sábado, 16 de abril de 2011

Chocolate meio amargo

Olá, autores s/a,

Este é meu primeiro texto no blog. Fui convidado pelo autor Lohan, e terei muito prazer em compartilhar com vocês alguns textos meus. Obrigado, Marco.


Sol de lascar das quatro. Asfalto fumegante, imagens retorcidas e nenhuma clemência. Pelo corpo o suor empapava, nas mãos, uma caixa cheia de coisas semi-derretidas. A impaciência no peito, o ódio na garganta. O braço débil faz sinal para um ônibus. Ele implora. O motorista concede. Dentro do veículo ele faz seu discurso humilde contendo a revolta. Sempre teve muita lábia, mas a mercadoria não ajudava. Escolha errada para aquele sol repentino. Afinal chovera a semana toda. Finaliza sua fala com o clássico: “eu poderia estar roubando, matando, mas estou aqui vendendo”. Ninguém se comove. Uma mulher gorda vira o rosto para janela e finge admirar a paisagem. Um casal conversa indiferente. Mas foi o ato do office-boy de colocar os fones do seu mp4 que deflagrou tudo. Sacou a pistola que trazia escondida no cós da calça e acertou um por um bem no meio da testa. Agradeceu o motorista, desceu do ônibus, atirou fora a caixa de chocolates. Era verão mesmo, melhor seguir o conselho do seu irmão que sempre dissera. “Se eu tivesse uma mira como a sua não ia ficar por aí vendendo porcarias, ia entrar para o crime.” O ex-vendedor caminhou a esmo, peito aliviado, pensando se subia o morro ou se entrava para política.

Autor: Marco Tozzato.



7 comentários:

Camila Furtado disse...

Não te conheço ainda, mas gostei de você, rsrs... Textos viscerais assim são meu ponto fraco, sou uma grande admiradora do gênero! Tio Rubem Fonseca e tio Dalton Trevisan não saem da minha mesa de cabeceira por nada. Em tempos de indiferença exacerbada e atos absurdos de revolta e violência, é uma tarefa difícil fazer com que a ficção supere a realidade. Obrigada por nos trazer boa literatura.
Seja muito bem vindo ao nosso blog!!!

Simone Prado disse...

Um barato essa crônica, Marco. Cheguei até comentar com o Lohan sobre ela. Hoje mesmo, quando peguei o ônibus para ir ao curso, me lembrei do seu texto, rs.
E sobre o compartilhar, então que venham outros textos seus tão bons quanto.
É isso aí!
Um abração!

Lohan disse...

Bem vindo ao Autores, Marco!
Que bom tê-lo aqui, conosco. Esse seu texto é um soco no estômago, no bom sentido, claro. Sua literatura tornará menos amarga essa realidade, tenha certeza.

Obrigado!
Abraços, Lohan.

Ana Beatriz Manier disse...

Muito bom! Narrativa concisa, fluente e um "toquezinho" de humor no final. Bem-vindo, Marcos!
Ana

Andréa Amaral disse...

Esse final é a cara do Rasbil. Só senti falta de uma terceira opção: entrar para a política. Se bem que a arma utilizada é bem diferente.
Adorei. Bem vindo.

Lohan disse...

*Mas ele entra para a política, Andrea! Eu também havia confundido com ''polícia'' antes.

Bj

Ana Beatriz Manier disse...

"Política", galera, aí está o toquezinho de humor....