domingo, 25 de outubro de 2009

Tempo perdido


Hoje não quero escrever sobre corações apaixonados, sobre corações dilacerados, sobre amores impossíveis e nem amores perfeitos. Também não quero "cometer" nenhum crime, nem discorrer sobre mentes perturbadas, personagens vingativos ou sádicos. Hoje, e somente hoje, eu quero encontrar um outro sentido...

Nunca entendi as razões para as coisas acontecerem do modo como sempre aconteceram em minha vida. Nunca entendi o fato de não ter minha mãe por perto, sabendo que ela estava viva e bem. "Você é muito pequena, quando estiver adulta, você entenderá", diziam. Aos três anos de idade, parecia um total absurdo a ideia de uma mãe deixar de ver sua filha. Aos vinte oito também parece. Mas foi assim, desde de muito nova tive que conviver com a ausência - sem explicação alguma - e tive que entender que isso seria pra sempre.

Deus, de algum modo, quis compensar essa falta, colocando em minha vida um anjo. Um anjo disfarçado de mãe. Uma mulher capaz de amar ao que todos repugnavam. Uma mulher com um coração infinitamente maior do que qualquer orgulho ou vaidade. Uma mulher forte e segura, com coragem suficiente para tomar pelas mãos uma filha que não era sua e criá-la como tal. Do mesmo modo estranho, Deus foi estreitando nossos laços, ao ponto de nos tornar semelhantes em vários aspectos, inclusive físicos.

Hoje olho para trás e vejo que ganhei infinitamente mais do que aquilo que pedi. Uma família linda, com meu pai e irmãos, que são parte fundamental do que sou. E uma mãe, no sentido verdadeiro da palavra. Uma mãe que passou noites acordadas, abrandando minhas febres. Uma mãe que me preparou bolos de aniversário e compreendeu o que se passava em meu coração. Essa mulher me fez entender o sentido verdadeiro da palavra mãe. Sem ela, seria imposível que eu fosse também uma boa mãe.

Hoje me sinto novamente como aquela pequena criança, que não sabe o que fazer. Sinto-me perdida ao vê-la deitada numa cama de hospital. Sei que isso é passageiro, sei que não há de ser grave e que em breve estaremos sorrindo, juntas novamente. Mas é que me incomoda não poder livrá-la da dor que sente, do mesmo modo que ela fez comigo, tempos atrás.

A vida é estranha e engraçada. Esperei durante anos por algo que hoje não tem a menor importância pra mim. Hoje percebo que o que mais me importa sempre esteve ao meu lado. Hoje sou grata à mulher que me trouxe à vida e minha gratidão por ela termina aí. Mas sou infinitamente grata à mulher que me trouxe o real sentido de viver, aquela que tornou possível o meu existir, a minha mãe, especial e única.

"Todos os dias quando acordo
não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo..."



3 comentários:

Andréa Amaral disse...

Como sua alma é bondosa, Camila...você ainda sente gratidão por quem te pôs no mundo? Eu nem isso sentiria. Mas Deus é bom. Sua mãe existe e está viva e você pôde amá-la e tê-la por perto todos estes anos para ser seu exemplo e seu esteio. Talvez se você tivesse sido criada pela que te gerou, você hoje não seria a pessoa que é. Ou talvez você fosse quem você é, mas cheia de revoltas, humilhações e tristezas. É...pensando bem, você deve agradecer-lhe mesmo, por ela ter tido a frieza de perceber que se tivesse ficado contigo, também não seria uma mãe pra você. Um beijo. Espero que sua mãe fique boa logo.

Lohan disse...

Mais uma beleza de texto, Camila. Singelo, como o carinho de uma mãe, seja ela biológica, ou não.
Vc tem mesmo um bom coração... Tbm não sei se, em seu lugar, sentiria gratidão por aquela que me pôs no mundo - apenas isto. O que importa é ensinar a viver.
Bjs, e felicidades!

Thaty Louise disse...

Nossa, sem comentários...
TOTAL identificação com o texto!
Maravilhoso!