quinta-feira, 15 de julho de 2010

As vidas de um livro (terceiro post)

Amigos leitores!
Primeiramente, peço licença aos autores de hoje, quinta-feira, para postar a terceira parte da minha história.
Pra variar, eu sempre criando duzentos parágrafos num texto onde eram previstos dez, rsrs. Espero que esteja valendo a pena mais essa saga (a primeira foi a de Euclides e Ariano, que rendeu dezenove postagens imensas). Posso adiantar que no próximo post essa história acaba, já escrevi o final. Só não pude postá-la inteira aqui, devido o "tamanhão" de espaço que ocuparia.
Minha amiga secreta, como todos já devem saber, é a Ana Beatriz. Inclusive eu já anunciei a ela, acabei com o suspense nessa questão, rs. Fim da tortura, Ana! Esse conto será inteiramente dedicado a você. Literalmente, um mega presente!
Mas em relação à história... Hum... Vai rolar muita tortura ainda... E como!
Abraços, boa leitura, Lohan.




CAPÍTULO 6


“ONDE ESTÁ SIMONE?”

Cachoeiras de Macacu, segunda-feira. Ao descer do ônibus, no terminal rodoviário, Lohan pareceu cair em si. Olhou ao redor, olhou para o canhoto da passagem em sua mão... Sentiu a mochila pesar nas costas... “Meu Deus, aonde eu vim parar com essa história...”. Entrou no primeiro boteco que encontrou.

-Um pingado e um pão com manteiga, por favor.

Eram dez da manhã. Ao pagar a conta, perguntou ao balconista:

-O senhor saberia me informar onde fica a lanchonete Point da Si?

-Sei não, moço... Nunca ouvi falar disso por aqui não.

Lohan intrigou-se. “Será que é mesmo verdadeira essa informação?”.

Pelo o sim e pelo não, precisava continuar procurando por essa tal Simone Prado. Saiu ao léu pelas ruas.

Perguntou a vários jovens da cidade. Nas bancas de jornal, no ponto de táxi. Até que, quando ia deixando o ponto de táxi, desolado, Lohan ouve um chamado.

-Ei, garoto!

Lohan se vira, e se depara com um homem que estava junto dos taxistas, que por sua vez, estavam em grupo, jogando dominó. O homem caminha até Lohan, ávido a lhe dar uma informação.

-Eu me lembrei dessa tal lanchonete aí que você disse...

-Sério? Que sorte! – Sorriu Lohan, já tirando o bloco e a caneta do bolso para tomar nota do endereço.

-Vai com calma, não existe endereço.

-Como assim?

-Esse Point faliu, tem uns cinco meses. Eu lembro que já levei gente pra lá, até que era um lugar movimentado...

-Se era bem movimentado, porque faliu?

-Os boatos que rolaram por aqui foram de que o ex-marido da dona, a tal Simone, apareceu e pintou o diabo com ela.

-O que ele fez?

-Ele quebrou tudo lá, acho que o nome dele é Armando. Isso, Armando. Ainda disse um monte de besteira da mulher. Dor de cotovelo de corno, sabe como é.

-Não, eu não sei como é, ainda bem. – Sorriu Lohan – Mas que coisa esquisita... E não deu nada pra ele? Digo, ele não foi preso?

-Que eu saiba, não. O cara é louco, ameaçou a mulher de morte e tudo. Ela teve que sair fora daqui, se esconder.

-Então ela mantém sigilo por causa do ex-marido que a persegue... Agora faz sentido...

-Faz sentido o que?

-Nada, nada. É que foi o maior sacrifício descobrir em que cidade a Simone tinha se enfiado, pois todos mantinham segredo a respeito dela. E pelo visto... Dei com os burros n’água, como dizia meu avô. Eu precisava muito falar com ela.

-Olha, camarada, eu não sei se isso pode te ajudar, mas eu conheço a menina que trabalhava na lanchonete, elas pareciam ser amigas. Inclusive, essa menina mora perto da minha casa. Às vezes você consegue alguma coisa...

-Eu te agradeço, mas não... Com certeza, mesmo que ela soubesse, ia desconfiar que era a mando do ex, e não me diria.

-Não custa nada tentar. Você pode inventar alguma coisa, sei lá... Ela deve acreditar em você.

Lohan hesitou, com o dedo apoiando o queixo.

-Meu nome é Lohan, como o senhor se chama?

-Eduardo Trindade, a seu dispor.

-Quanto eu pago a corrida até a casa dela, Eduardo?

“Antes de nós nos mesmos arvoredos


Passou o vento, quando havia vento,


E as folhas não falavam


De outro modo do que hoje”.


(Ricardo Reis)

Dani Santos, era o nome daquela meiga menina de faces imaculadas. Colhia girassóis no jardim que embelezava a fachada de seu casebre.

-Dani! – Chamou o taxista, batendo palmas.

Ela repousou os girassóis sobre a grama aparada e foi atender o portão.

-Bom dia, Edu! Que bons ventos primaveris o trazem à minha casa?

-Que vento, esse sol ta quente pra chuchu, nem vento tem! – Disse, a um gracejo – Não, é que você não sabe o curioso que aconteceu hoje comigo.

-O que houve?

-Posso pedir um cafezinho antes? Sei que sua mãe capricha no coffe.

-Claro, entre! Passamos um café agora pouco.

Eduardo Trindade entrou na casa de Dani, olhando para trás, como se certificasse de quem alguém estava à sua espera...

Lá dentro, deu continuidade ao plano, enquanto tomava sua xícara de café.

-Então, me diz o que te aconteceu de curioso.

-Apareceu lá no ponto de táxi um menino procurando por aquela Simone, lembra, lá de onde você trabalhava?

Dani espantou-se.

-Lembro, claro, ela é minha amiga.

-Então... Eu respondi que ela já tinha saído da cidade faz tempo, e que não tinha nem idéia pra onde ela tinha ido. Vai que era a mando do ex-marido dela, já pensou?

-Fez bem, Edu. Ela precisou se esconder por causa dele. Ameaçou a coitada de morte e tudo.

-A polícia, na época, não fez nada com ele?

-Deu uma prensa, só.

-Pois então... Ele disse que era um ex-aluno, que sentia muita falta dela. Pediu que eu o levasse de volta pra rodoviária, e assim eu fiz.

-Que estranho... Já tem um tempo que eu não consigo falar com a Si. Da última vez que eu tentei, o telefone dela só dava fora de área. Com certeza ela trocou de celular.

-Mas se são amigas, ela devia ter te contado, não?

-Ela é muito desconfiada, de tudo. Também pudera, né... Eu entendo.

-Eu acho isso errado. Se ela tiver morrido, como você vai saber?

-É, você tem razão... E se ela morreu, Edu? Cruzes...

Dani cruza os braços, preocupada.

-Sabe, Dani, nessas horas era necessário você falar com ela. Avisar que tem gente atrás dela.

-Isso que eu acabei de pensar... Mas como?

-Você não sabe onde ela mora?

-Sei, mas... Quer dizer, acho que sei. Do jeito que ela é, bem capaz de já ter evaporado de novo.

-Se quiser a gente dá um pulo lá, eu te levo. Fica muito longe?

-Nem tanto. Mas não será preciso, Edu. Se ela quis cortar contato, sinal de que não precisa mais de mim. Ela que se vire pra lá.

Sem êxito naquele combate de palavras, Edu ainda lutava para arrancar de Dani o nome do lugar onde Simone estava.

-Eu não entendo, como ela pode se mudar assim. Veio do Rio pra se esconder aqui, e daqui foi se esconder aonde? Essa mulher me parece bem estranha também, não acha?

-Que nada... Ela foi pra casa de uma prima, em Lumiar. Ela me dizia que costumava ir lá nos finais de semana quando era criança, e que sentia muita saudade daquela terra.

-Mas e o ex-marido, não desconfia que ela esteja lá?

-Ela disse que nunca contou a ele sobre essa prima de Lumiar.

-Mas e trabalho? Será que ela ia ter trabalho lá?

-Não sei... Parece que a prima dela era guia de Montanhismo. Vai ver arrumou alguma coisa pra Simone, e elas trabalham juntas.

-De que adianta ficar fugindo do passado... Ele sempre nos persegue...

-Concordo. Aceita mais café?

Edu volta a si, e diz:

-Não, não, eu te agradeço, querida. Agora preciso voltar, meu expediente ainda não acabou.

Lohan o aguardava a poucos metros da casa de Dani. Ele viu Eduardo despedir-se, e fechar o portão. O taxista veio em sua direção.

-E então? Conseguiu alguma coisa?

-Consegui. Descobri algumas coisas. Venha comigo até a praça, eu vou te contando.

Vinte minutos depois...

Lohan ficou imensamente agradecido a Eduardo.

-Você me quebrou um grande galho. É estranho com as coisas vem acontecendo comigo... As pessoas me ajudam sem nem me conhecer. Todas contribuindo para que esse livro alcance seu destino.

-Eu percebi que você não tinha envolvimento com o ex dela pela sua reação ao saber o que aconteceu aqui. Por isso não vi mal nenhum em te ajudar.

-Como eu te disse, eu só preciso descobrir quem escreveu a dedicatória desse livro. E a Simone é a peça chave dessa história, tenho certeza. Já você foi mais um elo dessa corrente, que cresce a cada dia.

-Faço o que posso, camarada. Se eu aparecesse contigo, a Dani não ia abrir o bico. Então tinha que ser eu, não tinha jeito.

-Lumiar... – Disse Lohan, pensativo – Como faço pra chegar nesse lugar?

-Vou te explicar, não é difícil.

-Pior: como faço pra descobrir a Simone nesse lugar!

-A prima dela é guia de Montanhismo, a Dani disse. Você precisa encontrar a prima dela primeiro. Lumiar é um lugarejo, é pequeno. Você vai se virar bem por lá. Mas te aviso logo: faz um frio do cacete!

-Imagino... É, acho que vai dar tudo certo. Vou ter que ir até o fim dessa história, nem que eu precise ir ao fim do mundo.

-Isso que eu chamo de determinação.

-Isso que eu chamo de loucura.


"Preciso do descanso e dos dias de férias...


Então eu preciso de Lumiar grande,


Aberta e caudalosa.


De abrir a janela e rir sozinha como se tudo fosse meu.


Do seu cheiro de chuva de montanha


E os pinheiros de Mury!


Das suas luas e noites fartas


Que enfeitam a velha praça


E lumiam a minha história".


(Simone Prado Ribeiro)

Uma hora e meia depois, Lohan chegava a Lumiar, que fica a 28 km. de Nova Friburgo, município a qual pertence. Povoado de muitos barzinhos e lojas de artesanatos, Lumiar encantava a Lohan. A natureza era muito presente naquele lugar. Respirava o ar puro e sentia-se mais leve... Aquele ambiente bucólico era sinônimo de paz. “Como é bom não respirar ares de carburador...”, pensou, enquanto caminhava admirado. Como já era previsto, teve que vestir seu casaco, que por sorte levara na mochila. O tempo nublado e a garoa fina montavam um cenário congelante em Lumiar.

Decidiu entrar numa pousada, a fim de encontrar uma pessoa apropriada a lhe conceder informações sobre os atrativos de Lumiar. A recepcionista atendia a um casal de idosos no balcão quando Lohan se aproximou.

-Deus me livre morar num lugar a 700 km de altitude, Irving! Eu morro congelada, ou de falta de ar, ou de depressão! – Reclamava a velha para o marido, um senhor alto de chapéu.

-Gertrude, não veja por esse lado. Sinta a tranqüilidade desse lugar! É uma paz que não encontramos em lugar algum.

-Por que a senhora morreria de depressão? Aqui temos várias atividades, como caminhadas, por exemplo. – Refutou a recepcionista, uma loira, balzaquiana, de aspecto simpático.

-Se não sabe, quanto mais frio, mais a pessoa fica propícia à depressão.

-Não diga bobagens, Gertrude. – Sorriu o inglês, de forte sotaque – A violência é o pior problema. Já se ouviu falar em assassinato por aqui? E em roubo? Nada, nada. Ainda teremos uma casa aqui.

-Você vai morar sozinho nela, já te adianto...

A recepcionista sorriu, e disse:

-Tenham uma boa viagem, e... Voltem sempre.

O casal saiu, prolongando aquela monótona discussão. Lohan se prostrou sobre o balcão.

-Boa tarde.

-Boa tarde. Hospedagem, senhor?

-A princípio não. Eu só gostaria de receber uma informação, cheguei hoje na cidade, estou meio perdido, sabe como é que é...

-Claro, o que deseja saber?

-Eu pratico esportes radicais, e fiquei sabendo que aqui fazem Montanhismo, é verdade?

-Sim, as montanhas de Lumiar são perfeitas para a prática. O senhor veio de onde?

-Eu vim do Rio de Janeiro. Esse frio está matando mesmo! – Sorriu, fechado o casaco.

-É, aqui é rotineiro esse frio. Então, o senhor deseja fazer Montanhismo aqui?

-Pretendo. Mas estou sem meus equipamentos, sem contar que preciso de instruções para chegar até o local apropriado. Existe alguma pessoa por aqui que trabalha com isso?

-Existe sim, eu vou anotar para você o nome da pessoa e o endereço dela. Na verdade, é um sítio – Continuou, enquanto anotava em um pedaço de papel – Eu já a indiquei várias vezes, você não é o único a ter esse interesse. Tome.

Lohan apanha o papel, e o lê em voz alta:

-Fabiana Prado... Sítio Pedra Riscada...

-Esse sítio fica a caminho da Pedra Riscada, que fica a mais ou menos três horas daqui.

-Nossa, então deve ser longe. Tem alguma condução que possa me levar?

-Hum... Tem um senhor, com uma carroça. A estrada é de chão, é complicada. Você deve encontrá-lo na praça Marchon.

Lohan guardou o papel no bolso.

-Não há táxis por aqui?

-Não senhor. Algo contra as carroças?

Lohan sorri, constrangido, e diz:

-Não, é que não estou acostumado. É só isso.

-Sei... Só isso, senhor?

-Sim. Muito obrigado, não imagina o quanto me ajudou.

-Nossa pousada está de portas abertas.

-Pode me esperar. – Assegurou falsamente.

Lohan saiu da pousada, esperançoso.

-Fabiana Prado... Não há de ser outra. Instrutora de Montanhismo, mesmo sobrenome da Simone...Sítio da Pedra Riscada: é pra lá que eu vou.

Na praça, Lohan perguntou pelo homem que conduzia a carroça. Um dos moradores apontou para um bar.

-Ele vive lá. Esse velho ainda morre de cirrose – Comentou o morador, como se Lohan fosse se interessar por essa informação.

-Obrigado.

Lohan vai até o bar, e nota uma carroça estacionada nas proximidades. Entrou e dirigiu-se direto até o balcão.

-Procuro pelo condutor da carroça.

O balconista aponta para o um velho de barba espessa e ruiva, que, rodeado de pessoas, contava piadas nos fundos do bar. Lohan se aproxima, meio sem jeito, e fica a ouvi-lo por alguns minutos antes de se apresentar.

-Eu andando nesse mundão de Deus eis que me deparo com ele, o saci!

-Ah, conta outra, Borja! Saci existe só em historinha de Monteiro Lobato! – Disse um dos quatro homens que sentavam em torno de Borja, o velho carroceiro.

-Pois eu juro pela minha mãe!

-Sua mãe já ta morta, seu patife!

-Jura que não seja pela mãe não vale. Então não juro! Pois acreditem, eu vi o tal do saci, e digo mais: o diabinho tava no maior amasso com a sacia.

Risadas e baforadas alcoólicas.

-E tu cortou o barato dos sacis! – Gargalhou um dos bêbados.

-Antes cortar o barato deles do que a outra perna, ô!

Mais risadas. Lohan admirava a boa oratória do velho, que cessava suas lorotas de vez em vez para dar uma golada em sua cerveja.

-E vocês sabem o que eu ouvi ele falar pra sacia?

Todos ficaram na expectativa.

-Fica de três, sua piranha!

Todos foram à loucura. Um ainda jogou-se no chão, de tanto rir. Lohan riu, discretamente, não só da piada, mas da situação. O velho astuto notou sua presença e disse:

-E você, garoto? Ta parado aí sem copo na mão!

-Boa tarde, eu não queria interromper vocês, mas... Eu preciso ir até o Sítio Pedra Riscada.

O velho vira o resto de bebida que havia no caneco goela abaixo e diz, após um arroto:

-Missão pro Borja, minha gente! Ta na hora de puxar o barco.

Ele se levanta, e, cambaleante, segue até a carroça, não sem antes deixar sobre o balcão uma nota de cinqüenta reais. O balconista olhou para os demais, espantado.

Lohan o seguiu, preocupado. Carroça e bêbado, decerto, não formaria uma boa combinação.

-Sobe na carroça, garoto! O Borja em vinte minutos te deixa lá!

-Mas o senhor...

-Mas, mas, mas... Sobe de uma vez, arre!

Lohan assentiu, amedrontado. O velho assentou-se com dificuldade, e deu a partida.

-Eia, meu alazão!

A arrancada quase matou Lohan do coração, que se segurou firmemente nas laterais da carroça.

-Segura que essa estrada tem mais buraco que a bunda da minha mulher, garoto!

Lohan sorriu; mais de nervosismo do que de qualquer outra coisa. Aos soluços, o velho gritava com o cavalo, e aumentava a velocidade.

-Vai com calma, meu senhor!

Os solavancos na carroça faziam o sujeito saltitar. A estrada secundária não punha medo no velho, que àquela altura, não teria medo nem do demônio. Já haviam percorrido dez minutos.

-Falta muito, meu senhor?

-Oxe, que ce ta muito apressado! Ops! Upa, cavalinho! Ohhh, Pai...

O velho arriou, inclinando-se para frente. Desacordado, as mãos permaneceram a segurar as rédeas, mas não mais a controlavam.

-Ei, senhor! Senhor!

O cavalo continuou. Mais adiante, havia uma curva acentuada. Desesperado, Lohan consegue se esticar, e passando os braços por cima dos ombros caídos do velho, ele alcança as rédeas em suas mãos com esforço. Imediatamente, as puxa. O cavalo não obedece. A curva se aproximava, dando num abismo.

-Pare, eqüino idiota!

Lohan puxava as rédeas. Até que, em cima da curva, ele pára. Lohan respira aliviado, secando o suor da testa. Desce da carroça, e tenta acordar o velho.

-Velho bêbado... Está me atrasando, sabia?

Ao notar que o velho dormia profundamente, Lohan o puxou para a parte de trás da carroça, ajeitando-o. Resolveu assumir o controle da carroça.

-Seja o que Deus quiser. Eia! Eia, alazão!

Com as mãos trêmulas, Lohan conduzia a carroça. Logo mais à frente, abriu um sorriso. “Sítio Pedra Riscada”. Conseguiu parar o cavalo próximo a porteira. O velho roncava, e babava.

Desceu e foi até a porteira, que estava entreaberta. Alguns metros adiante havia uma casa, de aspecto colonial. Bateu palmas e chamou.

-Ô de casa! Fabiana! Ô de casa!

Nenhum movimento. Escutou vozes vindas da casa. Resolveu ir para mais perto da casa, e entrou. Batendo palmas, ia se aproximando, passo a passo. Pelo terreiro, observava-se galinhas e patos.

-Fabiana! Alguém em casa?!

-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!

Um grito aterrorizado de mulher ressoou pelo sítio, vindo da casa. Lohan paralisou-se no mesmo instante, pálido. Arregalou os olhos. Ouviu alguns gemidos, em seguida. A impulsão que lhe era costumeira não ia falhar naquele momento. Correu até o alpendre da casa, e levou a mão à maçaneta.

Abriu a porta de madeira, que ruiu em tom sinistro.

Uma mulher caída no chão de tábuas corridas, no centro da sala. Ensangüentada. E viva.

-Minha nossa... – Murmurou, arquejante.

Os estágios médicos lhe ensinaram, dentre outras coisas, a ter sangue frio em momentos calamitosos. Só assim sua prática seria eficiente. Correu até a mulher, agachando-se até ela. Olhou em seus olhos ávidos pela vida, e disse, otimista:

-Acalme-se, eu vou cuidar de você.

Perto do seu pé uma faca suja de sangue. Analisou rapidamente o local do ferimento, levantando a blusa da mulher: um corte profundo na barriga, cometido pela faca. A mulher sofria uma hemorragia externa.

Abriu a mochila e arrancou dela uma camisa branca. Imediatamente, pressionou a camisa sobre o ferimento, na tentativa de estancá-lo. A mulher, ofegante, segurou forte em seu braço e disse:

-Foi ele, moço... Foi ele...

-Por favor, não fale.

-Foi ele... O Armando. Foi ele...

Lohan ouve um relinchado. Rapidamente se levanta e avista pela janela um homem de camisa preta de mangas compridas fugindo a cavalo pela estrada afora.

-O cavalo do velho... Que droga...

Logo retorna à mulher, que agonizava.

-Você ta perdendo muito sangue, e muito rápido... Precisa de uma ambulância.

Lohan retira o celular do bolso com as mãos sujas de sangue.

-Sem bateria! Não acredito que isso ta acontecendo!

Percorre o olhar desesperado pela sala, à procura de um telefone. Encontra. Ao pegar o fone...

-Sem linha...! Não é possível!

E vê o fio cortado, esbarrando em sua coxa. “O criminoso foi meticuloso”.

Retornou à mulher.

-Farei o possível pra salvar sua vida. Se ele não tivesse roubado o cavalo, eu te removeria daqui na carroça.

-Eu vou morrer... Ele não se conformou, ele veio me matar...

-Você é a Fabiana?

-Não...

Lohan sentiu um arrepio na pele. “Simone”, pensou.

-Simone Prado.

A respiração de Simone chiava. Sua pulsação caía abruptamente. Dificilmente ela sobreviveria. Lohan não tinha escolha.

-Por favor, Simone, eu vim até aqui para saber uma informação que só você pode me dar.

-Quem é você, afinal?...

-Odes de Ricardo Reis e a dedicatória que há nele. Você lembra?

As linhas de desespero daquela expressão agonizante aumentam.

-Simone, me diga, onde você conseguiu esse livro?

As pálpebras de Simone amoleciam. Lohan apertava ainda mais o ferimento, mas o sangue jorrava sem cessar, molhando o chão, suas pernas...

-Odes... Esse livro... Esse livro não! – Ela disse o mais alto que pôde.

-Por que não?! O que tem esse livro? Me diz, Simone! Por tudo que é mais sagrado, não morra com esse segredo! – Exclamou, já em desespero.

-Eu já me livrei desse livro duas vezes... E pela segunda vez o destino o trouxe de volta até mim... Ah...

Uma pessoa em tal situação como a de Simone pode morrer de três a cinco minutos. O escasso tempo para arrancar uma informação. O sangue. O suor. O tremor. O ar. A vida. A morte.

-Quem escreveu a dedicatória? Quem?! Quem é Bia? Quem é João?

-Bia... – Sorriu, mortificada, como quem relembra de um momento feliz de sua vida que beirava a morte naquele instante – Esqueça esse livro... Esqueça... Queime-o. Queime-o...

-Por que você não queimou? Porque o destino não quis! Não morra com esse segredo, diga.

Simone dava os últimos suspiros. Seu rosto moreno agora estava desfigurado pela dor, pela proximidade do fim, pela infinita palidez, pela frieza devido à ausência do calor de um sangue que corria a mil pelas suas veias...

-Simone, que carroça é essa aqui na frente?!

Uma voz de mulher, vinda do terreiro. Era Fabiana, que chegava em casa. Lohan se afasta do corpo de Simone, corre até a janela, e a vê se aproximar. Ele corre de volta até Simone.

-De onde, de onde veio esse maldito livro! – Implorou, sacolejando o corpo.

-Karina... Karina Schuenck... Jornal... Friburgo...

Simone revira os olhos, e desfalece para a eternidade nos braços de Lohan. A mente de Lohan, em turbilhão, por pouco não capta aqueles dados.

-Karina Schuenk, Karina Schuenk, jornal, Friburgo – Ele repetia, tentando decorar.

Lohan fecha os olhos da falecida, põe a mochila nas costas e se prepara para fugir quando Fabiana abre a porta...

-Simone!!!!!!!!!!!!!!!

Ela corre até o corpo, e o remexe. Olha de soslaio para a faca. Lohan permanece imóvel.

-Ela está morta. Eu tentei salvá-la, mas...

Fabiana se ergue devagar, sem tirar os olhos de Lohan.

-Foi você? Você fez isso?

-Se fosse eu, não estaria aqui tentando salvá-la, estancando o sangue com aquela camisa, muito menos conversando com você. Eu tentei telefonar, mas o assassino cortou a linha antes de fugir... Sinto muito.

-Quem é você?

-Eu passava pela estrada quando ouvi gritos, e vim até aqui...

-E quanto ao velho da carroça, o que ele faz desmaiado lá?

-Ele bebeu demais, desmaiou, e eu tive que guiar a carroça.

-O que me garante que não foi você?

-Eu estar aqui, sem armas, sem desespero, conversando com você. Se eu tivesse cometido esse crime, já teria fugido há muito tempo. Minhas impressões estariam na faca.

-Você pode ter usado luvas.

-Quer conferir minhas coisas na mochila?

-Não, isso é trabalho pra polícia. Nós vamos até lá... Oh meu Deus, minha prima, morta... Eu não estou acreditando...

Fabiana não contém as lágrimas.

-Eu fiz o que podia...

-Ela estava viva quando você chegou?

-Foi a óbito não tem dois minutos. Antes de morrer... Ela me disse quem fez isso com ela.

-Quem?

-Armando, ela disse. Eu tentei ir atrás dele, mas ele já havia roubado o cavalo da carroça e fugido a galope.

-O Armando... Minha Nossa Senhora, ele encontrou a Simone...

Fabiana leva a mão aos olhos, cobrindo o pranto.

-Vamos à polícia. Ele ainda não deve ter saído da cidade.

-Você chegou a vê-lo, a ver a roupa dele?

-Sim, lembro bem. Ainda há tempo.

-Vamos pegá-lo.

CAPÍTULO 7

“TODO CRIME TEM SEU AUTOR”

Comunicados, três policiais fizeram um cerco na saída de Lumiar. Lohan disse o que sabia sobre o homem: fugiu a cavalo, vestindo uma camisa preta de mangas compridas. Não conseguiu reparar em mais nada. Foi submetido a um interrogatório. Já havia se passado três horas desde o crime, e nem pista de Armando.

-O homem evaporou da cidade. O cavalo foi encontrado ainda na pista que leva até o sítio, sem ninguém... Isso não diz nada. O bicho pode muito bem ter trotado sozinho, uma vez que seu condutor estava quase num coma alcoólico, e o passageiro... O passageiro estava no local e na hora exata do crime... Ele alegou ter ido procurar a Fabiana, com o intuito de praticar o Montanhismo. Nunca vi ninguém com tal intenção chegar na cidade sem nenhum equipamento... – Divagava o delegado França, sentado à sua mesa, no posto policial de Lumiar.

-A recepcionista da Pousada do Centro confirma o ensejo do suspeito, delegado. Ele, de fato, estava à procura de Fabiana, e chegou a comentar que pediria equipamentos emprestados. Vai ver ele ficou sabendo que havia Montanhismo em Lumiar apenas quando chegou aqui. – Opinou um policial.

-É uma hipótese. Mas chegar lá, no momento exato do crime! E o carroceiro apagado, isso nunca aconteceu com o velho Borja antes, segundo ele.

-Ele não relatou nenhum golpe, nada. Ele estava mesmo muito alcoolizado.

-A faca, sem impressões digitais.

-Não havia luvas na mochila do suspeito.

-Mas havia uma camisa sobre o corpo. Ele diz ter tentado estancar o sangue com ela, mas... E se a colocou ali para disfarçar, após tê-la usado para segurar o cabo da faca? Ele pode ter planejado tudo isso! Fingir-se de passageiro, que ouve um grito, corre para socorrer a vítima, tenta salvá-la... Espera alguém chegar, faz o teatro dele, acusando outro.

-Segundo ele, a vítima confessou o autor do crime momentos antes de morrer.

-Ela morreu, é fácil ele falar por ela. Como vamos saber se ela disse mesmo alguma coisa?

-Como ele saberia o nome do ex-marido, senhor?

-Assassinato premeditado, meu caro. Sabe-se até mesmo o número que a pessoa calça... O nome do ex-marido era essencial para ele. Afinal, o homem já havia ameaçado a Simone de morte, e muitos sabiam disso. Ela veio se esconder aqui... Qualquer outro desafeto dela poderia se aproveitar dessa ameaça lançada por Armando, e matá-la.

-Como ele a descobriu aqui?

-Através de um taxista, em Cachoeiras. Já enviamos uma viatura para lá. Vamos investigar isso.

-O que pretende, delegado? O que vai fazer com o suspeito?

França hesitou, girou uma caneta sobre a mesa, e disse, convicto e austero:

-Vou transferi-lo para Nova Friburgo, e enviar um mandado de detenção pro rapaz. Ele não conseguiu me enganar com essa historinha.

“Passamos e agitamo-nos debalde.

Não fazemos mais ruído no que existe

Do que as folhas das árvores

Ou os passos do vento”.

(Ricardo Reis)

Já era noite quando os pais de Lohan, juntamente com um advogado, chegaram à Nova Friburgo. Lohan conversava com os três em uma sala particular.

-Você é louco, Lohan! Isso sim! Onde já se viu, arriscar a vida pra descobrir uma merda dessas de dedicatória! – Reclamava seu pai, Fernando.

-Filho, e a sua faculdade?

-Dinheiro jogado no lixo! – Continuou o pai, revoltado.

-Não adianta vocês continuarem me criticando, ok? O que ta feito, ta feito. Vocês só não podem se esquecer de que a polícia não sabe disso. Pra todos os efeitos, eu fui praticar o Montanhismo, entenderam?

-Esse Armando é a única pessoa que pode livrar sua cara. Ele precisa ser capturado. A polícia já se mobilizou até a residência dele. – Comunicou o advogado.

-Ele vai ser pego. Estou tranqüilo em relação a isso. Não podem me manter aqui sem provas. Ele é o principal suspeito, não eu.

-Mas você foi flagrado no local do crime, na hora do crime. São indícios primordiais, Lohan. Infelizmente, eu não considero sua situação tão tranqüila. Tudo depende.

-Eu vou passar essa noite aqui?

-Eu já fiz o pedido de Hábeas Corpus ao juiz. Mas ele só deve ser concedido amanhã. Ou seja...

-Inacreditável. – Lamentou o pai, o mais indignado de todos.

Eram nove horas da noite quando Armando recebia dois policiais em sua casa.

-Boa noite, em que posso ajudá-los?

-Senhor Armando Lima?

-O próprio.

-O senhor foi acusado de ter assassinado Simone Prado, sua ex-esposa. Viemos interrogá-lo.

-A Simone?! – Perplexo – Mas, espera... Quando ela morreu?

-Ela morreu hoje por volta das duas da tarde, senhor.

-Meu Deus... E, claro, eu sou o suspeito número um, não sou?

-Não dissemos nada.

-Eu ameacei essa mulher de morte várias vezes, em alto e bom som, até. Eu não seria burro de matar a Simone. Seria como assinar a minha própria sentença!

-Onde passou o dia?

-Aqui, em casa... Hoje não fui trabalhar, acordei passando mal, cheio de dores de cabeça. Já tomei mais de trinta aspirinas.

-Possui algum álibi?

-Sim, a minha empregada. Hoje foi o dia dela vir, ela vem duas vezes por semana. Passou a tarde aqui.

-Mais alguém?

-Não sei... Os vizinhos... Não sei! Não tirei meu carro da garage hoje, se querem saber.

-Isso não diz nada. Pode ter ido de ônibus.

-Ônibus? Para onde? Eu não tenho idéia de onde a Simone estava. – Sorri, nervoso – Vocês não me levem a mal, mas a minha dor de cabeça está querendo voltar, e eu preciso muito relaxar. Essa notícia me deixou... Totalmente sem chão. Por mais que eu tenha sentido vontade de dar cabo daquela vadia... Eu sinto pela morte dela.

Os policias se entreolharam.

-Pode nos deixar revistar sua casa, senhor? Temos mandato, se for necessário.

-Claro, entrem.

No dia seguinte, a notícia era manchete nos jornais de toda a região Serrana do Rio de Janeiro. O caso também havia sido comentado em alguns jornais de circulação da capital. Andréa Amaral quase caiu da cadeira ao ler a notícia na Internet.

-Gentem do céu, corram aqui! – Alarmou-se, chamando os demais professores que estavam em sua sala, inclusive Camila – A Simone Prado foi morta ontem!

Todos foram grudar os olhos na tela do computador, exceto Camila, que não conseguiu disfarçar o baque. Perplexa, ela sai da sala e vai beber um copo d’água. Apanha seu celular e telefona para Lohan. Fora de área.

-Putz! Não acredito...

De fato, Lohan estava fora de área. Fora de sua área de liberdade. Passara a noite em claro, trancafiado numa cela. O livro estava sobre a cama. Pensou em rasgá-lo. Chegou a arremessá-lo contra a parede, cheio de raiva. Mas não... O culpado não era o livro. Era uma pessoa, um único homem.

-Karina Schuenk... Jornal... Nova Friburgo... Eu estou aqui. Estou muito perto de encontrá-la. Muito perto... Mas seria ela a mulher da dedicatória? Bia, Bia... Não, não deve ser. Jornal... Ela trabalha em algum jornal, só pode ser.

Eis que aparece um policial para destrancá-lo, interrompendo seu pensamento em voz alta.

-Uma noite na prisão e já ta falando sozinho, rapaz? – Goza o policial.

-Já ouviu falar em alguma Karina Schuenck, do jornal?

-Karina Schuenck? Que diabo de nome é esse? Acho que pirou mesmo. Vai, sai fora antes que eu mude de idéia.

Fora da delegacia, Lohan encontrou-se com seus pais e seu advogado.

-O juiz expediu o pedido. Não há provas, e, além disso, agora recai suspeita sobre o Armando e uma outra pessoa.

-Que outra pessoa?

-Um tal de Mauri. Ele teve um caso com a Simone, há três anos. Ela era a professora dele, na época, foi um escândalo e tanto.

-Eu soube disso...

-A prima da Simone se lembrou de um dado importante em seu depoimento, ontem. Parece que ela ouviu uma discussão entre a Simone e esse Mauri, pelo telefone, no sábado de manhã.

-Uma discussão? Que estranho...

-Ela não soube explicar direito, pois a Simone não comentava nada a respeito desse caso com ela. Mas não deixa de ser um suspeito. Precisa ser averiguada a razão dessa discussão.

-E o Armando? Descobriram alguma coisa dele?

-Revistaram a casa, não acharam nenhuma camisa preta de mangas compridas. E ele tem um álibi: a empregada.

-Ela pode ter sido comprada.

-Sim, mas a princípio, um álibi é um álibi. Ele não saiu com o carro. Estão investigando na rodoviária.

-Já você e seu maldito livrinho se complicaram. – Disse Fernando, ainda revoltado – Diz pra ele, doutor Fontes, o que aconteceu.

-Entraram em contato com o tal taxista, Eduardo Trindade. Ele abriu o bico, disse tudo. A polícia já sabe que você foi atrás da Simone por conta desse livro. Vão interrogá-lo hoje à tarde novamente.

-A Andréa e a Camila! Elas podem ser testemunhas. A Andréa que me indicou a Simone, elas podem afirmar que não houve nenhuma má intenção.

-Tem como entrar em contato com elas? Se tiver, faça mais rápido possível.

“O poeta é um fingidor.


Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor


A dor que deveras sente”.


(Fernando Pessoa)

Camila chegou em Nova Friburgo à tarde. Encontrou-se com Lohan no hotel onde ele e sua família estavam hospedados.

Lohan a recebeu no saguão do hotel.

-Pensei que nunca mais íamos nos ver e, veja só: três dias depois, cá estamos nós.

-Que bom que veio, Camila. E a Andréa?

-A Andréa não quis ser marionete nesse seu show. Ela não acredita em você, está se sentindo enganada. – Disse, mascando um chiclete.

-Nossa... Me desculpa por ter te atrapalhado, mais uma vez.

-Não me peça desculpas, eu não costumo ficar desculpando ninguém... Ainda mais assassinos profissionais que nem você. Homens como você merece minha admiração, e não minhas desculpas.

-Então acha que eu matei a Simone? Se eu fosse um profissional conforme você está falando, eu não teria deixado tantos rastros no caminho.

-Em muitos crimes, os rastros servem para despistar. Você se passou por bom moço, seduziu todos a sua volta, inclusive a mim, e inventou um pretexto tão estúpido que chega a sensibilizar as pessoas a ajudá-lo. Tudo isso para descobrir o paradeiro da sua vítima. Você me usou, Lohan.

-Você se fez usada por mim, não venha com essa. Aliás, tudo o que você fez foi porque você quis. Eu não te pedi nada. Lembra?

-Você me seduziu. Confesso, eu caí na sua lábia... – Camila sorri, indignada – Pensei que eu fosse mais esperta.

-Como pode me acusar assim, do nada?

-Por que eu leio noticiários, e eu sei de tudo o que você fez para chegar até onde chegou. O tempo todo você deixou o manual desse crime nas minhas mãos, e eu, tola, não li. Ou não quis ler.

-Você quer se sentir esperta, Camila. Quer acreditar numa coisa que não existe só pra se sentir esperta. Você sabe que não fui eu.

-Não fique preocupado, Lohan. Eu não estou com raiva de você, pelo contrário. Como já disse, admiro homens inteligentes como você, gênios do crime. Não vou te ferrar com a polícia. Farei o que puder pra manter a sua barra limpa. Homens como você merecem a eterna liberdade.

-Não quero que me veja como um gênio do crime, porque eu não sou! – Altera-se.

-O que foi? Está perdendo o controle comigo, gato?

-Quer saber? Muito obrigado, dispenso sua ajuda. Se não acredita na minha inocência, não precisa mentir por mim. Pode ir pro Rio, pra sua casa, pro seu trabalho. Eu pago a gasolina do teu carro, toma.

Lohan arranca cinqüenta reais do bolso e estende a Camila. Ela balança a cabeça, incrédula.

-Eu não quero o seu dinheiro... Você ainda não entendeu o que eu realmente quero. Sinto lhe dizer, mas você, Lohan, é um grande de um babaca. Enfia esse dinheiro no... Teu bolso de novo.

Camila vira as costas e sai do hotel. Lohan devolve o dinheiro para o bolso da calça e a observa partir.

Quarenta minutos depois, Lohan era submetido a um novo depoimento.

-Recapitulemos então sua linha de raciocínio: o senhor estava atrás do paradeiro da Simone apenas para perguntar a ela sobre a dedicatória de um livro. Você descobriu que esse livro havia passado pelas mãos de Simone Prado uma vez que fora informado por uma professora, de uma escola de Duque de Caxias. Chegou em Cachoeiras com base em informações concedidas pela professora Camila Furtado, e lá foi informado que Simone havia se mudado para Lumiar. Tudo certo até aí?

-Espere, eu não citei o nome da professora, como sabe?

-Ora, vai me dizer que não sabe! – Riu o delegado – Vocês não convidaram a professora a testemunhar? Pois então, há meia hora ela esteve aqui, na delegacia. Ela confirmou a sua busca pelo dono do livro, e disse que a Simone havia lhe dado esse livro dias antes de se mudar para Cachoeiras. Alguma coisa errada no que ela disse?

Lohan surpreendeu-se. “Ela veio aqui, e testemunhou a meu favor”, pensou, boquiaberto.

-Não, não... Nada errado. É que eu não esperava que ela fosse vir, só isso.

-Prosseguindo: chegando a Lumiar, mentiu, pois a única coisa que sabia era que a prima de Simone era guia de Montanhismo, ou seja, precisava saber aonde ela morava. Por que prosseguiu com a mentira?

-Achei que não acreditariam na história que envolve o livro.

-Realmente, não é um caso muito comum... Cada louco com suas manias, não?

-Tem louco que tem mania de matar.

-Você seria um deles? – Insinuou o delegado.

-Não, eu prefiro investigar dedicatórias em livros comprados em Sebos. Uma loucura mais cristã, digamos assim.

O advogado cutuca o braço de Lohan.

-Hum... Então o senhor chegou ao local do crime, ela já estava ferida, a faca jogada no chão, o senhor tenta salvá-la, e em seus últimos suspiros ela diz que foi o Armando, e que a dona do livro se chamava Karina Schuenck, que provavelmente mora em Friburgo e trabalha em um jornal. Ufa! Se não for mesmo o assassino, eu diria que Lumiar não lhe trouxe sorte alguma. Ou então esse livro. Devia dar um fim nele.

-Não vai ser agora que vou desistir do meu objetivo, delegado.

-Acho bom mudar de objetivos, meu caro. Pense em não ser preso, antes de qualquer coisa.

-Eu não matei a Simone. Não tenho porque temer a prisão. Tenho metas mais nobres na minha vida.

-Meu caro, assim como esse livro que você carrega, esse crime tem um autor. Todo crime tem um autor, e o meu dever é descobri-lo.

-O nome dele geralmente se encontra na capa, delegado.

-Pois é. Entretanto o senhor, mais do que ninguém, devia saber que nem sempre o nome que se encontra na capa é o nome do verdadeiro autor. Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Ricardo Reis... Seriam mesmo os autores de seus crimes impressos e encapados? Que mão cometeu esses crimes? Que mão, senhor Lohan? Diga-me!

Lohan abaixou a cabeça, rendido.

-O poeta é um fingidor – Murmurou.

-Estaria eu diante de um poeta nesse momento, Lohan?

-Está insultando o meu cliente, Sr. Delegado. Vamos cortar esse assunto incômodo, por favor. – Interpelou o advogado, educadamente.

-Eu sou um poeta, delegado.

O advogado olhou espantado para o estudante de Enfermagem.

-Escrevo a cada dia a história da minha vida, e faço parte da história de outros. Todos nós somos poetas. O mundo é uma poesia. Se cada um fizer o seu verso, todos se tornarão imortais.

-Belas palavras... Então pretende continuar escrevendo a sua história desse jeito?

-Por que não?

-Sr. Delegado, me permita uma sugestão: por que não tentamos localizar essa tal Karina Schuenck? Se ela de fato existir e confirmar que esse livro passou pelas suas mãos, e posteriormente, pertenceu a Simone Prado, não restarão dúvidas de que meu cliente estava trilhando o caminho certo, em busca do verdadeiro dono desse livro. – Disse o perspicaz advogado.

O delegado refletiu por alguns instantes.

-Sim, faremos isso. No entanto, nada impede de que o livro tenha servido de pretexto para que a real meta de Lohan fosse atingida: matá-la.

-O meu cliente nunca teve contato com Simone Prado. As pessoas mais próximas a ela não o conhecem. Ela passou três anos escondida, de canto em canto. Por que o meu cliente tramaria todo esse esquema mirabolante e arriscado para assassinar uma mulher que sequer conhecia? Por que ele ficaria tão vulnerável?

-São hipóteses. De qualquer modo, o seu cliente continua sendo suspeito, e as investigações continuarão. Peço que não deixem a cidade do Rio de Janeiro enquanto tudo não se resolva. O caso será transferido para lá, pois os três suspeitos são moradores do Rio de Janeiro.

-Fique tranqüilo, delegado. Enquanto eu não encontrar a Karina, eu não vou sossegar. Vou ficar em Friburgo até isso acontecer. – Afirma Lohan, mais obstinado do que nunca.

“Com mais sossego amemos


A nossa incerta vida”.


(Ricardo Reis)

O copo d’água cai de suas mãos enrugadas, espatifando-se no chão da sala.

-Querido, venha cá, rápido!

O velho chegou na sala, ofegante.

-O que há, Gertrude? Que barulho foi esse?

A velha aponta para a televisão. A reportagem era sobre o assassinato em Lumiar, que já se espalhava feito pólvora pela mídia sensacionalista.

-Eu não disse, eu não disse!!? Mais um fator de mortalidade nessa cidade: assassinato!

-De onde está falando?

-Lumiar! A sua cidade xodó - Disse, a um menoscabo - Digo, a sua ex-cidade xodó. Eu não moro lá nem morta.

-Eu não teria o trabalho de te levar morta para lá, querida.

-Ah, e quem disse que eu vou morrer primeiro que você?

-Escute, escute lá o repórter!

-“O assassinato ocorreu por volta das duas e quinze da tarde. Um jovem de vinte anos, estudante de Enfermagem, foi flagrado no local e no momento da morte de Simone. Ele jura inocência”.

-Gertrude, isso é incrível! Saímos de lá nesse horário!

-Isso é bom ou ruim?

-Não sei, não sei. Mas é coincidência.

-Irving, e o rapaz que nos pediu carona na beira da estrada?

Irving e Gertrude se entreolharam, pasmos. Pensaram a mesma coisa.

-Gertrude, você sabe o telefone da polícia?

Lohan tentou ligar várias vezes para Camila, que não o atendeu. Sentia-se arrependido pela maneira grosseira com que havia a tratado. Já era noite, e ele estava deitado em sua cama, no quarto de hotel, lendo algumas páginas do livro de Ricardo Reis. Porém, seus pensamentos voavam bem longe, além daquelas linhas, daquelas letras... Nunca se sentiu tão ansioso pelo dia seguinte. Mais uma vez, entraria em ação em busca da origem da dedicatória.

Ouve batidas na porta.

-Entra – Autorizou, interrompendo a leitura vã.

-Boa noite, senhor. Vim lhe trazer um recado – Disse a camareira.

-Que recado?

-Uma mulher pediu que a encontrasse no bar do hotel.

-Uma mulher?... Ela se identificou?

-Sim. Disse que se chama KARINA SCHUENK. Veste um vestido vermelho.

Lohan arregalou os olhos, fechando o livro, num baque.

-Tem certeza?

-Absoluta. Posso ir, senhor?

Lohan entrou em devaneio, e fez um gesto vago, pedindo que a camareira se retirasse.

-Obrigado.

Ela se retira, fechando a porta.

-Karina... Será uma trama contra mim? Será mesmo ela? Supostamente ela trabalha em um jornal, o que leva a crer que ela tenha sabido do caso, procurado se informar onde eu me instalei, e vindo até aqui... Mas a minha hospedagem aqui deveria ter sido mantida em sigilo. Pelo sim e pelo não, veremos – Deduzia em voz alta, com o espírito de um detetive experiente.

Lohan deu um salto da cama, calçou os sapatos, lavou o rosto e desceu de elevador. Seus pais estavam a dois quartos do seu. O advogado havia se ausentado, prometendo retornar quando necessário.

Não carregou o livro consigo. Depois de todos aqueles acontecimentos, todo cuidado era pouco. Precisava confirmar a identidade dessa mulher. Sentiu um suor frio escorrer pelas têmporas. O elevador alcançou o térreo.

-É agora.

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Até o quarto e último post!

2 comentários:

Ana Beatriz Manier disse...

Lohan, o problema da carência foi resolvido. Ufa... Sou EU a sua amiga secreta!
Agora estou curiosíssima para ver o fim vc que vai dar a esta história mirabolante!
Estou aguardando! bjks.

Simone Prado disse...

rsrsrs... Como sofreu essa Simone, coitada!!!(rs!) E logo onde? Em Lumiar!!!!!
Muito interessante a história, e bem escrita também. Estou ansiosa pelo último post. Não demore!(rsrs...)
Bjão. Si.