sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marcas do que se foi...

Já faz quase dez anos que aconteceu, mas ele até hoje lembra dela, nunca mais se viram, a vida de cada um tomou um rumo, ele casou tem filhos e vive bem com sua família, ela, ele não sabe, mas de vez em quando ele se pega pensando nela e fica se perguntando se ela pensa nele também...

Tinham trabalhado juntos num evento por uma semana, ele supervisionava o stand da empresa em que trabalhava e ela era a promotora contratada, ela era quem recepcionava as pessoas, apresentava os produtos enquanto ele tomava as decisões, atendia os clientes e fechava negócios, logo no início, ainda na montagem do stand, ele estava lá com sua equipe quando ela chegou de táxi, até hoje ele se lembra de quando ela saiu daquele carro, volta e meia se pega lembrando daquela cena, ela vestia uma bermuda jeans até os joelhos e uma blusa branca levemente transparente com um colar por cima, seus cabelos castanhos balançando ao vento, óculos na cabeça e uma sandália que amarrava na perna, ele mesmo lembra que teve que se tocar e parar de ficar olhando dando aquela bandeira toda, pois era ele que tinha de falar com ela, era ele o responsável pelo evento e ela era a contratada, tinha de passar as orientações, apresentar os produtos, enfim ele ia ter de lidar diretamente com aquela mulher que lhe encantou tanto logo ao sair do carro.

Encheu-se de coragem e foi recepcioná-la, já foi prevenido, pois sabia que já estava diferente, aquela mulher desconhecida com aquele sorriso enigmático e ao mesmo tempo angelical tinha deixado o jovem supervisor de “cabeça pra baixo”.

Quando ele chegou e se apresentou, ela lançou-lhe um olhar que ele chegou a ficar arrepiado, no momento em que seus olhares se encontraram os dois sorriram ao mesmo tempo, numa sintonia que foi se tornando uma afinidade mútua, em pouco tempo ela já tinha aprendido tudo que tinha de saber da empresa e dos produtos em exposição e os dois já estavam falando da vida como se eles se conhecessem há anos, logo saíram para almoçar e já no carro ela se comportava como se já tivesse entrado naquele carro várias vezes, ele ficava impressionado com ela, como ela era inteligente, ele ficava a observando falar, olhava para sua boca, para os seus dentes e imaginava que gostoso seria beijar aquela boca bonita, grande, com dentes tão brancos e tão perfeitos, mas ele não pensava em cantá-la ou fazer piadinha, estava vivendo momentos tão bons que ele tinha medo de ser mal interpretado e estragar tudo, acabar com aquele clima.

Ao fim do dia ele foi pra casa e não conseguia dormir, ligou a TV, viu o jornal da noite, o programa do Jô e nada,quando fechava os olhos ,só via a imagem dela saindo do carro, ela almoçando com ele, ela olhando para ele,ela sorrindo...

Que sorriso mágico, encantador, contagiante. Ele pensava e queria que chegasse logo a manhã para que ele pudesse estar com ela de novo.

O dia seguinte chegou e cedinho ele já estava lá, nem precisava chegar tão cedo, pois podia deixar a abertura do stand com os promotores, mas ele tava lá,marcando, olhando lá pro começo da rua para ver se ela estava chegando e finalmente ela apareceu dessa vez ela vinha de calça jeans e uma blusa rosa chá, virou a esquina e vinha caminhando com calma e leveza, logo que ele a viu, saiu de onde estava, pois não queria que ela notasse que ele a estava esperando,ficou lá dentro do stand e fingiu surpresa ao se deparar com ela, arriscou ainda dizer que ela estava bonita e ela sorriu com certa modéstia (em pensamento ele dizia que ela estava linda, radiante, exuberante e tantas outras palavras que não conhecia para expressar o que estava sentindo).

Este dia foi mais agitado, não conseguiu muito estar com ela, pois tinha de atender vários clientes e ainda passar no escritório para pegar documentos,quando ele voltou,já era hora do almoço e quando estacionava o carro pensava que ela já tinha saído para almoçar, estava remoendo aquilo e se lamentando quando escuta aquela voz doce chamar seu nome, ele estava tão distraído que tirou o pé da embreagem e o carro deu um solavanco e chegou a dar uma leve batida no carro da frente, nada de grave, só o suficiente para disparar o alarme e fazer um alarde, coisa que ele detestava.

Após resolver aquela situação, pedir desculpa ao dono do carro e combinar de pagar qualquer despesa que ele conseguiu sair dali para almoçar, mas, contudo estava feliz, pois ao seu lado ela estava sentada e ainda ria de toda aquela situação.

Enquanto dirigia ele olhava para ela com o canto do olho,quando o sinal fechava, ele olhava mais e ela fingia que não via,mas ele sabia que ela via,sentia que ela gostava daquele joguinho. Ele estava totalmente envolvido por aquela mulher que conhecera há dois dias.

E a semana foi transcorrendo sem problemas, nosso amigo totalmente entorpecido por ela e já nervoso com aquela situação, pois uma informação muito importante ele havia no mínimo omitido e no ultimo dia do evento, quando novamente estão almoçando ela olhando diretamente em seus olhos pergunta-lhe:

- E essa aliança aí na sua mão?Você não vai falar nada?

Ele chegou a se engasgar com a comida, passara uma semana vivendo praticamente um sonho, e realmente ali, naquele momento era a hora de voltar para realidade, pois sim, ele tinha uma noiva, uma mulher linda e companheira que há tempos já vinham construindo um relacionamento sério, com cumplicidade e amizade, já estavam juntos há mais de dois anos e ele nunca tinha sequer pensado em ter outra mulher, mas naquela semana tudo ficou diferente para ele, viu toda a sua segurança ficar abalada, viu que toda sua construção não tinha a base sólida que ele imaginava. Todos estes pensamentos passaram por sua cabeça naquele instante,

neste mesmo momento se sentiu um canalha perante as duas,não tinha o que fazer não tinha o que responder,se viu numa situação difícil consigo e mesmo e disse:

- Eu não sei.

Ela olhou bem fundo em seus olhos e ele ao olhar também para seu rosto não teve coragem de encarar por muito tempo, abaixou o olhar e continuaram almoçando.

A partir dali o encanto estava quebrado, não falaram mais nada durante o almoço e seguiram para o evento que já estava em seu encerramento. Ele estava desesperado, pois sentia que eram os últimos momentos com ela, no fim do evento eles ganharam alguns brindes das outras empresas e ela havia pedido para ele guardar os dela no carro, após o encerramento, na hora de irem embora os dois vão caminhando juntos em silêncio pela rua escura e arborizada até o carro dele para ela pegar suas coisas.

Quando chegam ao carro eles se aproximam e novamente se olham sem nada dizer, ficam assim um tempo, se observando, cada vez mais perto e vão sentindo o calor de seus corpos e chegam a se encostar, chegam a sentir a respiração, o hálito de cada um bem pertinho e ele mais uma vez não consegue levar adiante, desvia a cabeça rapidamente e abre o porta malas do carro para que ela pegue suas coisas, ainda sem jeito oferece uma carona que ela recusa e logo ela vai caminhando,quando chega à rua principal ela faz sinal para um táxi que imediatamente para e antes de entrar, lança-lhe aquele olhar que o havia conquistado dias atrás.

Ele ficou olhando ela ir embora sem nada fazer,atônito,besta,com raiva de si mesmo.

Nunca mais a viu, nunca mais ela saiu de sua cabeça.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O ponto "G" da questão.



O que é a gripe?
Um somatório de carências. Entre elas a Vitamina C, que pode ser encontrada em frutas cítricas como a laranja.
O que a cura?
 Um somatório de produtos químicos ingeríveis,entre eles a Vitamina C que pode ser encontrada no tubo do Redoxon, em formato de pastilhas de cor artificial laranja, sob o nome de ácido ascórbico para que o ser carente e  gripado, que pode ser eu ou você a tome em forma líquida enquanto ela evapora cheia de gás dentro de um  um copo com H2O, que devemos sempre acreditar estar livre de impurezas e filtrada. Caso isto não resolva e não tenhamos tempo a perder, podemos apelar para os comprimidos do tipo Doril, Apracur, Benegripe ou afins ou para o envelope de Resfredyl, cuja composição formada por Paracetamol, Maleato de Clorfenamina e Cloridrato de Fenilefrina, somados em 444g, possuem um efeito analgésico, descongestionante e anti-histamínico  (seja lá o que quer que isso signifique) em apenas 5 g de pó granulado prontos para tratar-nos dos sintomas de falta de emoções fortes ou excesso das mesmas, quando resolvemos ficar até madrugada no sereno, com os corpos quentes, após um exibicionismo desmedido dentro de um night club em busca do par perfeito.



O que é a gastrite?
Um somatório de carências. Suas causas principais são o excesso de ingestão de bebidas alcoólicas para saciar nossa sede  de afeto, o consumo excessivo de gordura saturada e insaturada também (pouco importa que esta última seja benéfica), para saciar nossa fome de amor, o uso desmedido de tabaco para satisfazer a necessidade de diminuir a nossa ansiedade em encontrar o par ideal e finalmente a ingestão despreocupada de medicamentos para nos iludir diante  da morte diária do nosso organismo, afinal, cada dia que passa é um dia a menos e não a mais de vida, e como um carro em constante movimento, as partes precisam de manutenção constante.
O que a cura?
O uso contínuo de Cloridrato de Ranitidina, de 150 mg (no mínimo) e uma força de vontade digna dos trabalhos hercúleos de superação da vida sedentária. Talvez seja conveniente um encontro espiritual com Buda, seguir preceitos beneditinos de preces a cada três horas do dia, em prol de uma mudança radical de vida no estilo "vida ecológicamente saudável", onde são permitidos alimentos crús, abolição da carne em todas as suas formas (inclusive humana, daí a necessidade de atingir-se o nirvana, já que este será o único meio de se atingir qualquer tipo de êxtase ou similar ao que podemos denominar de prazer). A vantagem deste tipo de tratamento é a consciência de um EU maior que o eu-ego, por isso, todas estas carências não serão mais sentidas.
Caso este tratamento radical não nos convenha, por sermos demasiado apegados a matéria, temos a opção de nos reportarmos a endoscopia, método considerado moderno dentro da literatura gastrointestinal, em que o indívíduo é submetido a uma tortura digna de inquisição. Um tubo de pelo menos um metro de comprimento nos é introduzido goela baixo fazendo com que queiramos vomitar a cada meio segundo sem poder. Uma sensação nauseante e desesperadora, enquanto uma microcêmera na ponta deste instrumento vasculha todos os cômodos do nosso estômago já fodido e maltratado pelos excessos já citados acima.
Após esta análise de descoberta da nossa úlcera duodenal, teremos que enfrentar um tratamento de abstinência com a inclusão de Cloridrato de Ranitidina, de 150 g (no mínimo), e teremos que incluir refeições em horários regulares, mastigação len-tís-si-ma de meia hora para cada garfada ou mordida de alimento, a ingestão de água fresca e pura (será que ainda existe tal nascente em qualquer lugar do mundo?) e considerar a adoção de sexo tântrico para evitar situações de estresse.
Há quem diga que tudo isso é bobagem, basta ir direto a fonte: medicina alternativa de A a Z. Comprar e beber cálices de um composto feito por vários tipos de ervas que podemos encontrar nas melhores lojas do ramo de vida ecológicamente sáudavel , casas de Umbanda ou paragens para caminhoneiros na beira das rodovias interestaduais: alcachofra do norte, espinheira santa, camomila, ipê roxo, carqueja amarga, chapéu de couro, salsa parrilha, catuaba.
Há quem diga que esse trem, é na verdade, um afrodisíaco poderoso, que deixa pinto pegar 200 quilos em academia de musculação, com o dedo mindinho. Se der certo podemos comprar logo uma dúzia da garrafada milagrosa.



O que é Gota?
É um somatório de carências. Como nos exemplos citados acima, estas carências nos levam a cometer excessos em prol de procurar nossa alma gêmea. No caso da gota , surgem inflamações nas ditas pequenas articulações: dedos das mãos e dos pés, tornozelos e cotovelos. Causas: excesso de exibicionismo em academias de ginástica, praias, boites e todas e quaisquer situações (inclusive nos quartos de motel), em que queremos mostrar ao nosso objeto de paixão, o quanto somos flexíveis, sarados, maleáveis e elásticos com os nossos corpinhos de 18 aninhos que nunca passam. É um tal de girar, rebolar, levantar a perna até o teto, estalar dedos, ficar na ponta dos pés, plantar bananeira, que faz com que pensemos em certa altura, o porquê de não termos nos dedicado a vida no Cirque de Soleil. Após as nossas apresentações dignas de Liga da Justiça, sentimos a consequências: dores reumáticas, vermelhidão, inchaço.
O que a cura? A conclusão óbvia de que não temos mais 7 aninhos de idade, de que a melhor dança é a do "Coisinha" de Jesus, sem muitos malabares e saltos mortais e de que sexo se faz deitado, de preferência com a ajuda de travesseiros e um comprimido feito de um composto natural energético a base de guaraná em pó, catuaba, marapuama, ginseng e extrato de gérmem de trigo, além de uma conveniente aspirina, é claro. Uma forma natural de tratamento são cataplasmas feitos de folhas de couve cozidas em vapor. Muito sexy. Caso não aguentemos as dores provenientes do excesso de ácido úrico no organismo, podemos nos dopar a cada duas horas com comprimidos de Torsilax, um composto farmacêutico de Cafeína, Carisoprodol, Diclofenaco Sódico e Paracetamol, que juntos somam 500 mg. Caso nada disso resolva, podemos pedir em oração um esqueleto novo ou semi usado que possamos comprar em pelo menos dez vezes no cartão sem juros ou apelar para nascer novamente.


O que é gonorréia?
O que é gengivite?
O que é gravidez?
O que é gás intestinal?
Um somatório de carências e excessos.
O que os cura?
Eis o ponto "G" da questão.
G de GENÉRICO.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

As melhores canções brasileiras


Na semana passada, mais precisamente no dia 09/11, os grandes fãs da música brasileira com certeza viram a lista divulgada pela renomada revista Rolling Stones, dos Eua. Na lista, constam as dez melhores canções brasileiras de todos os tempos. Para quem não teve essa oportunidade, eis o link:

http://www.rollingstone.com.br/edicoes/37/textos/100-maiores-musicas-brasileiras/

É interessante e gratificante esta abordagem realizada pelos jornalistas e especialistas da música. A valorização da música brasileira (quando digo música brasileira, digo música de qualidade), há algum tempo perdida em meio aos “Créus” da vida, dentre outras obscenidades compostas aqui e acolá, e cantadas sem pudor por todas as classes, é necessária para a salvação da conscientização de que não só o sensacionalismo provoca audiência, e, sobretudo, fundamental para o renascimento da importância histórica do nosso povo.
A lista foi elaborada, segundo os jornalistas, de acordo com os momentos históricos do Brasil; canções que por muito tempo “refletiram as incertezas e os anseios dos brasileiros”. Não discordo da lista, pelo contrário; acho difícil excluir alguma para que outra seja incluída. No entanto, o leque de canções brasileiras de qualidade é lato. Eu, particularmente, tenho minhas preferências. Não obstante a qualidade da lista, eu ressalto algumas canções que, a meu ver, poderiam integrá-la, e que nem por isso, ofuscaria o brilho dessa seleção.
Antes de divulgar my own list (rs), deixarei alguns comentários a respeito das dez primeiras canções; mais que comentários – homenagens.
Construção encabeça a lista, nada mais justo. A música brasileira melhor construída da lista de canções brasileiras melhor construída até hoje pelos críticos da música. E dizem que Chico Buarque construiu este belo prédio feito de melodia e palavras exatas “bebinho da silva”. Será boato?
Águas de março, uma das músicas mais bem interpretadas que já ouvi. Elis e Tom abraçam esta canção com uma sincronia nunca ouvida.
Existe canção que melhor faz jus ao título do que Carinhoso? Uma melodia que acarinha nossa alma. Asa Branca, o clássico do Nordeste, canção que melhor retrata toda a vida seca que assola aquela região, fazendo com que todos se compadeçam ainda mais, indagando junto ao maior sanfoneiro do Brasil: “Por que tamanha judiação?”.
“Mas que nada! Sai da minha frente que eu quero passar!”. Ritmo envolvente do Jorge Ben, que engloba todas as culturas do Brasil sob a égide do samba. Mas confesso que gosto mais dessa música comandada pelo pianista brasileiro Sérgio Mendes e pela banda americana Black Eyed Peas, e que inclusive teve seu clipe gravado aqui no Brasil. Eu adoro essa versão, é espetacular. Para quem tiver curiosidade de assistir, eis o link:

http://www.youtube.com/watch?v=DwWhnudZ5Nk&feature=related

“Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser...” Hino da bossa-nova, “Chega de saudade” é canção digna de liderar uma lista como esta. Só mesmo dois mestres como Vinicius e Tom para gerar uma jóia rara como esta.
Pão e circo é o que o sistema nos dá. E o que os Mutantes fazem? Denunciam! Tentam alertar as pessoas da sala de jantar, que só se ocupam em nascer e morrer diante de uma televisão, uma mídia manipuladora; em simplesmente nascer e morrer, sem ser ninguém, sem ser alguém. E o sistema deseja que alguém seja alguém? Panis et Circences, mais um clássico, que foi muito bem regravado por Marisa Monte em seu álbum “Barulhinho bom: uma viagem musical”.
“Detalhes”, na minha opinião, a melhor música do Rei Roberto Carlos. “Canto de Ossanha”, antes desconhecida (fui correndo baixá-la), é uma música bonita, que representa o “Brasil africano”, digamos assim, desta lista. Ainda sim prefiro dezenas de outras músicas de Baden, Vinicus e cia.
“Alegria, alegria” é um dos maiores clássicos dos festivais da música popular brasileira. Quanta história, quanta mensagem subliminar extraímos desta canção! Por que não colocá-la nas dez mais? Por que não??
Enfim, deixo aqui minha seleção das dez mais, a qual se equipara a esta oficializada pela revista. Contanto, há algumas pequenas mudanças. Fiquem calmos, não vou incluir nada que lembre Tati Quebra Barraco (ou quebra-ouvidos né, pois haja ouvido para escutar essa pessoa!). Gostaria que nos comentários, todos que tiverem lido este post deixassem também sua homenagem a música do Brasil, criando a lista que concluírem ser a mais justa, ou simplesmente das músicas da preferência de cada um.
Eis minha lista:
1-Construção
2-Águas de março
3-As rosas não falam
4-Carinhoso
5-Chega de saudade
6-Asa branca
7-O bêbado e o equilibrista
8-Comida
9-Panis et Circenses
10-Eu sei que vou te amar

Salve a música brasileira!

domingo, 11 de outubro de 2009

Sinopse



Vinte e uma horas e alguns minutos. Minutos suficientes para que eu me atrasasse para o cinema. Não é à toa que não gosto de Segundas feiras. Sempre que tento fazer algo de bom neste dia, simplesmente não dá certo. Desta vez marquei com uma amiga para assistir a um filme. Segundas feiras têm cara de tédio e de solidão e eu não estava nem um pouco a fim de passar a noite assistindo Tela Quente em casa, de jeito nenhum...

- Mas como assim os ingressos acabaram?
Perguntei, perplexa, para a atendente.
- É porque hoje a entrada é mais barata, época de férias, sabe como é...
- E o pior que esta era a última sessão da noite...
- É, infelizmente você deu azar...
Logo assim que deixei o guichê, meu telefone tocou
- Onde você tá, sua maluca? Perguntava Renata, aflita .
- A um passo de um surto psicótico. -respondi- e você?
- Quê? Um passo de onde?
- Esquece. fala.
- Eu tô assistindo o filme. Você tava demorando, encontrei com a Letícia e a Aline na fila. Decidi entrar com elas e te esperar aqui.
- Acabou a porra do ingresso! Não tem como eu entrar.
- Você quer que eu...
- Não. Fica aí e assiste essa bosta! Amanhã a gente se fala.

Disse isso e desliguei sem delongas. É interessante minha amizade com Renata... Ela nunca se importa com minhas reações explosivas e irônicas. Acha graça. Talvez porque ela seja sempre otimista, alegre ou porque não entende nada do que eu digo.

Pronto. Lá se foi o meu plano perfeito para um pouco de distração naquela noite. Lamentei não ter um plano B... Desci as escadas do cinema, pensando no que faria. Ir para casa estava fora de cogitação. Além do mais, aquela agitação toda me deu fome. Achei melhor ir até a praça de alimentação. E foi só eu pisar lá, para me lembrar do quanto eu detesto shoppings.
Acho que sofro de algum tipo de transtorno de convívio superpopulacional. Na verdade, acho que nem existe este termo. Sou é anti social mesmo... Mas, quando se está puta da vida e com a barriga vazia, tudo vale a pena, até mesmo pedir um "Mc capitalista indigesto, cebola, picles, num pão com gergelim".
Tudo o que eu queria era que a noite fosse menos patética, mas àquela altura, já era. Por que será que as Segundas feiras são assim? Por que simplesmente não são como as Sextas? Ah, as Sextas são ótimas...

Fui em busca de um lugar para me sentar. Não avistei uma mísera mesa vaga em toda aquela imensa praça... Não sei que raios estava acontecendo naquela Segunda feira, mas o local estava absurdamente cheio. Devia ser, sei lá, o dia internacional do shopping ou algo assim...
Me senti meio ridícula, segurando aquela bandeja enquanto procurava lugar. Até que passando por entre as mesas, esbarrei num sujeito sentado à minha esquerda. Esbarrei não, minha bolsa atingiu em cheio o ombro do rapaz. Agora sim, me senti uma ridícula completa...
Sussurrei desculpas, que por sorte, ele ouviu e então sorriu para mim. Uns vinte e poucos anos, talvez trinta. Cabelos castanhos e curtos, calça jeans e camisa azul. Sorriso perfeito. Interrompeu a leitura de um livro e me olhou diretamente nos olhos.

- Não foi nada.
- É que eu estava procurando uma mesa e sem querer a bolsa...
- Arthur.
- Hein?
- Arthur. Me chamo Arthur. E você?

Estendeu a mão direita, forçando um cumprimento, ao qual retribuí sem jeito.

- Ehh... Ana. Ana.
Até agora não sei porque diabos menti meu nome...

- Está esperando alguém, Ana?
- Eu? Não.
respondia, como retardada, mas respondia.
- Estou errado ou você está procurando um lugar para se sentar? Fique à vontade.
Disse, indicando a cadeira vaga em frente a ele.
- Obrigada.
Agradeci sem jeito, me acomodando na cadeira. Ele comia algo parecido com um petisco árabe e que eu não me atrevi a perguntar o que era. Tratei logo de degustar o meu Mc hamburguer de coisa...

- E o namorado, ficou em casa?
- Não. Não tenho namorado.
Definitivamente, aquilo era surreal. Eu tinha acabado de violar três regras fundamentais do mandamento anti social: Não conversar com um estranho, não comer com um estranho e a pior delas: não responder perguntas pessoais a um estranho. E ele parecia mesmo empenhado em dar sequência aquela conversa. Fiquei sem graça e decidi ser cordial.

- O shopping está cheio hoje, não? -ele perguntou
- Pois é. Eu pretendia ir ao cinema...
- Você trabalha em que? É advogada?
Me chamou atenção a facilidade que ele tinha de mudar de assunto. Ou a facilidade com que pequenas coisas despertavam sua atenção.
- Não. Por que advogada?
- Só um palpite. Seu jeito, sua postura...
- Não. Não sou advogada -respondi, sem contudo responder, achando tudo muito estranho.
- Gosto da sua franja. Faz um efeito bonito sobre os seus olhos...
- Como é?
- Essa franja, de lado. Realça o seu olhar. Você tem olhar de lince, sabia?
Ele só podia estar brincando, meus cabelos estavam com um terrível aspecto de Segunda feira.
- Como é isso de "olhar de lince"? - perguntei, esboçando o primeiro sorriso do dia, ainda evitando fixar meus olhos nos dele.
- É um olhar de quem observa ao mesmo tempo em que hipnotiza. Coisa de felina mesmo.
Fiquei muda. Parei de mastigar o pedaço de hambúrguer que estava dentro da boca, tentando digerir o que tinha acabado de ouvir. Não conseguia pensar em nada para dizer, então ele sorriu. Com aqueles dentes perfeitos, que pareciam saídos de um comercial de creme dental.
-Você deve estar pensando que sou algum maníaco... Você entra em uma praça de alimentação cheia e um louco começa a puxar conversa e logo está elogiando seu cabelo.
- Não. De jeito nenhum, não pensei isso.
- Não se preocupe, não sou maníaco. Apenas vi que precisava de um lugar para se sentar.
- Que livro você estava lendo? -Perguntei para disfarçar o estranhamento.
- Na verdade é uma espécie de guia. “300 filmes para ver antes de morrer”. Veio junto com a assinatura de uma revista.
- Hum. Interessante. Eu queria assistir a um filme hoje e não consegui, esgotaram-se os ingressos. Espero conseguir antes de morrer... -disse isso e mudei de assunto- Caramba, não entendo porque essas lanchonetes enchem o copo de gelo e põe dois dedos de refrigerante para completar. Vou até o balcão pedir outro copo para colocar esse iceberg, ando meio resfriada...
Ele achou graça do que eu disse. Caminhei até o balcão da lanchonete com uma estranha certeza de que ele permanecia sentado me esperando.

- Pronto! Estou de volta. Mas me fale mais do livro...
- Eu já li esse negócio várias vezes e acho que já assisti boa parte destes filmes. Quer o livro pra você?
- Hein?
- Pode ficar, toma. Faço questão de te dar.
- Mas porquê? Nem me conhece...
- Não sei. Mas quero que tenha uma recordação minha.
Como se fosse possível esquecer alguém assim... pensei.
- Não sei... isso é estranho...
- Eu sei que é! Desde que você entrou nessa praça tudo ficou diferente. Não quero ir embora deixando que isso se perca assim. Fique com o livro. E além do mais, nem é um livro propriamente dito, é só um guia de entretenimento.
- Ok, então.
- Bem, Ana... infelizmente, eu tenho que ir.
- Oh... não...
Não consegui disfarçar meu desapontamento e também não sei porque senti aquilo. Achei, pelo rumo da conversa, que ele pediria o número do meu telefone ou algo assim... Que pretensão a minha!
- Foi muito bom te conhecer. Espero que não tenha se chateado. Adorei sua companhia.
- Também gostei muito. Não me chateei de modo algum. Aliás, eu agradeço sua gentileza.

Arthur deu outro sorriso lindo e levantou-se. Pensei que meu coração fosse parar de bater quando ele se inclinou na minha direção e se aproximou do meu rosto, a ponto de eu poder inalar seu perfume amadeirado. Sua respiração era suave como um anjo, uma brisa, um sopro de vida, sei lá... Os lábios macios de Arthur tocaram meu rosto, produzindo um leve estalo. Ele me sorriu novamente, com todos aqueles dentes perfeitos e disse:

- Se cuida, moça de franja.
Respondi com um sorriso, não tão perfeito.

Fiquei ali, sozinha. Rodeada por estranhos, todos compenetrados em suas refeições. Impressionante como aquele lugar voltou rapidamente a ser o mesmo shopping chato de sempre. De repente, minha cama me pareceu uma ótima opção de fim de noite.

Enquanto dirigia rumo à minha casa, pensava alto: Arthur... um nome bonito para um homem igualmente bonito, simpático, atraente. Por que será que ele conversou comigo? Teria se sentido atraído por mim? Não sou nada demais, embora não me ache feia. Mas sou desajeitada, só dou mancada.
Ele me parecia tão feliz, tão empolgado com tudo. Parecia algo irreal.Voltava à minha mente o olhar profundo, o sorriso largo, o perfume marcante. Ele devia agir assim com todo mundo, ele parecia ser naturalmente expansivo, simpático. E eu me achando especial, que bobagem...
Tentei lembrar de algum outro momento tão especial em minha vida, em que meu coração disparasse assim por alguém. Parecia algo inédito para minha mente cheia de falhas.

Chegando em casa, deixei as chaves e o livro na cabeceira da cama. Tomei um banho, liguei a tv em volume baixo e aderi à combinação "Tela Quente-cama fria" mesmo. Antes de dormir, resolvi dar uma olhada no tal guia, só para escolher o filme que alugaria para a próxima Segunda feira. Não queria correr riscos com uma bosta de filme sem ingresso no cinema novamente... Ao folhear as primeiras páginas encontrei, não a sinopse de um filme qualquer, mas ali estava, em caneta azul, o desfecho da minha própria história:

"Aqui estão meus telefones... Caso queira minha companhia para assistir ao menos um destes 300 filmes antes de morrer, me ligue. Prometo comprar os ingressos com antecedência! Arthur.”

Sorri, fechei o livro e concluí que as Segundas feiras são dias incríveis!

sábado, 10 de outubro de 2009

LIBERDADE


Hoje acordei com uma imensa vontade,
De gritar, jogar tudo pro alto
E dizer que feliz eu sou,
Com tudo que conquistei por mim mesma
E nada melhor que a liberdade de saber
Que de você nada precisei pra isso,
Hoje acordei com uma imensa vontade,
De pros amigos ligar, as saudades matar
E o coração aliviar!
Hoje acordei com uma imensa vontade,
De ajudar o velhinho a atravessar,
A criança a levantar, do tombo dolorido,
A palavra de carinho, pro coração
Do amigo confortar.
Hoje acordei com uma imensa vontade,
De correr, pular, xingar e dançar
A alma da prisão, quero libertar.
Bater a mão no peito e dizer:
Eu sou livreeeeee!!!
Eu sou feliiiiiizzz!!!
Hoje acordei com uma imensa vontade,
De te agarrar, te ligar,
E gritar pra todo mundo,
Que minha vida é sorrir,
Meu peito não se contém de tanto orgulho,
Porque sou o que sou,
Louca, apaixonada,
Desvairada e tentando ser poeta!!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Rotina que escraviza - Liberte-se!


Eram seis horas da manhã quando Alexandre acordou com o barulho insistente do despertador do telefone celular, ainda pensou em desligar o aparelho, curtir o friozinho daquela manhã de quinta feira de Julho, mas lembrou-se que se chega atrasado mais uma vez esse mês, perderia a tão importante cesta básica. Alexandre já não suportava aquele trabalho que não lhe dava prazer algum, sua relação era apenas financeira, não suportava mais aquelas reuniões matinais todos os dias as 7:00 horas da manhã para ouvir a mesma história, o mesmo discurso “motivacional” utilizado sempre por algum gerente de vinte e poucos anos saído de uma faculdade bacana que não conhecia a realidade da rua e estava lá para transmitir a carga diária de pressão para atingir a “meta”, um número de venda que ele precisava trazer para no fim do mês ganhar a subsistência sua e de sua família.

Com aqueles pensamentos e mais desanimado do que de costume levantou-se com certa rapidez, olhou para sua companheira e observou em seu rosto que seu cansaço também era visível, pois além do seu trabalho na fábrica, onde também batia o cartão, ainda tinha o serviço do lar, pois tiveram de dispensar a empregada e também tinha de amamentar o pequeno Ulisses de quatro meses que naquele momento da sua vida só precisava de alimento e afeto.

Observando a mulher que já estava a seu lado a mais de oito anos, não pode deixar de pensar e sorrir, agradecendo a Deus por ela existir, ser a mãe e a mulher que vem sendo todo este tempo. Olhou também para o mais velho de quatro anos, que ao nascer apresentou um problema congênito em sua formação óssea, mas que com luta e união conseguiu superar e vencer, hoje quem olha o pequeno Pedro e o vê correndo pra lá e cá não diz e nem pensa o que já passaram.

Neste curto momento Alexandre se sente feliz, a esperança e a energia que precisava ele reencontrou em sua família, o motivo para vestir o uniforme que o transformava todo dia em uma marca, calçar o sapato preto com solado reforçado e apertado, pois não tinha seu número e agora era obrigatório usar o uniforme completo, senão , poderia perder pontos na avaliação anual, aquilo tudo valia a pena, pois ele gosta de ser homem, gosta de ser pai, gosta de ter família. Ao pensar isso tudo ele percebeu que já haviam se passado dez minutos, teria que correr e foi o que fez, se arrumou o mais depressa que pode,pegou a moto foi para mais um dia de longa jornada, mais cinqüenta ou sessenta clientes a serem visitados a oferecer a novidade, mostrar o portfólio, ouvir muitos e muitos nãos e insistir, apelar para o sentimento das pessoas para vender, usar o clássico me ajuda que eu te ajudo, para no fim do dia poder voltar ao escritório com o número que a empresa quer.

E assim por anos e anos até que a situação consigo mesmo foi se tornando cada vez mais insustentável, Alexandre sentia em seu interior, no seu mais íntimo sentimento que aquela situação estava transformando seu próprio jeito de ser, modificando a sua essência, com o tempo ele foi percebendo que até seu pensamento estava cada vez mais condicionado a atender o que o sistema quer e o que a empresa acha importante, ao chegar em casa, não encontrava mais animo para fazer o dever de casa com seu filho, nem brincar com o pequeno, tudo que conseguia fazer era ligar a TV, assistir ao jornal que falava da economia mundial e na taxa de juros. Nem ele sabia porque assistia aquilo,no fundo se sentia condicionado aquela rotina.

Depois da novela das oito,que ao longo do tempo só mudam os nomes e os artistas,pois as histórias são sempre as mesmas e no seu pensamento,ele sentia como a alienação era transmitida,como os conceitos eram repassados a milhões de pessoas,percebia também,como aquele aparelho poderia ser útil,benéfico se fosse utilizado com um propósito bom.

Alexandre pensava que se as pessoas viam violência na TV,praticariam violência em suas vidas,se as pessoas vissem infidelidade na novela,achariam “normal”trair a esposa e sempre que via isso,tinha vontade de desligar a televisão,ou mudar de canal,mas no outro canal da televisão aberta não era diferente,ainda não dava para ele pagar a TV a cabo que possivelmente teria uma opção melhor.

Um belo dia Alexandre acordou com o despertador e não levantou, ficou deitado até as 8:00, depois saiu para comprar pão e tomou um café da manhã com calma com sua família, naquele dia ele decidiu que seria diferente, foi ao seu trabalho para tentar fazer um acordo, pois ele sabia que era um bom funcionário e seria o mínimo que a empresa poderia fazer por ele, depois disso foi a Universidade próxima a sua casa se matricular num curso que sempre quisera fazer. Alexandre acordou motivado a ser feliz,resolveu aceitar o desafio de montar um pequeno escritório de prestação de serviços em sua casa,podendo assim passar mais tempo com sua família e se dedicar mais aos seus estudos,a sua religião,aos seus amigos.

Alexandre decidiu ser feliz!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Itinerário completo.



Naquela noite após o trabalho, decidi  voltar a ser gente. Arranquei as amarras que me prendiam àquele uniforme marinho, seco, sem marcas de identidade, complementando o meu semblante austero e tristonho.
Meu reflexo no espelho do vestiário feminino mostrava a palidez das noites insones.
Retirado o tailleur, vesti o tubinho preto básico que realçava as curvas que eu sempre fiz questão de esconder. Vestir aquele traje já era o primeiro ato de libertação. Era a concretização de uma vontade e de uma identidade que sempre quis assumir e que nunca tive a coragem de concretizar. Chegou a hora. Me olhei no espelho, mas não me sentia feminina o suficiente. Retiro então os sapatos de salto mediano e decido calçar scarpins pretos, após colocar meias finas da mesma cor.
Molhei meu rosto, passei a mão molhada pela nuca, removi o suor e a estampa de tédio no meu olhar vazio.
Suspirei fundo, sequei a face com pedaços da toalha de papel e iniciei um make-up com acessórios que retirei da necessaire: sombra prateada e outra cinza, rímel preto e o toque final com gloss cereja nos lábios. Resolvi não desfazer o coque que me prendia os cabelos. Pronto. Saio do prédio com destino determinado. Entro no carro e decido iniciar minha jornada ouvindo um rock'n roll catársico.
Dada a partida, Green Day estourando meus tímpanos, adrenalina em processo de ebulição, sigo o tráfego em direção a rodovia interestadual. Piso agora no acelerador com mais força; a pista quase livre e eu dona do mundo, a voar para os braços abertos da vida que me espera. Olho meu rosto pelo retrovisor, solto meus cabelos com urgência e sinto a felina que habita em mim , emergir de dentro de uma caverna, onde estivera hibernada por tanto tempo.
E então uma alegria irrestrita invade o meu peito que bate alucinado e vou seguindo determinada a não seguir nenhum roteiro determinado. Nada de projetos antecipados. Deixo a vida me levar. Vida nova, caminhos novos, surpresas que me aguardam.
Minha intuição me dizia para não parar e quando dei por mim, já havia atravessado pedágios, viadutos, serras, encruzilhadas, até chegar no local mais improvável para exibir meu visual sexy e pistoleira.
Desliguei o carro, respirei fundo, arranquei os sapatos que me incomodavam e faziam os meus pés latejar. Relaxei por alguns minutos rescostando a cabeça no banco e fechando os meus olhos já cansados pela atenção emprestada à longa travessia.
Abri o vidro da porta ao meu lado para deixar o ar da madrugada invadir a minha caixa.


Silêncio. Encontro a batida compassada no meu peito, sem alarde ou tensão. Sinto meu coração vivo.
Começo repentinamente a pensar em Deus, conscienciosa de todas as coisas a minha volta.
Saio do carro descalça, arranco as meias finas e sinto a areia da praia abraçando os meus pés...
O ar. O mar... A esquerda, o mar. A direita, o mar. No centro, o mar... e lá no fundo, onde a linha do horizonte se risca sozinha, o inicial côncavo que se avoluma, aumenta, sobe e enternece as ondas a cada instante, lá eu encontro o eixo que me faltava enxergar.
A luminosidade de um novo dia se apresenta diante de mim. Eu, única espectadora do maior show da Terra; a manifestação mais pura da existência de uma energia maior do que tudo que podemos sequer sonhar. A manifestação criadora de vida e luz, espelho refletido nas águas vivas que ecoam no ar o som melancólico de ondas pequeninas que são chupadas pela areia na praia.



Sinto meu corpo todo arrepiado pelo vento frio. Sigo em frente, toda a dimensão do infinito à minha disposição. E eu, formiguinha atômica ansiando por um sinal qualquer... um sinal que me comovesse e me fizesse querer voltar atrás. Mas não. O sol subindo acima do cristal das águas, não me induz a repetição. Não.
Ele provoca em mim a elucidação de que não há repetição num mesmo movimento, pois  que cada momento é único. O que penso se repetir é uma teimosia implícita no meu modo vivendus e percebo na transparência das águas que se misturam com a espuma branca da arrebentação na areia, que me tornar uma caricatura de mulher fatal não é o que condiz com minha essência de ser pura e simplesmente mulher. Ser este ideal machista de revista cosmopolita não me tornará mais feliz, será apenas uma casca para encobrir como um véu de mentiras, o que realmente sou e o que realmento quero que alguém do lado de fora enxergue, da mesma maneira que enxergo o nascer e o pôr do sol : o yin e o yang lado a lado se complementando, sem a mais ou a menos, só sendo, só acontecendo, um dia após o outro...

Neste momento, sinto uma leveza límpida como as águas e luminosa como o astro rei invadir meu espírito, uma alegria genuína de quem sabe quem é, de se reconhecer sendo que se é, de saber que o renascer acontece em intervalos de vinte e quatro horas, em todos os dias de nossa existência, e que só cabe a nós mesmos prolongar ou não as estações do ano que queremos imprimir em nossas personalidades e em nossas almas. Todos os dias nascemos outros, todos os dias vivemos um dia novo, nem a mais, nem a menos. Os eclipses acontecem em intervalos curtos, para trazerem novamente a luz para onde ela nunca deveria ter saído. Isso é vida.

Não sei por quanto tempo caminhei na areia fofa e úmida com os pés descalços. Só sei que ao olhar para trás, só haviam marcas dos meus passos, e lembrei que embora os meus estivessem impressos como prova testemunhal da minha passagem nesta terra, eu acreditava estar sendo acompanhada pelo espírito de Deus ao meu lado.
Me senti protegida, aninhada, quente. Decidi então jogar minhas roupas na areia e corri de braços abertos de encontro as águas que me chamavam para um banho de purificação da alma.


Sangue quente, pele gelada, carne salgada, olhos ardendo. Mergulhar no mar é curativo. Despi-me de toda a mágoa, de todo o concreto que me pesava a alma, o peito, o coração. Mergulhei em águas fundas, toquei com a ponta dos dedos a areia molhada no fundo do mar, girei de braços e pernas abertas, dancei feito bailarina, boiei, criei ondas, fui peixe, golfinho, molusco... sereei...mulher de Vesúvio, me vi compasso girando trezentos e sessenta graus, espiralando, relógio sem ponteiros, espalhando segundos de imortalidade.

Quando finalmente resolvi sair do meu âmago, me perpetuei poderosamente rejuvenescida e capaz. Me senti metamorfoseando em pássaro, flutuando sem ter que bater asas. Enquanto recolhia as roupas, pensei nas escolhas que fazemos na vida, nas oportunidades que perdemos, que abraçamos, que criamos; pensei na imprevisibilidade do universo que pode conspirar ou não a nosso favor.

Mais uma vez, senti no meu espírito uma lucidez , uma mensagem sobre o que pensei querer deixar para trás, por não me sentir aceita, importante, capaz.
Percebi que minha vida era maravilhosa.Que eu sou maravilhosa. Não eram as roupas, a maquiagem ou a catarse musical que me fariam gente, mas a minha resolução de encarar com coragem os fantasmas do meu dia-a-dia que eu permitia habitar em mim. A minha visão e a minha ótica mudaram o foco.

De volta ao carro olho para o relógio. Sete horas da manhã. Ainda havia tempo de chegar em casa e desejar boa viagem a quem por muito tempo  me fez pensar em não voltar para quem eu realmente era.
E eu sou.
Meu próprio templo divino. Deusa da luz e do renascimento. Eu me amo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Casal se reencontra por causa de carta de amor perdida por dez anos

(Da BBC Brasil - Publicado originalmente em 20/07/2009 - link para esta matéria: clique aqui)


Um casal que se reencontrou por causa de uma carta de amor que ficou dez anos perdida finalmente se casou na última sexta-feira, na Grã-Bretanha.

Steve Smith, de 42 anos, e a espanhola Carmen Ruiz-Perez, também de 42, se conheceram e se apaixonaram há 17 anos, quando ela passava uma temporada estudando inglês no condado de Devon.

Eles chegaram a ficar noivos após um ano de namoro, mas acabaram rompendo o romance quando ela se mudou para Paris por causa de um emprego.

Anos depois, Smith conseguiu o endereço da mãe de Carmen, na Espanha, e enviou para lá uma longa carta pedindo para reatarem.

Mas a carta, que havia sido colocada fechada sobre uma bancada, acabou escorregando e ficando perdida atrás de uma lareira, de onde só foi recuperada recentemente, durante uma reforma.

'Filme'

Ao finalmente receber a carta, Carmen telefonou para Smith e, dois dias depois, os dois se reencontraram em Paris.

"Parecia uma cena de filme. Corremos um em direção ao outro e nos abraçamos no meio do aeroporto. Trinta segundos depois já estávamos nos beijando", contou Smith ao jornal britânico The Times.

Já Carmen admite que quase desistiu de telefonar para o ex-namorado, tamanho o seu nervosismo ao receber a carta.

"Eu pegava o telefone e desligava, várias vezes. Mas eu sabia que tinha que ligar em algum momento", disse.

Os dois haviam permanecido solteiros todos estes anos.

"Finalmente estou me casando com o homem que eu sempre amei", afirmou ela.


(Sugestão enviada por Sidarta Cavalcante)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Índio perde guerra


Esta foto foi tirada pelo fotógrafo brasileiro Luiz Vasconcelos. A foto mostra uma mulher indígena, de etnia sateré-mawé, com o filho no colo, enfrentando uma tropa de choque da polícia, em uma disputa por terras. A foto foi publicada no jornal "A crítica", de Manaus (AM) em março do ano passado. A foto entitulada "Índio perde guerra" rendeu ao fotógrafo o maior prêmio mundial de fotografia, o World press photo 2009, na categoria Notícias gerais.
fonte: Blog Fotocolagem


"A fotografia acima e o texto abaixo (de Edson Basilio) não foram produzidos na mesma época e a intenção de "linkar" as duas obras é meramente ilustrativa." (Camila Furtado)

1500 - II


500 anos se passaram desde o descobrimento
Muita coisa mudou no Brasil
Só o que não mudou foi o sofrimento de um povo
Aquele povo que um dia foi nativo desta terra
Mas que não teve direito algum sobre ela
E foi obrigado a cedê-la aos novos habitantes


Estes novos “donos” do Brasil...
...com o tempo se autodenominaram nativos
E aos outros, índios


Tudo o que pertencia aos índios...
...passou a pertencer aos brasileiros
Título este que não incluiu os índios...
... mesmo sendo eles os verdadeiros nativos


Agora os brasileiros emprestam um pedaço da “sua” terra
Para que os índios habitem
E conservem o pouco de sua cultura
Que sobreviveu a estes 500 anos de sofrimento


Ainda hoje é possível encontrar um índio
Fazendo um artesanato...
...mas sempre após uma partida de futebol...
...esporte que aprenderam a gostar
E que jogam com pinturas de guerra no corpo
E vestidos com um short da Adidas


Será que ainda podemos chamá-los de índios?
Ou de quase-brasileiros?
Seres vivos eles ainda são...
...mas sua cultura já está morta.


Edson Basilio


Sugestão de Camila Furtado. Você confere este texto no blog Basilio poeta

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O homem que queria ser outro - Parte sete - Nocaute


Olá, meus amigos! Eis um capítulo inédito do "homem que queria ser outro". Grande abraço a todos, e boa leitura!


Seu Vilela, bem como os moradores mais íntimos da família Santos Figueiredo, se sentia um tanto quanto tristonho por aquela morte. Uma fatalidade, na verdade. Dona Hilda, não obstante a idade, não era uma senhora ranzinza, daquelas que falam mal de tudo e de todos por conta de uma dor reumática. As vezes ela descia e ficava horas conversando com ele na portaria, principalmente sobre novelas. Seu Vilela adorava novelas, sabia de cor todos os nomes dos personagens, todas as trilhas sonoras...
Naquela tarde, ele conversava com Dona Jurema, moradora do mesmo andar que a família Santos. Vizinha, para ser mais exato. Esta era a melhor amiga de Dona Hilda; não tão idosa quanto a falecida, 70 anos, mas de semelhante temperamento. Ambas se davam muito bem. Dona Jurema estava enlutada, pronta para ir ao enterro da amiga.
-Eu não consigo me conformar... Ela que sempre desejou morrer em seu leito, cercada pelos familiares... Coitada da Hildinha. – Dizia a mulher, apoiada no balcão da portaria.
-Era uma boa senhora... – Completou o porteiro.
-Mas o que mais me dá aflição foi uma coisa que ainda não contei a ninguém...
-Como assim, Dona Jurema? Nessas horas é preciso tudo dizer, até mesmo para desabafar, não acha?
-Sim, sim... Olha, eu vou contar pro senhor – Disse, em voz murmurante – Ontem a noite, quando fui tomar meu remédio, ouvi um barulho alto vindo da casa deles, como se fosse alguém rolando da escada.
-Virgem mãe! – Assustou-se Seu Vilela.
-Ouvi com esses ouvidos que a terra há de tapar! Era exatamente vinte para as sete da noite. Tenho certeza porque eu sempre tomo meu remédio vinte minutos antes da novela das sete.
-Mas o que a senhora fez? Não teve sequer a curiosidade de ir lá verificar?
-Pois eu não fui!? Eu fui sim! Toquei a campainha três vezes, e nada. A porta estava trancada. Ninguém me atendeu, então achei que fosse coisa da minha cabeça. Voltei pra casa. E só hoje, quando descobri o que aconteceu, que me veio tudo à lembrança. Se arrependimento matasse! Eu teria que dar um jeito de entrar naquela casa, tivesse chamado o senhor!-Claro! Mas não se culpe por isso. Seja como for, o acidente já tinha acontecido. Entrando lá ou não, já seria tarde demais. Mas... Tem coisa estranha aí...
-O que? Comigo?
-Não. A senhora confirma o horário que ouviu o barulho e tocou a campainha?
-Ah, está insinuando que tenho Alzheimer agora?
-De maneira alguma! É porque... Ah, esquece. É melhor a senhora se adiantar para o enterro.
Dona Jurema confere o horário em seu relógio de pulso.
-É verdade. Vou pegar um táxi e logo estou lá. Passe bem, Seu Vilela.
-A senhora também.
Dona Jurema se retira a passos vagarosos do prédio. Seu Vilela fica a olhar para o vazio, muito pensativo. Não quis afirmar nada, até por receio em realizar uma acusação infundada. Mas assim que tivesse a certeza absoluta, talvez procurasse vasculhar melhor este dado...
Euclides chega no velório da avó sem luto, com a mesma roupa do dia anterior. O caixão já estava sendo preparado para ser fechado. Ele é recebido por um tio, que aperta sua mão. Euclides demonstra muita tristeza no olhar, como de práxis em um velório, nada verdadeiro de sua parte. Seus pais, os mais próximos do caixão, olham para trás e vêem sua chegada.
-Olha como esse moleque vem ao enterro da avó... Chega atrasado, mal vestido. – Resmunga seu pai, irritado.
-Acalme-se, querido. Ele ficou sabendo agora, provavelmente.
-Ele nem devia estar aqui.
Irado, Rodolfo se desvencilha o braço da esposa e vai a direção ao filho. Ao confrontá-lo, diz:
-O que faz aqui, seu moleque?
-Como?... Eu vim ao enterro de minha avó, porque? Era proibida a minha entrada?
-Voce foi o culpado! – Grita, apontando o dedo para o filho.
Amália chega, e tenta conter o marido.
-Eu o culpado? Por que está me acusando?!
-Se não tivesse dado uma de marica e ficasse em casa com sua avó, esse acidente poderia ter sido evitado! Mas não! Ela ouviu toda a discussão, ficou nervosa, vai ver foi por isso que caiu da escada!
-Calma, isso não é hora para discussão! – Clama Amália.
As pessoas presentes já se viravam para prestarem atenção no embate entre pai e filho.
-A partir de hoje eu não coloco mais os meus pés naquela casa. Jamais o senhor poderia ter me dito uma barbaridade dessas... Eu amo a minha avó – Disse, em meio a lágrimas que saltaram de seus olhos – Dizer que fui o culpado só faz aumentar a minha dor... Acha que já não pensei nisso? Claro que pensei! Mas eu nunca podia prever uma tragédia como esta...
-Não vai por os pés naquela casa? Eu é que o proíbo! Vá viver a sua vida. Se vire! Cansei de aturar filho marmanjo a toa dentro da minha casa!
Euclides sente uma pontada no peito, de raiva e tristeza. Agora era um sentimento real, não simulado.
-Vocês são os pais que nenhum filho merece. Vocês desgraçaram a minha vida, seus desgraçados. Nunca viram em mim a pessoa que o meu irmão foi. Mas eu tentei, juro que tentei ser como ele. E não consegui, sabe porque? Porque fui e sou melhor do que ele. E isso vocês não repararam.
-Melhor que seu irmão... Há, - Gozou o pai – Se o seu irmão fosse vivo hoje, você ia saber o que é ser gente.
Foi o fim da picada para Euclides. Ele não se contém, e dá uma cusparada no rosto do pai.
Rodolfo avança em Euclides, agarrando o colarinho de sua camisa. Rapidamente os amigos mais próximos separam os dois. Rodolfo, inconformado, tentava se soltar de todas as maneiras para acertar um soco em Euclides.
-Eu te mato, seu ingrato!
-Sinta esse cuspe na sua cara, papai. Sinta o gosto, o cheiro dele. Sinta esse líquido escorrer pela sua face.Nessa saliva está presente todo o ódio que sinto por você. Toda a amargura que me fez passar todos esses anos. Pelo menos o meu cuspe você irá reconhecer. Vão todos para o inferno.
Euclides se solta dos braços dos amigos e se retira da capela do cemitério. Todos, sem exceção, ficam perplexos com aquela atitude de Euclides. Foi de uma frialdade tão grande, tão intensa... Rodolfo sente uma vertigem, e é socorrido pelos amigos.
Enquanto isso, Euclides sai em disparada do cemitério, secando as lágrimas que insistiam em rolar pelas suas faces, e, ao mesmo tempo, sorrindo um sorriso incontrolável. Aquela tinha sido a catarse de sua vida.
Tomou um táxi e foi até o prédio, a fim de recolher tudo que é seu. Ao entrar no prédio, logo é abordado pelo porteiro.
-E então, Euclides? Já aconteceu o enterro?
-Deve estar acontecendo nesse exato momento. – Respondeu, sem cessar os passos em direção ao elevador.
-Ei, Euclides. Espere só um minuto...
Euclides parou, bufando com impaciência. Ele se vira para o porteiro.
-O que foi, Seu Vilela?
-Eu entendo que não é hora pra isso, mas tem uma coisa me encasquetando aqui. Ontem a noite, por volta das vinte pras sete, a Dona Jurema relatou ter ouvido um barulho vindo da sua casa...
-Um barulho? – Espantou-se Euclides, já formulando um subterfúgio para aquela situação.
-É... E por acaso, nessa hora, você não estava em casa?
-Bem, eu... Eu estava sim, eu fui tomar banho. Ah, já sei, só pode ter sido a tubulação. Quando liguei o chuveiro, ouvi realmente um barulho muito esquisito vindo do encanamento. Fiquei até de avisar o senhor, ou o síndico, mas acabei me esquecendo...
-Sei... Então suponho que tenha sido por esse motivo que não ouviu a campainha tocar.
Euclides recordou-se da campainha soando. Mal assassinara a avó, e a campainha foi tocada três vezes. Foi um susto e tanto. Para sua sorte, a pessoa não insistiu.
-Ah, com certeza! – Sorriu – A campainha tocou? Nem sabia!
-Por que sua avó não atendeu enquanto você estava no banho?
-Minha avó, coitada, estava deitada em sua cama, no quarto. Até ela descer, e atender a porta... Mas o que é isso agora, um interrogatório?
-Ora, imagina! Quem sou eu! Um mero porteiro! Foi só curiosidade... – Sorriu, constrangido – Eu te peço desculpas pelas perguntas impertinentes.
-Eu desculpo o senhor. Mas lembre-se de uma coisa, um velho ditado que nunca é demais ouvir, Seu Vilela... A curiosidade matou o gato. – Concluiu, de modo sinistro.
Seu Vilela sente um arrepio, enrolando-se com as palavras.
-Ah, co, com certeza, me desculpe me, mesmo.
Euclides lhe dirigiu um risinho maldoso e retomou seu rumo.
Os olhos pequenos de Ariano se abriram, mirando o teto do seu quarto. Tinha o olhar turvo.
-Filho?
Sua mãe logo o acolhera em seus braços.
-Mãe... Onde é que eu to? – Muito aturdido, se sentando na cama, apoiando-se na parede.
-Acalme-se! Pra que essa agitação toda? Respira fundo.
Ariano obedeceu à mãe.
-Mãe, o que está acontecendo comigo?
-Você está na sua casa, no seu quarto, fique calmo. Não está acontecendo nada. Você só... Você superdosou o seu remédio, filho.
Ariano, ainda meio grogue, não consegue compreender.
-O que?
-Beba um pouco d’água.
Arlete entrega um copo d’água na mão do filho, que bebe devagar.
-Se sente melhor?
-Já... Me explica o que houve, mãe.
-Dois comprimidos do seu calmante foram dissolvidos no copo d’água. Pelo menos esta é a única explicação que eu e seu pai encontramos.
-Isso não é possível. Eu me lembro bem, pus apenas um comprimido na água.
-Veja a cartela...
Arlete lhe entrega a cartela do remédio.
-Estão faltando três. E hoje foi o segundo dia.
-É... Que estranho.
-O Euclides, filho. Tudo indica que foi ele.
-Mas...
-Não tem mas nem porque. Nem eu nem seu pai fizemos isso. Quem mais estava aqui além de nós? Acho bom ele se explicar direitinho.
-É, eu vou ligar pra ele. Mas antes me ajuda levantar, vou tomar um banho.
-Vem comigo.
Euclides saía do prédio de mala e cuia. Ele se despede do porteiro.
-Adeus, Seu Vilela. Estou saindo de casa.
-Que isso, Euclides! Que história é essa de sair de casa? Vai pra onde?
-Vou para qualquer lugar. Só não fico mais aqui. Se cuida, hein.
Euclides sai sem dar mais satisfações. Seu Vilela fica abismado, olhando-o partir.
-Eu me cuidar... Ele que faz besteira e eu que tenho que me cuidar... Garoto esquisito esse. – Diz o porteiro, tornando assistir à televisão.
Já dentro de um táxi, Euclides recebe uma ligação de Ariano.
-Oi Ariano, como você ta meu amigo?
-Eu vou bem... Dormi até agora, você acredita?
-Que isso!
-Euclides, por acaso você dissolveu algum comprimido daquele meu calmante no copo d’água?
-Aquele comprimido azul? Sim, eu fiz isso pra você.
-Poxa, por que não me avisou, amigo?
-Eu achei que não fosse preciso, ora. Você ia acordar e ver que faltava mais um comprimido na cartela. E também, eu acordei com a cabeça a mil, Ariano... Saí pelas ruas pensando na vida, fui até o Jornal e quando chego lá, olha a notícia que recebo: minha avó caiu da escada e morreu.
-Meu Deus!! Euclides, a sua... A sua avó??
-É, meu amigo. Acabo de voltar do enterro. Mas estou bem, não se preocupe.
-Nossa, eu sinto muito. Se não tivesse acontecido isso comigo, eu até poderia ter ido ao enterro, sua avó era muito simpática, me adorava.
-É, adorava mesmo... – Disse, a um esgar.
-Me desculpa por ter importunado você com esse lance de remédio. Entendo que fez com a melhor das intenções.
-Por que eu não faria?
-É, porque você não faria... – Sorri Ariano, envergonhado – Me desculpa mesmo. Você está cheio de problemas, e eu implicando com coisa boba.
-Não, eu é que te peço desculpa. Devia ter avisado você. Acabou você tomando dois comprimidos, por minha culpa.
-Esquece isso, já passou. Onde você está agora?
-Eu... Eu to indo para a casa de um tio. Vou dormir lá.
-Olha, as portas da minha casa estarão sempre abertas, ok?
-Eu sei disso, irmão. Um abraço. Não quer ir a faculdade amanhã?
-Estou pensando mesmo em ir. Já me sinto bem, odeio ficar enclausurado feito paciente vegetativo.
Os dois riram.
-Mas você ainda tem cabeça pra faculdade depois disso tudo? – Indaga Ariano.
-Minha cabeça se resfria rapidamente. Tenho essa qualidade.
-Bem... É, não deixa de ser uma qualidade...
-Então... Amanhã marcamos. Um grande abraço.
-Fique bem. Força, amigo. Abraços.
Euclides desligou.
Arlete, que estava próxima de seu filho, o perguntou:
-E então? Qual foi a justificativa dele?
-Ele disse que fez com a melhor das intenções, imaginou que eu fosse reparar na cartela, enfim... Ah mãe, esquece isso, a avó dele morreu, coitado, ele está com a cabeça a mil.
-Ele está errado, Ariano. Podia ter causado um problema mais grave. Foi uma grande irresponsabilidade.
-Eu sei, mas já passou.
Arlete não ficou satisfeita por completo. Mas, para não aborrecer Ariano, manteve-se calada em relação ao assunto...
Já era noite. Euclides havia se hospedado em um hotel modesto no Centro da cidade. Seus gastos seriam minuciosamente contabilizados de agora em diante. Além de suas economias, que não eram lá essas coisas, só tinha em caixa o dinheiro roubado da falecida avó. Precisou mentir a Ariano, pois se dissesse que se hospedaria num hotel, decerto que ele instaria para que fosse para sua casa novamente, e, naquela noite, isto seria inviável de acordo com seus planos...
No quarto de hotel, deitado na cama de solteiro, com a cabeça recostada na cabeceira, ele pensava em tudo que precisava por em prática naquela madrugada.
-Nada pode dar errado... É hoje ou nunca mais.
O celular de Lia Neide, que estava sobre a escrivaninha ao lado do seu, emite um sinal de que recebera uma mensagem de texto.
Euclides o apanha, e lê a mensagem:
-Ora, ora! Mensagem do Ariano! – Riu, surpreso.
Euclides lê a mensagem em voz alta, em tom debochado:
-Oi, Lia, como você está? Estou sentindo muito a sua falta. Cada dia que passa eu penso mais em você, na possibilidade de ficarmos juntos. Se não for te atrapalhar em nada, eu queria, quer dizer, quero convidar você para almoçar comigo amanhã no restaurante japonês perto do jornal. Ando muito triste esses dias, e sua companhia me fará muito bem. Aguardo confirmação. Beijos do coração, Ariano.
Euclides gargalha, levando as mãos à barriga de tanto rir.
-Que coisa estúpida... Ai, só o Ariano mesmo... Ah Ariano, essa noite você dormirá feliz, eu lhe darei esse presente.
Euclides responde a mensagem a Ariano pelo celular dela, dizendo:
-“Eu aceito, querido. Estarei lá, a partir do meio-dia, no meu horário de almoço. Obrigada pelo convite, beijinhos.”
Mensagem enviada.
Não demorou muito para Ariano ligar para Euclides, eufórico, e contar toda a novidade.
-Leve um ramalhete de rosas. Ela vai adorar. Reserve a melhor mesa. Um momento como este é pra ficar na história... É o início de um grande romance, irmão.
Ao desligar o celular, Euclides decidiu ir tomar um banho. Se levanta da cama, tira a camisa; e quando já se encaminhava para o banheiro, ouve uma nova mensagem sendo recebida no celular de Lia.
-Eita menina requisitada! – Reclama Euclides, apanhando o celular.
Ao ler a mensagem, ele quase cai para trás.
-Que diabo é isso!
Assim dizia a mensagem:
-“Eu sei quem está lendo essa mensagem agora. Já saquei seu plano. Não tente aprontar, pois, do contrário, vou te ferrar.”
Euclides oscila pelo quarto, atônito. Ele confere o número do celular que enviou a mensagem; era desconhecido. Nervoso, ele resolve rebater através de mensagem:
-“Quem é vc?”
E, dentro em pouco, uma nova mensagem ele recebe:
-“Pq o medo?”
-“Vc não sabe qm sou, está blefando”, ele retruca.
-“Eu não sou de blefes, Euclides. Pensei que já me conhecesse.”
Muito furioso, Euclides arremessa o celular contra o espelho de parede do quarto, quebrando-o em vários cacos.
-Maldição! Quem está me enviando essas mensagens? Lia, Ariano, Adalberto... Não, não... Eles não. Algum amiguinho engraçadinho da Lia, tentando capturar o ladrão. Bem, nesse caso, pode ser a própria Lia. Ela suspeita de mim, lógico, eu fui até a sala dela... Não, ela é tonta demais pra desconfiar de mim. E se ela contou pra Julia... É, pode ser essa maldita redatora...
Atormentado, Euclides segue para o chuveiro, e lá, sob a torrente de água gelada, ele bate a cabeça contra o ladrilho.
-Eu não vou abrir mão do meu plano por conta disso. Não vou!
Madrugada alta. Um homem vestido de branco caminha ansioso pela areia da praia do Leblon, deserta, sem barulho algum senão a das ondas se quebrando maviosamente. O sol ainda não dava sinais de romper a virgindade da noite. A lua cheia ainda figurava no céu como a grande estrela do cinema do mundo.
Uma voz masculina chama pelo homem de roupa branca.
-Ei, moço.
O homem se vira, assustado. A voz vinha logo atrás de si. Vinha de um homem vestido com uma blusa branca, uma jaqueta azul, uma calça de linho azul e um par de botinas pretas.
-Quem é você, isso é um assalto? – Atemorizou-se Adalberto, o homem de branco.
-Calma. Se fosse um assalto, minha abordagem seria muito mais violenta. Eu sou um guarda, já estou no fim do meu expediente.
-Não parece um guarda. Os trajes...
-Pra trabalhar uma hora dessas, quem é que se preocupa com traje, meu amigo?
-Não sei. Não se aproxime de mim, cara. – Advertiu, um pouco amedrontado.
-Eu estou de olho em você já faz um tempinho. Está passando por algum problema?
-Vai querer saber o que estou fazendo na praia essa hora? É problema meu, amigão. A praia é pública.
-Não me preocupo com o que pode ou não fazer. Me preocupo com você. Já passei por muitas decepções nessa vida, sabe. E muitas vezes, assim como você, fiquei vagando pela praia, de madrugada, tentando esquecer essas decepções. A maioria delas causada por mulheres. Pensei que precisasse de ajuda, uma palavra de conforto. Eu me chamo Fernando, a sua disposição.
-Não, eu to legal. Valeu aí pela sua preocupação.
-Então o que faz aqui?
-Não te interessa, meu irmão.
-Hum... Já sei. Está esperando uma mulher.
-Como sabe disso? Olha aqui cara, sai da minha reta ou eu quebro sua cara, sendo guarda ou não.
Adalberto agarra o colarinho de Euclides, encarando-o com impaciência.
-Se eu estivesse armado e fosse uma pessoa com más intenções, eu já teria te acertado, não acha? Por que ficar assim? – Diz Euclides, mantendo a ponderação, sem esboçar qualquer tipo de reação.
-Armado tu ta. Esse cassetete na cintura, por baixo da camisa.
De fato, Euclides tinha um bastão sob a camisa.
-Você queria que um guarda andasse por aí de mãos abanando? Pode me soltar agora, por favor?
Adalberto o encara por mais alguns segundos, e o solta.
-Como sabe que to esperando uma mina?
-Fácil. Olhe para trás e veja se não é aquela que vem vindo em nossa direção.
Adalberto não pensa duas vezes, volvendo o pescoço para trás. Ele observa a extensão da praia, o calçadão, e não consegue ver ninguém.
-Ah seu!!...
Ao encarar Euclides novamente, Adalberto é surpreendido por um golpe de cassetete no rosto. Foi tudo numa questão de fração de segundos, ele não teve tempo para reação alguma. Cambaleou, recuando. Euclides golpeia sua perna direita, ainda com mais força. Adalberto cai. Ao cair, ele lança um punhado de areia no rosto de Euclides, que fica atordoado.
-Meus olhos! – Grita.
Adalberto se levanta com dificuldade e pula sobre Euclides. O cassetete escapole das mãos do homem de olhar epilético. Adalberto desfere um soco no olho de Euclides, que por sua vez, consegue alcançar o cassetete, acertando-o na nuca de Adalberto.
O pugilista cai para o lado esquerdo, ainda acordado. Euclides se levanta, meio nocauteado pelo soco, e com o cassetete em punho, ele diz:
-A Lia Neide será minha, seu imbecil. Já tinha levado um nocaute desses?
Adalberto exprime um gemido, tenta se erguer, em vão.
-Nunca pensou que seria nocauteado, não? Marrento, prepotente. Homem que não admite ser largado por uma mulher e fica atrás dela que nem um cachorro faminto. Tudo orgulho ferido. Esta foi a sua última luta. E, infelizmente, não terá como pedir revanche, amigão. Não será mais um nocaute. Será o nocaute.
-Não! – Urra, num último pedido, já sem forças.
Impiedoso, Euclides desfere mais três golpes diretamente na cabeça de Adalberto, que “apaga”.
Da cabeça do homem o sangue jorrava, sujando a areia da praia. Vermelho do sangue, ocre da areia. Uma mescla que resultou numa nova cor: a cor do troféu de um homem sem alma.
Euclides notou que o homem ainda respirava. Então, certificando-se de que não havia nenhuma testemunha daquele crime, puxou o corpo de Adalberto pelas pernas até o mar. Euclides adentrou no mar com o corpo, que afundara. Foi o mais longe que pôde, abandonando o corpo desacordado no fundo do mar.
Saiu da água e desfez todo o rastro que o trajeto do corpo deixou na areia. Misturou a areia, fazendo o sangue ficar quase invisível. Lavou o cassetete sujo de sangue nas águas salgadas do mar, e o rosto também. O olho esquerdo ainda doía. Ficou ali, agachado, sentindo as ondas quebrarem em seus pés, admirando o horizonte ainda escuro. Já se passaram dois minutos e meio. “Já morreu afogado”, pensou.
Saiu dali, caminhando naturalmente, arrancando a jaqueta encharcada. Saiu sem deixar vestígios na areia...

CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA...

domingo, 4 de outubro de 2009

Ele e Ela


Ele já havia pedido mil vezes para ela não deixar a toalha molhada em cima da cama.

Ela prometeu que ia prestar mais atenção.

Ela pediu para ele beber menos durante a semana, ele passou a deixar o choppinho para o sábado.

Ela pediu para ele não andar mais com o Mauro, porque ela não ia com a cara dele. Aos poucos ele deixou de atender aos telefonemas do amigo ogro.

Ela nunca mais ligou para Ritinha, a amiga meiga, que tinha amigos homens demais.

Ela passou a lavar a roupa dele todos os dias, para não deixar acumular. Não deixava mais as roupas espalhadas pela casa, tudo estava impecável.

Ele lavava o carro dos dois todo santo domingo.

Ele passou a ouvir sertanejo somente com fone de ouvido e desistiu de ir a Barretos esse ano.

Ela também nunca mais ouviu o disco Black do Metallica e desistiu do show do Ac/Dc.

Quando estavam no mesmo carro, o som agora ficava desligado.

Ele prometeu não sacanear mais o sogrão botafoguense e nem tirar onda quando o Flamengo ganhasse.

Ela passou a demonstrar interesse em ouvir a sogra explicar como ele gostava que as coisas fossem feitas.

Ela prometeu não ficar pendurada no telefone com as amigas e nem convidá-las para ir em casa.

Ele parou de arrotar o próprio nome e de mexer nos dedos do pé sentado no sofá.

Ela nunca mais se atrasou, estava sempre pronta antes da hora.

Ele nunca mais esqueceu de comprar pão e leite antes de ir para casa.

Ele parou de sair no bloco das piranhas no carnaval.

Ela parou de chorar a morte de Kurt Cobain todos os anos.

Ele passou a dirigir mais devagar e parou de tentar ser co-piloto enquando ela dirigia.

Ele passou a ouvir atentamente suas queixas em época de tpm e ela dava opinião sobre os problemas do trabalho dele.

Ela parou de rir alto em público e aumentou consideravelmente o tamanho da saia.

Ele deletou todas as amigas do Orkut e do Msn, ela fez o mesmo.

Ela decidiu fazer dieta, diminuiu dois números no manequim.

Ele finalmente começou a malhar e até perdeu a barriga.

Tudo estava tão perfeito, que um dia entreolharam-se e não sabiam mais o que pedir um ao outro.

Ele pediu o divórcio.

Ela concordou imediatamente.

Não se conheciam.

Não reconheciam a si mesmos.

Não pareciam em nada com as pessoas com as quais um dia se casaram.

sábado, 3 de outubro de 2009

Demarcação Territorial


Cuidado!! Tenha cautela!
Esse território aqui não é um espaço qualquer
Se aqui quiser ficar, vou adorar
Quero ouvir sussurros de amor
Ao pé do ouvido e meu corpo
A se arrepiar.
Cuidado!
Não sou a bonequinha que você ta pensando
Que quando acabar de brincar
No canto vai me jogar.
Cuidado!
Não sou aquela que te fará companhia
Em apenas um dia.
Mas, posso ser aquela com quem
Se casaria.
Se aqui queres ficar,
Lembre-se que no coração
Há de ter paixão.
Que sua mão ao me tocar,
Seja como um veludo
Que cobre meu corpo sem pudor.
Cuidado!
Não sou como você pensa!
Posso te fazer apaixonar,
Mas também chorar.
Cuidado!
Proteja-se, porque esse território aqui,
É apaixonante e pode até
Te deixar dependente do meu amor.
Mas, se queres aqui bagunçar,
Que você e tudo mais,
Vá pro inferno!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A responsabilidade bate a porta


Há bem pouco tempo atrás eu lembro que tinha dezoito aninhos de idade, uma cabeça muito doida, os hormônios falando bem alto. Preocupação?Nem sabia o que era isso, saía de casa para a “night” (ou balada como dizem os amigos de Sampa) lá pelas onze da noite e só voltava às seis da manhã, com a maior cara de pau, ainda passava na padaria para levar o pão quentinho para casa,quando chegava ainda sob o efeito do álcool,procurava fazer o menor barulho possível, mas só achar o buraco da fechadura se tornava uma aventura, não era fácil. Vovó sempre estava lá sentadinha me esperando para dizer que aquela vida não me levaria a lugar algum.

Mas o tempo foi passando e aos poucos fui me dando conta que queria mais, sentia que faltava algo para me sentir realmente feliz, então comecei a observar pessoas com quem me relaciono e via muitos amigos se aventurando a um namoro mais sério, alguns já pensando em casamento dando valor e sendo fiel a uma pessoa só, ao mesmo tempo me olhava e via o quão distante eu estava disso, só queria saber de “ficar” sem compromisso, nem responsabilidade e muito menos amor. Não acreditava nisso naquele momento da minha vida, acreditava na atração, no desejo, no sexo e somente no hoje, não pensava no amanhã e só acreditava que seria livre estando só. Mas ao mesmo tempo que me sentia livre,me sentia com um vazio que não era preenchido pelas farras,pelas bebedeiras nem por algumas mulheres que ao mesmo tempo não representavam nem uma,sentia que tinha de preencher este vazio e cada vez mais aquela voz interior,aquela que só eu escutava e que muitas vezes não queria ouvir,mas ela insistia e dizia que eu tinha de construir a minha família.Agora vejo que essa voz se chama consciência.

Hoje, mais de dez anos depois, escrevo estas palavras do meu escritório de trabalho, olhando para um menino de cinco anos fazendo o dever de casa em sua mesinha de frente para a minha e me chamando de Pai, me perguntando como é que faz, que cor usa para pintar o desenho, me chamando para almoçar com ele, me dizendo que estou trabalhando demais, não me deixando errar tanto, me colocando limites, pois se quero ensiná-lo a ser uma boa pessoa, logo, tenho de encontrar um jeito de ser uma boa pessoa, já dizia o velho ditado que um bom exemplo vale mais do que mil palavras.Muitas vezes nas mais simples atitudes dele,ao me reconhecer como seu amigo e como seu herói,sinto meus olhos se encherem de lágrimas de felicidade e realização.

Eita responsabilidade!

E como é bom!

É bom, mas dá trabalho e não tem como fugir desse trabalho, tem de botar pra tomar banho, escovar os dentes, ensinar a amarrar o sapato e jogar bola, ensinar a ser Mengão, não deixar falar palavrão, ensinar a não mentir, a não bater no amiguinho e nem deixar que o amiguinho bata, ensinar a ser sincero e falar o que sente e tantas situações de vida que acontecem que temos de ter sabedoria para ensinar. E quanto mais a gente esta ensinando,mais a gente vem aprendendo,pois estamos cumprindo nossa missão.

Aquela responsabilidade que via como prisão, hoje eu vejo que não é assim, ela não aprisiona, pelo contrário, ela liberta e digo que liberta porque me dá oportunidade de me desenvolver como homem, como pai de família, como marido, trabalhando o “dividir”, vivenciando a arte da convivência com outro ser humano e contribuindo para a formação de outros seres humanos, vejo agora, com um pouco mais de maturidade, chegando perto dos “trinta”, com nossa casinha construída com sacrifício e conseguindo alimentar nossos filhos, entendo que aquela responsabilidade é divina, é dada por Deus e pode se chamar também de evolução.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Notícia de Vida no Jornal Severina.



Esta crônica foi um exercício de intertextualidade criada através de duas fontes: o texto "Morte e vida Severina", de João Cabral e "Notícia de jornal", de Fernando Sabino. Minha releitura, juntando as duas sopinhas de letras .


Leio no jornal a notícia de que uma mulher dá a luz às portas do hospital. Uma mulher de cor parda, vinte anos presumíveis, pobremente vestida, dá a luz, em pleno centro da cidade, socorrida por populares que participavam do desfile de 7 de setembro.
Dá a luz. É um menino magro, de muito peso não é, mas tem o peso da obra de ventre de mulher. É uma criança pálida, é uma criança  franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.
Uma mulher dá a luz. Depois de insistentes pedidos e comentários,uma maca é trazida para transportar mãe e filho às portas do hospital.

Os populares que a socorrem descrevem a formosura do menino: é um menino guenzo, como todos os desses mangues, é belo como o coqueiro, que vence a areia marinha, é tão belo como um sim numa sala negativa.
Uma mulher dá a luz. O clínico de plantão ( um homem) afirma que o caso (dar a luz) é da alçada da Maternidade Municipal, especialista em mulheres pobremente vestidas que dão a luz, mas que não se sabe o porquê, são esquecidas sem maca enquanto o dinheiro público paga a armação de arquibancadas para o desfile de 7 de setembro. E a mulher de cor parda, vinte anos presumíveis, pobremente vestida, ainda assim  sorri, diante da nova vida.

Uma mulher dá a luz em plena calçada entre populares que participam do desfile de 7 de setembro. Uma mulher caída na calçada. Uma vadia, uma tarada, uma miserável, uma desempregada, uma vítima do descaso ou de uma escolha errada.
Não é da alçada de quem passa com pressa, pra não perder lugar na arquibancada, pra festejar o orgulho de um país, cheio de brilho nas fardas. Não é da alçada do Ministro, que cumpre sua obrigação civil, que bate ponto no Planalto e finge que não existe pedofilia ou fila de doentes, na capital e nos hospitais do Brasil.


E a mulher dá a luz. De vinte anos presumíveis (mas no fundo será quinze ou catorze...). Pobremente vestida. Dá a luz, diz o jornal. Louve-se a insistência dos populares, dos passantes, cuja consciência pesada, de classe média que gasta os tubos com acessórios inúteis para celular, insiste em estender a mão a uma mulher que dá a luz, pedindo misericórdia com o olhar esperançoso e belo porque com o novo todo o velho contagia; belo porque corrompe com sangue novo a anemia. Uma criança que chora, um choro que contagia, belo porque tem de novo a surpresa e a alegria. Belo, como coisa nova inaugurando o seu dia. Como esperança de um novo país que não mais silencia, a corrupção dos poderosos que a todos alicia.

E a mulher dá a luz, e enquanto mãe e filho choram, os populares fazem uma corrente de apoio e indignação, querem prestação de contas, para o direito à saúde do cidadão, para o descaso dos médicos de plantão. E as autoridades do município: prefeito, secretário, governador, que vieram assistir ao desfile, descobrem um grande filão - correm para o palanque fazer discurso de explicação, vender votos para a próxima eleição, fazer promessas que nunca se cumprirão, enquanto mãe e filho são resgatados para uma clinica particular, aproveitando os holofotes da mídia em todo lugar.



E ontem, após ser resgatada da maca e levada à clínica particular, a mulher que deu a luz, agradece as autoridades, sorri para as câmeras, enquanto seu filho mama feliz.