quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quarto de tralhas

(por Cinthia Kriemler)


Carmem enterrou o marido e, quatro meses depois, a sogra. Estava finalmente livre daquela família que fora sua por conveniência. Uma conveniência que tinha se arrastado por muitos anos. Não fosse a recompensa que agora desfrutaria, não teria aguentado Nestor ao seu lado. Tinha nojo do marido. Do seu corpo, da sua risada, dos seus dentes amarelados pelo cigarro importado que fedia tanto quanto fumo vagabundo. E um nojo maior ainda do sexo morno que fazia com ele sem vontade. Mas se entregava à função como esposa apaixonada. Precisava ser assim.
Não fora apenas o dinheiro que a mantivera naquele casamento por 14 anos, mas também o status de ser casada com um homem tão rico e importante. A infância de pobreza e abusos fizera dela uma mulher insensível. Por isso comprazia-se em obrigar as pessoas à reverência, ao servilismo, à obediência. Dava ordens em tom de voz cortante e tratava os empregados com rispidez. Mas o que mais a fazia feliz era sentir a inveja nos olhos das amigas. Quanto mais era admirada ou temida, com mais intensidade e sensualidade fingia o sexo com o marido.
Cuidou para não ter filhos. Não precisava de crianças para satisfazer nenhum desejo primitivo de maternidade. Um filho só serviria para fazê-la ter que disputar ou dividir, mais tarde, a herança do marido. Além do mais, crianças são criaturas cruéis que falam a verdade. E havia coisas, como um ou outro amante ocasional, que ela preferia manter longe de testemunhas.
Quando a sogra foi morar com eles, Carmem mal disfarçou a fúria que tomou conta dela.
— Mas a sua mãe aqui, amore? Por que é que ela vem para cá?
— Mamãe está velha e cansada, Carmem. Eu fico preocupado com ela lá naquela casa imensa, só com os empregados.
— E as enfermeiras, meu bem?
— Essas só fingem que tomam conta dela! Mas vivem vendo TV, dormindo no horário de trabalho, falando ao telefone. Não, não. Sem ninguém para supervisionar, é um risco muito grande mamãe morar sozinha.
— Coloque uma enfermeira para vigiar a outra — ela sugeriu, desesperada.
— Não dá! Dois dias atrás, mamãe caiu de uma escada. Subiu para pegar uma echarpe que estava no alto do armário e a enfermeira nem viu. Caiu, fraturou o fêmur e ainda bateu a cabeça. Pois assim que ela sair do hospital, vem morar conosco e não se fala mais nisso. Já pedi até ao pessoal do escritório para mandar avaliar a casa dela e vender.
Para Carmem, nenhum argumento era mais convincente do que esse. Aumento de patrimônio era sempre assunto de sua preferência, o que serviu para amenizar a decisão de Nestor. Uns anos antes, quando o marido lhe perguntara se ela gostaria de saber mais sobre os negócios da família, sentiu-se tentada. Mas depois, pensou que demonstrar interesse poderia ser visto como um gesto de ambição e desistiu. Quando chegasse a hora de herdar a fortuna do marido, não queria que as pessoas dissessem que ela havia se casado por dinheiro nem que era a oportunista que realmente era.
Nestor morreu de causas naturais. É verdade que, muitas vezes, desanimada pelas finas rugas que começavam a surgir ao redor da boca e dos olhos, desesperava-se.Vou estar uma velha quando esse traste morrer! Imaginava, então, se seria capaz de matar o marido. Não, não seria. Tratava-se, na verdade, não de ser capaz, mas de avaliar os riscos. Uma investigação mais aprofundada, um passo em falso e, em vez de dinheiro, cadeia. Não. O marido tinha 18 anos a mais do que ela e seria normal que morresse antes. E, de um jeito ou de outro, ela estaria bem. Com Nestor vivo, não lhe faltava nada. Com ele morto, se livraria daquela boca murcha e molhada que fazia carícias frouxas no seu corpo.
Após a morte de Nestor, a presença da sogra na casa passou a ser um tormento a mais. A mulher não lhe dirigia quase a palavra e era óbvio que não gostava dela. Fora contra a decisão do filho, à época viúvo e sem descendentes, de casar-se outra vez com uma quase criança. Para piorar, ela percebera, desde cedo, que Carmem manipulava Nestor de modo a não dar-lhe filhos. E esse foi o ponto final em qualquer tentativa pacífica de aproximação entre as duas.
— Sua mãe não gosta de mim!
— Não gosta mesmo não. Ela acha que você se casou comigo por interesse — ele dizia, sem meias palavras, sempre que o assunto vinha à tona.
— E você, meu bem, o que você acha?
— Que todas as mães são assim mesmo, ciumentas.  Não se preocupe, bebê, eu sei que você me ama e que não vive sem mim.
Homens! Sempre tão autoindulgentes, tão cheios de si. Uma lingerie provocante, gemidos fingidos de prazer em troca de sua atuação medíocre e eles se acreditam inesquecíveis.
Enfim,  quando o marido morreu de ataque cardíaco, Carmen se empenhou com afinco no papel de esposa arrasada. Foi fácil fazer crer às pessoas que seu abatimento se devia à perda do parceiro. Estava, realmente, abatida. No entanto, o que a devastava era o medo do futuro. E agora? Como é que ele foi morrer antes dessa velha horrorosa? O que vai ser de mim com essa mulher no meu pé? Eu queria tanto ficar livre dela e desta casa.
Detestava a casa. Nestor nunca tinha permitido que ela mudasse nada de lugar ou que se desfizesse de nada. Os móveis antigos; as paredes pintadas e retocadas com uma cor apagada; o escritório do marido, austero e sombrio. Mas, acima de tudo, o que mais lhe dava repugnância era o quarto de pesca, um cômodo no qual Nestor tinha entulhado objetos variados, durante anos. Varas, molinetes, iscas artificiais, caixas pesadas ou pequenas repousavam ao lado de equipamentos mais sofisticados. Tentou convencê-lo a guardar a tralha fora de casa, num galpão construído especialmente para isso, mas pura perda de tempo. Nestor não abria mão daquela extravagância.
— Meus objetos de pescaria são sagrados. Eu quero tudo bem perto de mim, dentro de casa.
Só havia uma vantagem naquele quarto de entulhos: quando ia para lá, Nestor se esquecia dela por uma, duas noites, livrando-a do sofrimento de tê-lo por perto antes de dormir. Devia isso, também, a Júlio Cortes, o administrador dos negócios da família, único amigo de Nestor. Os dois se conheciam desde meninos. Estudaram no mesmo colégio e consolidaram uma amizade que se estendeu pelos anos. Quando assumiu a empresa, a pedido da mãe, Nestor convidou o amigo, no mesmo dia, para trabalhar com ele. Agradecido, sempre disposto a ouvir, Júlio foi a única visita que o marido recebeu em casa durante anos. Sua rotina era sempre a mesma: ficavam primeiro no escritório, por pouco mais de uma hora, para os despachos da firma, e depois seguiam para o quarto de pesca, onde conversavam e riam por horas.
Não houve surpresas no testamento de Nestor. Conforme previa a lei em caso de não haver descendentes, cinquenta por cento de seus bens iriam para a esposa e a outra metade para a mãe idosa, caso ainda estivesse viva. Em cláusula única, deixava para o amigo Júlio a caixa de iscas artificiais importadas, como “um gesto simbólico”, explicara o testamenteiro. Que ideia! Ainda bem que não deixou o iate — Carmem pensou, debochada. Após a partilha, a sogra não a incomodou mais. Melhor dizendo, passou a ignorá-la totalmente, evitando qualquer contato, até que, quatro meses depois, amanheceu sem vida. Morrera dormindo, de algum mal súbito próprio das pessoas de idade. Finalmente, Carmem estava livre. Rica, rica, rica! Rica e livre! —repetiu para si mesma durante toda a noite, rolando excitada na cama.
Naquela mesma noite, Júlio Cortes sentou-se no pequeno escritório instalado em um dos quartos do seu apartamento e abriu a caixa de iscas artificiais importadas. Pegou cuidadosamente um dos dois envelopes sobrescritados com a letra de Nestor e retirou de dentro dele o bilhete que lera inúmeras vezes :

Meu querido,

Deixo para você tudo o que é meu. Tenho medo do meu coração, que anda me dando sustos. Mas tenho mais medo de pensar que tudo o que construí pode ir parar nas mãos de Carmem. Por isso, escondi este último testamento num lugar onde só você o encontrará.
Se você está lendo este bilhete é porque eu morri antes de mamãe. Por isso, no outro envelope, está o testamento dela, fazendo de você também o seu herdeiro. Mamãe está muito doente. Cuide dela com carinho durante os dias que lhe restam, sim? E, principalmente, proteja-a de Carmem.  Eu lhe peço apenas que deixe para tomar posse de tudo depois que mamãe morrer, porque eu tenho receio que Carmem a ponha num asilo se souber que não herdou nada.
Só lamento não poder estar presente quando a notícia for dada. E não se preocupe, meus advogados estão instruídos a não deixar este testamento ser contestado. Eles estão de posse de algumas informações sobre o passado de Carmem.
Espero que esta tenha sido uma boa surpresa. Já estou com saudade, mas sei que um dia vamos nos reencontrar, meu amor. Até lá, seja feliz.

Beijos eternos

Nestor


Um comentário:

Eduardo Nicacio disse...

Muito bom!!! Adorei o final, meus parabéns!!