domingo, 4 de outubro de 2009

Ele e Ela


Ele já havia pedido mil vezes para ela não deixar a toalha molhada em cima da cama.

Ela prometeu que ia prestar mais atenção.

Ela pediu para ele beber menos durante a semana, ele passou a deixar o choppinho para o sábado.

Ela pediu para ele não andar mais com o Mauro, porque ela não ia com a cara dele. Aos poucos ele deixou de atender aos telefonemas do amigo ogro.

Ela nunca mais ligou para Ritinha, a amiga meiga, que tinha amigos homens demais.

Ela passou a lavar a roupa dele todos os dias, para não deixar acumular. Não deixava mais as roupas espalhadas pela casa, tudo estava impecável.

Ele lavava o carro dos dois todo santo domingo.

Ele passou a ouvir sertanejo somente com fone de ouvido e desistiu de ir a Barretos esse ano.

Ela também nunca mais ouviu o disco Black do Metallica e desistiu do show do Ac/Dc.

Quando estavam no mesmo carro, o som agora ficava desligado.

Ele prometeu não sacanear mais o sogrão botafoguense e nem tirar onda quando o Flamengo ganhasse.

Ela passou a demonstrar interesse em ouvir a sogra explicar como ele gostava que as coisas fossem feitas.

Ela prometeu não ficar pendurada no telefone com as amigas e nem convidá-las para ir em casa.

Ele parou de arrotar o próprio nome e de mexer nos dedos do pé sentado no sofá.

Ela nunca mais se atrasou, estava sempre pronta antes da hora.

Ele nunca mais esqueceu de comprar pão e leite antes de ir para casa.

Ele parou de sair no bloco das piranhas no carnaval.

Ela parou de chorar a morte de Kurt Cobain todos os anos.

Ele passou a dirigir mais devagar e parou de tentar ser co-piloto enquando ela dirigia.

Ele passou a ouvir atentamente suas queixas em época de tpm e ela dava opinião sobre os problemas do trabalho dele.

Ela parou de rir alto em público e aumentou consideravelmente o tamanho da saia.

Ele deletou todas as amigas do Orkut e do Msn, ela fez o mesmo.

Ela decidiu fazer dieta, diminuiu dois números no manequim.

Ele finalmente começou a malhar e até perdeu a barriga.

Tudo estava tão perfeito, que um dia entreolharam-se e não sabiam mais o que pedir um ao outro.

Ele pediu o divórcio.

Ela concordou imediatamente.

Não se conheciam.

Não reconheciam a si mesmos.

Não pareciam em nada com as pessoas com as quais um dia se casaram.

10 comentários:

Paulo Fodra disse...

Simplesmente perfeito, Mila! WTF! Quem nunca viveu algo parecido? Adorei!

Bjs

Sidarta disse...

Excepcional! Belíssimo!

Chega a ser instrutivo.

Merece publicação em jornal ou revista feminina e masculina (permita que mais leitores possam ter acesso a esse texto).

Agora, minha contribuição poética ao seu maravilhoso texto:


Quando se conheceram, se apaixonaram pelo que eram;

Quando se casaram, prometeram serem um só;

No casamento, foram cedendo cada vez mais de si pelo outro;

Um dia ele já não era mais ele, e ela não era mais ela;

Os dois agora eram um só: um ente desconhecido pelos dois;

Quando perceberam, já estavam esgotados;

Quando decidiram acabar, se sentiram aliviados.

Cesinha ou Marcão da Fatec disse...

Você está contando meu casamento pelo avesso já que não há concessões...
Espero não chegar ao divórcio!!! huahuahuahuahuahuahuahua

Raquel Koch disse...

Realista até demais... chega a assustar a gente... rsrsrs
Pelos meus olhos é triste e melancólico.
Profundo.

Eduardo Trindade disse...

Muito bom mesmo, guria! Eu tenho mesmo esta visão, precisamos de um tanto de sal, de uns tantos "pequenos defeitos"...
Lembrei de uma crônica do (ótimo) livro "Canalha", do Carpinejar, em que ele exalta as pontas de papelão que a mulher recorta da caixa de leite e deixa atiradas na pia da cozinha. Ele não reclama por ter de jogar tudo no lixo depois. Aquelas pedaços de papel acabam se tornando símbolos de que ele tem companhia, de alguém que compartilha a casa e a vida com ele...

Andréa Amaral disse...

Viva a sociedade alternativa! Depois que passamos a morar separados, sentimos saudades um do outro, não temos tempo de brigar, a cama ficou mais espaçosa do jeito que cada um gosta, podemos ter nossos detalhes íntimos íntimos novamente, o sexo ficou mais gostoso, sentimos mais tesão um pelo outro e muito mais vontade de transar, passear, rir, conversar.
Enfim, estamos namorando novamente. Quer coisa melhor entre um casal? Ah! Mas assim eu fico solteiro...A liberdade é um estado de espírito.Se é disponível quando se quer estar disponível. Casal colado não é sinônimo de casal fiel. Somos infiéis por pensamento, palavras, olhares, virtualmente, televisivamente, textualmente. Cada um que cuide de sua auto estima e dê ao outro o que ele precisa quando está junto.Há quem nem pense numa possibilidade destas...se for o caso, pelo menos experimente cada um ter seu quarto. Já fiz isso também: é ótimo. E quanto ao texto, como sempre mais uma obra de versatilidade desta autora incrível. Parabéns, Camila. Me fez lembrar Eduardo e Mônica ao avesso. Este talvez seria o retrato deles após alguns anos de tédio no casamento.

Lohan disse...

Ótimo Camila!
Como vc retratou bem o dia-a-dia de um casal. Um casal como outro qualquer, que relação não tem dessas coisas?
Por isso que quem ama não tenta mudar sua companhia. Mas sim, aprende a lidar com ela, tanto na qualidade, quanto nos defeitos.
Bjs Camilíssima!

Georgia disse...

Simplesmente P.E.R.F.E.I.T.O.!!!
NUNCA LI ALGO TÃO....REAL....RSRS
bjokas..;o)

Dani Santos disse...

Simplesmente ótimo, Camila. Muito muito bom, de uma realidade que chega a ser dolorida... porque não amar aceitando a forma como o ouro é?

Abraços pra ti.

Anônimo disse...

Simplesmente, Camila.
Meu beijo.
Carla Zeglio