segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Censura no meio do caminho... Vamos matar a literatura!




Amigos Autores S/A,

Estava eu voltando para casa, após ter cumprido meu papel de cidadão, teclando um zero cívico para cada candidato (que de cândidos não têm nem a palidez de suas maquiagens), quando me deparei com um jornal desprezado na calçada clamando que eu lhe socorresse, salvando-o do completo abandono. Jornal cuja manchete gritava e ainda está gritando na minha frente: Livro clássico pode ser proibido.

O 'pode' aqui não atenua minha satisfação. 

Crianças e jovens desse nosso país republicano e republicando as mesmas misérias, que felicidade ser brasileiro sabendo que certas gentes se preocupam com a educação de vocês, querendo poupar-lhes do direito de aprender a ler. 

É, é verdade, brasileiros, Monteiro Lobato foi racista. Assim como Daniel Defoe foi um ladrão, um pervertido, e Machado de Assis um almofadinha inútil, cuja vida foi regida por futilidades e pensamentos sem qualquer objetividade.

'Que feio, tio, quem mandou chamar tia Nastácia de macaca de carvão.' 

Gentes do Conselho Nacional de Educação julgaram o livro Caçada de Pedrinho nocivo para as crianças, por causa da macaca. Se essa visão sublime sobre literatura for aceita pelo ministro da educação, Fernando Haddad, será a glória! Que conhecimento, invejável e doce saber o das gentes desses cargos públicos tão úteis para o desenvolvimento intelectual dos nossos alunos mirins. Isso, esconda destes que tia Nastácia trepou (oh, que palavra maliciosa...) como uma macaca, sim, porque macacos não trepam em galhos. 


E qual a graça de se ler uma grande obra de ficção se não transferimos para o tempo de outros os valores e vícios de nossa época?


Isso, vamos assassinar os contextos históricos e sociais, vamos estripar a pesquisa e as interrogações, a virtude de conhecer o que nos é estranho e distante no tempo, pensamentos e hábitos das sociedades do passado.


Crianças, atenção! Literatura nas escolas públicas deve ter função didática, porque é lógico que esse tipo de literatura não foi feito só para adultos bizonhentos cuja única função é aborrecer os pequeninos. 

Vamos, professores e políticos, seus bois da cara preta! opa, preta aqui pode ser racismo.


De novo:


Vamos, professores e políticos, bois da cara azul-marinho, vamos autoridades de caráter ensinar para essa garotada o quanto é precisa a leitura do protestante economista que, em visita a uma casa de católicos, depois de beber da água e do vinho e comer do pão e da macarronada sai declarando para um amigo que o problema da goteira na sala já poderia ter sido solucionado se os daquela família de católicos deixassem de comer o pão durante as refeições.  

Vamos em frente homens do saber e da educação, vamos matar a literatura! Não me espanta que grande parte das  nossas crianças e jovens odeiem ler, ou prefiram Harry Potter e Crepúsculo. 


Camillo Landoni  


              
    

7 comentários:

Lohan Lage Pignone disse...

Fodástico: acho que essa palavra define seu texto.

Engraçado que, em debates e campanhas presidenciáveis, nós, cidadãos que merecemos respeito, podemos assistir a uma série de barbáries, acusações, ofensas, e mentiras deslavadas.

Isso sim é discriminação. É discriminar o cidadão brasileiro. Monteiro Lobato não foi racista, é preciso que as pessoas se conscientizem e não relacionem mais autor e sua respectiva obra. Não existe Monteiro Lobato, existe sim, o sujeito linguístico que criou Emília, Pedrinho, Tia Nastácia e cia.
Este sujeito estava contextualizado. Ora, o país vivia uma abolição da escravatura recente. Tudo isso advém dos traços culturais, e não pessoais.

Pena que os educadores que hoje assumem postos elevados no governo não consigam enxergar uma coisa tão óbvia. Eles sim, precisam ler muito mais a respeito de teoria da literatura e afins.

Camillo, abraços!

Andréa Amaral disse...

E viva o Rasbil!
Ler para quê? Governo bom é governo que distribui crédito para compras nas casas Bahia; idolatra "artistas" de confinamento em casas de "celebridades"; edifica a falta de escolaridade dos seus políticos (como se assim os legitimassem como únicas pessoas sinceras em suas convicções de "lutar por um país mais justo").
Modelos anoréxicas que geram "herdeiros" no lugar de filhos; jogadores de futebol que ganham fortunas para chutarem a bola de vez em quando; cantores, apresentadores que só precisam enaltecer as marcas dos produtos que anunciam; bundas e seios de silicone que se transformam em produtos de feira livre...
Vamos descriminar os tolos. Literatura também é artigo em extinção, assim como tudo que realmente faz a diferença no mundo globalizado.
Anastácia foi chamada de macaca. mas hoje seria chamada de quê?
Talvez de baleia, se fosse gorda; talvez de cachorra, se fosse tarada; talvez de burra, se fosse tapada; talvez de falsa loira se...

Lohan Lage Pignone disse...

O que não presta, não entra em extinção, minha amiga, rs.

A Tia Nastácia provavelmente, hoje, não seria nem cozinheira; talvez tivesse conquistado uma vaguinha nas cotas universitárias para negros e hoje ostentasse uma graduação. Não recrimino essa conquista, mas sim, o meio pela qual ela acontece.

k@ disse...

Haddad rejeita veto do CNE a livro de Monteiro Lobato

http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2010/11/03/haddad-rejeita-veto-do-cne-livro-de-monteiro-lobato-922938849.asp

É incomum a quantidade de manifestações que recebemos de pessoas que não vêem nenhum prejuízo para que a obra continue sendo adotada nas escolas (Haddad)

Isso é extremamente ridículo, ele é com certeza contra o desenvolvimento da leitura e com isso, só podemos concluir o por quê desta outra noticia: Educação ruim freia avanço maior do Brasil no IDH


http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/11/04/com-desigualdade-brasil-retrocede-15-posicoes-em-ranking-de-desenvolvimento-humano-922945072.asp

Me digam, aonde vamos parar, ein?

Thaty Louise disse...

Não concordo com a questão das cotas.
Fui professora, durante nove anos, de diversos vestibulares desde prés conceituados até projeto como os PVNCs (prés vestibulares para negros e carentes) e sou a favor do fortalecimento do ensino e cultura de base, para que a maioria possa disputar as vagas nas melhores universidades de igual pra igual com as camadas prvilegiadas da população.
Só que a questão das cotas carece de um estudo mais aprofundado que os argumentos pseudo-intelectuais veiculados nas mídias mais populares. A profissão de cozinheira é honrada como qualquer outra, mas seria maravilhoso que, em uma leitura atualizada, a Tia Anastácia tivesse conquistado uma vaga em uma universidade pública, com ou sem cota, e fizesse, quem sabe, um curso de chef ou de nutricionista. Isso não seria absurdo algum.
Não considero as vagas conquistadas através de cotas menos honradas que quaisquer outras. Entrar em uma universidade de peso é difícil com ou sem “ajuda” – estou falando ex cathedra, uma vez que além de professora universitária, faço parte de duas das mais disputadas bancas de correção de vestibulares do Brasil. Já tive INÚMEROS alunos de prés e também tenho a felicidade de esbarrar com vários deles nos corredores da UFF e da UERJ, sendo a maioria deles oriundos de famílias carentes. Esses alunos são exemplares, tenho certeza que serão profissionais competentes e reputados, mas talvez alguns deles não conquistassem uma vaga em uma universidade pública se não fosse através das cotas. As camadas populares, negros, nordestinos ou não, estão ocupadas demais sendo escravizados pela elite, sem remuneração adequada, para ter tempo ou, principalmente, condições financeiras para fazerem cursos de língua estrangeira. Tenho visto vários alunos reprovados por não conseguirem concluir uma prova de inglês ou espanhol, por exemplo.
Para mim a questão das cotas significa equilibrar (minimmente, que fique claro) uma injustíssima dívida social de séculos.
Gostaria de indicar algumas boas obras que corroboram meus singelos argumentos:

Raízes do Brasil
Casa Grande e Senzala
As veias abertas da América Latina
Pedagogia do Oprimido

Thaty Louise disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lohan Lage disse...

Realmente, não seria absurdo que a Tia Nastácia hoje fosse chef ou nutricionista. Teria sido mérito dela. A questão não é o nível de dificuldade que existe nas provas, mas sim, a exclusão que tais programas governamentais representam.
Penso que existem muitas maneiras de se ''reparar'', ou ''atenuar'', uma injustiça histórica, não necessariamente aderindo a um meio que, a meu ver, acresce a discrimianação étnica no Brasil.