quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pequenos Diálogos


No almoço

- Acho que não volto para o escritório. Não tô legal.
-Mas, o que você tem?
- Acho que contrai uma dessas doenças novas. Ou é “gaynusite” ou “bichite”. Sei lá. Acordei meio estranho, meio gay. Sabe como, né?
- Não! Não sei, não. Como é?
-Primeiro, eu fiz a loca na garagem do prédio. Você acredita que bloquearam meu carro. Dei a Elza e quase chamaram a policia.
- Hum...
- Depois, já estava trabalhando quando a Dona Arlete, aquela das finanças, entra na minha sala com uns sapatos horríveis. Quase morri!
- E, agora? O que está sentindo?
-Não sei. Mas, aquele ator global que acabou de entrar. Tá vendo? Ele é tudo!
-Cláudio, toma vergonha. Essa não cola aqui não, rapaz.
- Ué! Segundo Feliciano, ser gay agora é questão de saúde pública.
-Isso só é doença na Felicilândia. Agora para de frescura e vamos que tá na hora.
Passando pela mesa do ator global, Cláudio não se conteve.
- Mateus Solano, você arrasa! 

No café da tarde

- Eu me apaixonei foi pelo nariz dele. Aquele nariz meio árabe, nariz à La Rodrigo Lombardi.
As duas amigas de Clarice estavam chocadas com a revelação, mas ambas concordavam que o nariz do Lombardi era O Nariz.

No jantar

- Eu sou a favor da ditadura.
O espanto foi geral. Todos que estavam naquele jantar ficaram em silêncio. Constrangidos pela asneira que Clarice (sempre ela) acabara de pronunciar.
- Eu sei que é politicamente incorreto pensar algo assim. E, sei também que todos estão me crucificando interiormente. Mas, deixe-me concluir.
Passando do total estado de horror para o de total curiosidade, os presentes esperavam a justificativa do injustificável.
- Bom, numa ditadura não estaríamos expostos a esses tipos de Che Guevaras que aparecem do nada com suas militâncias milagrosas.
- Como diria Chico Anysio, “Caalaada”! – disse Alberto, um petista convicto – nós vivemos numa democracia, temos direitos e podemos fazer o que quisermos. Já pensou nisso?
- Vivemos nada. Pelo menos na ditadura teríamos certeza que não temos direito algum. O que nós temos ou tentam fingir que temos é uma democracia fajuta. Já parou pra pensar que a única coisa que funciona nesse país é o sistema eleitoral. Tentam nos empurrar a idéia de que é mais prático e rápido, é mais seguro e ninguém pode se passar por você. Já parou pra pensar porque é assim?
- Não. – disse o acanhado companheiro.
- É seguro, senão o que iria ter de fraude. Ia ser neguinho votando varias vezes, até os mortos e bebês iriam para as urnas. Festa da democracia. Aff... Pura lorota. Historinha pra boi dormir.
- Gente! Vamos para de discutir política – interveio Gláucio, um Tucano assumido e receoso da conversa parar no governo FHC.
- Só mais uma coisa. Clarice, o quê você tem contra o Che  Guevara?
- Nem queira saber! Nem queira!

4 comentários:

Lohan Lage disse...

Grande Anderson! Adorei os diálogos, tão atuais e tão bem escritos, com humor ácido, pegajoso. Vamos contribuir com a literatura de protesto!

Parabéns pela bela estreia.

Lohan.

Matheus Lemos disse...

Kkkkk essa cura Gay ta dando mesmo oq falar.. kkk adorei o Dialgo muito bom.. e oq vc tem msm contra Che Guevara? kkkkkkkkkkk

Simone Varella disse...

Sem palavras Anderson...apenas o parabenizo e me orgulho de você...Bjuss e Boa Sorte!!!!

Mariana Ribas disse...

De um revolucionário cauteloso a
um contador de histórias rs
Adorei!