sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Gato Entupido ou Metabolismo Atávico



"Arte é apalpar a divindade." 
Roberto Magalhães,1970. 




A arte vive, nos nossos dias, momentos de intensa dicotomia; Por um lado, tem à sua frente diversas possibilidades de realização criativa, nos campos material e estético; Por outro, ressente-se de uma falta, grave, de novas aplicações do material técnico. 
Em termos formais e conteudísticos, vemos surgir, cada vez mais, tendências “saudosistas”, muitas vezes imitativas, das fases anteriores, mais notadamente do Dadaísmo e da Pop Arte, sem mencionar a manutenção do Classicismo acadêmico (conforme pensam alguns). 
A arte contemporânea; a que já nos devíamos ter acostumado chamar: Pós Moderna; tem procurado estruturar-se num revivalismo da forma plástica clássica, com integrações de materiais, mais ou menos, inusitados e suportes cada vez menos ortodoxos. Em termos das capacidades técnicas de execução, temos visto um cenário que nos traz, desde o “pré histórico” pigmento sobre suporte, até às telas dos visores tridimensionalizantes dos computadores. 

Ao falar de Arte, aqui, temos em vista todas as formas de expressão criativa do gênero humano, desde o mais simples elemento artesanal, até à produção de filmes publicitários e videoclipes; passando pela literatura, Teatro e outras artes cênicas, Cinema e outras artes industriais (Televisão, Vídeo, Design etc.), Fotografia e a pouco explorada e conhecida Info Arte; todas são, a seu tempo, formas de expressão e comunicação, “linguagens” por assim dizer, e claro são todas formas de reforçar ou criticar as estruturas de mercado(e poder) vigentes na sociedade, individualista globalizada, contemporânea. Vemos os “pensadores” atacar o que lhes parece ser a desagregação ou caos, da forma e conteúdo das obras artísticas de agora, seus pragmatismos pudicos e adolescentes, pseudo libertários, não podem aceitar que a Arte esteja buscando a radicalização expressiva, que se revista de outros objetivos e práticas, opostos, mas resultantes daqueles do Modernismo; que os “em cima do muro” críticos e filósofos da Arte tiveram que engolir, com seus engajamentos políticos e sociais. Ora, as perturbações que ocorreram nos primeiros cinquenta anos deste século (com guerras quentes ou frias), foram a razão e matéria subjetiva da expressão plástica; o artista via, então, nisso, o ponto de partida para exercitar sua criatividade, e via em si e suas obras, os detratores das ações anti sociais de grupos de poder político e econômico, com seus discursos opressores pasteurizantes; tendo sido, em alguns momentos, os pontas de lança de movimentos revolucionários; cedo, porém, os artistas perceberam que a Arte não é revolucionária, tão pouco é conservadora, a Arte é representação e linguagem, e como tal, possui códigos, símbolos, índices e ícones particulares, cabendo ao observador retirar dela aquilo que lhe sirva como arma ou simples fruição. 

A vantagem da Pós-Modernidade é que ela não pretende, nem quer, negar ou ultrapassar suas ascendências genealógicas, como queriam as fases anteriores, outrossim assume-se como resultado, ou amálgama das heranças expressivas que lhe permeiam o cerne; não quer curar suas feridas, quer mantê-las abertas, beijando as próprias pústulas, qual leproso orgulhoso. 
Um olhar mais profundo, vai buscar e retirar dessa superfície enrugada, uma carne macia, clara e ainda muito pouco enervada; uma carne pronta para o corte afiado e o cozimento lento. 
Dentre todas as expressões contemporâneas da Arte, faz-se necessário realçar a presença da Vídeo Arte e da Fotografia, uma pela capacidade de análise do espaço no tempo, a outra pela fixação do tempo no espaço; a Vídeo Arte tem evoluído num sentido científico de aprofundamento do caos urbano e da psique individual, como no trabalho: “Feed me, Eat me” (XXIV Bienal de Arte de São Paulo, 1998); onde alguém nos grita, a todos os decibéis, as duas partes do título, a partir de aparelhos de televisão em diversas posições espaciais e físicas, onde só se vê o rosto de quem grita, associados a duas projeções diretas sobre as paredes da sala – Forte, objetivo, agressivo, de identificação imediata: “Coma-me, alimente-me”. 
Tivemos, no mesmo evento, a oportunidade de assistir ao trabalho da artista australiana Tracey Moffat, “Heaven” – onde com sua câmera caçava seres humanos (surfistas, mais exatamente), tentando desnudá-los, literalmente, suas mãos são vistas várias vezes puxando calções e/ou toalhas, ao som de músicas épicas, típicas de documentários, tipo “Mundo Animal”. 
A Fotografia que, por sua vez, busca, cada vez mais, relativizar sua abordagem realista dos objetos, também nos trouxe novidades, como: A supressão do valor formal temático, pela verticalização do horizontal e vice-versa. É também um grande prazer notar que ainda possui um grande poder de provocação, quando surpreendemos pessoas boquiabertas, frente aos painéis fotográficos (sensualmente cruéis) enormes, de um artista vietnamita, que por processos de manipulação informática da imagem, nos mostra o prazer sádico dos grupos militares de seu país: “Cortem-lhes as cabeças e os genitais também”, numa associação lírica de Alice no País das Maravilhas e Ascensão e Queda do III Reich (homoerotizado e banalizado). 
As artes em geral, na segunda metade do século XX, desengajaram-se da transformação revolucionária para se apegar à demonstração evolucionária. Não propõe saídas, fazem-nos pensar e repensar os caminhos que poderiam/deveriam nos levar a elas (Artes e saídas): são provocadoras emocionais e racionais, não sendo elas próprias nem uma coisa nem outra, assumidamente. Vasculham o meio e imiscuem-se em nós, como se fossemos perseguidos pelo coração pulsante daquele que matamos.(E. A. Poe, Coração Revelador, 1842). 
A Pós Modernidade é também Neo-Plástica, Expressionista, Surrealista, Clássica, acadêmica etc. – Neo Tudo e Neo Nada – Pós-moderna? Pré-Arcaica? É um polvo com alma, e um lobo sem lua; agarra-se a tudo que pode e quer, mas não uiva numa só direção. Quer muito, faz muito... mal tem tempo para digerir o que nem começou a mastigar, e cospe os pedaços; Quebra cabeças onde, propositadamente, faltam peças, e se faltam, faça-as você mesmo, ou fique satisfeito com o incompleto, o sujo e o feio: belos conceitos – comparativos, pragmáticos, absolutos. Sujo com relação a qual limpeza? À do moderno? Feio porque não é o meu reflexo no espelho? Ou justamente porque o é? ...”Por que és o avesso do avesso do avesso do avesso”...(C. Veloso, Sampa, 1970) e se São Paulo (cidade jovem) é assim; o que serão: Barcelona, Amsterdã, Londres ou Roma? E Nova Iorque: pai, mãe e parteira da Pós Modernidade, com seus museus “Europeus” e suas performances radicais convivendo no mesmo guia, para ávidos consumidores culturais. E eu, com meus trinta e cinco anos (a mesma idade da Pós Modernidade), que estive em cada uma destas cidades, e não tenho identificação cultural com nenhuma, mas acho todas “a minha cara”. 
Tenho fotografias para mostrar ... como disse um espanhol, certa vez:
“... Se o meu governo quiser, um dia, juntar documentação sobre o país, principalmente fotográfica, vai ter que pedir aos cidadãos japoneses, que só conseguem ver o mundo através de uma objetiva, e cujas memórias estão preservadas sobre papel, em infindáveis álbuns...”.(Anônimo, Museu do Prado,1996) 
São coisas, diria a minha bisavó, que um cão arrasta. Minha bisavó, que assistiu ao nascimento do automóvel, do cinema, do impressionismo e suas seqüelas. Que morreu antes de Peter Greenaway ou David Lynch fazerem filmes. Queria ter podido comentar com ela, “Veludo Azul” ou “O Livro de Cabeceira”. Não posso, não sei se não teria ela gostado mais dos filmes do que eu. Possuía, a pequena senhora, uma visão filosófica e científica, bem maior que a minha. Acostumava-se mais depressa às revoluções. Talvez por que viveu diversas, eu não... Filha do tempo, ela era... um tempo engrenado, de nova indústria, novo social e Arte nova, um tempo definido por cem anos, eu com um terço da idade e nem um milésimo da sabedoria. Ela morreu, porque estava cansada de ocupar espaço; eu vivo cansado de contar o tempo. Queria poder, ainda, me agarrar às suas pernas, seguro da proteção de quem aprendeu com a vida, inseguro do meu aprendizado literário.E é aqui que volta o “saudosismo”, não aquele do conservador, de uma manutenção estúpida do que foi ultrapassado, mas o da releitura, do redirecionamento, do pesquisar caminhos já trilhados, e tentar soluções para o imperfeito temporal eterno e o incompleto espaço finito. 

Paulo Acacio Ramos - PT

5 comentários:

Lohan Lage Pignone disse...

Paulo! Seja bem-vindo!

Que belo ensaio sobre o que é, o que foi e o que pode ser a arte e o pós-modernismo. Sugiro que desenvolva este texto, esta teoria, e vá em frente, publique-a. É uma visão que compartilho. Fique à vontade no Autores S/A.

Abração!
Lohan.

Paulo Ramos disse...

Obrigado!!!
Publicar é algo fora do meu alcance, por enquanto, mas o futuro sempre reserva surpresas, por isso...

Abraços!

Dante O velho disse...

Ufa!!!
Consegui num fôlego, lê-lo, mas seriam necessários mil vezes os fôlegos que tenho para digeri-lo.
Humano por demais , minha avó materna que o diga, quando saca de sua cartucheira pós moderna o eco dos seus próprios antepassados e nos embarca numa nau de caos e doçura.
Acredito no novo.
Acredito em tua escrita.
Acredito.
Acre-dito.
A-crê-dito.

bjão

Paulo Ramos disse...

Valeu Dante, meu querido, é óptimo por demais ter-te como leitor e amigo!!!

Beijos!

Anônimo disse...

primeiramente, parabéns pela possibildade da postagem anonima, isto num mundinho ávido de controle q cada vez mais teme o poder disforme do anonimo.

Quanto ao seu texto, por vezes perde o tom na enumeração de coisas, virando uma simples listagem de mercearia, o que o deixa pobre e cansativo. E vc tb acaba caindo no clichê para criticar a merda presente em 70 por cento das galerias do mundo, incluída Nova York.

Seu confuso panorama se configura patético na busca prosaica e constrangedora da vovozinha de suas memórias, que definitavamente não interessam para a arte de nosso tempo.

Estude mais.

Adeus,
A