando muito bem para divertir velhos ricos em busca de sexo. E após muitos anos entre programas dos mais variados, com mulher, homem, casais, grupos, foi convidada para atuar em filmes pornográficos. Aceitou com a condição de que estes filmes só seriam vendidos no exterior. Nunca mais ligou para os seus pais.
Conseguia bancar sessões de drenagem linfática, limpeza de pele, escova progressiva, hidratação nos fios, mudanças de corte e tintura nos cabelos, consumo de suplementos, academia de ginástica, branqueamento nos dentes e todas as roupas, sapatos, jóias e perfumes , além do aluguel  na zona sul dividido com mais duas meninas e percebeu que era uma trabalhadora incansável e sem futuro....os anos iam passando, as despesas aumentando. Já não era mais tão jovem, não era "novidade" e também ainda não havia começado a juntar seu pé-de-meia. Um relacionamento "normal" era inconcebível. Filhos, nem pensar. Que homem aceitaria sua condição de prostituta? As poucas vezes em que tentou um relacionamento, teve que mentir e não conseguia manter uma vida assim. Os homens que aceitavam esta condição, eram viciados ou gigolôs. Resolveu então que investiria tudo para ser amante fixa de somente um homem, de preferência com a idade do seu avô.
Até que um dia foi contratada para entreter convidados numa festa particular promovida por uma grande multinacional para empresários do ramo têxtil.


E foi assim que ela e Arantes se conheceram: ele, Luis; ela, Ágata.


CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.

7 comentários:

piedadevieira disse...

As histórias da vida real...
Muitas vezes achamos que trilhar por certos caminhos não vai dar certo.Quem sabe o rumo certo? Quem pode dar a receita ideal?!...
Quero ver o final da história para concluir meu pensamento.
Beijos.

João Luiz disse...

Mais uma história eletrizante em capítulos,agora pela nossa talentosíssima Andrea.
Muito bom,já começou bem traçando a realidade atual nua e crua,além disso seu toque refinado faz com que o texto se torne muito agradável de ler,suas descrições me fazem visualizar as personagens com muita facilidade.

Parabéns!

Esperamos pelos próximos capítulos

Lohan disse...

Salve, salve!!
Andrea, agora eu sei o que é esta expectativa q vcs tanto comentam nos capítulos da minha história. Incrível!
Acho que esses personagens, tão bem delineados por vc, irão se cruzar; todos eles. E todos eles com vidas bem extravagantes, diga-se de passagem.
Um retrato nu e cru da vida real. Sem mocinhos, nem vilões, mas sim, pessoas. Seres humanos.
Q vc seja feliz na continuidade da sua história, Andrea! Parabéns!

Andréa Amaral disse...

Hoje em dia os extravagantes são os ditos "normais". E normal se tornou esta busca desenfreada pelo elixir da juventude e beleza, mesmo que artificial, o prazer no sexo às custas de dinheiro e remédinhos excitantes e o consumismo caro e luxuoso às custas da venda do corpo.
Pena que eu não tenho dinheiro pra comprar tudo isso.
Meu sonho de consumo é um harém.kkkkk!

Camilíssima Furtado disse...

Já estou curiosíssima pra saber da vida desses personagens... Com certeza, de um modo ou de outro, eles já são interligados, mas não vejo a hora de saber como isso se desenrolará dentro da trama que você está bolando. Com sua criatividade, talento e irreverência, tenho certeza absoluta de que algo muito bom está por vir. Um harém não seria nada mal, hein...

Thaty Louise disse...

Adorei, Andrea!!!!!!!

Ana Beatriz Manier disse...

Caminhos tortuosos esses, mas que não deixam de ser válidos quando se precisa deles.
O importante é se expor a si mesmo, se conhecer, conhecer o que há e optar entre partir e ficar.
Vc é bárbara nas suas narrativas.