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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Quando se sabe o que quer

(por Camila Furtado)

       Finalmente conseguiu se separar! Assim que voltou do banco com a última prestação da casa própria quitada, sentiu que chegara o momento em que não precisaria mais da outra metade para nada. O carro, pago. A casa, paga. O carnê dos móveis terminou antes do último natal. Difícil era separar os discos e livros -  quais eram seus e quais eram dele?- tanto fazia... que ficasse com todos, porque até o repertório precisaria mudar. Só queria a cama toda para si, queria as camas estranhas também e toda sorte de aventuras que a solteirice pudesse trazer.

Um ano experimentando a sensação de desamar alguém. Um ano ensaiando a fatídica frase dita no meio do jantar, à queima-roupa. Um ano pesando prós e contras e ensaiando respostas para os que achavam que eles formavam um casal perfeito. Nenhum argumento pesou tanto quanto a falta de romance. Acreditava que o amor poderia sobreviver à qualquer coisa, à falta de dinheiro ou à qualquer outra falta, até de pão. Mas descobriu que nenhum amor resiste à falta de romance. Nenhum pró foi capaz de segurar essa, nem o sexo garantido, nem a sensação de proteção. É fácil, quando se sabe o que quer.

Agora vinha a parte operacional da coisa. Separar fotos, documentos, enxoval e mais um monte de tranqueiras. Esboçou um sorriso ao ver quão espaçosos ficaram seus armários agora que as coisas dele estavam encaixotadas e prontas para ir. Abriu o champanhe e deliciou-se andando pela casa, que de repente ficou enorme. Abria e fechava portas, encantada com os espaços vazios. Gostou tanto da sensação de liberdade que nem se deu conta de que a solidão estava à espreita, esperando passar o efeito da bebida para chegar e apossar-se de cada cantinho deixado por ele. 



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

No ponto

(por Camila Furtado)

Não conseguia desviar os olhos dela. Fingiu olhar a paisagem em movimento lá fora. Há uma linha tênue entre admirar uma mulher e assediá-la; não queria interpretações errôneas. Mas no fundo, no fundo, ela parecia corresponder. Se ela descesse no mesmo ponto, seria um sinal de que ele deveria aproximar-se, cogitou. Ele pediu licença à senhora sentada ao lado e levantou-se. Ela deu lugar a uma grávida e levantou-se também. Coincidência, ele pensou. Ela puxou a corda e fez soar a campainha de parada. Será o destino? Questionou. Logo estavam um à frente do outro, esperando o momento de saltar. Ele sentiu o perfume dela, mas conteve-se em olhar para trás. Ela reparou a nuca dele, cabelo bem aparado.

O motorista precisou reduzir bruscamente. Trombaram-se. Ela pediu desculpas. Ele sorriu. Ficaram ali, presos a uma eternidade dos segundos que não passam, assistindo à paisagem de um trajeto sem novidades. Ele imaginava o primeiro encontro não casual. Ela imaginava o momento de apresentá-lo à família. Tentavam conter a ansiedade de encarar-se, contentavam-se com olhares diagonais, daqueles em que se finge estar olhando outra coisa qualquer.  Aos olhos dos desatentos, nada mais que dois distraídos. A essa altura ele já imaginava se ela era do tipo que gosta de um bom vinho. Ela pensava se ele comeria comida japonesa.

Finalmente o ônibus parou e ele desceu. Decidido a não olhar imediatamente para trás, para não demonstrar o interesse pela direção dela. Ela decretou que se ele não olhasse, tudo não teria passado de especulação. Foram andando na mesma direção. Ele retardando o passo e tentando ficar lado a lado. Ela tentava acelerar, equilibrando-se no salto.

Emparelharam-se. Mas até quando? Pensaram, simultaneamente. Se ela olhasse, sim, iria falar com ela. Senão, pronto, aquela teria sido a história deles.
Mas o que ele falaria? E se ela fosse casada? E se ela fosse chata? E se tivesse voz fina demais? E se fosse bipolar por opção? E se sofresse de TPM num grau insuportável? E se pedisse pra ele parar de jogar futebol com os amigos?
Pensou isso tudo, mas olhou mesmo assim. E novamente, eles acertaram no segundo. Ela olhava. Ela pensava que poderia não ser a mulher ideal para ele, já que a carreira para ela era algo muito importante, que talvez ela não pudesse corresponder aos sonhos dele de ter família grande, que talvez ele não entendesse que ela tem um trabalho que exige demais.

Em cerca de dez segundos ela precisaria virar à direita. Ele precisaria virar à esquerda. Eles não sabiam de quantos segundos dispunham. Ele pensou em todos os defeitos que ela poderia ter. Ela pensou em todos os defeitos que ele poderia achar que ela tinha. Continuaram marchando em frente. Nenhuma palavra. Conformaram-se. Foi legal, ele pensou, enquanto durou. Virou à esquerda, conforme todos os dias. Poderia ter sido legal, ela pensou, mas não deu. Virou à direita, como havia de ser. Cada um no seu caminho, pensando no caminho diferente que poderiam ter traçado.

O instante se foi. O encontro já exigia mais que seguir em frente, significava voltar atrás. Ele precisaria voltar atrás na sua velha mania de colocar defeitos em todas. Ela precisaria voltar atrás no seu hábito de colocar defeito em si mesma. Não havia, de nenhuma das partes, disposição para uma nova rota. Ah, mas se ela tivesse virado à esquerda, pensou ele... Ah, mas se ele tivesse virado à direita, disse ela em voz baixa... Foi apenas coincidência, concluíram ao mesmo tempo.


sábado, 21 de maio de 2011

Percepções novas


Tenho uma caderneta onde anoto meus pensamentos, ideias, músicas e poesias. São frases boas para se começar um texto, são frases engraçadas, são músicas que parecem poesias, são confissões não confessas e registros de coisas que eu não gosto também. Não ando lendo livros por prazer, a leitura de obrigação tem me tomado esse tempo.

Estou gostando da minha caderneta, sabe? Ela é extremamente sincera e tem um formato que se adapta ao lugar e ao momento. É como se eu fotografasse as cenas para montar um álbum mental depois. Algumas notas parecem fotos de Polaroid, é verdade, perdem o sentido quando fora do contexto e acabam por sumir. Mas a maioria delas não corre esse risco, uma vez catalogadas, abandonam o plano do pensamento e ganham vida no papel.

Os livros na estante já não estão respondendo à minha necessidade imediata de palavras, estão chatos. Minha mesa também está chata, com uma caneca cheia de lápis e canetas, um bloco de rascunho e um vaso de flores artificiais. Artifícios. Prefiro minha caderneta, companheira de minhas andanças, testemunha ocular de um mundo belíssimamente desconcertante. Ela dá um ar solto às minhas palavras, sensação de liberdade, de espaço. É uma caderneta quatro quartos, sala ampla e varanda de frente para o mar.

O tempo já não me respeita. Esfria meu café, transforma em antigos meus cds favoritos, dá um tom prateado aos meus cabelos e faz riscos permanentes em meus traços. Faz algumas anotações parecerem bobas e fora de moda. Ele só sabe andar para frente, não importa o quão Peter Pan você se julgue ser. Ele segue tiquetaqueando, dono de si, dono de mim. Ele não sabe esperar. Desconhece a Terra do Nunca.

Hoje estou experimentando a sensação do primeiro dia da minha nova idade. 30 anos e de novo o tempo mostra quem manda. Claro que minha caderneta está cheia de novos rabiscos, broncas e alegrias; saldo positivo com certeza. Nos últimos dias conheci gente nova e gostei. Conheci melhor pessoas que eu pensava conhecer e me decepcionei. E assim vou fazendo meus rascunhos, minhas anotações e percepções do mundo que me cerca. Preciso de um chocolate quente para enfrentar o frio e da minha caderneta para enfrentar o mundo como eu vejo.

No fundo tenho orgulho da minha mesa antipática, dos objetos chatos e do modo como o tempo tem me tratado. Eles me cobram muito, mas me fazem companhia também, não posso negar. Também tenho um baú, que me olha toda noite, desconfiado, pedindo para ser aberto; mas revirar baús já é assunto para outro post...

terça-feira, 26 de abril de 2011

60 segundos



- Alô, Rô?
- Quem tá... Clarissa?
- Como você adivinhou?
- Só você me chama assim. E sua voz eu conheço bem. Que surpresa, quanto tempo! Tudo bem contigo?
- Tudo, tudo certinho. Hoje é seu aniversário, né? Então, eu liguei pra...
- Poxa, você lembrou...
- Se eu lembrei? Eu nunca esqueci. Aliás, Rô, é sobre isso que quero te falar. Bom, vou contar tudo de uma vez só, antes que a coragem suma. Eu terminei. Dessa vez é definitivo. Mandei meu ex tomar naquele lugar onde é mão única e não bate sol. Mentira. Não foi bem assim, mas eu mandei ele catar coquinho e disse que não aguentava mais aquela vidinha água com açúcar que a gente levava. Eu sei que você deve estar pensando "e eu com isso?", mas você tem, sim, tudo a ver com isso. Eu nunca te esqueci e eu sei que você tem namorada e que talvez esteja até aproveitando a moda de príncipe William e planejando se casar. Mas eu sei também que sua vida ao lado dela é mais água com açúcar do que a minha e só eu sei do que realmente você gosta. Ah, isso eu sei! Você sabe! Então, eu pensei muito antes de tomar essa decisão, tomei até uns remédios tarja preta pra ver se conseguia relaxar e desencanar. Eu sei que não funcionou muito, mas o que importa mesmo é que eu te amo e hoje eu tenho certeza disso. Quando fecho os olhos eu nos vejo juntos e quando eu sinto sua falta me dá um aperto enorme aqui no peito. Sem falar que meu corpo sente saudades do seu. É coisa de pele, de coração, de alma, você entende?
- Alô? Alô?
- Rô?
- Oi, Clarissa. A ligação sumiu. Você disse alguma coisa?
- ... disse que desejo a você um excelente aniversário e muitas felicidades.
- Ah, brigadão. Valeu então. Se cuida!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Inacabado


E esse teu olhar que brilha novamente na fotografia quando mistura-se com minhas lembranças... Caso pudesse, faria tudo novamente. E como poderia eu repetir tudo o que se passou, sabendo que o desfecho não foi feliz? Acontece que não sei o que consertar, não sei quando desandou, não vi onde se perdeu, não entendi o final. Nem sabia que aquele beijo seria o último... Seria? Será? Sobraram as caixas de e-mail repletas de declarações que outrora foram sinceras... Foram? E para onde? Enviadas, recebidas, urgentes, favoritas... Sobraram as fotos. De olhares que antes se procuravam e que agora se escondem, sem graça por não terem entendido a piada, que no fundo, no fundo, era sem graça. Sobraram ainda beijos, antes entregues a todo momento e que agora, sem endereço, enchem minha pasta de rascunhos. Enviar ou cancelar?


“Deseja enviar mensagem sem conteúdo no corpo do texto?”

Não. Desejo enviar minha alma, que como um texto inacabado, agora estranha esse corpo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A falta que sobra



Tudo estava perfeito, a corda, a escada, o banquinho, o lustre resistente e bem fixado no teto e claro, as cartas de amor. Não que fosse necessário tanta precisão, mas ela já pensava nos que remontariam a cena mentalmente atrás de respostas.

Primeiro as cartas. A de papel cor de carmim, fartamente carregada de declarações e encantamento, foi a primeira a ser escrita. Esforçou-se em criar uma caligrafia rebuscada, porém com ares masculinos e uma despedida simples, onde lia-se "com amor, Pedro." Uma gota de perfume no canto inferior esquerdo da folha e um exercício repetitivo de dobra e desdobra para desgastar e marcar o papel. Pronto. Agora a carta em azul celeste, esta mais objetiva, contendo breves relatos cotidianos e mencionando alguma saudade. Outra gota de perfume e claro, a despedida, "Um beijo, Pedro". Mais uma vez o exercício de dobrar e desdobrar para aumentar a idade da carta. Por fim pegou a folha branca. Desta vez o conteúdo era somente a despedida e poucas informações sobre um novo amor. Esta era a mais difícil de escrever, marcada pelas lágrimas que corriam densas de seus olhos e pingavam seguidamente, borrando um pouco a tinta. Nada de perfume, amor ou beijo. No fim, lia-se somente "Pedro". Dobrou e desdobrou duas vezes, para em seguida rasgá-la em pedaços, mantendo os fragmentos próximos, de modo que pudessem remontá-la sem muito esforço. Colocou-as com cuidado em cima da mesa, numa ordem aleatória. Dentro do envelope da primeira carta colocou algumas pétalas de rosas secas, o que pensou, pareceria lembrança de algum momento especial. Abriu uma garrafa de vinho Cabernet e dele bebeu uma taça, deixando o restante também por sobre a mesa. Terminada a etapa das cartas, concentrou-se então nos demais detalhes.

Com o auxílio da escada, passou a corda por entre os cristais do lustre e encontrando um ponto seguro na armação de aço, fez um firme e rebuscado nó. Lembrou-se por um segundo que havia aprendido aquela complicada forma de atar num belíssimo filme de época que assistira ano passado, quando nada daquilo estava previsto para acontecer. Mas agora, agora tudo havia mudado. Agora havia o Pedro, ou melhor, não havia.

Vestindo pijama de flanela, com a maquiagem borrada e completamente descabelada, subiu no banquinho. Chorando muito, passou com cuidado a corda em volta do pescoço. Pensou por infinitos segundos em tudo o que lhe afligia. Pensou no vazio. Pensou na sobra de tempo, na sobra de tudo que não satisfazia. Pensou na falta. Pensou em Pedro. Pensou em quantos Pedros sobraram em sua vida. Pensou em quantos faltaram. Riu-se, questionou-se, por que Pedro? Por que não João? Começou a achar que o nome Pedro talvez não convencesse, mas pensou no trabalho que daria escrever tudo novamente... Talvez as pétalas de rosas fossem clichê demais... Por fim concluiu que Pedro estava bom e que aquilo tinha mesmo de ser clichê. Voltou ao seu princípio, de que o importante era nomear aquela falta com a qual ela não sabia lidar. Pensou nas coisas que deixaria pra trás, no que ficaria pra contar história. Morrer por nada era fraqueza, morrer por amor era coragem. Deu o pontapé no banquinho e debateu-se no ar por alguns instantes, mas parou de pensar no que sobraria, tão logo faltou-lhe o ar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fotografia



Singela fotografia,

Em que revelo a ti meu desejo

Descortino meus pudores

Falo contigo, todavia não o vejo.

Minha presença-ausência

Que mais parece um castigo...

Enquanto nela me calo,

Meu corpo fala contigo

Sei que há de gastá-la

Com estes olhos que eu desconheço.

Há de despir-me,

Virar-me do avesso

Fotografia rasa,

Quase incolor.

Aos teus olhos rara.

Carmim, da cor do amor.

Sentimento irrevelado,

Todavia manifesto.

Mais que imagem,

Um aceno, um gesto.

Todo meu sentimento

A lente não pode captar.

Mude o foco, olhe pra si mesmo,

Dentro de ti eu hei de estar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

The beauty of gray


Meu bem, talvez você não saiba que eu preciso expressar você em textos, fotos e pensamentos. Não é um pedido de permissão, algumas perguntas não pedem resposta, algumas paixões não pedem licença, assim como aquele refrão que não sai da cabeça, feito um disco arranhado.

Hoje a saudade veio tingir meu dia com seu cinza insistente, chuvoso e nublado. As gotas molham a janela, pedindo discretamente para entrar e pelo frio que elas trazem, tenho medo de que o inverno se instale em mim. Sabe, o vermelho do meu cabelo desbotou desde a última vez, uma verdade diante do espelho, dizendo que o tempo também desbota, que a saudade torna tudo mais antigo e faz algo intenso parecer gelo derretido num copo de whisky, altera o gosto...

O tempo é desafiador, te leva para um lugar sem endereço e te deixa à deriva, longe de qualquer realidade, parece testar a resitência da memória. Ainda assim, guardo comigo aquela lembrança de nós dois às três da tarde, a sós em meio a multidão. Em um dia de sol radiante de Maio, teus olhos azuis e meu sorriso de moleca eram a coisa mais linda que havia naquela cidade.

Preciso te dizer que desisti da eloquencia de escrever contos com começo, meio e fim, desisti da poesia rimada, métrica, que cabe perfeita em cada estrofe. Desfiz o frágil laço, cujas pontas ao se cruzarem apontavam diferentes direções, deixei minhas palavras soltas, à espera do seu complexo e definitivo nó, marinheiro. Vou apostar na sorte, ainda que corra o risco de permanecer desatada.

Talvez o tempo não seja nada, talvez tudo termine mesmo em um refrão repetitivo, uma cor desbotada e um copo de whisky. Talvez o tempo se resuma a duas verdades absolutas, você veio e você foi.

domingo, 4 de julho de 2010

Sidarta

Saudade s.f. [do latim solitate, soledade, solidão]

Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las; nostalgia.


É a terceira vez que tento começar esse texto, um dos mais difíceis, confesso... Deito-me nos braços nada aconchegantes da saudade para tentar compreender como é possível sentir falta de quem não conhecemos pessoalmente. Será culpa desse meu temperamento taurino, possessivo e passional? Ou isso já é por conta do meu lado poetisa que nunca se acostuma com despedidas? O fato é que embora estejamos muitas léguas distantes um do outro, sempre estivemos perto através das palavras. E por falar nas palavras... Vou guardar cada uma das suas na minha caixa de Pandora, lugar onde nossa amizade começou a florescer e onde vou, vez ou outra, colher teus comentários tão coloridos e perfumados.

Alguns blogues e tempos depois nossa amizade mostra-se verdadeira. Coisas assim me fazem acreditar em projetos tão lindos como o Autores S/A, me fazem acreditar que a alma do poeta é lúcida o bastante para reconhecer quando está diante de outro poeta, para somar, jamais subtrair.

Agradeço por sua amizade desde o primeiro instante, por sua participação aqui no Autores, foram momentos de muito aprendizado. Momentos que ampliaram minha visão política, social e poética sobre muitas coisas. Poucas pessoas conseguem ver o mundo como você e isso já faz de ti um ser especial, talvez você seja um Siddhartha mesmo...

Sei que criaremos novos vínculos, de novas cores e que também novas flores enfeitarão nossa caminhada, isso é o que torna a vida fascinante; mas ainda que nossos caminhos sejam diferentes, nossa trilha nunca será oposta, pois seguimos na direção do bem. Quem sabe um dia nos encontraremos numa rodovia dessas em direção aos sonhos? Mas... Enquanto isso não acontece, lembre-se: O Autores S/A é ainda a sua casa, quando bater a saudade, entre, tome seu lugar à mesa e sirva-se de amizade.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O escritor

"Para cada central nuclear é preciso uma porção de poetas e artistas, do caso contrário estamos fudidos antes mesmo da bomba explodir."
(Rubem Fonseca)


- E aí, cumpadi, porque que tu tá aqui?
- Homicídio.
- Todo mundo aqui é assassino. Todo mundo aqui matou algum filho-da-puta, assaltou alguma birosca de merda ou passou fogo em algum ricaço metido. Eu quero saber porque que tu despachou a alma do cara pro inferno, isso que eu to perguntando.
- Sou assassino, não senhor.
- Ah, nénão? Então que que tu é, ô playboy?
- Sou playboy também não. Sou escritor.
- É mermo? Então me explica aí, Machado de Assis, cumé que tu comete um homicídio se tu não é assassino, porque essa eu num entendi não.
- Na verdade eu nasci escritor, mas tive que trabalhar, como qualquer um, pra sustentar a família.
- Quantos livros tu já publicou?
- Um só.
- Porra! Então tu é um escritor de merda?
- Não. Eu sou dos bons. Meu livro vende pra caralho. Você ainda vai ouvir falar de mim, vai pedir até autógrafo.
- Não, porque isso é coisa de viado. Autógrafo eu só peço pro Rei Roberto. Mas, conta aí, como é que se deu a merda?
- Eu trabalhava numa gráfica que era também uma editora. Meu patrão era um filho-da-puta, desses que descontam do salário da gente se um panfleto sair errado. A editora não era lá grande coisa, mas poderia ser um pontapé inicial pro meu sonho de publicar um livro.
- Já sei. Teu patrão roubou o livro de você, publicou e você ficou na merda. Aí você passou um estilete na garganta dele...
- Não. Eu conversei com ele sobre o livro e ele disse que ia publicar, contanto que eu mudasse completamente a história.
- Por que?
- Ele achava que minha idéia não vendia. Eu queria publicar uma tragédia, algo inspirado em Sófocles, mas com um aspecto moderno, que ao mesmo tempo fosse um brado de revolta contra a iniquidade do terceiro mundo, algo que refletisse os pequenos enigmas da vida e ao mesmo tempo redimisse a alma humana, tão passível de erros, sabe?
- Sei que porra é essa não, mas vai falando...
- Então... Aí ele pediu pra eu escrever sobre crime, sexo, traição, putaria, essas coisas. Disse que o povo gosta mesmo é de safadeza.
- E o que que tu respondeu?
- Que ia pensar. Mas eu não curto saturação erótica barata, sabe? O erro é a pressuposição de que a sordidez seja necessária ao entretenimento. Apelação não é comigo. Tem que ter literatura, arte. O escritor tem que ser um artesão, esculpir a história. E além do mais eu não sabia nem como começar a escrever outro livro, me faltava inspiração. Mas aí as contas lá em casa foram se apertando, a coisa foi ficando feia e não deu mais pra esperar...
- Aí tu decidiu deixar essa parada de livro pra depois, assaltou um banco e na tentativa de fuga matou um policial, por isso que tu tá aqui?
- Cara, você é criativo, poderia até ser escritor.
- Sei nem assinar meu nome, Machadão, sou é bandido mermo.
- Pois então, eu estava tão puto porque meu patrão podia me ajudar e ficou fazendo cu doce, que pra me vingar eu decidi virar amante da mulher dele, uma vagabunda interesseira, vinte anos mais nova que ele.
Ele descobriu, seguiu a gente até o motel, mas se deu mal. Eu, que não sou besta nem nada, coloquei o revolver na testa dele antes mesmo que ele pudesse pensar no que fazer. Fiz ele assinar um documento que havia preparado, no qual ele dizia que a editora publicaria qualquer livro meu. Com o silenciador encaixado no cano da arma foi só atirar. Mas eu não sou assassino, sou escritor. Então antes de atirar, agradeci muito pela oportunidade de publicar meu livro e mais ainda, pela inspiração que me deu.
- E aí, publicaram teu livro?
- Teve até briga entre as editoras mais fodas. Tá em todas as livrarias, vende que nem água.
- E a mulher dele?
- A piranha deu com a língua nos dentes, mas foda-se, eu tô rico.
- Você vai se vingar dela?
- Isso é assunto para o segundo livro...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Vício


Eu num café de esquina, sentada de frente para um capuccino que teima em não esfriar e com jeito de quem esqueceu o sorriso em algum lugar do passado.

Você encostado num balcão de bar, bebendo uma cerveja capaz de congelar os órgãos e com um jeito de quem sabe exatamente onde o sorriso se perdeu.
O copo já quase vazio, a blusa de lã que quase te aquece, assim como meu cachecol, que quase abraça meu pescoço.
E me vem aquela música... Aquela música, que um dia colocou nosso olhar na mesma direção. Lembra? Unidos pelo último disco da prateleira. Claro que lembra! E o disco ficou comigo, no fim das contas. Como se ele pudesse me servir de algum modo sem você...
Com os olhos fechados me pego a imaginar que esta noite eu poderia cantar para você, do jeito que você sempre gostou. Eu e meu violão num tributo a você, a nós dois.
Eu, na crueza de estar sóbria, sentada com minhas pernas cruzadas e pose de moça comportada, travo internamente uma luta épica para não dizer teu nome em voz alta, para não dizer aos estranhos ao redor que estou infeliz, e que eles estão diante de um corpo desprovido de alma.
Você com a bebida, tentando fazer do bar um lugar mais legal do que a tua cama cheia de memórias. Auto flagelo para chamar a atenção de ninguém senão você mesmo.
Talvez precisemos descobrir juntos que não há café ou lã que aqueça, não há bebida que esfrie, não há palavra capaz de diminuir o que nos uniu desde o primeiro instante.
Até que chega a mim um sujeito. Chega exato no meio do refrão imaginário, em minha parte favorita, só pra me dizer que você de fato ainda existe, não só dentro de mim. Que acabara de te ver num bar, encostado numa mesa de sinuca, na companhia de estranhos, muito calado, fumando e bebendo.
Excitação contida. Sorriso involuntário. Não pela mensagem em si, mas por ouvir teu nome, é ainda mais bonito quando dito por outras pessoas. Sei agora exatamente onde te encontrar e meu faro felino não falhou, está perto... Despeço-me da utopia, pago a conta, mordo os lábios tentando disfarçar o sorriso que insiste em escancarar no meu rosto. Pressa, urgência.

Amor, apaga o cigarro, põe mais um copo na mesa, prepara a vitrola, que eu tô chegando...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Rafael



Ele foi levado morto na mala do carro da namorada, que chegou completamente nua em casa, com os cabelos cortados à navalha e sinais de violência por todo o corpo. Ele, com a cabeça estourada por uma bala de revólver, já era apenas o cadáver de um jovem de 19 anos...



Recebi a notícia por telefone às oito da manhã. Parecia um pesadelo, já que nos vimos na noite anterior. Noite da qual eu ainda descansava.


Minha amiga, desesperada, me contou aquilo que parecia ter saído de um filme de suspense ou terror de quinta categoria. Não, não podia ser verdade.
Coloquei o telefone no gancho e comecei a pensar em como contaria ao meu irmão, que também dormia, o que parecia ter acontecido.
Meu irmão disse que eu estava louca e pediu que o deixasse dormir. Aos prantos eu repeti que acordasse:
-Mataram o Rafael! Acorda!
...


Desde o fato passaram-se 13 anos, mas volta e meia fico a me perguntar como e principalmente porquê isso aconteceu. Remonto mentalmente as terríveis cenas que antecederam sua morte. Tento encaixar as peças desse macabro quebra-cabeça. Mas não adianta, algo tão brutal jamais fará sentido pra mim.
Como é possível que um psicopata surgido do quinto dos infernos dê fim à vida de alguém que é especial para você? Alguém lá em cima cochilou enquanto a barbárie acontecia?


Rafael e eu frequentávamos o mesmo clube e tínhamos alguns poucos amigos em comum.
Eu tinha por volta de onze anos e ele uns treze quando me apaixonei platônica e puerilmente.
Me fascinava profundamente aquele menino de franja lisa cobrindo os olhos e sorriso muito largo nos lábios.
Às vezes ia ao clube em dias de chuva para vê-lo jogar basquete e só de contemplar aquele sorriso parecia que despontava no céu um sol radiante.
Logo eu já estava colecionando qualquer coisa que trouxesse uma letra "R" estampada.
Era uma admiração infantil, daquelas que a gente não conta pra pai e mãe porque eles não vão entender. Mas lembro que minha mãe descobriu e isso me rendeu algumas broncas.


Fomos apresentados bem mais tarde...
Na adolescencência nosso círculo de amizades nos tornou mais próximos, finalmente.
Quem diria que ele se tornaria amigo do meu irmão? Logo frequentávamos as mesmas casas, as mesmas festas e assim nos tornamos amigos.
Amigos. E isso me bastava. Já nessa época eu tinha quinze anos e ele dezessete.
Lembro do dia em que ele veio me dizer que seu melhor amigo gostava de mim e que achava que eu era a menina certa pra ele. Não tive raiva. Senti que aquilo era um modo carinhoso de dizer que eu era especial.


No meu aniversário de dezesseis anos convidei meus amigos para um churrasco na minha casa. Ao todo, entre amigos meus e do meu irmão compareceram mais de cem pessoas.
Um churrasco, um simples churrasco, mas foi realmente inesquecível.
Rafael estava lá, me paparicando e fazendo a bagunça que já era sua marca registrada.
Lembro de como ele me abraçava toda hora e fingia tomar conta de mim.
No final da festa, ao me ver quieta, sentada num banco, sentou-se ao meu lado e cantou:

"Não, não chores mais... menina não chore assim..." ao que respondi:
- Não estou chorando, só estou cansada! - E assim vi de novo aquele sorriso gigante se abrir pra mim.


Eu nunca soube muito sobre ele. Nunca fui à casa dele. Nunca passei mais que algumas poucas horas ao lado dele. Tudo o que eu sabia era o que me interessava saber: Ele era especial, era meigo, era querido, era engraçado e era incrivelmente bonito.


Bem, ele não está mais aqui... E tudo o que sei é uma história bizarra, dessas que a gente vê em filmes e até em noticiários, mas jamais acha que vai acontecer com alguém tão próximo. Deixo de lado minha opinião revoltada, para relatar o que conheço como fatos:


Cena 1: Amigos reunidos, decidindo qual será a pedida da noite de sábado. A maioria decide ir para uma festa num hotel da cidade. Rafael decide ficar a sós com a namorada com quem estava reatando. Lembro de ter insistido para que ele fosse, e ele disse que não iria de jeito nenhum, mas pediu que eu me cuidasse.


Cena 2: Rafael segue no carro da namorada até um lugar ermo para conversarem melhor.


Cena 3: Um demônio psicopata surge para importunar o casal. Armado, decide render os dois e começar seus jogos doentios. Primeiro dá um tiro na cabeça de Rafael, ordena que sua namorada coloque o corpo na mala e começa então a torturá-la. Corta os longos cabelos da moça com navalha, obriga-a a fazer sexo com ele, violenta-a com o cano do revolver e outras coisas que não consigo nem dizer.


Cena 4: O demônio sai do carro ao ouvir um barulho de alguém se aproximando e ela (por uma força divina) consegue sair à toda com o carro.


Cena 5: A moça chega em casa de madrugada, completamente nua e anuncia aos pais que o namorado está morto na mala do carro.


Cena 6: Meu telefone toca às 8:00 da manhã com a terrível notícia.


Cena 7: O maior velório que já vi pessoalmente. Amigos unidos, incompreensão geral, dor que não cala, saudade que corta.


Assim os anos foram passando e a lembrança daquele sorriso não se apaga da minha mente. Aquele sorriso gigante que se abriu para mim quando eu tinha 11 anos...


Outro dia eu estava assistindo a série Medium, na qual a personagem Allison Dubois sonha com os mortos e ajuda a polícia a resolver casos de assassinato. Gostaria de ter esse dom só por um dia, somente para entender o que se passou naquela fatídica noite e para me assegurar de que ele está em paz. Vez em quando me vem à mente aquela melodia que ele cantou no dia do meu aniversário... e ela me conforta. Eu sinto que no fundo ele deve estar bem, tomando conta dos amigos que deixou aqui, afinal esse é o verdadeiro papel de um anjo. Anjo Rafael.

Este texto não é ficção. É insuportavelmente real.

domingo, 6 de junho de 2010

Sorteio do amigo secreto!!!!!

Pessoal, o sorteio precisou ser refeito, pois eu não recebi o email com o nome do meu amigo (justo eu?!) então o que vai valer será o segundo email que vocês vão receber! Ignorem o primeiro, ok? Fica valendo o último! Também avisarei a todos por e-mail, por garantia!!!


Galera, o sorteio do amigo secreto já foi feito!!! Mas antes de conferir vão aqui algumas dicas:

*Confira se o email foi direto pra caixa de SPAM (provavelmente irá, pois o site do sorteio é uma loja virtual)

*Marque o email como confiável.

*No email virá o nome do seu amigo e logo abaixo uma lista de sugestões de presentes (de novo: é uma loja virtual), então não quer dizer que vc tenha que dar uma TV de LCD 42' pro seu amigo (mas se no caso o amigo for eu, ok! Fique à vontade!)

*Agora divirta-se pensando no que vc vai escrever pro seu amigo secreto!!!

Beijos e boa sorte!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Aniversário Autores S/A - Parte II

Galera, vamos comemorar o aniversário do blog? Ah... eu sei que estamos afastados e que não será possível reunir os autores (não desta vez) mas faremos algo para que este momento não passe em brancas nuvens, ok?!
Não... Pessoal, eu não vou enviar fatias de bolo por Sedex 10 pra ninguém, não é isso... Nem vamos fazer uma video conferência para cantar parabéns, afinal quem sopraria a velinha? E de quem seria o primeiro pedaço? Não seria justo, certo? Então, o que faremos??? Eu explico...

Vamos nos presentear!!!

Como faremos? De novo pensaremos em Sedex 10? Nãoooo... Não precisamos!!! E que tipo de presentes daremos uns aos outros? Presentes caros? Sim, de valor inestimável!

Faremos isso à moda Autores S/A, faremos com o que temos de melhor, com nossa principal ferramenta: a escrita e com o principal diferencial: o coração. Que tal a ideia de fazermos um...

amigo secreto!!!

É algo bem simples... Trata-se de um sorteio eletrônico, feito através de um site, eu inscreverei o endereço de email de cada autor do blog e o site fará o trabalho sozinho. Por exemplo, ele envia para o seu email o nome da pessoa que você tirou, ninguém além de você ficará sabendo o nome dessa pessoa. Não tem como você tirar você mesmo e não tem como um mesmo nome sair para duas pessoas. É batata! Já participei de um sorteio assim e dá super certo!

Depois dessa molezinha, é só você escrever um texto bacana para presentear a pessoa que você tirou. No dia 04/07 TODOS os textos devem ser postados, independente de ordem de sorteio ou qualquer outra coisa, você só precisa 'entregar' seu presente e buscar o que 'deixaram' pra você. O aniversário do blog é dia 05/07 (dia da primeira postagem), então será uma forma de estarmos mais próximos e de celebrarmos a data.

Alguns autores devem estar pensando agora: "Mas eu não conheço os autores pessoalmente, ou não conheço todos... Ok. Nem a maioria absoluta dos nossos leitores nos conhece pessoalmente e mesmo assim não deixam de nos prestigiar, não é verdade? Portanto, pra não ficar inseguro quanto ao que escrever para o autor que você tirar, seguem algumas dicas básicas:

  • Seja você mesmo.
  • Não tente escrever no estilo do autor sorteado somente para agradá-lo (talvez não seja o seu forte e isso pode acabar comprometendo a mensagem; ou não!)
  • Analise o estilo do seu amigo secreto através dos textos publicados por ele no blog, não para copiá-lo, mas para conhecê-lo melhor.
  • Faça sua homenagem dentro do seu propósito para o blog, escreva do jeito que você normalmente faz; ou se ousar algo diferente, faça algo com que se sinta confortável)
  • Lembre-se de que será uma singela homenagem, portanto não escreva uma mini série sobre a vida da pessoa, mas também não esqueça de mencionar o nome da dita(o) cuja(o) dentro do texto em questão.
  • Escreva suas impressões sobre a pessoa ou sobre o que ela escreve, garanto que será interessante saber como somos vistos ou interpretados por outros.
Pessoal, nem preciso dizer (mas vou) que TODOS aqui têm talento de sobra para fazer isso (caso contrário não estariam aqui) e também que será algo muito bacana! O sorteio dos nomes acontecerá no próximo domingo, dia 05/06, portanto teremos quase um mês para pensar no que escrever. Usem sua criatividade, não tenham medo dela e vamos ver no que vai dar, creio que algo no mínimo... LINDO vai acontecer!!!

Detalhe: Sei que pareço minha mãe em época de Natal falando assim, mas NÃO CONTE A NINGUÉM QUEM VOCÊ TIROU!!! Caso contrário, tuuudo vai perder a graça. O amigo é SECRETO!!! (Caraca, eu me transformei na minha mãe...)
Por último, gostaria de dizer que os comentários estão abertos a dúvidas e todas serão respondidas. Se porventura algum autor não quiser ou não puder participar, poderá avisar também via comentários. Mas, pleaseeeee, participem, Autores S/A! Não se esqueçam: somos uma sociedade!!! Leitores: Aguardem!!! Será muito legal!!!
Beijos a todos!!! E a quem tirar meu nome: Seja bonzinho... Papai do céu tá vendo...!!!!
Amooooo vocês!!!!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Aniversário Autores S/A - Parte I


Olá, pessoal! O aniversário de 1 ano do nosso querido blog, Autores S/A, está se aproximando!!! Isso mesmo, esse cantinho de aconchego virtual completará em Julho um ano de vida (e quanta vida!). Gostaria de agradecer imensamente ao meu querido amigo Lohan, por ter levado comigo essa ideia adiante e ter me ajudado a tornar esse blog realidade. Quero também agradecer aos autores que toparam embarcar conosco nessa viagem pelo universo das letras, que por consequência tornou-se uma viagem ao interior de nós mesmos. Agradeço imensamente então aos AMADOS amigos João Luiz, Andréa, Karina e Juliana. Aproveito para dizer aos que não sabem, que os nomes até aqui citados são de pessoas que se conhecem pessoalmente e têm em comum a paixão pelas letras e o fato de terem cursado a mesma universidade. Nesta lista está incluída a queridíssima Simone, nossa colega também e que veio mais tarde fazer parte do blog e nos presentear com seu talento e eu não poderia esquecer de nossa estimada e brilhante professora Thaty, que além de nos proporcionar aulas maravilhosas, ainda aceitou o nosso convite para fazer parte do blog. Já tivemos aqui no blog também a participação do nosso inesquecível professor Reinaldo Kelmer, que nos presenteou com um poema de delicadeza ímpar. Izimar, nossa querida professora também já abrilhantou o blog com sua belíssima poesia e esperamos que venham mais e mais...


Quero dizer um gigantesco OBRIGADA aos meus amigos autores do "universo virtual", mas que têm lugar cativo e real no meu coração e dizer que sinto-me honrada pelo crédito que me deram ao aceitar o convite de estar aqui. Estas pessoas foram abraçadas por mim desde o momento em que conheci e passei a admirar o trabalho de cada um e eu espero (de verdade) que um dia possamos estar frente a frente. Estas pessoas tão queridas são: Sidarta Cavalcante, (que tirou umas férias do Autores, mas meu santo é forte e qualquer hora ele volta, rsrs); Edson Basilio; Rayanna Ornelas; Edu Trindade; Mauri Oliveira e Dani Santos. Espalhados por diferentes estados do Brasil essas pessoas tornaram a distância um mero detalhe, muito menor que o desejo de escrever e através do blog Autores S/A, temos a oportunidade de somar tais talentos e dividir sentimentos. Obrigada por permitirem isso, de verdade.

Amizade é algo que se multiplica. Sendo assim, surgiram novas parcerias e mais gente querida foi chegando e se acomodando, tomando seu lugarzinho nesse coração pulsante chamado Autores S/A. Sou imensamente grata à Cacarina, que veio a convite de Andréa Amaral para perfumar o blog com sua poesia florida e profundamente agradável; agradeço ao Armando, que a convite do João veio dividir conosco sua generosidade e seus sábios pontos de vista sobre as vida; agradeço também ao Renner, convidado por Lohan, por nos trazer esporte e entretenimento sob um ponto de vista tão atualizado e de uma forma imparcial e segura; agradeço à Carla Zeglio, por também a convite do Lohan, nos informar, ajudar, orientar em assuntos tão importantes e complexos e por fazê-lo também de forma tão tranquila e confiável; ao Camillo Landoni deixo meus sinceros agradecimentos por sua contribuição dentro do blog, obrigada por ter aceito dividir seus conhecimentos conosco e por nos presentear com algo tão essencial a alma: a música.


Por último, e obviamente não menos importante, deixo meu obrigada aos nossos leitores, pois sem vocês esse blog não teria razão de ser. Este blog sobrevive (e sopra a primeira velinha) graças a vocês leitores, espalhados pelo Brasil e pelo mundo (sim, pelo mundo... mas sobre isso falaremos numa próxima postagem). Obrigada a todos que deixam seus comentários, a todos que acompanham silenciosamente e obrigada também aos que não acreditaram no blog, pois sem desafios, nada disso valeria a pena.

O Autores S/A é um blog de amigos. Em diferentes esferas de amizade, como vocês puderam ver, porém tendo em comum a sinceridade, a sensibilidade e a intenção pura de levar a paixão pelas letras a todos.


Desde já, parabéns!!!

Papo de homem


Fernando e Marcão pedalavam na academia quando Lurdinha passou, como de costume, com suas curvas perfeitas acentuadas pela roupa de lycra, seu cabelo cor de ferrugem e seu perfume provocante. Naquele dia especialmente, fez questão de desfilar um certo ar de desprezo, forçando indiferença aos dois amigos e olhando para o próprio corpo na parede espelhada. Fernando logo indagou ao amigo:

- Não sei o que você fez com a Lurdinha, mas partiu o coração da moça, Marcão. Ela estava caidinha por você e agora nem olha!
- Ah, pára, Fernando!
- Sério, cara. Até hoje você não me contou o que rolou naquela noite, depois que vocês saíram da festa da academia.
- Deixa isso quieto...
- Ah, conta aí.
- Não, cara.
- Posso adivinhar? A velha história de que ela é uma mulher maravilhosa, mas você não está pronto pra um relacionamento sério no momento... Você é bom nesse papo, elas sempre acreditam. Você é pegador, Marcão!
- Nada disso...
- Mas me fala, vocês transaram, certo?
- Não.
- Ah, Marcão! Papo de homem, não tem ninguém ouvindo, fala a verdade. Como não? Ela tava se jogando em cima de você a noite inteira, era só chutar e marcar o gol!
- Não transamos.
- Na hora ela desistiu?
- Não. Eu desisti.
- Cara, você é maluco?
- Não. Não sou maluco. É que eu gosto de homem.
- Haha, boa desculpa, palhaço. Mas fala, a menina é chata demais, não deu pra encarar?
- É sério, Fernando, eu sou gay, cara. Não sei como você nunca notou isso.
- Para de bobeira, Marcão! Eu te conheço desde que tínhamos uns 10 anos de idade.
- Porra, é verdade véio. Tô pra te falar isso há muito tempo, acho que agora é a hora.

Fernando diminuiu drasticamente a velocidade das pedaladas para tentar entender o que se passava naquele momento. Olhou com desconfiança para o amigo e mandou:

- Você é um féladaputa mermo, cara. Admiro teu senso de humor. Mas vem cá, se você é viado, como é que você pega tanta mulher, hein, me diz? E mulher gata ainda por cima!
- Pego porra nenhuma. Amigas. De vez em quando uma percebe e fica magoada, como a Lurdinha por exemplo, mas a maioria gosta da minha companhia. Como você mesmo disse, eu tenho senso de humor.
- Putz, você tá falando sério... Mas eu nunca vi você sair com nenhum homem, nem dar em cima, nem nenhum comportamento estranho.
- Eu não sou estranho, Fernando, eu sou normal, ajo naturalmente. Você já viu várias vezes, só nunca prestou atenção. Mas fica tranquilo, jamais passou pela minha cabeça que isso interferisse na nossa amizade.
- Não?
- Imagina, cara. Você é meu amigo, você é hétero e continuará sendo. Jamais imaginei você como outra coisa que não fosse meu amigo. Além disso, você nem faz o meu tipo. Fica tranquilo, nada vai mudar entre nós. Você sabe que eu jamais faria algo que pudesse te envergonhar diante dos outros, como não faria se fosse hétero.
- Como assim nada vai mudar, Marcão? Já mudou, véio, já mudou...
- Fernando, você me conhece, não sou criança, cara. Vou ser bem sincero contigo. Você tá livre de qualquer pensamento meu nesse sentido. Eu gosto de um tipo de homem: os fortões, os sarados, com 40 de braço pelo menos. Essa academia é cheia de caras fortões e no entanto você nunca me viu agir estranhamente por causa disso, viu? Então, fica tranquilo.
- Sei não... Tô muito decepcionado, Marcão...

Marcão parou de pedalar, desceu da bicicleta, jogou a toalha no ombro e antes de seguir para o vestiário bateu nas costas do amigo e disse sorrindo:

- Fica tranquilo Fernando, você não é meu tipo.
...

Fernando desceu da bicicleta pensativo, coçou a cabeça por cinco segundos. Alongou-se, ajeitou as anilhas na barra e antes de começar uma nova série de supinos, respirou fundo, olhou-se no espelho e disse:

- Vamos lá, Fernando... 40 de braço, você consegue!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Humana demais


Já há algum tempo fiquei sabendo que você pergunta por mim
Seria uma curiosidade mórbida, já que você decidiu matar o que sentia?
Sempre que alguém me conta sobre sua preocupação, fico tentando entender o que há por detrás de perguntas feitas sob encomenda e da necessidade de atualização dos fatos acerca de mim.

Justo você, que disse que era preciso optar por algo mais... "edificante!" Foi essa a palavra que você usou. Evolução espiritual, você completou. Covardia, repliquei. Tudo o que você queria era encontrar as palavras certas que definissem seu medo de arriscar, de jogar para o alto a relação infrutífera, porém conveniente que tinha com outro alguém. Até hoje me pergunto se foi por puro descuido ou maldade que o destino nos fez apaixonados. Sim, apaixonados! De que outro modo se poderia explicar a sintonia exata que tínhamos? Vibrávamos na mesma frequencia, íamos além dos cinco sentidos e quase sempre transbordávamos em palavras.

Confesso que achei que você não conseguiria. Duvidei da sua aparente convicção e da sua teoria extremista sobre certo e errado. Apostei na necessidade que tínhamos um do outro. Errada estava eu. Com minha paixão, meu amor entusiasmado, minha pele que insistia em atrair a tua, minhas canções e poesias, sim, minha maldita mania de ver poesia em tudo. Mas de que servem os olhos de um poeta se não para vislumbrar a própria história e enredá-la numa teia belíssima?

Demorei algum tempo para entender a crueza das palavras que ouvi e hoje tenho certeza de que foram apenas ditas por dizer, como quem tenta a duras penas justificar o injustificável. Carnal, você resumiu, reduzindo à carne uma linguagem de almas. E ainda me impôs toda a culpa por sua dificuldade de renúncia. Como um anjo caído, com minhas longas asas, deitei às portas do céu esperando por uma ajuda que tardaria chegar.

Você segue sua estrada cheia de curvas rumo à perfeição. Para quem vive de aparências, está bastante convincente. Disseram-me que seu discurso é impecável e sua conduta, invejável. Mas já que ainda perguntas por mim, digo-te de antemão que continuo meu caminho, sempre na contramão e embora às vezes pare para descansar no meio-fio, sempre encontro forças para levantar e seguir, pois nos ombros só carrego o peso das memórias que quero guardar.

Bem no fundo eu sei o que te inquieta. Eu te leio nas entrelinhas, eu te vejo onde você não está, eu te ouço quando você silencia, eu te sinto quando ninguém mais é capaz. Não me interessam as meias verdades, nem o que vão pensar os outros. Não me encantam as aparências, pois o que enxergo está além. Por isso te desnorteiam meus passos tortos. Pena, você diria. Seria capaz até de me estender a mão, tamanha sua misericórdia. Mas não, não se dê ao trabalho de rezar por mim, guarde esta prece para si e lembre-se de fazê-la antes de deitar, para que enfim seus demônios te deixem dormir.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ao tempo


Hoje sentei-me para escrever. Aproveitei o frio incomum nesta região e época do ano. Peguei uma xícara de chá de camomila, lápis e papel, acomodei-me na cadeira de palha da varanda e ainda sem ideias fixas, comecei a reunir palavras num contexto desconhecido.

Fiz uma pausa de um tempo incalculável em minhas escritas, um século, três, não sei bem. Só sei que foi bom. É preciso estar distante daquilo que nos faz pulsar para saber o quanto se morre na ausência, e mais que isso, para saber o verdadeiro sentido de viver. Passei algum tempo ajustando umas vírgulas fora de lugar, colocando uns pingos nos ii, fechando alguns parênteses e colocando alguns pontos finais onde antes só haviam reticências. Não considero esse momento um texto finalizado, apenas revisado até que se encaixe num outro sentido e precise ser refeito.

Tenho agora uma certeza: Sou escritora. De blog, de livro, de carta, de bilhete, de gaveta, o que seja... Sou escritora porque isso me faz pulsar. Sou escritora porque isso me faz ser quem eu sou, ainda que eu não saiba uma vírgula sobre o que isso quer dizer. Ainda que eu seja mistério, suspense, comédia ou romance. Ainda que eu seja uma poesia que com nada rima, um conto daquilo que ninguém quer contar, uma crônica que de tão aguda chega a ser dor ou só um emaranhado de palavras desconexas. Sou escritora, não porque alguém me disse, mas porque é como me sinto, porque é o que realmente me faz falta se não sou. Porque é onde vejo minha alma refletida, porque é o que me traz paz.

Recebi algumas críticas de quem não me conhece o bastante, sobre o tempo em que estive ausente. Tristeza? Alguns perguntaram... Falta de inspiração? Outros especularam... Nem uma coisa nem outra, se é que importa. Quem escreve colocando a alma no que faz, se inspira na mais crua tristeza, na mais calorosa alegria ou até mesmo na total falta de inspiração. Como todo escritor, tenho meus amores, minhas canções e minhas dores. Não sou mais, nem menos. Sou humana, demasiadamente humana. E isso me dá razões mais que suficientes para escrever. Crescer dói, amadurecer dói, experimentar a vida dói. Se eu não fosse escritora, sucumbiria à dor facilmente, mas escrever me permite sentir sem somatizar, viver sem me arrastar; registrar para então poder esquecer. Ser escritora me permite ver além da beleza aparente a poesia intrínseca dos momentos. Aos interessados na questão, saibam que meu problema se resume à palavra "tempo" e que meu coração está aqui e nos blogs onde escrevo, portanto o que me importa é que eu voltei, não o tempo em que estive ausente.

Hoje sentei-me para escrever. Não sei quantos minutos se passaram desde que comecei. Trinta minutos, três horas, não sei. Não sou boa em percepção de tempo. Aliás, preciso avisar ao tempo:
Sou escritora, o tempo já não me importa mais.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Eu

[Da minha Caixa de Pandora, a pedido de uma amiga querida.]

Eu
Faço coisas erradas, sabendo quão erradas são
Crio hipóteses que mais tarde viram problemas de difícil solução
Acredito em contos de fadas contados pelo meu coração
Imagino finais felizes que só existem na ficção
Aceito como inteiro o que só me é dado em fração
Eu deixo você ir porque jamais tranco a porta
Tento caminhar em linha reta, mas tua estrada é torta
Renasço em um segundo, depois de dada como morta
Continuo abrindo mão do que realmente me importa
Aceito esse teu amor que ora me cura, ora me corta
Eu te falo o que sinto, mas inalcançável é minha meta
Percebo que ando em círculos, não sei como ser mais direta
Todos os caminhos apontam para ti, mas não sei a direção certa
Minha palavra-bumerangue sempre volta, não te afeta
Palavras pela metade fazem de mim idiota completa
Eu escolho músicas lindas para te ofertar
Escrevo poesias sinceras para me expressar
Perfumo meu corpo para te agradar
Enquanto isso teu mundo segue a girar
Ironicamente, tudo isso volta para me torturar
Eu
Perto de ti consigo sorrir um sorriso quase perfeito
Para te fazer feliz me reinvento, dou um jeito
Para que digas que sou flor e que teus dias enfeito
E ainda que isso não passe de uma frase de efeito
Sempre amanheço despetalada sobre o teu peito...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um amor inventado


Encontrei o amor numa pista de dança. Sim, eu que nem sei dançar. Em meio à poluição sonora/visual/atmosférica algo brilhou, reluziu de um neon único. Subitamente aquela pseudo-canção se fez poesia e tudo que eu ouvia era o que eu queria ouvir. A bebida parou no meio da garganta, para depois descer lenta e doce. Estranhei, acho que me acostumei ao gosto amargo... Sorriram-me. Sorri de volta prontamente. Palavras, risos, segredos e olhares depois, já era primeira bailarina do teatro municipal. Éramos dois descompassados insistindo numa valsa demodè. Fiquei sem palavras ao perceber que tudo o que já escrevi cabia exato naquelas entrelinhas e sem repensar, já estava recitando Cazuza ao pé do ouvido. Exagerada. Me reconheço. Sabia que aquele momento duraria a eternidade de um instante. Só sei amar imenso, o que há de se fazer? Um dia o amor acaba, esvazia, mas continua-se a viver e amar todos os dias, é preciso, tanto quanto viver. Me apaixonei pela luz, pela alma, pela cumplicidade momentânea. Me apaixono pela ideia de me ver em outro alguém. Misturo memórias, gestos, pessoas e instantes aos meus segredos de liquidificador, bebo minha mistureba chamada vida. Eu sei que vai partir, não tenho medo, pois não pedi que viesse e também não vou me despedir. Vou continuar catando pedaços de mim perdidos no meio-fio, continuar fazendo piruetas na corda bamba e malabares com meu coração.

Então encontrei um amor numa pista de dança. Por um instante meu pé coube no sapatinho de cristal, o corpo dele coube no meu corpo e eu era a primeira bailarina.

"Até nas coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais."