domingo, 4 de julho de 2010

Entrevista com um ET

Sexta-feira, 23 horas. Fortaleza, a capital do Ceará, está calma, após a desclassificação brasileira diante dos holandeses. Terminaram os feriados da Copa. Eu, que desde o início, já não botava muita fé na seleção canarinho, sigo tranquilo minha normal intranquilidade.

As contradições fazem parte da vida. Um heroi do primeiro tempo pode rapidamente se transformar em vilão no segundo. Foi neste instante de pensamento, nesta fração de segundos que lembra um jogador perdendo a cabeça e pisando no adversário, recebendo logo depois um cartão vermelho, que ele apareceu. Não o jogador camisa 5 do escrete verde-amarelo. Estou falando de um ET. Isso mesmo. De um Extra-Terrestre. De verdade.
Não tinha mais que 10 centímetros, ele. Não posso dar muitos detalhes, eu não sou muito detalhista. Só poso dizer que era verde, sua pele. Vestia uma roupa nas cores da seleção: azul e amarelo. Primeiramente eu achei aquilo engraçado, mas depois entendi (explico depois). Meu medo eram seus enormes olhos brancos. Tinha só um pequeno furo como nariz e quatro grandes orelhas. Não tinha boca. Mas ele falava. De alguma forma ele falava e eu escutava.
No começo, eu não entendia nada do que ele dizia. Saquei logo meu gravador digital. Não poderia deixar passar tão raro momento. Estava ali um torcedor ilustre, talvez um dos poucos a teimar continuar vestindo a camisa do Brasil. Tantos verbos não seriam suficientes para descrever a cena. Por isso liguei o gravador.

Sidarta: Quem é você? Você fala minha língua?

ET: Falo não somente a sua língua. Mas, por enquanto, nos é conveniente que eu lembre apenas da sua. Não sou do seu mundo, mas estou nele há muito e muito tempo.

Sidarta: De onde você vem? Há quanto tempo está aqui?

ET: Aqui no Brasil, estou há mais de séculos. Eu venho da mesma fonte que todos os meus irmãos.

Sidarta: Existem outros como você por aqui?

ET: Sim. Estamos por toda parte, em todas as nações. Mas os humanos não nos veem.

Sidarta: Eu o vejo...

ET: Você foi sorteado. Na verdade, muitos conseguem nos ver e até conversam conosco, mas depois esquecem. Principalmente depois que crescem.

Sidarta: Qual é o seu propósito aqui, agora?

ET: Responder às suas questões.

Sidarta: Hum... Bem, você me pegou de surpresa. Deixe-me pensar... Por que você está vestido assim?

ET: Porque eu torço pelo Brasil.

Sidarta: Tá certo, mas... o Brasil perdeu.

ET: Eu não torço só pela seleção brasileira, eu torço pelo Brasil.

Sidarta: É só isso o que você faz, torcer pelo Brasil? Você não tem uma pátria própria?

ET: Como eu disse, eu não sou deste mundo. Hoje, no lugar de onde venho, já não existe mais essa coisa de “patriotismo”. Já passamos desta fase. Mas para vocês é importante. Não o patriotismo do tipo “ame-o ou deixe-o”, mas a noção de brasilidade, a identidade brasileira. Todo povo necessita olhar-se no espelho para resgatar sua autoestima, assim como todo indivíduo humano precisa fazer o mesmo através do autoconhecimento. O brasileiro médio ainda possui um complexo de vira-latas. Por trás deste véu, há um enorme potencial criativo, que vem dessa natural abertura para o outro, para a cordialidade, para a mistura. Na verdade, o Brasil já está despertando. Os que não conseguem enxergar isso ficarão para trás. Ajudar nesse processo evolutivo é o meu papel. Não só meu. Tenho muitos outros irmãos e irmãs fazendo o mesmo trabalho por estas terras.

Sidarta: Isso parece coisa de evangélico. Por falar nisso, você acredita em Deus?

ET: Não acredito, eu sei. Quando alguém precisa acreditar, é porque ainda tem dúvidas. Mas não se incomode em tê-las. Elas servem como guias, as dúvidas. O ser humano que só tem certezas é um ser imobilizado. Ser humano é ser naturalmente dividido.

Sidarta: Dividido?

ET: Um de vocês já disse um dia que é preciso antes buscar se humanizar, para depois poder se santificar. O ser humano está interiormente crucificado entre o que é animal e o que é divino. É importante reconhecer isso, esta aparente contradição. A alma humana é filha de um Pai, que é Deus, o espírito; e de uma Mãe, que é a Natureza, a Terra, a matéria. Assim como a criança, que ora se identifica com a mãe, ora se identifica com o pai, toda humanidade também passa por estas fases. Talvez hoje vocês da Terra estejam no período da “adolescência”, de rebeldia e questionamentos. O ser humano quer ser independente, e isso é natural, faz parte do processo. Inclusive “brigar” com Deus ou “matar” Deus. Mas vocês precisam deste passo, de desligarem-se de um Deus exterior, que julga e pune, para adquirirem autonomia, e só adquirindo a verdadeira autonomia é que poderão reencontrar o divino em si mesmos. Hoje, o homem dominador se considera um ser à parte da Natureza, acha que pode controlá-la, dominá-la. Aliás, acha que pode controlar a própria vida. O universo, porém, está todo interligado, e é muito mais complexo do que o mais Nobel dos seres humanos imagina. Há muito mais coisas entre o céu e a terra...

Sidarta: Sei, sei. Por acaso você já encenou o papel de Hamlet? Desculpe, mas não estou ouvindo nada de novo. Tudo isso eu já li por aqui, entre nós mesmos.

ET: E como sabe se não fomos nós quem lhes inspiramos tais ensinamentos? Na verdade, trata-se de leis universais, de princípios norteadores do universo. Nada se cria...

Sidarta: Eu sei, eu sei: “nada se perde, tudo se transforma”. Pensei que você fosse me trazer uma coisa inovadora. Francamente, estou decepcionado. O que direi ao meu amigo secreto João?

ET: Mostre o que você tem. Nenhum presente é melhor do que a presença. Neste caso, vocês Autores S/A estão presenteando-se com um pouquinho de vocês mesmos. É como se fizessem presentes através da palavra. E isto, de certa forma, também é evangelizar. Porque são palavras quem vêm de dentro de cada um, de cada uma. E se elas brotam de dentro, brotam da essência, que é naturalmente divina.

Sidarta: Mesmo que sejam palavras chulas?

ET: Bom ou ruim, certo ou errado, são pontos de vista. O que é errado para um parece certo para outro, e por aí vai. Todo julgamento humano é relativo. Não há uma só verdade. Cada um tem o seu momento, o seu lugar específico no universo, demandando a sua própria verdade. O que a vida está o tempo todo a perguntar é: Qual é a SUA verdade? Qual é o SEU papel no teatro da vida? Você sabe? Se não souber ainda, trate de se questionar. Nesta jornada, o que move são as perguntas. São elas que fazem, por exemplo, que eu apareça para você.

Sidarta: Olha, isso está parecendo aqueles livros de auto-ajuda...

ET: De fato, os livros do meu mundo só tratam dos temas que tratamos aqui.

Sidarta: Como? Vocês ainda usam livros? Puxa vida, e eu aqui perdendo meu tempo, pensando que vocês eram seres evoluídos...

ET: Você não entendeu. Nossos livros são...

Sidarta: Eu não quero mais conversa. Pode ir embora. Já está tarde, são quase duas da madrugada, eu estou morrendo de fome e...

Pois é. Ele desapareceu. E eu fiquei com a impressão de que tudo isso não passou de um sonho.

Mesmo assim, mandarei o meu presente.

Para João, novo evangelista.

De seu amigo não mais secreto e também novo evangelista, Sidarta.

6 comentários:

Camila Furtado disse...

Uau! Que encontro (e não duelo) de titãs! Sidarta e João, dois visionários, dois homens com uma visão crítica privilegiada, dois homens de bom coração e dois amigos por mim muito queridos!!! Esse papo eu queria presenciar... ah se queria!

Andréa Amaral disse...

Fiquei com uma pontinha de inveja...sempre sonhei em ser abduzida. Dá próxima vez, pede ao ET para me enviar uma mensagem linda dessas também? Parece até psicografia... você é um sábio mesmo. Seus pais já sabiam disso quando te deram esse nome.

Eduardo Trindade disse...

Bah, que encontro-diálogo delicioso de se ler! Muito criativo mesmo, digno de Sidarta. E de João, claro.
Agora, cá entre nós, vou confessar que, por um instante, estavam falando de mim, afinal eu também sou um E.T. (Eduardo Trindade...).
Abraços!

Andréa Amaral disse...

Se todo ET for fofo assim, quero ser abduzida logo!

Sidarta disse...

Rsrsrs...

Eu não sabia o que escrever para o João. Mas lembrei de suas postagens, de o quanto de polêmica elas geraram, o quanto de discussões. Estava ainda no clima da derrota brasileira na Copa.

Então me veio à mente (não sei por que) a ideia de uma entrevista com um ET. Simplesmente acatei a sugestão que veio de dentro. Como estou fazendo terapia com uma analista junguiana, creio que o texto serviu mais para mim do que para o João. Mas como os dois somos humanos, resolvi mandar este presente mesmo.

Se por um lado a entrevista toca em um tema caro ao João (e a mim) - a brasilidade, por outro fala do que é humano: a contradição, a dubiedade, o conflito entre opostos. Como lidar com isso?

Eu não sei.

Preferi recorrer a um ET.

João Luiz disse...

Sidarta meu caro!!!

Gostei muito desse texto,fiquei muito feliz em ser teu amigo secreto e essa entrevista com um E.T. foi um presente,com certeza vou guardar com muito zelo.
Sempre aprendo contigo e quero continuar aprendendo!

felicidades irmão!!!