sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A responsabilidade bate a porta


Há bem pouco tempo atrás eu lembro que tinha dezoito aninhos de idade, uma cabeça muito doida, os hormônios falando bem alto. Preocupação?Nem sabia o que era isso, saía de casa para a “night” (ou balada como dizem os amigos de Sampa) lá pelas onze da noite e só voltava às seis da manhã, com a maior cara de pau, ainda passava na padaria para levar o pão quentinho para casa,quando chegava ainda sob o efeito do álcool,procurava fazer o menor barulho possível, mas só achar o buraco da fechadura se tornava uma aventura, não era fácil. Vovó sempre estava lá sentadinha me esperando para dizer que aquela vida não me levaria a lugar algum.

Mas o tempo foi passando e aos poucos fui me dando conta que queria mais, sentia que faltava algo para me sentir realmente feliz, então comecei a observar pessoas com quem me relaciono e via muitos amigos se aventurando a um namoro mais sério, alguns já pensando em casamento dando valor e sendo fiel a uma pessoa só, ao mesmo tempo me olhava e via o quão distante eu estava disso, só queria saber de “ficar” sem compromisso, nem responsabilidade e muito menos amor. Não acreditava nisso naquele momento da minha vida, acreditava na atração, no desejo, no sexo e somente no hoje, não pensava no amanhã e só acreditava que seria livre estando só. Mas ao mesmo tempo que me sentia livre,me sentia com um vazio que não era preenchido pelas farras,pelas bebedeiras nem por algumas mulheres que ao mesmo tempo não representavam nem uma,sentia que tinha de preencher este vazio e cada vez mais aquela voz interior,aquela que só eu escutava e que muitas vezes não queria ouvir,mas ela insistia e dizia que eu tinha de construir a minha família.Agora vejo que essa voz se chama consciência.

Hoje, mais de dez anos depois, escrevo estas palavras do meu escritório de trabalho, olhando para um menino de cinco anos fazendo o dever de casa em sua mesinha de frente para a minha e me chamando de Pai, me perguntando como é que faz, que cor usa para pintar o desenho, me chamando para almoçar com ele, me dizendo que estou trabalhando demais, não me deixando errar tanto, me colocando limites, pois se quero ensiná-lo a ser uma boa pessoa, logo, tenho de encontrar um jeito de ser uma boa pessoa, já dizia o velho ditado que um bom exemplo vale mais do que mil palavras.Muitas vezes nas mais simples atitudes dele,ao me reconhecer como seu amigo e como seu herói,sinto meus olhos se encherem de lágrimas de felicidade e realização.

Eita responsabilidade!

E como é bom!

É bom, mas dá trabalho e não tem como fugir desse trabalho, tem de botar pra tomar banho, escovar os dentes, ensinar a amarrar o sapato e jogar bola, ensinar a ser Mengão, não deixar falar palavrão, ensinar a não mentir, a não bater no amiguinho e nem deixar que o amiguinho bata, ensinar a ser sincero e falar o que sente e tantas situações de vida que acontecem que temos de ter sabedoria para ensinar. E quanto mais a gente esta ensinando,mais a gente vem aprendendo,pois estamos cumprindo nossa missão.

Aquela responsabilidade que via como prisão, hoje eu vejo que não é assim, ela não aprisiona, pelo contrário, ela liberta e digo que liberta porque me dá oportunidade de me desenvolver como homem, como pai de família, como marido, trabalhando o “dividir”, vivenciando a arte da convivência com outro ser humano e contribuindo para a formação de outros seres humanos, vejo agora, com um pouco mais de maturidade, chegando perto dos “trinta”, com nossa casinha construída com sacrifício e conseguindo alimentar nossos filhos, entendo que aquela responsabilidade é divina, é dada por Deus e pode se chamar também de evolução.

10 comentários:

Andréa Amaral disse...

Maravilhoso o seu texto João. Parabéns pelo seu caráter, por ser um homem de prncípios morais que servem de exemplo para seus filhos e para todos nós.Eu sou do tipo que detesto falso moralismo, mas é de casa que adquirimos valores morais importantes para conduzir a vida em sociedade. Adolescentes sempre serão rebeldes, inovadores, com sede de experiências, mas eles precisam de alguém que lhes coloque um freio. Talvez, se não houvesse sua avó para esperá-lo com o pão e tentar te fazer refletir sobre questões de vida com responsabilidade, você hoje não teria uma história estrutura em valores familiares, nem se importaria em passá-los para os seus filhos. Quando possuímos um espírito que busca a retidão e temos orientação, sabemos o que devemos seguir quando estamos diante do certo e do errado.
E quem tem filhos sabe como é doloroso assisti-los no mundo, sem poder protegê-los de todas as situações que gostaríamos que eles não vivenciassem. Mas não podemos impedi-los de viverem suas vidas, só podemos lhes dar educação e valores morais e éticos, que estão muito em falta nos dias de hoje.

João Luiz disse...

Ops!

Esqueci de apresentar,este "muleke" aí da foto,de braços abertos para natureza é meu filho João Victor de 5 anos.

Abraços!!!

Thaty Louise disse...

Sem querer polemizar, mas já crendo na futura polemização (Implicância mode on...) eu adorei o texto, putz aliás, todos os textos dos Autores. Cada um com suas características e talentos. Muito legal isso. Adorei também o fato de vc descobrir a virtude da responsabilidade dentro de si mesmo.
Mas...
Well, acho importante essa fase (dos 17, 18, de preferência)de 007, tipo licença pra fazer m. Eu fui muito, muito, muito certinha. Tinha 15 com cabeça de trinta, papo de 35 e tolerância de 43. Fiz tudo cedo, entrei pra fac cedo, mestrado cedo, aulas em uma faculdade cedo (comecei na Estácio com 22 anos de idade, coordenadora com 24, quando entrava em sala de aula, os alunos pensavam q era trote...). Acho que a seriedade me deu muitas coisas legais, mas me tirou outras Tb. Não sei o q é uma bebedeira, nunca fui à uma chopada da fac, hj, muito menos, pois sou professora, professor = sacerdote. Acho que tenho um saldo positivo, mas, talvez se tivesse uma máquina do tempo, jamais teria largado a música ou a dança do ventre pra só estudar , estudar. Às vezes tenho medo de, sei lá, quando for velhinha, virar dessas coroinhas que alopram, bebem, viram um arremedo de Dercy Gonçalves.

João Luiz disse...

Thaty!!!

Você é a alegria em pessoa,consegue conciliar a grande responsabilidade que tem com alegria e simpatia cativando as pessoas e sendo uma amiga de verdade.

Você é "gente que faz" pela educação deste país.

É uma alegria ser teu aluno e seu amigo,desejo que seja feliz sempre e que tenha muitos filhos!!!

Parabéns pelo seu aniversário amanhã!!!

Thaty Louise disse...

Assim não vale. Vcs aõ excessivamente fofos. É covardia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Margreick disse...

Este é meu grande amigo João,cara como eu gosto de ver vc evoluir nos seus textos.
Mas voltando o foco para o texto:
Este lance de quando agente era novo e não tinha "responsabilidade"
é muito louco. Por que eu lembro que na minha época de farra eu me achava diferente da minha galera justamente por eu nunca perder totalmente o juizo.Eu lembro que por mais louco que eu estivesse, sempre tinha uma voz que me regulava, do tipo cara vc ta muito louco não faz isso não faz aquilo ou seja eu sempre tinha consciencia do que estava fazendo, e isso me intriga ate hoje por que os meus amigos não eram assim, eles só queriam viver o momento e nada mais importava.
Mas enfim, hoje estou com meus trinta e muitos aninhos, tenho minha familia da qual tenho muito orgulho.Mas confesso que sou meio distante no que diz respeito a passar esta responsabilidade para meus filhos, sou mais o tipo do pai que chega para decidir,encerrar o assunto.
Gostaria de ser mais proximo deles no sentido de conversar, brincar,ensinar carinhosamente. Mas não consigo ir muito longe, parece que algo me bloqueia e quando me dou conta la estou eu de novo fazendo o pai linha dura.
E nos momentos em que eu paro para refletir sobre isso eu choro por dentro e sinto uma dor no peito que chega a me sufocar, emfim não sei aonde esta o 'x' da questão só sei que não consigo.
Um forte abç meu amigo João!!!!!!!
Estou muito feliz por ver vc assim se realizando naquilo que vc sempre gostou.

Camilíssima Furtado disse...

Escrevi um comentário que mais parecia um documentário com duas horas de duração e quando fui postar, perdi tudo o que tinha escrito. =/
Depois eu volto e comento tudo de novo... Por hora deixo a seguinte mensagem:
Você amadureceu como homem, pai e escritor, parabéns!
Bjs!

gug.rio disse...

Lindo texto meu amigo, Parabéns!

Sidarta disse...

João, parabéns pelo texto e pelo seu filho, e obrigado por abrir esta reflexão para nós aqui.

Eu também fui um pouco como o Margreick. Quando saía com os amigos, eles enchiam a cara e eu era o único que não bebia muito, sempre fui o "ajuizado" da turma.

Acho que a adolescência é a fase da experimentação, até que a pessoa se ache no mundo. Com a sua amiga Thaty, ocorreu muito cedo esse encontro com a fase "adulta", já sabendo que carreira seguir. Me solidarizo com ela quando se mostra arrependida de ter deixado a música e a dança. Estou estudando sobre o ócio criativo e cada vez mais me dou conta da sua importância na vida humana. Espero que ela volte a dedicar um tempo mais precioso a seus hobbys.

Voltando ao assunto responsabilidade/paternidade, eu quero elogiá-lo por estar presente na vida do seu filho, porque isso no mundo de hoje é complicado. Quando li que o seu pequeno Victor faz o dever de casa na presença do pai trabalhando no escritório, fiquei imaginando esta cena mágica.

Nossa sociedade, no século passado, desde o começo da era industrial, separou o trabalho da casa e da família, fazendo com que os pais não tivessem mais tempo de acompanhar os seus filhos. Hoje ainda vivemos muito isso, e os pais muitas vezes se sentem até culpados por não terem tempo para dedicarem-se mais ao lar...

O tema paternidade é muito interessante. A mulher conseguiu fazer uma redefinição de seu papel na sociedade no século XX. Hoje ela trabalha fora, mas não perdeu suas funções de mãe e dona de casa. Mas para o homem e a masculinidade, suas questões não foram ainda redefinidas, e talvez por isso os pais não conseguem ainda lidar com esta nova situação, porque as crianças e jovens demandam uma presença maior.

Enfim, é um ótimo tema para se discutir aqui, e parabéns mais uma vez por ter nos trazido sua mensagem para nossa reflexão.

Abraço!

K@rininh@ disse...

Puxa, João! Adorei parabéns!
Hoje em dia também me pego assim, as vezes queria alguém, um ombro amigo, alguém pra chamar de "amor", mas quando vc acha que encontrou, que vai dar tudo certo, tudo acaba num instante e sem explicação. A sociedade na qual estamos inseridos exige muito de nós, ou vc se dedica a carreira profissional, aos estudos ou vc vai ter sua familia debaixo da ponte. Então é uma situação muito complicada, desde sua época, acredita eu, bem próxima, a cabeça desse povo não mudou muito não, continuam a ser malucões, desvairados e não querem nada de nada, é muito dificil hoje viver aqui. Por isso, a bem pouco tempo atrás, determinei para mim, diante de toda essa realidade, que o melhor que tenho a fazer é dedicar-me aos estudos e ao trabalho, enquanto isso espero que cabeças amadureçam.
Fico feliz por tudo ter dado certo pra vc, que bom que logo se encontrou e é hj esse super profissional, acadêmico, paizão e maridão. Quer melhor que isso?
Um abração!