sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A arte do miniconto e "O robô"


Olá, amigos,

Hoje estou publicando o meu primeiro miniconto (ou microconto, como preferirem). Primeiro e único, até então. Criar um texto de tal porte não é tão fácil quanto parece. Exercitar o poder da síntese, da brevidade literária, é fundamental para todo autor, sobretudo para mim, particularmente, que tenho o hábito de mergulhar em longos devaneios palavrosos, como já diria meu amigo e escritor Nilto Maciel. O dever do microcontista é, basicamente, sintetizar o pensamento e transmitir a mensagem com eficácia, e, claro, com o toque de brilhantismo essencial a todo texto que se preze, permitindo ao leitor um leque interpretativo rico.



Aproveitando a onda dos minicontos, vale à pena divulgar a notícia de que o camarada e ex-participante do Iº Concurso de Poesia Autores S/A, Ricardo Thadeu (para quem não sabe, o famoso J. J. Wright no concurso), estará lançando, amanhã, o seu livro de minicontos, "Camisa de Marte", pela Editora Multifoco. O lançamento ocorrerá na Biblioteca Municipal de Riachão do Jacuípe, Bahia. Desejo sorte ao grande escritor. Abaixo, a capa do seu livro e um dos seus minicontos presentes na obra:


Dois garotos jogavam videogame na sala. Duas garotas brincavam de boneca no andar de cima. Doze anos depois, tabus foram derrubados e os quatro brincaram. Juntos. 
(Thadeu, Ricardo. Croissant quase sutil. In.: Camisa de Marte. Editora Multifoco).

Conheço também os microcontistas Geraldo Lima, Paulo Luís Fodra e Rodrigo Domit, todos os quais eu anseio ler. Ainda comprarei os livros desses caras. Também o meu camarada Edweine Loureiro, escritor brasileiro que mora na terra do sol nascente, é um grande microcontista. Seu último feito foi ter vencido um concurso de minicontos promovido pela editora L&PM, em homenagem a Charles Dickens. O miniconto deveria ter a palavra ou o numeral duzentos (200), além de ter de respeitar o limite máximo de 200 caracteres (com espaço). Vejam a obra de arte vencedora:


PREÇOS


Gritava à janela da amada, que o havia deixado por um homem mais rico:
- E o Amor, Julieta? Vale quanto?
E uma voz, vinda da esquina:
- Duzentos reais, uma noite.

O miniconto mais famoso do mundo é do hondurenho Augusto Monterroso. Eis as sete palavras iluminadas:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.

Quem acordou? Que dinossauro seria esse? Ainda estava lá... Aonde? E, assim, o miniconto produz um conto imenso de sensações e ilações no leitor. Após Monterroso, o gênero se tornou mais admirado pelos críticos, embora não reconhecido. No texto "La brevedad", Augusto surpreende, menosprezando o gênero que o tornara célebre:

“Com freqüência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom. Contudo (...) o escritor de brevidades nada anseia mais no mundo do que escrever interminavelmente grandes textos, grandes textos em que a imaginação não tenha que trabalhar, em que depois de feito, coisas, animais e homens se cruzem, se busquem ou fujam, vivam, convivam, se amem ou derramem livremente seu sangue sem se sujeitar ao ponto e vírgula, ao ponto. A este ponto que neste instante me é imposto por algo mais forte que eu, algo que respeito e que odeio.” 

Particularmente, eu discordo da opinião do mestre. O miniconto é uma opção (dentre várias) de gênero. Fosse assim, todo romancista sonharia em escrever uma Bíblia. Fazer um miniconto exige uma competência e tanta. Será que todos os autores de intermináveis textos seriam capazes de desenvolver com êxito tal proeza? Quanto aos mercados editorias, nem entro nessa questão... Afinal, o bom escritor escreve para ser ou para vender? Se for com a finalidade soberana de vender, me perdoem os Coelhos da vida, mas vocês são comerciantes, e não escritores. O grande equívoco de um autor não é quando ele opta por escrever um miniconto, ou poesia, ou um ensaio, que seja. A grande burrada, eu diria, é quando um autor classifica sua obra, ainda em desenvolvimento, se utilizando dos seguintes critérios: 

a) apta para vendagem               b) apto para ficar na gaveta

Neste momento, seja qual gênero for, morre a literariedade.

A onda dos minicontos aumenta à medida que as demandas sociais pela internet crescem, pulverizando as informações. Seria uma coincidência, ou seria um fato conseqüência do outro? Prefiro acatar a segunda alternativa. As informações instantâneas, que dominam sites como o Twitter e o Facebook, por exemplo, fazem parte de um novo processo cultural - o do minimalismo prático.

Ser prático é ganhar tempo. Reduzir as comunicações é ser prático, logo, as pessoas querem economizar tempo tirando proveito dos melhores meios para suas finalidades (neste caso, os meios virtuais). Saramago já dizia...

"De tanto reduzir a comunicação, o homem vai conseguir involuir para os grunhidos."

A efervescência dos minicontos no cenário literário atual é satisfatório para qualquer leitor. Diferentemente da comunicação em redes sociais, que, na maioria das vezes se faz medíocre, o miniconto é resultado de um trabalho árduo, que se enxuga a todo instante, cortando-se os excessos, a vírgula, o ponto; tornando enxuto um texto que poderia se desenvolver e se tornar um belo romance. Se dependesse dos minicontos para saldar suas dívidas, Alexandre Dumas estaria encalacrado (assim como esteve, independente dos minicontos). O autor de “O Conde de Montecristo” era pago por palavra escrita, logo, imaginem só quanta lingüiça não foi preenchida. 




Louvo aqueles que escrevem minicontos de qualidade, à altura de qualquer conto ou crônica. Eu, mero aprendiz, publico, abaixo, o meu primeiro passo. Uma tentativa, eu diria. Vamos a ela:

O robô

Quando acordou, o robô já estava lá. Hercólubus já não era mais o segundo sol. Os holandeses transavam sob abissais oceanos. Fidel Castro já era um fóssil exposto em um museu dos EUA. Clones perambulavam pelas terras vermelhas de Marte. Jesus já havia alcançado dois bilhões de seguidores no Twitter. A Monalisa conversava com seus visitantes no Louvre. Cientistas haviam encontrado um papiro o qual revelava o grande mistério da humanidade: sim, meus caros, Capitu traiu Bentinho. 

Grande abraço, até a próxima.
Lohan.

7 comentários:

Camila Furtado disse...

Lohan, adorei sua nova faceta literária! Gostei muito do texto introdutório tb. Quando penso em microcontos, me vem à cabeça meu amigo Paulo Fodra, bem lembrado por vc neste post. Mas, olha, adorei seu miniconto, muito bacana mesmo!!! Acho que vc deve investir nisso, hein!
Beijocas minhas

Lohan Lage Pignone disse...

Obrigado, Camila! É, nova faceta, rs, vamos ver no que vai dar, rs...

Sim, li alguma coisa dele já em relação a micros, muito bom! Vou procurar elaborar mais minicontos, e postando por aqui.

Bjs!
Lohan.

Ricardo Thadeu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ricardo Thadeu disse...

obrigado, lohan, por citar o livro e o mini. gostei do teu conto. adelante!

hasta luego

Dante O velho disse...

Continue, continue, queremos mais muito mais.
Amo minicontos, sua provocação impele-me à criação.
Parabéns!
Abção Dante

Lohan Lage Pignone disse...

Obrigado, Ricardo e Dante!
Muito bom receber o incentivo de grandes autores como vocês. Vou adelante, rs.

Dante, vou aguardar um miniconto seu por aqui!

Abraços!
Lohan.

Paulo Ramos disse...

Um Miniconto é sempre uma provocação deliciosa... tem gosto de Carambola quase madura...Gosto que me enrosco...

Parabéns Lohan... sempre!