terça-feira, 22 de junho de 2010

Vício


Eu num café de esquina, sentada de frente para um capuccino que teima em não esfriar e com jeito de quem esqueceu o sorriso em algum lugar do passado.

Você encostado num balcão de bar, bebendo uma cerveja capaz de congelar os órgãos e com um jeito de quem sabe exatamente onde o sorriso se perdeu.
O copo já quase vazio, a blusa de lã que quase te aquece, assim como meu cachecol, que quase abraça meu pescoço.
E me vem aquela música... Aquela música, que um dia colocou nosso olhar na mesma direção. Lembra? Unidos pelo último disco da prateleira. Claro que lembra! E o disco ficou comigo, no fim das contas. Como se ele pudesse me servir de algum modo sem você...
Com os olhos fechados me pego a imaginar que esta noite eu poderia cantar para você, do jeito que você sempre gostou. Eu e meu violão num tributo a você, a nós dois.
Eu, na crueza de estar sóbria, sentada com minhas pernas cruzadas e pose de moça comportada, travo internamente uma luta épica para não dizer teu nome em voz alta, para não dizer aos estranhos ao redor que estou infeliz, e que eles estão diante de um corpo desprovido de alma.
Você com a bebida, tentando fazer do bar um lugar mais legal do que a tua cama cheia de memórias. Auto flagelo para chamar a atenção de ninguém senão você mesmo.
Talvez precisemos descobrir juntos que não há café ou lã que aqueça, não há bebida que esfrie, não há palavra capaz de diminuir o que nos uniu desde o primeiro instante.
Até que chega a mim um sujeito. Chega exato no meio do refrão imaginário, em minha parte favorita, só pra me dizer que você de fato ainda existe, não só dentro de mim. Que acabara de te ver num bar, encostado numa mesa de sinuca, na companhia de estranhos, muito calado, fumando e bebendo.
Excitação contida. Sorriso involuntário. Não pela mensagem em si, mas por ouvir teu nome, é ainda mais bonito quando dito por outras pessoas. Sei agora exatamente onde te encontrar e meu faro felino não falhou, está perto... Despeço-me da utopia, pago a conta, mordo os lábios tentando disfarçar o sorriso que insiste em escancarar no meu rosto. Pressa, urgência.

Amor, apaga o cigarro, põe mais um copo na mesa, prepara a vitrola, que eu tô chegando...

3 comentários:

Marina disse...

Será que encontrará o sorriso perdido? Lindíssimo texto.

Lohan Lage Pignone disse...

Camilíssima! Com sua estétia literária sempre em forma! :)

É mais e mais e mais do mesmo falar da sua capacidade ímpar de descrever fatos, momentos, traços faciais, desejos. É um vício ler você.

E esse capuccino ainda não esfriou...

Elis Barbosa disse...

Seu texto trouxe uma memória guardada naquelas caixas que quase nunca abrimos... quando da minha separação mais doída, eu fui, num daqueles dias que a abstinência do outro espreme os orgãos por dentro, ao CCBB (RJ), onde vivi marcas eternas, para ver se ocupando o espaço querido reavia alguma coisa do meu amor. Fiquei sentada uns minutos no hall de entrada, num desespero tão insuportável que perguntei a um dos seguranças se por acaso ele tinha visto passar por ali um rapaz muito loiro, de cabelos compridos, talvez usando blusa de flanela. Ele me olhou confuso e penalizado, aquela era a descrição vaga que identificava bem o perfil da maioria dos rapazes universitários que frequentava o lugar. Disse que não, não tinha visto quem eu procurava. "Claro... desculpe", respondi num misto de vergonha e desgoverno. Aff, era dor das boas!

Beijos,
Elis