sábado, 5 de junho de 2010

Vinicius de Moraes, o Orfeu brasileiro

Saravá, poetinha! Mas... poetinha? Que alcunha indigno concederam a tão grandioso artista. Carinhoso, porém indigno. Vinicius é um “poetão”.





Tomando como análise uma de suas obras, o Soneto de Orfeu, observemos alguns de seus traços característicos, como a estrutura da qual fazia uso com constância, sua musicalidade e sua temática. Eis o soneto:

“São demais os perigos dessa vida Para quem tem paixão, principalmente

Quando uma lua surge de repente

E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar, que atua desvairado

Vem unir-se uma música qualquer

Aí então é preciso ter cuidado

Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música

Luar e sentimento, e que a vida

Não quer, de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:

Tão linda que só espalha sofrimento,

Tão cheia de pudor que vive nua”.

A estrutura deste poema é de recorrente uso nas obras de Vinicius na segunda fase do Modernismo no Brasil. Segundo Afrânio Coutinho,

“... as experiências formais se fazem numerosas – no soneto, no verso curto, no redondilho, no decassílabo, até no alexandrino – e evapora-se o tom merencório, a dicção etereamente grave da Primeira Fase, para dar lugar a uma expressão colorida com os sestros do local, do transitório, do compactuante com a realidade em torno”.

Nesta poesia, em especifico, Vinicius se utiliza do Soneto italiano ou petrarquiano, o qual apresenta duas estrofes de 4 versos (quartetos) e duas de 3 (tercetos). É também um soneto formado por versos decassílabos, como se comprovará no verso a seguir:

São/ de/mais/ os/ pe/ri/gos/ dês/as/ vi/da.

(Lembrando que a contagem em tal versificação se considera até a última sílaba tônica do verso, que, neste caso, é “vi”).

Haja vista essa estrutura poética pode-se dizer que Vinicius de Moraes retoma com um teor clássico, porém popular, a estética parnasiana, que visa a arte pela arte, a perfeição métrica. Ele consegue traduzir muito bem as propostas do Modernismo estabelecendo um acordo entre as aspirações primordiais modernistas e a tradição literária. Com seus sonetos, pode-se dizer que há um certo rompimento com a ideologia moderna. Inclusive, não obstante o talento alcançado – sobretudo popularmente – Vinicius sofre algumas críticas por parte de alguns autores modernistas e críticos literários. Dentre estas, destacam-se as críticas de Mário de Andrade e Afrânio Coutinho, que seguem abaixo:

“Vinicius de Moraes é hesitante no que se refere ao ‘conceito e forma do soneto”, segundo o autor de Paulicéia Desvairada.

Afrânio Coutinho complementa, dizendo:

“... não chegou Vinicius de Moraes a cristalizar sua poesia em expressão irredutivelmente própria. Assim, cai freqüentemente sob a égide de influências e de modos [...] Até como sonetista Vinicius de Moraes não descobriu o seu modo imperativo de dizer, sendo que boa parte de seus sonetos, com efeito, são pastiches quinhentistas; outros revelam-se incolores”.

Hesitante, influenciado, plagiador ou não, é preciso se admitir que Vinicius foi um mestre dos sonetos. A musicalidade e as temáticas que costumava inserir em suas poesias atingiam em cheio o leitor. Segundo o professor Douglas Tufano:

“Depois de uma fase inicial (seus dois primeiros livros – A caminho da distancia e Forma e exegese), em que sua poesia manifesta claros acentos bíblicos e uma visão idealizante do amor, Vinicius de Moraes passa a desenvolver, cada vez mais intensamente, um lirismo que faz das sensações do amor físico sua fonte temática constante [...] Numa linguagem comunicativa, em que o popular está presente, mas sem descer ao vulgar, compôs alguns dos mais belos poemas de amor da nossa literatura”.

O amor físico, conforme define Douglas Tufano, entende-se pelo amor tangível, literariamente falando. Já não é mais idéia, mas uma realidade cotidiana. Leiamos a primeira estrofe do ”Soneto do Amor total” para exemplificar melhor esta assertiva:

“Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade “.

De acordo com os teóricos literários, o soneto (pequeno som), dentre outros poemas, faz parte do gênero lírico. A nomenclatura deste gênero advém da lira, que acompanhava os cantos dos gregos. Sendo assim, era necessária uma perfeita organização no que diz respeito ao poema, para que houvesse uma harmonia entre letra e melodia. As estrofes metrificadas, bem como as rimas, são fatores essenciais nesta organização lírica, e no Soneto de Orfeu, como não podia deixar de ser, pode-se observar, através das estrofes metrificadas (decassílabas) e nas rimas alternadas (a-d, b-c – primeiro quarteto; a-c, b-d – segundo quarteto; a-c no último terceto), uma suave musicalidade, típica deste gênero literário. O formato poético adotado por Vinicius de Moraes contribuiu muito para que ele fosse bem sucedido tanto poeticamente quanto musicalmente. Muitos de seus sonetos se tornaram belíssimas músicas, imprescindíveis para a evolução e, sobretudo, a qualificação da música popular brasileira.

Concernente a este seu lado poeta / músico, é curioso citar uma passagem de uma entrevista entre Clarice Lispector e Vinicius de Moraes, ambos autores modernos, onde ele é o entrevistado. A reunião desses dois gênios literários resultou em uma reportagem antológica. Vejamos a passagem:

“... - Fala-me sobre sua música. -Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia do que está nos livros da que está nas canções”.

Eis Vinicius de Moraes: um poeta. Após este estudo a respeito de sua musicalidade e suas palavras na entrevista, consideremos que em sua poesia está inserida a sua música. Adicionando a esta visão a mitologia grega, o poeta da paixão pode ser chamado de Orfeu. Por que Orfeu?

Orfeu, segundo a mitologia grega, foi poeta e músico, o mais talentoso dos músicos. Quando tocava sua lira, toda a natureza parava para escutá-lo; os animais selvagens perdiam o medo. Era casado com a bela Eurídice, e tremendamente apaixonado por esta mulher. Ora, a relação com Vinicius de Moraes é nítida. Primeiramente pelas semelhanças das habilidades artísticas e também no lirismo (a melodia de Orfeu extraída da lira e a musicalidade lírica de Vinicius expressada em seus sonetos). Outra característica aberta à comparação é a de que Vinicius foi um homem intensamente apaixonado. Apaixonado pela vida, pelas mulheres. Casou-se nove vezes, e diz ter amado todas igualmente, com a mesma intensidade. Como ele diz a Clarice Lispector, na mesma entrevista, “eu amo amor”.

Eurídice representaria, de acordo com esta análise, todas as mulheres que participaram da vida amorosa de Vinicius de Moraes. O Soneto de Orfeu serve como ótimo exemplo para esta análise comparativa, a começar pelo próprio título.

Vinicius estaria, neste soneto, referindo-se a si mesmo. Um homem apaixonado, dado a aventuras amorosas, que podem ser perigosas se mal coordenadas, o que não foi em seu caso... A sinestesia que ele utiliza, já no primeiro quarteto, relacionando a lua ao sentimento da paixão, é construída de maneira leve e sutil, sobretudo quando diz: “e se deixa no céu, como esquecida”, como quem diz, “ela está lá somente para desfrute de minha observação acalentada pela paixão”. Uma lua que surge de repente – mais uma característica que remete a paixão. O que é a paixão senão um sentimento sustentado pela necessidade do inesperado, o esfíngico, o “de repente?” Paixão que, como a lua, surge “de repente, não mais que de repente”, agora fazendo uma analogia ao primeiro verso do seu “Soneto da separação”.

A partir da segunda estrofe, percebe-se a comparação entre a música e a figura feminina. Orfeu amava tanto a música quanto Eurídice, ambas intensamente. E já no primeiro verso do primeiro terceto, se reforça a idéia relativa à música e a mulher. Música, luar e sentimento – ingredientes que trazem a lembrança a figura de uma mulher amada. Uma mulher tão perfeita – aos olhos de um ser apaixonado – que a vida não quer. A palavra “vida” teria uma significação metafórica, uma vez que pudesse estar relacionada à “vida mundana”; uma expressão que antigamente era comumente utilizada, “mulher da vida”, que nada mais era do que uma prostituta. Como uma mulher tão perfeita seria adepta a um mundo profano, venderia seu corpo? A vida não seria tão injusta com esta mulher.

Mulher que, conforme diz já no ultimo terceto, “é como a própria lua”. Vinicius arremata seu soneto adentrando no campo completo do amor. O ápice da sublimação da mulher o leva, ao mesmo tempo, ao sofrimento, e o sofrimento está aliado ao amor. A paixão é aventuresca, sustentáculo do mais belo dos sentimentos – o amor. Vinicius foi bastante feliz no verso final, que diz: “tão cheia de pudor que vive nua”; a lua, tão distante e ao mesmo tempo tão visível, presente, admirável. A mulher, tão perfeita, recatada, aquela que a perdição recusou “tê-la em seus braços”, e ao mesmo tempo tão distante daquele que suspira de amores por ela; aquele que a despe com o olhar, despojando todo seu pudor.

Este último verso faz lembrar ainda o modo com que Machado de Assis trata algumas personagens femininas em seus textos. Uma mulher que, de tão pudica, como Dona Severina em Uns Braços, atiça os maiores desejos em um homem, pois vive nua em seus pensamentos.

Esta é uma das várias possibilidades interpretativas que uma obra de arte como esta possui. Grande poetinha, ou poetão, por assim dizer; homem que talvez nunca tenha encontrado um grande amor, mas que decerto encontrou as mais diversas facetas do amor em cada mulher com quem convivera. Homem que fez dos seus amores eternos enquanto duraram.

Bibliografia:

COUTINHO, Afrânio; A Literatura no Brasil (Era Modernista – Volume 5); Editora Global.

MORAES, Vinicius; Antologia poética; Editora Companhia de Letras.

PROENÇA FILHO, Domício; Estilos de época na Literatura; Editora Ática.

TUFANO, Douglas; Estudos de Língua e Literatura (Volume 3); Editora Moderna.

Site pesquisado:

http://educacao.uol.com.br/artes/orfeu-e-euridice.jhtm

4 comentários:

Andréa Amaral disse...

Lohan,li e reli seu texto antes de me aventurar a comentá-lo.
É uma pena, que tão poucas pessoas apreciem análises do gênero.
Quero citar aqui, uma passagem do livro que trata da biografia de Vinicius, escrita por Geraldo Carneiro, pertencente a uma coleção dos anos 80, entitulada "Encanto radical", da editora brasiliense, cuja proposta era justamente através de uma linguagem popular, humanizar personagens importantes da História em todos os âmbitos: políticos, filosóficos, literários,etc
Neste livreto, ele relata toda a infância de Vinicius, num Rio de Janeiro em que se misturavam a construção de uma grande metrópole, a presença ainda monárquica em costumes da elite e o jeitinho carioca de ser: praiano, aventureiro, boêmio, artístico e ainda metade natural. Imagina ser criado na Ilha do Governador, no que Geraldo caracteriza como "a própria Pasárgada". Segundo ele, ali, a rotina rigorosa da escola era esquecida para dar lugar "ao desfrute das delícias da existência: banho de mar, pescaria, serenatas, estripulias e aventuras mirabolantes." "Para Vinicius era possível trocar sonetos por mangas(...) assim, misturando de vez as metáforas, a poesia não deveria ser uma ilha, mas o lugar de celebração da vida- a poesia deveria prefigurar a aventura, apontar para a possibilidade de transformação da vida. Em suma, era preciso viver fazendo arte."

Vinicius foi um privilegiado: viveu a repressão dos preceitos católicos e da autarquia de uma educação austera; mas obteve a possibilidade de se render a liberdade de escolha, a viajar para outros países, exercer diferentes profissões, conviver com todos os tipos sociais e se engajar numa escritura que ao meu modo de ver, era a continuação e perpetuação de todos os sentimentos intensos que habitavam num ser intenso, mitológico, (i)mortal: Orfeu.

Foi chamado de "vagabundo" pelo general Arthur da Costa e Silva, às vésperas do AI5 (imagine virar as costas para um futuro diplomata promissor para ser um boêmio nos botecos "amorais" da Lapa?)

No mundo dos homens sérios, a poesia era a instância do sublime, quase uma terra do faz de conta. O "erro" de Vinicius decorria do hábito de se enveredar pelo cotidiano real da classe media, como no poema "Enjoadinho" (cocô está branco/cocô está preto), entre outros.

A boemia era a fronteira da negação dos valores burgueses e um elogio a orgia. Vinicius, ao contrário de artistas hipócritas, que mantinham as aparências, resolveu tornar-se disponível a essa pecha tradicional de poetas bêbados.
Baudelaire queimava haxixe, Manuel Bandeira cheirava cocaína, porém, somente Vínicius teve a ousadia de ser quem era e foi julgado também em sua obra por isso.

Há quem diga, que seus versos são versos muito simplórios. Na década de 70 não haviam literários que escrevessem sobre sua obra.Ele não era assunto de pauta nas universidades. Mas a posteridade é uma caixinha de surpresas...

Vinicius ficou perdido na cronologia literária, quase uma espécie de limbo, por não ser parte de uma corrente específica: moderno?; parnasiano?; lírico?

Eu sou completamente suspeita para dizer algo: ele é o meu favorito junto de Fernando Pessoa.
Ele personifica a própria vida, quando diz que "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." Mais real, poético e lírico, impossível...

Quando tiver a oportunidade, leia um de seus poemas mais belos. A história de "Ariana, a mulher", que deu nome a este livro lançado em 1936. Mas é claro, que em suas antologias ele está incluído.

Parabéns, meu amigo. Seu texto foi uma verdadeira aula sobre produção textual, poesia e biografia, do maior de todos os poetas do amor.
Obrigada.

Lohan disse...

Obrigado, minha amiga Andrea,

Os dados que você escreveu a respeito da vida de Vinicius também foram interessantíssimos. Ainda lerei a biografia deste homem, ah, se lerei!

Bjs, Lohan.

Thaty Louise disse...

Lohan, sem palavras para dizer o quanto amo o poetinha...
Quando estava na fac, teve um show mágico do Toquinho no DCE da Uff... Isso mesmo, saí da última aula e caminhei alguns passos pela orla e assisti Toquinho com o Zimbo trio cantando as poesias de Vinicius... Foi mais que emocionante. Foi lindo, perfeito.
Parece óbvio e talvez seja mesmo, mas tive naquela hora uma pequena epifania. Eu senti que a poesia é atemporal, eterna e é a nossa maior expressão verbal. Nosso maior tesouro em palavras.
Ai, meleca, tô bobona, vou chorar...

João Luiz disse...

Lohan!!!
Que aula!!!
Brilhante!!!
Não é qualquer um que faz uma análise assim,parabéns amigo,sempre aprendo com você!