
Praia, sol a pino, abafamento, areia queimando os pés por baixo do solado de palha.
Não tinha jeito: ou alugaria um guarda-sol naquele exato momento ou iria embora na mesma hora. Não seria difícil, havia vários barraqueiros por perto. Logo chamei um senhor de camiseta e boné vermelhos.
− Moço, bom dia, um guarda-sol e uma cadeira, por favor.
− Bom dia. Aqui mesmo, senhora? A maré vai subir rápido hoje... – respondeu com uma voz metálica.
Há dias frequentava a mesma faixa de areia. A maré subia sim, mas só lá pelas três da tarde.
− Aqui está bom, não vou ficar muito tempo. – Eu estava tão desesperada por uma sombra, que responderia qualquer coisa para tê-la ali, aqui e agora.
− Trago já, a senhora aguarde só um minutinho.
Aguardei e foi só um minutinho mesmo. Logo em seguida chegaram barraca e cadeira. Agradeci e me acomodei: pendurei a saída de praia nas varetas, coloquei a bolsa com água, livro e protetor solar ao meu lado, na areia.
O homem assentiu com a cabeça e saiu.
Minutos depois, chega o moço de camisa e boné vermelhos com barraca e cadeira debaixo do braço.
− Ué, quem atendeu a senhora?
Levei um susto, sua voz soou como pratos em meus ouvidos. Já havia jogado todo o meu peso na cadeira e suspirado “sentei”.
− Não foi o senhor? – respondi, olhando para o moço e protegendo os olhos do sol.
− Não, né, dona? Não está vendo? A senhora tratou comigo e pegou com outro – reclamou, aumentando o tom da voz.
De senhora eu passara para dona. O homem estava irritado. Fiquei com medo de que armasse um barraco. Ele continuou:
− A senhora pegou a barraca 7/128 e a minha é a 7/127. Está entendendo?
Por um momento, cheguei a ter dúvidas se havia perdido algum sentido cabalístico do negócio, mas não, a verdade é que ocorrera um engano.
− A gente se organiza aqui. Ó, olha só.
Olhei. Havia um mar de barracas vermelhas 7/127, 7/128, 7/129...
− Ô, Sergio! Vem cá! Foi tu que atendeu a dona aqui?
Sergio aproximou-se.
− Foi. Ela me viu e disse que era bom que eu já tinha chegado. Aí, eu montei pra ela. E sou besta?
− Sim, não. Quer dizer, eu disse: “Ai, que bom que o senhor já chegou com a barraca” porque achei que o senhor fosse o senhor – expliquei-me, gesticulando para um e outro.
− E não foi isso o que eu disse? – Olhou-me como se eu fosse a besta.
− Sim, tudo bem, deixa pra lá.
− Mas a freguesa é minha. Eu vi primeiro.
− Viu mas não pegou.
− Fui pegar a barraca, ô mané.
Os barraqueiros se entreolharam.
− Olha, se tu quer a mulher, pode ficar com ela. Mas foi ela que me chamou.
Prestei atenção à sequência: senhora, dona, mulher... Os dois já estavam bufando. O que viria pela frente? E como assim “se tu quer a mulher pode ficar com ela”? Por acaso sou saldo de estoque? Estava na hora de acabar logo com aquela pendenga.
− Olha, com licença. A culpa foi minha. As barracas têm a mesma cor, os dois estão de camisa e boné vermelhos e são até meio parecidos. Eu estava com muito calor, não prestei atenção e achei que eram a mesma pessoa. Peço desculpas.
Silêncio opressor. E então:
− Aí, cara, a gente parecido... vê se pode.
Ai, meu Deus...
Virou-se para mim:
− A senhora vai ter que escolher entre nós dois.
Caramba, que chatice, minha vontade era e chutar o pau da barraca e dizer “não quero nenhum dos dois”, mas debaixo daquele sol...
− Não se trata de preferência, apenas me enganei, só isso. Hoje fico com o Sergio, pois ele já fixou o guarda-sol. É Sergio, não é?
− É sim senhora. Sergio Cerqueira.
− Amanhã fico com o senhor. Tudo bem assim?
− Tudo bem, dona, o colega aí já fincou a barraca mesmo, deixa como está, mas, amanhã, a senhora presta atenção: eu sou 7/127 e ele é 7/128.
− Prestarei. Seu nome?
− Qual?
Não entendi a resposta. Repeti.
− O seu nome.
− Juvenal. Mas pode me chamar de Tainha. – Olhou para o outro e completou: − Tainha da Silva.
Tainha da Silva saiu emburrado, com a dignidade ferida. Sergio saiu com cara a triunfante, filho da mãe.
Eu fiquei sentada sob o guarda-sol 7/128, ali fincado por um homem de camisa e boné vermelhos.
Estava chateada e suada.
Isso é que dá não olhar o rosto das pessoas.









3 comentários:
kkkk. Valeu. Isso rola mesmo. Boa estória. Ou história?
Ju
Adorei, Ana!!!!!!!!!!
Que sequência é essa: "senhora, dona, mulher"??????
Demais!!!!
Mais uma bela crônica da amiga Ana. Tratemos com respeito nossa clientela - desde que seja nossa a clientela, rs. Caso contrário... Ô mulher! rs.
Beijão!
Lohan.
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