domingo, 23 de agosto de 2009

O sol de um novo dia




"Por que esperar se podemos começar tudo de novo agora mesmo?
A humanidade é desumana, mas ainda temos chance.
O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer.
Quando o sol bater na janela do seu quarto,
lembra e vê que o caminho é um só."
(Legião Urbana)



O Blog Autores S/A está passando por modificações. Por este motivo viemos esclarecer algumas mudanças que ocorreram nos últimos dias. Alguns participantes deixaram o blog por livre e espontânea vontade e, segundo eles mesmos, por razões ideológicas. Deste modo o blog se renova, ao permitir que pessoas interessadas no desenvolvimento do projeto venham somar esforços conosco.

Os participantes que demonstraram interesse em deixar o blog, já retiraram seus perfis e alguns textos. Já que se trata de incompatibilidade ideológica, retiramos todos os textos destes autores, para que não se sintam constrangidos em continuar atrelados ao blog.

Consideramos o blog como uma equipe e, uma equipe deve estar preparada para as críticas, o trabalho em grupo e os desafios, tanto quanto para os elogios. Nenhum membro do blog se considera perfeito, ninguém é. O mais importante é saber conviver em equipe com maturidade e assim, aprender a cada dia.

A prioridade deste blog desde a criação foi reunir pessoas interessadas em escrever e dispostas a proporcionar a todos uma leitura agradável. Não iremos nos desvirtuar deste propósito, portanto, não vamos fazer deste espaço um local para troca de ofensas. Lembremos que somos pessoas civilizadas e que possíveis diferenças não interessam aos leitores e visitantes que sempre nos prestigiaram.

Desejamos apenas que todos os participantes até então envolvidos sejam plenamente felizes em suas escolhas e que não se perca, na trajetória, a serenidade e o respeito mútuo que foi a razão da parceria de outrora.

Autores S/A

sábado, 22 de agosto de 2009

Na Tua Presença


Quero abandonar-me em ti,
Pois quão grande é a minha alegria,
Porque me conheces e sabes bem de todas

As minhas misérias e arranca-as de mim.



Mesmo em minha totalidade
Diante de Ti, não sou eu,
Perto de Vós, sou como uma ovelha perdida

Porque tira-me da fossa e conduz- me a plenitude.

Irradio-me porque existes,
Somente Tu como Tu,
Forte e poderoso.
Só contigo capacito-me e direciono-me
Porque somente em tua presença

Faço com que as tempestades do meu mundo
Tornem-se dias ensolarados
Com raios de luz, vida e esperança.


Torno colorido os dias dos que estão ao meu redor,

Com suas palavras, que saem de mim,
Na presença de Tua luz, faço luz também.
Pois a única certeza de minha vida é que
Somente Contigo eu tudo posso, meu Senhor!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Inesquecível experiência na Praça XV

Tinha apenas dezesseis anos e estava muito feliz com aquele seu primeiro trabalho, há tempos que vinha procurando uma ocupação que lhe rendesse um dinheirinho. Morava com a avó e com os tios e se sentia como um peso naquela casa. Vez ou outra escutava que dava muita despesa e que tinha logo de arrumar um emprego e dessa vez, graças a Deus, havia conseguido.

Iria ganhar a princípio um salário mínimo, sem carteira assinada. Seu trabalho era de mensageiro, estava achando ótimo, já fazia planos de em pouco tempo comprar um chevetinho velho para sair por aí, além disso, agora teria dinheiro para ir para praça do bairro onde morava no baixada fluminense gastar uns trocados no trailer que era o “point” da sua turma. Ia no ônibus com aqueles pensamentos na cabeça, era ainda bem cedo e a avenida Brasil estava bem engarrafada, aquele transito “anda e para”, que deixa qualquer um bem enjoado. Com ele não era diferente, tinha saído tão rápido de casa que não deu tempo nem de tomar café. Só no ponto do ônibus que ao sentir fome, lembrou que tinha de comer. Olhou ao redor e só viu um ambulante vendendo salgados com uma aparência não muito boa, em um isopor bem encardido, mas, como não tinha opção , resolveu encarar. Comeu uma coxinha daquelas bem gordurosas e pra melhorar a situação, ainda colocou aquela maionese amarelada em cima. Imagina só que “delícia”. Marcelo se arrependia amargamente de ter comido aquilo, sentia naquele sacolejo todo aquela coxinha se revirar em seu estômago. Estava com muita vergonha de ter que vomitar no ônibus cheio de trabalhadores e resolveu se segurar. Suava frio e contava os segundos para o ônibus chegar ao seu destino, a praça XV.

Finalmente, chegando ao bonito edifício de frente para a baía de Guanabara, já faltavam cinco minutos para o horário em que tinha de pegar no serviço. Suas mãos estavam geladas e sua barriga se remexia como nunca. Sentia vontade de ir ao banheiro, mas não tinha tempo e aquela vontade de vomitar reprimida agora se transformara em uma cólica intestinal insuportável. O pior é que ele tinha de fazer “cara da paisagem”, não podia demonstrar em seu primeiro dia de trabalho que não estava bem. Ao entrar na sala do seu chefe, o contador da empresa, foi recebendo as orientações bem quietinho, não questionava nada, só sentia um fio de suor escorrer pelas suas têmporas, fazia um trabalho de concentração que fazia inveja a monge tibetano. Neste momento, o contador lembra que tinha de levar um importante documento a um cliente em Niterói. Seria este o primeiro serviço de Marcelo, teria de correr, pois já estava atrasado e o melhor a fazer, por já estarem localizados na praça quinze, seria ele ir de barca. E assim o fez, Marcelo pegou sua pasta com os documentos e seguiu rumo à estação das barcas. Só pensava em chegar lá e descobrir onde era o banheiro. Por sorte era perto e logo que comprou seu bilhete viu que tinha dez minutos antes da embarcação sair. Pensou consigo que dez minutos são mais do que suficientes e entrou no banheiro, lembrando sempre de tomar as devidas precauções, pois em banheiro público não se pode encostar e naquele , que era bem apertadinho, ele teve que fazer uma ginástica.

Ficou abaixado, meio que de cócoras, se apoiando com as pernas levemente dobradas e com as mãos apoiadas nas paredes. Mas não foi muito tempo, logo que se posicionou, apontou seu canhão carregadíssimo para o vaso e disparou de uma só vez. Foi uma espécie de peido materializado, aquele negócio saiu que fez até barulho, o pior é que a pressão foi tanta que quando bateu na água, a água bateu na bunda, uma experiência inesquecível e muito desagradável. Mas sentia-se muito melhor, leve, tranqüilo para continuar sua jornada. Mas as coisas sempre podem piorar, quando olhou para o recipiente onde fica o papel higiênico (só olhou depois mesmo), só viu o rolinho de papelão vazio, sem sinal de papel, nem sequer um pedacinho pra contar a história. A situação tava crítica, precisava se limpar e embarcar para Niterói, pois o tempo tava passando. Naquele momento, com as calças arriadas na altura da canela e já ouvindo pessoas querendo utilizar o banheiro, Marcelo se desesperou, pois por recomendação médica devido ao um problema nos testículos não usava cuecas, se sentiu preso, numa situação completamente inusitada e difícil. Mas não adiantava ficar reclamando, precisava de uma solução. Resolveu pegar o rolinho de papelão vazio, pegou, rasgou em pedaço e experimentou... Foi horrível, só serviu para espalhar mais o que já estava sujo. Suas pernas doíam, ele começou a ficar claustrofóbico naquele banheiro pequeno e agora também, graças a ele, muito fedorento. Teve uma idéia, resolveu tirar a carteira e ver se tinha algum papel sem utilidade, que seria super útil naquele momento. Além do pouco dinheiro que tinha, só tinha cartão de telefone, identidade e um requerimento que tinha recebido via fax. Desdobrou aquele papel e pensou: É tu mesmo! E passou lá. Só que o papel era muito fino e não conseguia limpar direito. Ele passou e sentiu que ainda estava sujo, melado, mas teve ainda de dobrar e passar do outro lado. Sentiu que resolvera uns sessenta por cento da situação. Se arrependia muito de não usar cuecas, dava tudo para ter suas cuecas ali e nesse pensamento, lembrou das meias. Bem lembrado! Tirou o sapato novo e com rapidez tirou as meias. Enfim conseguiu terminar o serviço. Sua camisa estava molhada de suor. Com muita vergonha e após se recompor um pouco, abriu o banheiro e saiu cabisbaixo, com seu sapato machucando o calcanhar, com certeza faria uma bolha daquelas, mas, melhor que andar fedendo por aí.

No trajeto rumo a Niterói, as contrações voltaram. Marcelo ficou aterrorizado, relembrando os momentos de agonia no banheirinho da estação. Mas foi só um susto, logo que desembarcou em Niterói, correu a uma farmácia e comprou um rolinho de papel, amassou bem e guardou em sua pasta, resolveu que por aquela situação não passaria nunca mais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Toda calúnia sobre a origem da minha prosperidade está amarrada, em nome do Senhor Jesus!


Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mera armadilha dos inimigos e da coincidência. ( A autora profana e descrente).


"Se a palavra de Deus é tão poderosa;
se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje
nenhum fruto da palavra de Deus? " (Padre Antonio Vieira - no Sermão da Sexagésima, (1655)..

"Jesus Cristo é o Senhor, é o caminho, a verdade e a vida."

Toda manhã inicio o meu dia com a mesma rotina. Acordo ao som da Sinfonia Nº 5 em Dó Menor, do genial e incompreendido compositor e maestro, Ludwig van Beethoven. Esta sonata consegue estabelecer em meu espírito o mesmo movimento de "uníssono fortíssimo", que é toda a sua base, de forma a me "orquestrar" para mais um dia de intenso trabalho espiritual que tenho que exercer, enquanto pilar máximo de uma estrutura eclesiástica que eu mesmo criei.

Eu sou o Senhor, Messias e Representante da palavra de Deus diante dos meus discípulos; minha orquestra particular e universal, que se expande entre territórios jamais navegados, como um rebanho de ovelhas d'antes mal direcionadas que seguem hoje os meus comandos, com a certeza de que o seu destino está irremediavelmente atrelado a mim, enquanto conselheiro espiritual exclusivo e porta voz de Jesus Cristo; para que um dia, além do seu passaporte garantido para os portais do paraíso, tenham aqui nesta passagem terrena, a prosperidade que Deus almeja para cada um e todos os seus filhos; para todos aqueles que exercem sua Fé inabalável nas escrituras, com uma conduta reta diante das tentações impostas pelo inimigo e ciente de seu dever dizimista, que torna possível a nossa missão de espalhar a unção do Espírito Santo, na vida de todas as pessoas que sofrem no mundo pelo pecado cometido por Adão e Eva nesta Terra.

Hoje eu tenho uma missão muito especial. Já pedi ajoelhado aos pés da minha cama que o Espírito Santo me inspire a fazer a escolha certa, diante de tantas opções que estarão a minha frente. Vou fazer uma compra exclusiva. Mas não é uma compra comum, nem tampouco embasada em vaidade pessoal. Tenho que me explicar, porque o inimigo tenta de todas as formas lançar a sua maldição em minha vida. O potestado não admite derrotas. E a maior derrota do mal, é saber que um escolhido de Deus, esteja conseguindo espalhar as sementes do bem, nos corações humanos; saber que Jesus Cristo é o centro de toda a Fé, e saber que desde o que passamos a denominar de Mundo Contemporâneo, nenhuma igreja tenha se espalhado de maneira tão grandiosa e expansiva, quanto a minha, a Igreja Universal do Reino do Dízimo.

Mas isto se deve única e exclusivamente a um fato: eu sou um ungido do Senhor. Vocês sabem, Deus não escolhe os capacitados, ele capacita os escolhidos. E eu, sou um deles. Isto é incontestável. Na história bíblica, podemos citar vários dos homens escolhidos por Deus, como seus represententes na Terra: Noé, Abraão, Moisés, Davi e Salomão, são alguns exemplos, dos que foram capacitados pelo Senhor, por serem escolhidos. Eu sou um deles, porque eu não sou comum. Deus me capacitou para a vitória financeira e material e para desalojar todo e qualquer encosto da miséria, que reine na vida de um irmão! A maior alegria de Deus é saber que os seus escolhidos, descendentes do rei Davi, assim como até mesmo o próprio Senhor Jesus Cristo, serão escolhidos e chamados para o perdão divino, no dia do Juízo Final, e que são prósperos enquanto aqui estiverem vivendo.

E eu tenho por obrigação, dar o meu testemunho. Um dia, sonhei com a visita do Espiríto Santo, e nele, Deus me instruía a pregar em seu nome, e afirmava que grande seria o império construído por mim, através da divulgação da Teologia da Prosperidade. E que grande também, seria o desafio de conter a fúria de Satanás, incorporado por caluniadores, que iriam tentar provar através de difamações infundadas e supostos fiéis insatisfeitos, que os templos erguidos por mim, em vários países, seriam fruto do uso indevido dos recursos adquiridos pelas ofertas abençoadas dos irmãos, como uma forma de lavagem de dinheiro que na verdade , seria investido em contas minhas em paraísos fiscais. .

Minha visita ao Antiquário será às dez horas. Enquanto ouço a Sonata ao Luar, a minha favorita com seu suave acompanhamento de arpejos, folheio o catálogo das peças raras que estão disponíveis para o leilão ou transação particularíssima pelo seu alto valor no câmbio negro das artes, e já sei exatamente o que quero: um trono a altura de um humilde pastor a serviço de Deus, que hoje pode usufruir do suor de seu trabalho, comprando uma peça histórica que só vem a acrescentar as bençãos que foram preparadas para mim, homem de Fé inabalável. O Espírito de Deus estará comigo nesta compra, pois é de sua vontade que o Templo que estou para inaugurar em Dubái, esteja a altura das riquezas daquele país. Janelas e vitrais de cristal confeccionados em Veneza, mosaicos no piso de mármore belga, pilastras de mármore da Noruega, além de carpetes aveludados e vermelhos vindos da Turquia , a mais esplendorosa cúpula geodésica representando o dia do juízo final, encomendada ao pintor italiano Benedeto Eco e o púlpito de Maracatiara, madeira nobre do Pará (para ninguém dizer, que não valorizamos o que temos no nosso país). Todos os estofados dos assentos encomendados são de couro, pois assim o fiel saberá onde está sendo empregada a sua oferta, ou seja, no seu conforto, para que ele possa glorificar o nome do Pai enquanto ouve seu pastor pregar as escrituras e ensiná-lo a desenvolver o sacrifício da doação pelo desapego material.

Os nossos templos não são templos de ostentação. Não adoramos ídolos de gesso, não cultivamos hierarquias elitistas. Todos são iguais diante de Deus, e se não são abençoados como gostariam, é por que não estão empregando a Fé do mesmo jeito que nós, cordeiros de Deus que sabemos nos utilizar desta Fé, para obter prosperidade em nossas vidas.

O trono que me aguarda no Antiquário, representa o trono onde estarei sentado no dia do retorno do Santíssimo. Tenho certeza que o meu lugar está garantido ao seu lado. Se algum pecado tenho, é de ter provado por A mais B, que sem fé, o homem é como um barco sem leme, perdido no meio de um oceano de atribulações, e a verdade incomoda os falsos Messias, que não suportam o crescimento da legião dos que têm a certeza de sua salvação em Cristo.

Tenho certeza que o meu depoimento, que ainda hoje, será uma entrevista aos meios televisivos, servirá de esclarecimento e alicerce principalmente para os justos, que até choram, diante das injustiças que estou sofrendo. Mas assim, tal como Beethoven, que era ridicularizado em seu meio, pela surdez, e hoje é reconhecido como o maior mestre na música erudita, tenho certeza que um dia estará provada a minha inocência e calada será a boca de todos os profanos que zombaram da minha sinceridade. Por isso, olho nos olhos dos meus inimigos; porque sou puro nas minhas intenções e raro, como todo escolhido é raro na sua função. Assim como Beethoven foi único em sua arte. Espero que gostem do trono que servirá de exemplo da glória de Deus e no qual eu sentarei, enquanto não chega o dia de seu retorno.

Agora que já ensaiei bastante o meu discurso, posso sair tranquilo. Amém.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Conto de fatos


Tininha era sonhadora. Adorava ler e acreditava em príncipe encantado. Não só acreditava, como defendia ferrenhamente suas ideias a respeito. Achava que um grande amor não vinha de maneira natural, tinha de haver algo mágico envolvido, como num conto de fadas.

Um dia bolou um plano, segundo ela infalível, para encontrar seu príncipe. Contou seu plano às amigas. “Louca!” Disse uma delas. “Você vai morrer, sua maluca!” Disse outra. “Eu acho romântico.” Disse a terceira. A quarta só balançou a cabeça, em sinal de reprovação.

Tininha não tinha queda por sangue, hospital, nada disso. Mal podia suportar uma injeção. Mas ela acreditava que se atravessasse uma rua sem olhar para os lados, poderia ser atingida por um veículo e que o motorista pararia para lhe prestar socorro, ganhando assim, ares de príncipe encantado.

Tininha não era suicida, então escolheu uma rua pouco movimentada. Queria estar na rua certa, na hora certa, para que o carro certo lhe atropelasse e dele descesse, como que de um cavalo branco, o homem que a resgataria.

Sua imaginação era fértil, e ela ia além nos detalhes do plano. Imaginava que o homem seria médico e lhe prestaria ali mesmo os primeiros socorros. Caso não fosse, deveria tomá-la nos braços até o carro, preocupadíssimo com sua integridade física. “E se isso não acontecesse? Se ele largasse você ali, estirada no chão?” Perguntou uma amiga mais sã. “Então, se não há um príncipe para mim, de que vale continuar a viver?” Rebateu Tininha.

No dia seguinte, seguiu até a rua escolhida e colocou sua ideia em ação. Carros buzinaram, desviaram, xingaram Tininha e nada além disso aconteceu. E assim foi por mais alguns dias.

Do lado oposto da rua, todos os dias um rapaz assistia assustado às investidas de Tininha contra os carros. Não entendia porque aquela moça atravessava a rua direto, num só embalo, sem olhar para os lados. Por que uma moça tão bela seria suicida? E por que escolheu aquela maneira de morrer? Isso o deixava profundamente intrigado.

Um dia, sem que Tininha sequer suspeitasse da sua existência, o rapaz decidiu chegar mais cedo àquele cruzamento. Quando ela aproximou-se da rua, o rapaz imediatamente entrou na frente dos carros, fazendo malabarismos bisonhos. Tininha, como sempre, atravessou direto, sem olhar para os carros. Depois que ela alcançou a outra calçada, o rapaz saiu da frente dos carros, que já buzinavam , por pressa ou numa forma de crítica à sua má atuação como malabarista.

Em uma dessas vezes, o barulho das buzinas chamou a atenção de Tininha, que após concluir sua investida, resolveu olhar para trás e viu que o rapaz olhava em sua direção, enquanto fazia malabares. Tininha era pirada, mas não era sonsa. Percebeu imediatamente o que aquele rapaz estava fazendo. Ficou indignada. “Quem esse sujeitinho pensa que é, para interferir no meu destino?” Perguntava a si mesma. Decidiu que no dia seguinte daria o troco. Não daria chance dele se meter no seu plano.

Assim o fez. Caminhou devagar pela calçada, bem lentamente. Avistou o rapaz na calçada oposta. Estava parado, esperando por ela. Um pouco antes do fim da calçada, apertou consideravelmente o passo, para que o rapaz não tivesse tempo de chegar ao centro da rua. O rapaz, que tinha uma visão mais ampla do ponto onde estava, viu um carro se aproximando em alta velocidade, jogou no chão os pinos de malabares e correu para o meio da rua. Tininha ouviu a freada e chegou a tempo de ver o carro acertar em cheio o rapaz e lança-lo para o alto.

Sentiu tudo. Compaixão, raiva, medo, culpa, arrependimento, amor. Se aproximou mais do rapaz e viu as escoriações nos braços e joelhos. Um dos punhos estava visivelmente deslocado e o rapaz, inconsciente. Ela se imaginou no lugar dele, estatelada no asfalto quente, sangrando por vários pontos do corpo.

Ajoelhada ao lado do rapaz, ouviu o motorista do carro dizer: “Não sei o que aconteceu, o cara é louco, entrou na frente do meu carro. Eu não pude frear a tempo.” Tininha ficou aborrecida por terem chamado o rapaz de louco. “Ele é seu amigo?” Perguntou o motorista. “Sim, é meu amigo.” Respondeu Tininha.

Os três entraram no carro. Tininha deitou a cabeça do rapaz no seu colo e viu que de sua nuca escorria sangue. Afagou-lhe os cabelos, rezando para que ficasse bem. Uma lágrima rolou dos olhos dela e caiu sobre os lábios do rapaz que acordou lentamente. Ainda com a cabeça apoiada nos braços dela e com dificuldade, o rapaz perguntou: “Eu morri e estou no céu? Você é um anjo?” Tininha abriu um enorme sorriso e respondeu: “Não sou anjo, não. Me chamo Ana Cristina, mas pode me chamar de Tininha.”

O rapaz estava feliz por ter conseguido chamar a atenção de Tininha. Ela, estava feliz por ter encontrado seu príncipe encantado, que de quebra era um super-herói.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Menu da Alma


Senti algo a me revirar por dentro: era minha alma com fome.

Fome de caixas a serem abertas,
de pernas entrelaçadas sob as cobertas,
de palavras ditas nas horas certas.

Fome de borboletas voando pela minha barriga,
fome de briga,
noite mal dormida,
mordida...

fome de alguém que me desarme,
de alguém que me repare,
de alguém que nunca se cale.

Fome de febre que queime,
cheiro que fique,
toque que marque.

Fome de ciúmes,
de abismos,
de emoções...
Pois o que agora apetece minha alma são as explosões.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Andréa

Meia noite do dia dezessete de Agosto. Andréa agora se tornara uma flor de Lótus no centro de sua sala de estar. Bem posicionada, ela praticava yoga, sibilando seu mantra. Estava só, a meia luz. Havia alcançado uma meta – uma das que escrevera em uma lista, aos dezessete anos. Uma página arrancada do diário, que se tornou muito mais importante que o próprio diário.

Esta era sua meta número cinco: Viver cinqüenta anos. E, toda vez que conquistava um desses objetivos listados, adentrava em seu mundo mais particular, mais etéreo. Para agradecer, talvez. Ou regozijar-se em seu mais profundo silêncio. Seria uma forma de egoísmo? Não, decerto ela comemoraria depois, com os amigos e familiares. Antes, teria que ser dela para ela.
O choro do filho a sobressaltou. Aquele som característico viajou milhares de quilômetros invisíveis dentro de sua mente e sua alma, contornado-a, e repousando, por fim, em seus tímpanos. A primeira coisa que pensou antes de se desfazer da posição para se levantar foi: Não é possível esse menino chorar justo agora! Todavia, ao chegar no quarto, debruçar-se no berço daquela linda criança, Andréa culpou a si mesma pelo pensamento anterior. Precisava amamentar o pequenino, e, ao consumir este ato, viu que aquela foi a melhor meditação que podia existir.

O dia seguinte foi marcado pelo corre-corre dos empregados de sua casa. Ela, logicamente, não dedicaria aquele dia ao trabalho ou a qualquer exercício que a fizesse transpirar toda sua energia recarregada e seus odores adquiridos especialmente para o início da noite. Deixou-o nas mãos das pessoas que confiava. Arrumação, refeição, bebidas... Se dependesse de seus serviçais, a casa estaria tinindo para mais uma comemoração festiva. Andréa, como era de se esperar, estava deitada em uma confortabilíssima maca, em um spa, com uma rodela de pepino em cada olho. Cinquentinha, algumas ruguinhas já começavam a “bater ponto’’ em suas feições avermelhadas e rechonchudas. Nada que um bom tratamento de pele resolvesse.

Merecia aquele momento “relax”. Ultimamente vinha sendo muito requisitada pela editora a qual prestava serviço. Era uma escritora de destaque, seus livros, cujo universo feminino era a temática mais decorrente, tinha uma ótima vendagem. Ademais, escrevia para um jornal renomado, todas as segundas-feiras. Tinha sua vida profissional realizada. Mas... Pessoalmente, não se sentia realizada com a função que exercia. Não por completo. Desejava algo mais de sua capacidade criativa. Algo que ainda não conseguira. Talvez pelo tempo corrido das coisas. Talvez pela pressão que a editora exercia sobre si. Às vezes pensava em ocultar-se, no escuro do seu quarto, na penumbra de um lampião aceso. Ali, encolhida no canto da cama, com um caderno e caneta nas mãos, escrever o que bem entendesse, e nunca mais divulgasse nada, nada. Mais um egoísmo de Andréa? Não! Antes de ser para o mundo, ela precisava ser para ela.

Andréa idealizou uma festa discreta, com apenas cinqüenta convidados, fazendo uma analogia a sua idade. Além do mais, tinha poucos amigos. No entanto, os melhores que podia ter. Os amigos do seu ex-marido não lhe perturbariam desta vez. Homens inconvenientes, beberrões. Lá, antigamente, as festas eram regadas à carne mal passada e cerveja. Duas coisas que odiava. Seu marido a fazia de empregada. Queria mostrar aos amigos que sua mulher era sua subordinada. Mas Andréa se cansou desse posto. Hoje ela programa sua festa, ela convida seus amigos, ela tem à disposição as pessoas certas para ajudá-la com os preparativos.

A noite chegou. Andréa vestiu-se com janota. Um vestido preto, que lhe caia muito bem. Recepcionava seus convidados com muito bom humor, marca característica de sua personalidade. Sentia-se feliz por tê-los presentes, vê-los espalhados, cada um em um canto da casa, conversando, tomando seus drinks, curtindo a música lounge que mantinha a serenidade do ambiente. A maioria de suas amigas cercavam o berço de Davi, seu filho.

-Vejam, como ele está lindo!
-Fruto de um milagre. Este menino é uma dádiva dos céus, Andréa!

Andréa reconhecia. Foi, de fato, um milagre. Quarenta e nove anos, e uma vida é gerada de seu ventre. As amigas mais próximas sabiam do quanto aquela mulher lutou para conquistar aquele objetivo: gerar um filho. Esta era sua meta número quatro. Ela precisava alcançá-la, a qualquer custo. Uma mulher que não é agraciada pela maternidade é uma mulher, apenas. Mãe é um outro ser. Divinal, que contribui com a perpetuação da humanidade. Mãe é um outro sexo. É um ser santo.

Andréa tentou, dos trinta aos quarenta e nove anos, se tornar santa. Sofria de um problema grave que atingia seu útero. Para não perdê-lo, realizou todos os tipos de tratamento possíveis. Os dispêndios foram inevitáveis. O marido reclamava, como quem já dissesse: Vamos esquecer esta idéia, estamos felizes assim. Ora! Mas ela havia escrito aquela meta na lista! E além do mais, ele seria pai e ser pai... Ser pai não é ser mãe. Seria uma outra forma de egoísmo? Não, não... Não existe comparação neste caso.

Persistiram, e já nos últimos minutos, marcaram o gol. Foi uma gravidez de tremendo risco. Mas dela nasceu Davi, um anagrama perfeito.
Ele chegou. Carlos, seu ex-marido. Ela o convidou por conveniência e a consideração de vinte anos de casamento que ainda restava.

-Seja bem-vindo, Carlos. Fique a vontade. A casa... É sua.
-Isso eu já sei, Andréa.

Carlos era professor. Boa pinta, Andréa sempre sofreu por ciúmes por ele. Na escola onde trabalhava, “chovia” garotas assanhadas em sua horta. Garota... Coisa que Andréa já não era mais. Por vezes, achava que ele a traía. Mas, logo em seguida, descartava essa idéia da cabeça. Olhava-se no espelho, e recuperava sua segurança. Era mais ela. Seria egoísmo? Egocentrismo? Não. Seria ela, apenas.

A crise aumentou na gravidez. Ele não a apoiava como devia. Não ansiava pela paternidade. Chegou a dizer que estavam gerando uma prisão. Andréa não suportou tudo isso. E, no ápice de sua sensibilidade de gestante – na flor da pele – ela decidiu por aquele que mais amava. Carlos a acusou de egoísmo. Que se sentia usado por ela. Mas não... Andréa sabia dividir.

Assim que Davi nasceu, Carlos se sentiu tocado. Mas já era tarde demais. Andréa não costumava voltar atrás com suas decisões.

-O Davi está lindo. Nosso filho. – Disse ele, enquanto admirava a criança.
-Sim... Nosso filho.


Andréa percebeu em Carlos um tom de cinismo. “Ele disse isso propositalmente”... “Nosso filho... Ele faz questão de enfatizar isso. Pensa que me aflige com isso”.

-Filho que você abandonou antes mesmo de ser gerado.
-Você me fez abandoná-lo. Você vive só para si. Com licença, vou beber alguma coisa. Tem cerveja?


Andréa o olhou com esgar. “Eu vivo só para mim??”, pensou. “Ele sempre almejou a liberdade acima de tudo! Ele sim vive só para ele”.

Preferiu manter-se calada. Não queria, de maneira alguma, estragar aquela noite.

Chegada a hora tradicional de cantar o parabéns. Cinqüenta velinhas acesas, fincadas em um magnífico bolo de nozes. Emocionada, Andréa assoprou uma, duas, três vezes, até apagarem todas. Fechou os olhos e pensou em um pedido. Apesar de estarem cerrados, se via as lágrimas romperem aquela barreira e escorrerem pelo seu rosto. Era uma mulher emocionalmente sensível, não obstante sua rigidez e sua força aparente. Era forte no tom de voz, na expressão, o olhar, o discurso. Era forte em todos os sentidos. Só não gostava de ser considerada forte fisicamente. Obviamente, interpretava como sendo um eufemismo.

Fim da festa. Hora de se recolher. Vestiu todas as roupas que ganhara. Apreciou rapidamente os livros e os cds que também lhe presentearam. As flores que Carlos havia lhe trazido. Um romantismo que chegava a ser burlesco... Acarinhou seu amado filho durante um tempo, e o amamentou, dizendo:

-Eu sei dividir... Eu sei dividir...

Apanhou na gaveta de sua escrivaninha uma folha de papel já meio amarelada. Sua lista de metas. Eram seis. Odiava números ímpares. Aos quinze, teve sua menarca. Tardia, o que a levou a avaliar o problema que lhe tiraria muitas noites de sono. Detestou aquilo, foi uma péssima experiência. Não queria virar mocinha. Sonhava em ser a esposa do Peter Pan. Coisas de menina. E o número quinze nunca lhe reservara boas lembranças. Daí em diante, foi como uma maldição. Os números ímpares sempre guardaram más surpresas para Andréa; momentos que não valeriam a pena discorrer neste texto.

Já havia plantado oito árvores ao redor de sua casa. Já tinha ido ao show da Madonna. Já tinha tido um filho, e alcançado os cinqüenta anos. Agora restavam duas metas. Pensou em concretizá-las com uma “cajadada só”. Imaginou que uma não poderia ser incongruente a outra.

Apanhou uma pílula cor de abóbora no fundo falso de sua gaveta. Um copo d’água. Sentou-se na cama, com a lista de metas em sua outra mão. Ingeriu a pílula. Pronto. Quem lhe vendeu afirmou que causava uma morte suave, sem sofrimento algum. Mas havia sofrimento, era inevitável. Os pensamentos. Estes turbilhavam em sua cabeça. Sofreu um ataque cardíaco. Caiu deitada na cama. A lista, segura na mão.

No dia seguinte, ao encontrá-la morta, uma de suas empregadas ligou rapidamente para a emergência. Depois, muito consternada, apanhou a lista da mão de Andréa. Sua meta número um: publicar uma autobiografia de Andréa de Souza. Meta número seis: Morrer na mais perfeita paz.

Ambas as metas foram alcançadas. Com sua morte, uma homenagem póstuma aconteceu. Uma amiga, também escritora, escreveu um livro sobre a vida de Andréa de Souza. Livro este que teve mais vendagem do que todos os que Andréa já tinha vendido em toda sua vida.

Egoísmo de Andréa deixar este mundo por conta própria, sem mais nada para oferecê-lo? Deixar o filho por causa de uma meta banal idealizada por uma menina de dezessete anos? Não. Ela tinha o direito de morrer para ela.
No entanto, um pedido, um último pedido, não fora atendido. Este não constava na lista. O pedido de aniversário. Naquele momento, Andréa pediu a Deus que a perdoasse. Perdoasse pelo ato que ia praticar em breve. Mas não há um Deus sequer que perdoe o suicídio de Andréa de Souza, aquela mulher forte. Já era esperado... O pedido número sete. Números ímpares não lhe traziam sorte.

(Hoje é aniversário da nossa querida amiga Andréa Amaral! Uma das autoras deste blog. Andréa, o seu dia me inspirou para este texto. Obrigado. E feliz aniversário!)

sábado, 15 de agosto de 2009

Ponte


Eu quero ser ponte!
Quero te levar à outro lado
Levar-te-ia da noite para o dia
Seria para ti a luz das noites
Escuras e barulhentas,
De nossas vidas
Levar-te-ia da depressão para a montanha
Eu quero que minhas palavras sejam ponte,
Para você, meu irmão, minha mãe, minha paixão
Com minhas mãos talvez não te alcançaria,
Mas, quero que minhas palavras dessa vidinha medíocre
Te alcancem e que sejam signos de vida para você,
Que está aí, como eu estou aqui,
Buscando subsídios para alcançar o dia que virá
Nessa busca incessante pelo sonho do amanhã,
Eu quero ser tua luz,
Quero que faças tu, jus ao presente que
Outrora nos foi dado
Quero através de singelas e desritmadas palavras
Ser para ti, uma ponte!
Que conheças tu, a solução das suas incógnitas
Para que com o amanhecer do próximo dia,
Sua existência se torne doce, serena e abençoada.
Eu quero ser PONTE!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Do alto da minha laje


Tinha só sete anos e já conseguia entender um bocado de coisas dessa vida. Naquela sua realidade de menino nascido e criado na favela, desde cedo conhecia seu inimigo. Chegava a se arrepiar quando via aquele carro azul e branco e já corria pra contar pro seu amiguinho mais velho que soltava fogos quando a policia chegava. Aos poucos ele foi entendendo por que aqueles fogos não eram motivos de festa nem comemoração, principalmente quando o carro azul levou seu irmão mais velho, de quinze anos. Lembra até hoje de sua mãe chorando, implorando pro homem de farda não levar seu menino. Jonatas era seu nome, sua mãe achava bonito, dizia que ele tinha nome de gente importante e um dia ele seria importante, teria dinheiro. Do alto da rocinha mostrava o luxuoso prédio no bairro de São Conrado, que dizia que seu filho iria morar. O menino sempre subia na laje e olhava para aquele prédio.

À medida em que foi crescendo e começou a andar para mais longe sozinho, começou a ir até o prédio. Um dia ficou olhando lá pra dentro, segurando nas grades do portão. Estava lá se imaginando do lado de dentro, andando no elevador, correndo naquele gramado. Pensava que seria bom jogar bola ali, mas não via nenhuma criança fazendo isso. Pensava que eles não deveriam gostar de futebol. Foi interrompido do seu sonho com o barulho do portão automático se abrindo. Ele levou um susto e ficou olhando. Vinha uma senhora bonita com calça e camisa branca e um menino aparentando a sua idade com um carrinho de controle remoto na mão. Ele achou aquele carrinho lindo, já tinha visto no comercial da televisão e sua mãe disse que era muito caro, que dava para comprar comida pra quase um mês com o dinheiro necessário. Ele pensou e se lamentou naquele momento e disse baixinho:


"Que pena que temos que comer..."

Quando a moça bonita vestida de branco viu sua presença no portão, seu semblante mudou, deu uma meia parada e segurou mais forte a mão do menino; olhou para trás e chamou o porteiro, que entendeu logo a situação e veio resolver, ou seja, tirar o menino de perto, para que eles pudessem passar com tranqüilidade. Jonatas percebeu a situação e, moleque esperto que era, antes mesmo do porteiro vir falar com ele, já saiu. Mas saiu dali triste, se perguntando porque as pessoas que moravam no prédio tinham medo dele. Será que era porque ele era negro? Porque era pobre? Porque morava no morro? Saiu dali cheio de perguntas sem respostas para aquela cabecinha tão jovem. Ainda teve que passar pelos “inimigos” que faziam uma blitz na subida do morro, ainda bem que dessa vez, nem viram ele passar.

Chegou em casa com a imagem do menino na cabeça, pensava que podia brincar com ele, podia brincar com seu carrinho e ele podia ensinar o menino a soltar pipa, jogar futebol. Se questionava porque tinham que ser inimigos. O menino ia pensando nas coisas que o pessoal da assistência social falava. Há pouco tempo um grupo de jovens ligados a uma instituição religiosa começou a fazer um trabalho com as crianças da comunidade, mas logo tiveram que parar, pois o pessoal do “movimento” não tava gostando das idéias que os jovens estavam tendo. Mas uma coisa ele não esqueceu, uma vez numa conversa, ele ouviu que para Deus todos são iguais e isso ficava sempre martelando suas idéias, ele queria acreditar naquela frase, mas não conseguia.

Naquela sua vida de privações e decepções, questionava se Deus realmente existia, principalmente nos dias de tiroteio em que ficava com medo embaixo da cama, agarrado a sua mãe e sua irmã. Pensava em ir logo embora dali, crescer logo para morar no bonito prédio branco de São Conrado, mas por que demorava tanto? Pensava. Naquele dia o tiroteio tava demorando demais, a cada estampido, ele soluçava com medo, pois lembrava do amiguinho que tinha morrido com uma bala perdida, tinha medo de morrer, queria viver. Gostava de jogar bola, de correr, de soltar pipa na laje e olhar para o mar, ver seu prédio branco de frente para praia com gramado na frente...

Mas todos aqueles sonhos foram interrompidos quando o traficante arrombou a porta do barraco, ao fugir do cerco da policia. A casa de Jonatas foi a primeira que ele viu e entrou, neste momento Jonatas começou a gritar de medo e os policiais que perseguiam o criminoso ouviram e cercaram o bandido junto com a família de Jonatas. Infelizmente a polícia do Rio de Janeiro atira primeiro e pergunta depois... Horas depois o carro do IML chegava à favela para recolher o corpo do traficante e do pequeno menino, que virou escudo da covardia e do contraste social de um Estado em guerra civil. Naquela manhã não houve passeata pelos direitos humanos, a polícia comemorava que conseguira abater o chefe do tráfico, mas e o menino? Agora ele era só o menino que morreu na troca de tiros, mais um para entrar nas estatísticas da violência e do medo. Na capa do jornal sanguinário, uma foto da favela com o carro da polícia na frente e a manchete com a seguinte frase: “Polícia pacificadora contém tráfico na favela”...

O prédio branco em frente à praia continuou lá, abrigando atrás de suas grades quem pode pagar para ter um pouco de segurança e conforto. O menino do carrinho de controle remoto ainda não jogava bola no gramado, talvez fosse proibido pisar na grama. seu futuro ilustre morador, o menino Jonatas que ia estudar para ser importante e ter dinheiro para morar lá, já não ia mais chegar, também já não olhava para o prédio do alto de sua laje, não olhava mais, não chorava mais, não sonhava mais.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O significado dos nomes.


Acordei. Abro os olhos sem levantar as pálpebras. Isso sempre acontece comigo. Nada que eu mesmo estranhe já que sou um sujeito peculiar. Tão peculiar que meus pais acertaram em cheio quando resolveram me chamar de Paulo sem sequer terem me visto. Talvez eles tenham achado (inconscientemente), que a energia que emana da palavra falada é tão grande, que sua qualidade inerente se torna marca registrada da pessoa a quem nomeia.




Por exemplo: Ronaldo. Significa "aquele que governa com mistério". Realmente, se pararmos para pensar, é um grande mistério que vários seres que não fazem nada além de dar umas passadas mirabolantes atrás de uma bola, tenham salários dignos de um monarca, por se chamarem Ronaldo. Outro nome: André. "Forte , viril e valente". Todo André que conheço é comedor. E se acha o rei da cocada preta na hora de dar uma porrada em alguém. Por isso acreditei por um tempo, que de tanto ouvir o meu nome dito no aumentativo, aquilo que me diferencia dos outros homens mudaria de tamanho, ou seja: passei a ser chamado de Paulão. E esta alteração deu-se naturalmente, devido ao fato d'eu crescer a olhos vistos. Todos achavam que iria me dedicar, no mínimo, ao basquete. Mas me tornei um sacerdote a serviço da palavra do Senhor, entendi seus desígnios e me conformei com minha sina - entre aspas.
Olho para o lado, agora com os olhos abertos, e vejo deitada ao meu lado um hipopótamo siberiano. Sim, porque Rute, é tão branca, que parece uma versão albina ou ártica de algum espécime raro de hipopótamo nascido de um cruzamento produzido em laboratório. Leitosa, espaçosa e volumosa...deitada assim de perfil parece uma cordilheira andina coberta de neve, e eu, sou o único alpinista suicida que já se aventurou em tentar penetrar a sua caverna cheia de mistérios que ninguém ousou descobrir.
Mas não posso ser injusto. Entre nós dois existe uma briga de foice grande. Ela, por não conseguir quem fique seduzido por suas carnes, e eu, por não conseguir seduzir ninguém com a minha linguiça, daí, que unimos forças para que em conjunto pudéssemos descobrir os prazeres da gastronomia sexual , mas tudo em vão.

Quando eu tinha mais ou menos seis anos, comecei a perceber que o meu estilingue não dava pra ser muito esticado, parecia mais uma vara de virar tripa em versão miniatura. Enquanto os meus coleguinhas exibiam os seus caralhinhos uns para os outros em competições de quem tinha o pau maior ou mais grosso, eu me sentia envergonhado de exibir o meu exemplar minúsculo e ser alvo de piadas maldosas próprias das mentes cruéis das crianças. E nem preciso dizer, que a minha auto-estima (coisa que eu nem sabia existir na época), tornou-se tão pequena quanto o meu bastão, ou melhor seria dizer, batom?

Isso mesmo, podem rir, eu faço piada de mim mesmo e falo palavrão. E sim, sou repleto de desejos sexuais dos mais bizarros e dos mais comuns também, porque nem a esses, tenho acesso direito. Por isso, mais por imposição do destino do que por vocação, resolvi sublimar e enaltecer a alma...mas continuo buscando uma solução para meu Abacílio sem arrimo.


O tamanho do meu membro tornou-se uma espécie de obsessão para mim. Ao mesmo tempo, a minha essência jocosa não me permitia sentir pena de mim mesmo, e sim, buscar respostas científicas, históricas , genéticas, e até antropológicas, para o meu pequeno grande problema. Ainda bem. O Senhor escreve certo por linhas tortas. Se eu fosse me entregar a depressão e a pressão que isso acarreta em qualquer ser humano "normal", eu já teria me suicidado, por exemplo. Mas eu sempre quedei para o bom humor. Pode ser uma forma de auto defesa,mas é o que me permite me sentir ...um homem... de verdade. Por que não fui ser "a stand up comedy man"? Porque no mundo das artes rola muito sexo, muita variação, troca de parceiros, e eu não posso me permitir tal coisa, por falta de instrumento cirúrgico e por ficar muito exposto à mídia . Já pensou se eu ficasse famoso ou se recusasse a sair com todas as gostosas globais e as fãs que estivessem ao meu encalço? Como explicar a minha "timidez"? Iam pensar que sou um viado enrustido. E isso, eu não sou. No sacerdócio, curo minhas dores e minha vida é discreta e sem grandes desafios neste sentido.

Uma mulher não deve entender o que acontece a um macho - ser visual , instintivo e competitivo por natureza, que sempre coloca a sua virilidade como prova concreta de sua existência no mundo, não ter um órgão reprodutivo grande. Sempre ouvi as mulheres dizerem que o ideal de beleza masculina, vem da clássica escultura marmórea de Davi, do mestre italiano, Michelangelo. Quando teimo em olhar para sua imagem, penso que seu pênis é pequeno, em relação à sua altura. Mas quando olho para o meu, que tenho o mesmo tamanho de Davi, não consigo entender o que aconteceu. Seria uma espécie de atrofia no DNA peniano?
Comecei minhas investigações buscando o significado dos nomes. A razão pela qual eu comecei por aí? Pensa! PAUlo. E como já disse, não sei se por uma coincidência cósmica, numerológica ou se por escolha divinal, Paulo significa, "de baixa estatura, pequeno". Esta palavra segunda, me causa arrepios... Pequeno. Pau pequeno. Sou eu. Adorei, no entanto, me tornar um menino que sempre era mais alto do que seus colegas. Isso deu margem ao Paulão. Mantra repetido centenas de vezes diariamente. Quem sabe o efeito não seria inverso? Paulão, pau grandão,ão, ão, ão,om,om,om.... que viagem. Assim, vou acabar dormindo de novo e não posso.Tenho minhas obrigações de trabalhador e cidadão.

No relógio marcam cinco e meia da manhã. Daqui à pouco tenho que levantar e me arrumar para mais uma aula na escola dominical. Tenho que acordar Rute - "plena na beleza". Este é um dos exemplos para que eu passasse a não acreditar tanto no poder das palavras. Por isso, comecei a buscar explicações em outros campos do saber também.
Estou meio sem tempo agora. Mas devo dizer, que o melhor tratamento para uma alma ferida é a aceitação; veja bem, eu não disse, acomodação. Resolvi me aceitar dando uma identidade a ele, como se fosse um ser autônomo e independente de mim, mas que necessita viver colado ao resto do meu corpo material. Seu nome é Abacílio:" sem arrimo, sem apoio". Só que agora não dá para explicar. Em poucos minutos deverei estar pronto para exercer o meu papel celibatário, assexuado, religioso, vivo - só e para Cristo. Quem sabe outro dia continuo minha saga. Obrigado Senhor, por mais um dia e por ser perfeito em sua grandeza. Amém.
-Rute?! Acorda meu pudim de tapioca. Tá na hora.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Meu coração


Amigos queridos, desculpem pela demora na postagem do meu texto de hoje. Não sei o que houve com o Blogger, mas tentei postar o dia todo e não consegui, deu erro. Somente agora, no início da noite isso foi possível. Beijos a todos e espero que gostem!

Meu coração é uma pluma que o vento eleva, leva ao longe, perto de lugar nenhum.
Meu coração é um sol, desenhado por uma criança. Possui um enorme sorriso, ainda que por vezes se esconda por trás da montanha.

Meu coração é uma foto de Polaroid. Guarda momentos, ainda que alguns rostos se apaguem com o tempo.
Meu coração é o último gole de vinho na taça. Seco, tinto, cambaleando por paredes de vidro, ansiando por tornar-se etéreo.
Meu coração é uma carta escrita à mão, selada e enviada a destinatários não encontrados, a endereços não existentes.
Meu coração é uma sigla, escrita em alguma língua morta, esperando arqueólogos que queiram estudá-la ou dar-lhe um novo sentido. Alguns dizem que é uma palavra sagrada, eu acho que é um palavrão.
Meu coração é uma saudade que pinga, feito torneira sem aperto. Por mais que eu feche com força, o barulho que faz, sempre incomoda.
Meu coração é um disco de vinil, com uma dedicatória besta de alguém que não tem mais a menor importância, mas que me faz querer ouvir sempre a mesma música.
Meu coração é um labirinto. Percorro corredores que ora me levam ao passado, ora ao futuro e não consigo achar a saída.
Meu coração é minha canção preferida, cantada por alguém desafinado e descompassado. Eu sempre canto junto, ignorando o que me incomoda.
Meu coração é um blecaute. Sigo nas ruas com lanterna em punho, como se isso fosse me proteger e quando as luzes se acendem sinto que algo permanece apagado.
Meu coração é uma roupa velha, pendurada num cabide. Por mais que eu olhe no espelho, não consigo mais encontrar a pessoa que nela cabia.
Meu coração é um livro aberto, tomado de poeira, com um parágrafo grifado. Nele lê-se: "O amor é ferida que dói e não se sente." e eu rio dessa metáfora absurda.
Meu coração é um deserto. Loteado e árido, ávido por ser habitado.
Meu coração é a folha que o outono leva ao chão. Enfeita a rua, enquanto muitos pisam e nem notam.
Meu coração, o que será meu coração? Um amontoado de coisas que não se explicam; um apanhado de (in)significados; um bocado de problemas esperando solução; um tanto de perguntas esperando respostas; outro tanto de respostas, esperando encontrar perguntas à altura de respostas tão complexas.


Escrevi este texto, baseado no original de Caio Fernando Abreu, que vocês podem ler aqui: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com/2007/07/caio-fernando-abreu.html


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Material girl

É galera, nem deu tempo de vcs sentirem minha falta rsrs. Hoje, terça, quem irá postar serei eu, Lohan, a pedido da minha amiga Juliana, que foi tomada por um imprevisto... Às pressas, já na madrugada, fiquei matutando o quê postar nas exclusivas terças da Juliana. Pensei em postar um texto inspirado, a princípio, em seu nome. Uma poesia, coisa simples. E assim iniciei, no entanto, logo me deparei com outras ideias, ideia puxa ideia, e quando me vi, até da Madonna já tinha falado. E não é que a ''dona das terças-feiras'' aqui no blog é fã incondicional da rainha do pop?? Coincidência ou não... Vamos a ''Material Girl''! Bjão Juliana, espero tê-la substituído a altura! E boa leitura a todos! (Lohan L. Pignone)



Hoje me deitei na cama
E chamei Juliana
Ela veio insolente
Dizendo que não me ama

À Juliana dei meu suor
E tudo que há de melhor
Mandei cartão de crédito no buquê de flores
E o cd que ela tanto queria, do Belchior

Dei perfumes da Dolce Gabbana
À Juliana
E agora ela me “dá uma banana”!

Levantei-me da cama, irritado
Com todo esse amor negado
E ela ainda revelou que meu cartão de crédito
Estava estourado

Acendi um cigarro e comecei a suar
A Juliana já não sabia mais o que falar
Perguntei quem era o cara
E ela disse na minha cara: Pára!

Insisti, tomei dela o celular
E as chamadas fui pesquisar
-Quem é Brunão – Perguntei.
-É o cabeleireiro, é gay

Não engoli a história
Ela ameaçou ir embora
Se disse cansada daquele caso
Que nasceu do acaso

Ela estava de passagem
Na rua mais cheia da cidade
Eu, de carro, a vi caminhar
Parei rente a ela, e perguntei sua idade

Ela olhou pro meu carro, um Mercedes
E logo disse estar com sede
Gentilmente, a convidei para entrar, iríamos a um bar
Ela aceitou, mas pediu para num restaurante japonês almoçar

Juliana, ingrata Juliana...
Te dei mansão, sushi, e maiôs da Rosa Chá
Proporcionei belos weekends
Em Búzios, Parati, Paquetá
Paris, Miami, Shangri-lá

Juliana nem sequer chorou
Mas como chorava pra comprar
Aquele aparelho de jantar!
Agora ela é fria, tal como os dias mais intensos de inverno
Nos quais ficávamos juntinhos, a nos amar

Lembramos dos melhores momentos
Que agora ela via como um tormento
Ela disse que havia descoberto que não me amava
Que se continuasse comigo, me levaria “à lona”
E finalizou, dizendo que a “revelação’’ acontecera após ela ter ouvido
Uma música da Madonna

“Material girl”, maldita música
Ela se descobriu uma mulher materialista
Bem, antes uma consulta gratuita com a rainha do pop
Do que ter que pagar analista

Ameacei doar tudo,
Casa, dinheiro, e canudo
A princípio, ela achou tudo isso um absurdo

Pedi ela em casamento, sem véu de noiva
Festa, convidados ou incrementos
Sensibilizada, Juliana veio até mim
E disse: Sim.

Doei carro, mansão, e grandes quantias em dinheiro
Morando de aluguel, me tornei na cidade o maior caloteiro
No entanto, todas as noites, tinha ao meu lado, na cama
Minha doce Juliana...
De bico em bico vamos vivendo
Como São Francisco em seus remendos
Ela se sente amada, eu me sinto amado
Por fim, este caso não vai terminar com aquela trágica frase:
-Está tudo terminado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Eu, o menino e o cachorro


Olá amigos! Hoje resolvi postar uma crônica, a qual já escrevi há um tempo já. Foi um trabalho da faculdade. A primeira crônica que escrevi. Boa leitura a todos!


Naquele momento eu fugia de uma realidade em movimento. O corpo desleixado sobre o assento desconfortável do ônibus, os olhos pregados depois de tanto enxergar naquele dia em que sol resolveu extinguir a espécie das sombras.

Até que os abri, a um sobressalto. Uma freada brusca - adiante, uma fileira interminável de carros. Cheguei a resmungar qualquer coisa, ajeitando-me na poltrona.
Olhava através do vidro da janela, mórbido, certo de que não chegaria em casa a tempo de assistir o filme inédito como havia planejado no dia anterior.

Naquele veículo o silêncio reinava; eram homens e mulheres exauridos após mais uma batalha pelo pão daquele dia. Eu nem tanto, nada mais era do que um estudante de Administração.

A cada metro de movimento minha ansiedade aumentava, meu pulso jovial acelerava. Até que algo lá fora estagnou meus frenéticos sentimentos, causando-me um estupor inexplicável.

Todo santo dia via aquela imagem; vivo e a cores, ao vivo e a cores. Porém nunca a enxerguei como agora o fazia. Uma criança, um menino - dez, onze anos, no máximo – sentado sobre papelões, à calçada, coberto por um jornal que para o leitor já não servia. E o frio que a noite trazia o fazia tremer. Suas vestes em farrapos o tornava uma criança seminua e seu lânguido olhar, afinal, transparecia nudez. Nudez da proteção de um colo materno, da amizade de um pai, do acolhimento de uma sociedade que só via cara, e nunca coração.

Dei-me por comovido, assim de súbito. Ora, logo eu que não derramei uma lágrima sequer no velório de meu pai. Talvez porque nunca tivesse sentido de fato o valor da presença de um pai como naquele instante estava sentindo através daquela criança, que certamente o teve ausente durante toda a vida. O ônibus mal movia-se devido ao intenso engarrafamento, e agora eu já não ansiava mais pelo prosseguir.

Ao lado da criança um vira-lata magricela, sentado a observar tudo que ia, vinha e imobilizava-se a sua frente. Seu olhar, assim como o daquela criança, tocava o coração, cirurgicamente. Haveria o que chamamos de alma por de trás do olhar daquele pobre cão?

Por eles passavam muitas pessoas. Transeuntes apressados. Desnorteados. Embriagados pelo suor. E o menino, em vão, às vezes estendia a mão na esperança de receber ao menos o que lhe pagasse um alimento decente, que lhe tapasse o “buraco no estomago”. Mas há tempos não se vê um bom samaritano neste mundo! Um ainda jogou-lhe uma moeda, atingindo-lhe o rosto.

Mastigava cada segundo daquela imagem. Sentia-me como se algo estivesse sendo transformado em mim, uma lacuna sendo preenchida. E o menino retirou do bolso um pão duro, mordendo-o em seguida. Arrancou um pedaço e serviu o cachorro à boca, que o devorou como se fosse uma carne suculenta. O menino comia calmamente, aproveitando ao máximo aquela que, quem sabe, fosse sua primeira e última refeição do dia...

Vivemos em um país bonito por natureza, nossos bosques tem mais vida, e na vida, mais amores? E aquele menino ao lado de seu cão sentado na calçada de uma rua suja?

O outro lado da rua. O outro lado do Rio. Agora me sentia nauseado. Nojo de tudo e de todos. Repulsa daqueles que o tempo inteiro dizem ser o Rio de Janeiro uma cidade maravilhosa... Maravilhosa para quem, afinal?

Veio-me também uma sensação de impotência. Diante daquela cena chocante, como estava reagindo? Chorar e lamentar não adiantava. Resolvi tomar uma providência, meio fora do comum, impetuosamente. Ergui-me da cadeira a um salto, arrumando, meio que desajeitado, as alças da mochila nos ombros tensos. Sai em disparada pelo corredor daquele ônibus sob olhares inertes, equivocados. Uma senhora fulminou-me com o seu, de tal maneira a pensar que estivesse tão furioso e impaciente defronte àquela situação corriqueira nas ruas de qualquer metrópole, a ponto de abandonar a condução antes mesmo de alcançar meu destino. Contudo, naquele momento, pensei que o nosso destino somos nós mesmos quem fazemos. Esperá-lo acontecer, ser alcançado, se tiver de ser, será – tudo balela – o meu ponto era aquele.

Urgi ao motorista para que permitisse minha saída. O negro, barba mal feita, calvo, transpirando litros d’água pelo corpo afora, pediu-me paciência. Antes que pudesse retorqui-lo, arrancou com o ônibus pelo vão que se estendera repentinamente na estrada. Segurei-me numa das hastes metálicas, evitando uma queda iminente. Freou já alguns bons metros adiante, agora estacionado entre um fusca amarelo, anos oitenta, e um caminhão, o qual carregava uma carga proeminente. Clamei novamente, cheguei a inventar que estava passando muito mal. Ele assentiu com um “ta” contrariado e acionou as portas, que se abriram para minha lépida passagem.

Agora seria necessário regressar ao local exato em que o menino agonizava em sua miséria, não esquecendo do cão. Passo a passo, sôfrego, seguia pela calçada; a estrada congestionada, pessoas buzinando descontroladamente. Atravessei a pista, desvencilhando-me daquela aglomeração motorizada – alcancei a calçada em que estava a criança.

O coração dilacerado, os olhos atônitos a procura do menino. Caminhei mais um bocado, “é aqui” - pensei. O menino já não estava ali, muito menos seu fiel companheiro. Apenas um pedaço de papelão. Vasculhei toda a área em busca daquele que me fizera amadurecer em minutos a humanidade que existe em mim há dezenove anos.

Frustrado por perder a condução, o menino, o cachorro, sentei-me à beira da calçada, sequei o suor da testa com o dorso e tentei desvendar o porquê de tudo aquilo. Vai ver aquele menino nunca existiu. Tudo não passou de uma ilusão, no máximo, uma alucinação, um sonho. Ou então eu quem não existia; agora, existo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Anjo Protetor

Seu amor é tão envolvente que perco-me
Nos desejos de estender ao máximo nossos momentos
Que eternizam-se em meus pensamentos

És aquele que ama e abraça
Corrige responsavelmente
Faz-se criança por mim
É um amigo inigualável

Somente um ser como você
Desse jeitinho assim
Pode ser comparado ao Rei dos Reis
E a você, fostes dadome de PAI

Incomparável é o meu amor por ti
Agradecer-te eternamente, esse é o meu dever
E que Deus no seu imenso amor
Cubra de bençãos esse meu anjo protetor,
Que é você meu P.A.I

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Certa noite, certo sonho...

Certa noite, Ricardo teve um sonho que o chamou a atenção, acordou intrigado e com a cabeça a mil por hora. Ele havia sonhado que tinha voltado no tempo, voltado aos seus queridos anos oitenta, período de sua infância, e de tantas experiências que hoje em dia ele vê como foram importantes.

No sonho Ricardo podia passar por lugares que já havia andado na infância, revia seus amigos com suas feições infantis e mesmo no sonho imaginava que já não tinham mais aqueles semblantes. Em seu sonho, ele tinha o poder de escolher onde queria ir e resolveu embarcar naquela viagem fantástica, resolveu voltar à escola em que estudou. Quando se viu lá dentro daquele colégio apertado de classe média baixa, no bairro das Laranjeiras, pôde perceber que estava invisível. Ele podia ver toda aquela criançada correndo, no auge da década de oitenta, calçando seus kichutes e quem podia calçava seus “All Stars”. Ricardo sempre quis ter um de cano alto preto, mas ficou no sempre quis... Mas, voltando, a correria das crianças era contagiante. Ricardo naquela sua presença imaterial sentia vontade também de correr, de voltar aos seus oito ou dez anos, se livrar de toda carga emocional e de todas limitações que o adulto tem e ser novamente criança. Correr, pular, fazer “artes”, se esconder da inspetora. Quis se juntar àquela turma que só existia agora nas profundezas das suas lembranças, mas que fazia ele se sentir tão bem.

Num certo momento, Ricardo começou a se procurar pelo colégio, via muitos colegas, professores, pessoas que nem se lembrava mais, porém não conseguia se encontrar. Procurou pelas salas de aula, achou a sua turma de terceira série, seu grupinho, sua paquera, sua professora, todos estavam lá, menos ele. Procurava, procurava e nada. Já estava ficando angustiado com aquela situação, pois deveria estar lá, todos estavam e ele queria se ver criança novamente, na verdade ele queria ser criança novamente. Resolveu então sair dali, se convenceu que naquele dia tinha faltado a aula e foi aproveitar mais seu sonho. O interessante é que ele tinha a consciência que era um sonho, por isso também queria aproveitar para visitar as pessoas de sua família que já se foram. Sua avó, tão querida... Em muitos momentos difíceis na vida de adulto, quis poder ouvir seus conselhos novamente, ir para sua casa lanchar, chorar, levar “esculhambação” (como ela dizia) para ver se criava juízo, mas não podia, o sonho não chegava a ser tão real, podia rever as situações como se fosse um filme, mas não podia vivenciá-las novamente. Essa parte da história já estava escrita e não tinha como alterar mais, ele só tinha o direito de ver, não sei por que, mas seu cérebro ou uma força maior que tem o domínio do que acontece, quis lhe mostrar algo, mas o que? Pensava e percorria aquelas paisagens gravadas na sua cabeça, passeava pela vila que a avó morava e que tanto brincava. Naquele lugar que foi crescendo, chegando à adolescência. Foi ali que deu seu primeiro beijo brincando de salada mista, pediu ao colega que apertasse seus olhos quando fosse à hora da menina mais bonita. E assim aconteceu, e que felicidade! Ricardo se lembra como se fosse hoje, já saiu de lá apaixonado, fazendo planos de casamento e tudo, só voltou a si quando viu a mesma menina beijando mais dois amigos seus.

Ricardo envolvido em seu sonho, podia sentir como é bom ser criança e poder sonhar sem preocupações, apenas sonhar, querer, imaginar, sem compromissos ou conseqüências pessimistas que o mundo adulto já apresenta sem dó nem piedade. Naquele momento ele entendeu o porquê de tudo aquilo, porque estava vendo e revendo todas aquelas situações. Começou, mesmo ainda sonhando a pensar na sua vida de adulto, no seu jeito de ser e de tratar as pessoas; pode rever situações que poderia ter agido melhor, com mais calma e mais cuidado, pôde ver que em muitas vezes por questões pessoais de amargura ou insatisfação com a própria vida, deixou de estender a mão a quem precisava de uma palavra, de um ombro amigo, ou mesmo de um pouco de paciência para ouvir. Ricardo pensava e sentia vontade de voltar realmente no tempo e se portar de uma maneira melhor em todas aquelas situações que ele via, mas sabia que não tinha como, que já estava escrito. Sentia que o possível é a mudança, é o daqui pra frente e se comprometia a buscar fazer diferente, fazer melhor.

Naquele sonho, naquela viagem fantástica nosso personagem viu e aprendeu que é possível ser um adulto com um coração jovem, com alma de criança. Viu que é preciso lutar para não perdermos a alegria de viver, é preciso ter sabedoria para aprendermos a lidar com os problemas do cotidiano sem que os problemas afetem nosso jeito de ser e nosso jeito de viver e conviver com as pessoas.

Vamos prestar atenção na música “Força Estranha” de Caetano Veloso, que o Rei Roberto canta tão bem e nos fala esta "pérola": “O Tempo não para, no entanto ele nunca envelhece”... Mostrando com simplicidade que os problemas sempre vão existir, resolvemos uns, outros vem para que assim nós possamos nos desenvolver cada vez mais, entendendo que a vida é um ciclo e tendo mais força para vencer as dificuldades. Mas sempre buscando vencer com fé, com dignidade e com tranqüilidade, para sempre estarmos transmitindo paz para as pessoas que estão ao nosso redor.

Felicidades!


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Em que bicho você aposta?


Samanta saiu do barraco pisando em ovos. Era incrível o que a velha conseguiu enxergar no copo com água. Tudo que ela mesma detectou foram os grãos finos de areia da água suja, no fundo do copo transparente. Mas a velha... a velha tinha um dom especial. Por detrás do vidro e da água, ela vislumbrou seu passado e seu futuro também. Sim, porque se ela conseguiu falar TUDO sobre sua vida até o dia de hoje, é claro, que o futuro seria aquele mesmo.



Era uma pena que ela não tinha grandes ambições materiais, senão podia ter pedido a velha um palpite certeiro para jogar no bicho. Bicho era com ela mesma. Vocês vão saber o motivo daqui à pouco. Mas isso não importava a mínima agora. Seu prêmio viria a contento, com as magias que lhe foram passadas e que iria seguir de cabo a rabo para seduzir o grande amor de sua vida - Paulo - aquele ingrato, sem-vergonha, que só vivia esnobando e esbanjando seu charme e seus músculos pra mulherada da gafieira, menos para ela... Mas ele ia ver só uma coisa. Ia se ajoelhar a seus pés pedindo pelo amor de Deus para lhe dar uma chance; e é claro, que ela ia dar TUDO, mas primeiro o bofe de ébano ia sofrer um pouquinho, só para sentir na pele, o que é ser esnobado por quem se gosta. Ai, como dói. Sem contar a humilhação de ver o cretino se esfregando nas outras barangas, que nem chegavam aos seus pés! Não conseguia entender o motivo pra ele mal olhar para ela, uma mulata arretada, peituda, bunduda, do jeito que os machos gostam. Só tinha umas estriazinhas, e nem zebra ela era, em horóscopo nenhum.Vá entender.


Isso tudo foi pensado durante seu trajeto ao bairro Paissandú. Até o bairro tinha nome de pai-de-santo. Tradicionalíssimo para os adeptos dos mundos paralelos. E o comércio atendia a todos os gostos: lojas especializadas em ervas, velas, imagens de santos católicos, africanos, artigos de umbanda e candomblé, incensos; ofertas de leitura de tarô, carta cigana, runas e até I CHing. Pode? Até a onda do New Age já havia se instalado por ali. Isso sem contar as essências para ofurô, massagem, aromaterapia e afins...coisa de gente rica e embestada. Samanta tinha nome de grãfina, mas era de família humilde. Sua mãe resolveu homenagear a Samanta- feiticeira da tv. Pois é, ela foi criada neste mundo. Desde cedo costumava frequentar centros espíritas, cartomantes que liam todos os tipos de carta, sempre com a mãe, Dona Eulália, supersticiosa até a última gota. Todos os problemas a mãe resolvia com algum tipo de consulta. De tanto ser benzida por rezadeiras, resolveu cultivar em latas vazias, todos os tipos de ervas que serviam para fins medicinais, terapêuticos e afrodisíacos. Essas palavras estranhas e difíceis, aprendeu a falar de tanto ler os cartazes e com as explicações das vendedoras a quem pedia informação. As coisas mais simples ela aprendeu com a mãe, que se ressentia por ela não ter desenvolvido nenhum tipo de dom ou mediunidade. Talvez tenha sido castigo porque primeiro a mãe pensou em Jeannie, mas depois refletiu que gênio fica engarrafado, e isso não podia ser bom, não é? Daí mudou pra Samanta. Será que fez mal? Bem, o que importa é que ela era temerosa com as coisas do divino e do além. Seguia a risca suas orações. Xangô era seu pai no candomblé, no horóscopo chinês era cavalo de fogo, no egípcio era Sekhemet (chique), a deusa gata que simbolizava...o quê mesmo? Ai, eram tantos símbolos pra guardar que até esqueceu. Além disso, era touro na astrologia ocidental, seu ascendente era o caranguejo (detestava falar o outro nome- aquele daquela doença), e às vezes se perguntava como seria sua imagem representada por todos aqueles deuses. Melhor nem pensar...parece que ela já era o próprio jardim zoológico, Deus que me perdoe. E ainda por cima, agora tinha mais os santos da Índia por causa da Maya e do Raj da novela. Esperava não ser o tal do lorde Ganesha ( êta nome esquisito), sim , porque este era um elefante azul. Que tristeza... O santo que perdoasse, mas ter tromba, ser gorda, e ainda por cima AZUL! Ninguém merece.

Entrou na loja certa, percorreu rapidamente as prateleiras com os olhos e foi certeira também nos artigos que escolheu. Seu Adamastor já estava acostumado com ela, e foi logo perguntando quais as fitas e velas ela necessitava. Pronto. O valor da compra foi pago com uma parte do salário da semana, que ela recebia como diarista, em diferentes residências. A outra parte ficou na pendura. Como ela já era freguesa antiga, tinha o privilégio de ter crédito para pagar no fim do mês. Não gostava de pendurar o valor integral porque gastava muito com as mandingas. Ela não ganhava mal. Além das faxinas, ela vendia Avon, Hermes, Tappeware e começou a fazer uns bicos vendendo Natura e Racco pras patroas, pegando as revistas com outras amigas que eram representantes dessas marcas. Apesar de não ter passado da quinta série, era inteligente e gostava das letras. Fazia questão de falar bem. Gostava de imitar os modos das atrizes na tv. Sua favorita era Zezé Mota. Adorou quando ela fez aquele filme Xica da Silva. Se tivesse grana e tempo queria estudar inglês. Adorava os negões americanos. Suas amigas morriam de inveja do seu sotaque. Era que nem um papagaio: repetia certinho o que ouvia. Aproveitava as patroas pra perguntar o que algumas palavras queriam dizer. Tinha uma que ela não esquecia nunca: miss. Dona Nívea contou que miss era senhorita, que os gringos educados sempre se referiam as mulheres solteiras como senhorita. Imagina ela, Miss Samanta, não era lindo? Além disso, ficou sabendo que miss também significava sentir falta de alguém, saudade... Queria perguntar pro Paulo um dia: - E aí negão, miss minha falta? Será que ele ia ficar olhando pra ela feito um Pedro Bó ?

Ponto final. Agora era só caminhar uns duzentos metros e estaria em casa. Pensou em tomar primeiro um banho com sal grosso, para se livrar da inveja e do mal olhado antes de começar o ritual. Olhou mais uma vez para dentro das sacolas plásticas. Estava tudo ali: vela rosa e vermelha; essência e incenso de rosas,uma fita vermelha e uma rosa. Só faltava a rosa de verdade, a flor. Mas isso ela não precisou comprar, tinha plantado num latão do lado de fora no corredor. E tinha também a maçã, que ela também tinha na cozinha, no cesto de frutas. O negócio era botar fé que ele ia ser seu. Depois da mandinga ele ia olhar pra ela com outros olhos: ia enxergar uma pantera cor de rosa. O bicho da sedução com a cor do amor. E aí, quer fazer sua aposta? Não vai dar pra nenhuma galinha, cachorra, vaca ou qualquer fêmea do calendário do bicho. Só vai dar euzinha: Miss SamANTA.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Números e mais números

Hoje, dia 05 de Agosto, nosso blog completa 1 mês desde a criação. Não é ainda um aniversário espressivo, sabemos que temos uma longa jornada pela frente. Sabemos que temos muitos ajustes a fazer e que levará algum tempo até atingirmos o nível que desejamos. Mas nosso blog já recebeu uma indicação e foi aceito entre os melhores do Brasil. Além disso, muitas pessoas têm nos acompanhado desde o primeiro dia. Eu sei que alguns devem estar se perguntando "Muitas pessoas?” Sim, apesar de muitos não deixarem comentário.


Matemática é um assunto que não desperta lá muito interesse entre os fãs de leitura... Mas é disso que estamos falando hoje: números, estatísticas. Animem-se!





Como já mencionamos anteriormente, nosso blog, foi planejado com carinho. Ao criar nossa conta, criamos também uma conta no Google analytics, para acompanhar todos os passos dele. E como ele cresceu! O Google analytics, é um sistema completo e fidedigno de captação de dados de tráfego do blog. Nele estão contabilizados, não só o número de visitas, mas um vasto leque de infomações sobre cada visita e muito mais coisas legais. Mas o que mais impressiona é a quantidade de cidades e países que já nos visitaram. Então... vamos ampliar o assunto: 'simbora' falar de geografia?! Apertem os cintos, a viagem é longa!!!

Aqui no Brasil, tivemos visitas de:

Santa Maria e Porto Alegre (RS);

Curitiba e Cascavel (PR);

Santos, Ribeirão Preto e São Paulo (SP);

Rio de Janeiro, Niterói, Macaé, Nova Friburgo (RJ);

Belo Horizonte (MG);

Goiânia (GO);

Recife (PE);

João Pessoa (PB);

Salvador (BA);

Fortaleza (CE)






Fora do Brasil:

Uruguai;

Argentina;

Peru;

México;

Estados Unidos (muitas visitas de lá);

Canadá;

Espanha;

França;

Reino Unido;

Portugal;

Itália;

Romênia;

Finlândia;

Arábia Saudita;

Paquistão;

India;

Vietnã;

Malásia;

Filipinas;

Coréia do sul

Austrália.


Vale ressaltar que as estatísticas do Google Analytics são tão precisas, que não dá pra discordar de nem uma vírgula. Ele mostra até o tempo médio que cada leitor fica no blog: 7 minutos. Não sabemos o que exatamente trouxe tantas visitas, de tantos lugares e idiomas diferentes. Acreditamos que hajam muitos brasileiros espalhados pelo globo terrestre, mas também acreditamos que muita gente tenha entrado e não tenha entendido patavina! Coisas da internet! O importante é saber que com tão pouco tempo, nosso blog já se mostrou um bom anfitrião. E mais importante ainda, é saber que boas ideias e textos, podem ser espalhados nesse mundão todo, mesmo que sejam ideias e textos ainda muito novos. Parabéns e obrigada a todos.

Vermelho


O sinal ficou vermelho. Pensei na cena do crime. O lençol, vermelho de sangue. Não. Antes: ele, vermelho de raiva. Ela, vermelha de vergonha. Vagabunda, de sardas no rosto e cabelo vermelho. Desejei não ter nascido para viver uma situação dessas. Mas nasci. De parto normal. Após nove meses e 12 longas horas de agonia. Finalmente minha mãe me apresentou ao mundo. Eu, coberta de um sangue denso e vermelho, deitada sobre o peito dela, tive de aprender ali mesmo que a vida é feita de cordões umbilicais que se rompem depois de um sonho bom.


Nunca sonhei com um mundo multi colorido. Não existe. O mundo é vermelho. Lembrei de quando descobri que era uma mocinha, uma alegria pontualmente vermelha. Ao mesmo tempo não queria ser adulta. Queria poder continuar subindo em árvores, caindo vez ou outra, abrindo talhos na testa ou ralando o joelho. Minha mãe reclamava do sangue misturado com terra, era difícil de remover.

O sinal abriu há algum tempo, segui ainda pensando no que deixei para trás. Tinha de encarar os fatos, como um dia tive de encarar o fato de ter crescido. Isso foi quando o conheci. Amor à primeira vista. Cartões cheios de corações vermelhos; uma rosa vermelha, cujo espinho me furou e fez sangrar o dedo. A primeira vez, sem jeito e sem graça, que ficou manchada no banco de trás do Chevette vermelho. Achava incrível as semelhanças que nos uniam. Nossa cor favorita era vermelho. Eu não comia carne, nem ele. Eu porque tinha pena de comer algo que sangrou até a morte, ele porque era alérgico a proteína. Éramos torcedores do América e votávamos sempre no PT. Ele, por questões de princípios; eu também, seguia meu princípio de que o mundo é vermelho. Éramos felizes. Até hoje. Até uma hora atrás. Ao avistá-lo num cruzamento, fiquei tentada a seguir seu carro e acabei dando um flagra no “Motel praia vermelha”.

Ele não esperava por essa. Nem eu. Um surto psicótico e duas gargantas cortadas. Vermelho por toda parte. Agora os carros dos bombeiros e suas sirenes passam por mim a toda velocidade. Vermelhos e imponentes, desta vez, heróis de uma causa perdida.
Já em casa, debaixo do chuveiro, o vermelho das mãos vai aos poucos se diluindo e descendo pelo ralo. Deitada na cama, trajando camisola de seda vermelha, vou engolindo um a um os comprimidos vermelhos que me levarão a outra dimensão. Rapidamente sinto meu corpo reagir, meu coração se acelera e meus olhos aos poucos se fecham. Antes mesmo que pudesse voltar atrás, tive a constatação: o inferno é vermelho.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Meu Desejo Clandestino



Eu a desejei tanto, que meu corpo até desafiaria as leis da ciência e engravidaria sem a intervenção masculina.
Acordei numa manhã de janeiro, férias, verão, praia, e lá estavam eles: redondos e rijos, meus seios mal cabiam dentro do biquini. Que alegria senti quando desconfiei pela primeira vez que a carregava comigo! Queria logo ter enjôos matinais, ostentar meu barrigão, comprar berço, carrinho, trocar receitas de grávidas, fazer diários...


Depois de anos de preconceitos, votos, sutians queimados, sufragistas, direito ao aborto, pílula anticoncepcional, etc... Para algumas mulheres é uma afronta alguém pós-graduada, mulher independente, que se fez sozinha, com um futuro promissor, uma expoência entre o juristas, querer ser apenas mãe.
Apenas? Não.

Nunca havia sentido nada mais prazeroso e fantástico na vida do que sentir os pézinhos dela deslizando de dentro de minha barriga, como um carinho de dentro para fora. Ela estava ali, dentro de mim, junto comigo, comendo comigo, respirando comigo, fazendo companhia à solidão, a minha alma. Luiza.

A realização entrou na minha vida de diversas formas: no amor, no trabalho, com a minha família, meus amigos, minhas viagens, mudanças, mas a felicidade, essa só veio junto com ela, que mesmo antes de nascer, me fez entender, que nada no mundo poderia me fazer amar mais do que eu a amo. Um amor que dói de de tão agudo.

Foi muito bom me desfazer dos meus processos, dos meus prazos, das minhas legislações e dar seus lugares aos livros sobre mães e filhas, nomes de bebês.
Foi divino não querer responder cada afronta jocosa, de minhas colegas de trabalho, advogadas raivosas, feministas impetuosas, que me odiaram por querer se mãe, em um mundo tão ruim, tão machista, eu me "rendi" a sociedade tradicionalista... E pela primeira vez, eu ri, não tive vontade de brigar pelos meus direitos, no caso, o de estar grávida. Eu estava feliz, plena, suave, completa. Meus hormônios eram como ópio, entorpecendo meu corpo de serenidade.

Meu marido, acostumado a ver uma mulher severa, advogada centrada, dentro de taillers de grife, saltos altíssimos e sempre de dietas, agora se espantava ao se deparar com uma mulher de cara lavada, sentada no chão, de vestidos largos, em frente a uma bacia de lichias, sem se importar com as unhas que estragariam, leve como uma pluma com a cabeça nas nuvens.Ele também estava feliz com a chegada do bebê, mas principalmente com a despedida do meu mal humor.

Passamos 9 meses conversando, eu e ela, dia e noite, falamos sobre nós e sobre o mundo que a esperava e finalmente ela estava pronta. No fundo, queria guardá-la para sempre, pois dentro de mim eu não teria que dividí-la com ninguém.

Com uma peridural, ela deixou meu útero e desabrochou para a vida.
Trouxeram ela para os meus braços, Luiza estava quentinha, se aconchegou em mim, mamou e sem saber nadinha ainda dessa vida, fez de mim uma mãe. Sua mãe.

Com o sol entrando pela janela do hospital, iluminando uma relva dourada sobre a cabeça de minha filha, lembrei do poetinha, e sem medo de parecer clichê, cantarolei baixinho: ..." e um raio de sol, nos teus cabelos, como um brilhante que partindo a luz explode em sete cores.... revelando então os sete mil amores... que eu guardei somente para te dar... LUIZA...".

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Física do Petre... What??


Senhores e senhoras, membros e leitores deste blog. Cá estou eu, em mais um dia de branco, o dia que geralmente não é muito adorado pelas pessoas, talvez por ser o primeiro dia útil, o início do fim de um breve descanso. Pobre segunda-feira...
Há duas semanas, nas segundas-feiras, venho comovendo alguns leitores com meus textos. Pois chega de lágrimas! Sei que vieram do coração, isto é, se o coração possui glândulas lacrimais, mas... Esquece isso. Já temos motivos demais para chorar, minha gente. O “Jacko” morreu, a gripe suína está matando cada vez mais, a crise econômica aflige o mundo, o Lula não para de falar asneiras, os senadores idem, o Massa quase “bateu as rodas”, até o Harry Potter morreu! (Ih, devia ter dito “spoiller” antes, não?).

Sem mais delongas, vou direto ao que interessa. Hoje decidi escrever um texto que nos faça rir. É, rir, gargalhar, tossir e engasgar com a saliva de tanto rir. Rolar pelo chão, perder o fôlego. Rir. Mesmo que venha algum chato lhe dizer que não há motivos para risadas, que nem aquela mulher da propaganda das Havaianas, que interrompe o samba que alguns amigos, sentados a mesa de um bar, cantavam despretensiosamente. Por sinal, esta propaganda gerou alguma polêmica... Os demitidos, sob justificativa da crise mundial, andam dizendo preferir andar descalço a calçar uma sandália cujo nome remete às lindas mulheres que dançam hula-hula em Honolulu... Acabei indo direto ao assunto coisa nenhuma. Virando a página...

Sei que nem mesmo o palhaço Carequinha, que Deus o tenha, seria capaz de provocar tanta euforia através de meras palavras soltas em um blog. Em minhas andanças pelo mundo virtual, eis que me deparo com um blog chamado Psyco Land. Foi ali que conheci a Fábia. Não, pessoal, não é a administradora do blog. Muito menos a fã número um do mesmo, aquela que comenta cinco vezes o mesmo post pra puxar o saco do autor. A Fábia é uma mulher, por sinal, já famosa na Internet, devido sua inteligência sobrenatural. Apesar disso, eu nunca havia ouvido falar neste nome com tantos “quês” pejorativos, anedóticos, admiráveis. Esta mulher revolucionou minha mente, e me inspirou, de certo modo, este texto que hoje escrevo. A Fábia é a grande precursora da Física do Petrefiolismo! Ora, vão me dizer que nunca ouviram ou estudaram essa disciplina? Façam-me um favor, este é o ramo mais desafiador da Física mundial. Nem mesmo Einstein, com seu cérebro gigante, foi capaz de imaginar tal fórmula, tal teoria... Amigos, na verdade, a Fábia foi encontrada em um vídeo. Ela participava de uma entrevista... O conteúdo desta entrevista... Não há palavras para descrever este acontecimento antológico, que já ganhou mais de cinco milhões de acessos na rede Youtube. Assistam ao vídeo, mas antes, tomem caneta e papel nas mãos, e preparem-se para desvendar a física mais comentada do mundo atual: a física do Petrefiolismo. Sei que todos amamos física, eu sei gente... Mas acreditem, esta disciplina nunca foi tão engraçada.

Quem descobrir realmente o que há por trás de todas essas teorias mais fantásticas do que o mundo do Bob (alguém lembra desse desenho?), ganhará o mundo. Viva a Fábia, viva o riso, viva esse mundão de Deus e de figuras inimagináveis. Até a próxima segunda-feira.

http://www.youtube.com/watch?v=rVjibkJ8ezY




sábado, 1 de agosto de 2009

Veja blog

Como vocês podem observar no comentário colocado na postagem da Karina, o nosso blog foi selecionado pelo Veja blog, um site referencial, onde estão reunidos os melhores do Brasil. Para entrar é necessário ser indicado e aprovado por eles e então, receber o selo de qualidade. O fluxo de visitantes vindos deste site é imenso, pois é um referencial muito respeitado. Autores, liguem o turbo, porque as visitas vão triplicar de agora em diante. Parabéns a todos e obrigada aos leitores que indicaram o nosso blog e acreditaram que ele merece estar entre os melhores.

Desavenças


É tão triste viver assim
Nessa tristeza sem fim
E o que será de mim?

Aquele a quem estendes a mão
Chama-o de irmão,
Este sim, é o primeiro
A ferir seu coração
Nossa, quanta ingratidão!

Desse jeito meu coração
Enche-se de sofreguidão
Aumentando ainda mais minha solidão.

A você meu falso irmão,
Não tentes me enganar mais, não!
Peço a Deus que lhe dê a mão, amor no seu coração
E uma passagem pro Japão
Bem longe do meu puro chão!