terça-feira, 3 de novembro de 2009

Noite

Eram 3 da madrugada, quando todos dormiam. Com um cuidado e agilidade impressionantes ela se esgueirava entre os vãos das telhas, sem um ruido sequer, em poucos minutos chegou à parte mais alta do telhado, estava livre agora.

Sentou-se com cuidado e pôs-se a observar a noite, o vento batendo-lhe docemente à face, procurava formas nas nuvens, nas casas, nas fogueiras dos andarilhos, mas acima de tudo pensava, deixava seu corpo por instante e voava até muito longe, no espaço e no tempo. Gostava desse modo de agir despropositalmente como se ainda brincasse rodopiando pelos corredores de uma escola primária, alimentar sua sensibilidade com coisas mais simples, apesar de tais momentos serem mais raros desde que as escolhas se tornaram difíceis... mas sentia-se livre o suficiente para olhar a noite, talvez imaginar-se em cada lugar onde não esteve ou lembrar de seus quatorze anos quando as coisas pareciam certas e boas. Antes lembrava de como as coisas eram e chorava olhando as ruínas, mas agora o que restou da cidade já não lhe intimidava.

Sentia-se diferente esse dia, parecia mais decidida, e algo impelia-lhe a pensar no futuro, coisa que evitara até então, ainda retia-se entre permanecer viva simplesmente e usar sua vida para algo maior, sabia que dificilmente lhe entenderiam em qualquer uma das escolhas, mas também sabia que podia conseguir em qualquer delas, exceto se desistisse... Talvez por isso aquele medo lhe acometia, entendera seu jogo, isso que ele queria , faze-la desistir para que não pudesse... Mesmo assim ainda não compreendia como o nada que tinha a perder parecia tão precioso.

Imaginou-se descendo pelas calhas, ganhando as ruas e o mundo afora, mas logo veio o medo, não à noite pelo menos. Mesmo assim não deixou de imaginar-se correndo até algum lugar verde e feliz, sem bombas nem sangue, enquanto passava pelas ruas em direção a seu paraíso, também passava pelas telhas em completo silencio. Quando chegou ao corredor, abriu os olhos, pensou que já deviam ter percebido sua ausência, apressou-se silenciosamente e desapareceu na escuridão.

3 comentários:

Andréa Amaral disse...

O medo é o sentimento mais paralizante que existe. Nos torna reféns de nossas próprias alucinações. Nos torna peças de museus apegados ao passado e àquilo que nem nos faz falta. seu texto retratou muito bem este sentimento tendo a noite como pano de fundo. Parabéns. Gostei muito.

Sidarta disse...

Mauri, suas palavras vieram em boa hora. Principalmente o penúltimo parágrafo. Estou passando pelo que descreveu.

Fiquei pensando se o texto não fala de uma alma que, no meio da noite, se separa do corpo e começa a divagar por aí.

Depois pensei em alguém que deseja liberdade, vislumbra um novo horizonte, mas tem medo do que possa deixar para trás, mesmo que seja... nada.

Um texto que pede para o leitor concluir, acho interessante construções assim.

Seja bem vindo!

Obrigado por suas palavras.

Mauri A. Oliveira disse...

Andrea, obrigado! O melhor icentivo a continuar é saber que agradou a alguem :)
Sidarta, que bom que esse texto foi util, e obrigado, é uma grande honra postar aqui no meio dos grandes :P