quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Souza e cruz? Salva e luz.
Estou em uma fase saudosista... e confesso que sinto um "lack" de inspiração. Por isso, vou postar mais um texto dos anos 1990. Escolhi este, pois ele representa uma fase de auto-afirmação e descobertas .
Eu era fumante desde os 15 anos. Comecei a fumar informalmente com colegas no colégio, movida pela curiosidade. Fumava para fazer charme e porque sentia um certo tesão pelo cheiro do cigarro também. É verdade! O cigarro me atraía profundamente pelo cheiro. Fumei por quinze anos ininterruptos. Depois, já mais consciente, mais velha e dominada pelas campanhas antitabagistas, resolvi que queria parar. Meu fôlego já não era o mesmo, eu sempre tive o espírito dinâmico, atleta... gosto de caminhar, pedalar, dançar , patinar....cigarro não combina com nada disso,não é? E para completar, meu namorado odiava cigarros e me vi tendo que redobrar minha vontade de eliminá-lo da minha vida. Eu tentei parar de fumar algumas vezes.... e confesso também que depois da segunda vez eu não parei definitivamente, por um apego ao hábito e por acomodação. Quando aos 35 anos, decidi num certo dia, que não queria mais fumar, com uma certeza e uma clareza quase divinais, não senti nenhum problema em fazê-lo. Nunca mais senti vontade de colocar um cigarro na minha boca. Nem quando eu bebo café, termino as refeições, em volta de fumantes, quando estou em alguma balada ou festa que chamam pela dupla bebida/cigarro...NADA!
Muito pelo contrário, eu peguei verdadeira ojeriza por cigarro. Eu sinto tanto nojo, que quase rompi meu relacionamento com o pai do meu filho, pois só de chegar perto dele (fumante inveterado), com cheiro de cigarro da ponta do sapato ao último fio de cabelo, eu me sentia enjoada, querendo vomitar, como se estivesse grávida.
Agora ele está passando por um problema severo de apnéa, que o cigarro só veio ajudar a aumentar e por imposição médica e forçado pela vontade de viver, parou na marra. Eu, Davi e os pulmões dele, agradecemos.
Isso tudo para dizer, que o cigarro é uma droga e que o meu texto não é uma apologia a ele. Como disse, ele foi um coadjuvante na minha história e serve para me fazer entender, que quando estamos dispostos a mudar qualquer coisa em nossa vida, por mais difícil que ela possa parecer, temos que ter força de vontade, acreditar e impôr nossa vontade, como única verdade que temos que seguir de toda alma e coração. Isso pra mim é sentir Deus. Quando nos transformamos em protagonistas e superheróis de nossa própria vida, sem nos deixar abater pelos obstáculos e pelas vozes que querem nos puxar para um abismo de falta de coragem e de fé. Boa leitura a todos.
O cinzeiro está cheio.
Cheio de cinzas que carregam em sua composição
Todas as ansiedades
de um peito mal resolvido
e cheio de dor.
Olho para ele, que parece zombar de mim
de minhas neuroses radicais.
As guimbas tortas, amassadas
são representações concretas
de minha imagem patética.
Fumar é careta!
E a modelo que come um Big Bob
parece tão linda
com todo aquele veneno químico
que ingere tão charmosa!
Meu cigarro perturba com sua fumaça
o ar do meu irmão.
Mas o seu bafo de bebida no ônibus
só incomoda minha vontade de chegar
mais rápido ao destino final.
Composição Souza Cruz.
O Souza pode ser qualquer um.
Mas a cruz carregam todos, querendo ou não.
Por isso, não deixo de engolir e soltar fumaça.
Só respeito no momento, a minha dor, obrigada.
Quero arrebentar meus pulmões contagiados,
congestionados e absorvedores passivos
de outros venenos sociais que me atingem.
Não posso ter o prazer de soltar na cara dos outros
fumaça de automóvel.
Não tenho dinheiro.
Portanto, me deixem a vontade
para me poluir do jeito que quero e posso.
Os incomodados que se mudem.
O cinzeiro está cheio
E vai continuar cheio
por muito tempo.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O homem que queria ser outro - Parte 4 - Revelação

As pessoas iam, aos poucos, deixando o cemitério. Exceto Lia Neide, com seu vestido negro. Ela ainda segurava uma rosa vermelha. Os olhos lagrimejantes miravam um horizonte perdido. Sua vida estava cada vez mais fragmentada. Seu coração, apenas batia. Mas já não batia por nada, nem por ninguém. Estava oco, vazio; já não era mais aquele coração que parecia sorrir em seus desenhos pueris, na infância que lhe reservava boas lembranças. Agora era incolor, sem aquele vermelho vivo que a tornava viva. Agora, vermelhas eram somente as pétalas daquela rosa em sua mão. Rosa esta que ela agora daria um destino.
Caminhou até túmulo daquela família, onde fora enterrado o corpo do homem que ela, na verdade, amava... E lançou a rosa ao lado da cruz de madeira ali fincada, na terra úmida, revolvida. Ela secou as lágrimas, e disse:
-Adeus, A...
-Lia! – Chamou sua mãe, Dona Beatriz.
Lia olhou para trás. Em seguida, relanceou uma última vez o túmulo dele. Calada, ela se benzeu, e foi ao encontro de sua mãe, antes que a tristeza abatesse seu corpo por completo e, já sem resistência, ela ali fosse enterrada também.
Três dias atrás...
Ariano é acordado por sua mãe, que bulia levemente o seu ombro. Ela segurava o celular.
-Ariano, é a sua chefe. Ela insiste em falar com você.
-Ah sim... Obrigado, mãe. – Respondeu ele, ainda anestesiado pelo sono.Ele apanha o celular.
-Julia?
-Oi, meu querido. Desculpa eu incomodar você. Como está?
-Estou bem. O médico pediu que eu aguardasse aqui os resultados dos exames, por precaução. O que uma queda da escada não faz a uma pessoa... – Resmunga.
-Os resultados serão os melhores, tenha fé nisso. O Euclides está aqui, ao meu lado, juntamente com o Haroldo. Estão mandando um abraço.
- O Euclides não está chateado comigo?...
- Por que estaria?-Por nada... Esquece.
- O motivo da minha ligação tem a ver com ele. Amanhã você não terá condições de publicar sua crônica. Então... O Haroldo deu a idéia de publicar uma crônica do Euclides em seu nome.
- Ora, mas... Como assim? Por que uma crônica do Euclides?
- Ele pediu que trocassem seu setor de trabalho...
- E por que publicar em meu nome? O texto não é meu!
- Eu sei, mas é isso mesmo que estou reivindicando aqui por você. Por isso decidi ligar, e te comunicar. Você tem o direito de autorizar ou não.
- Eu não vejo motivo para publicar em meu nome. Não aceito isso.
Julia cobre o fone com a mão e anuncia:
- Ele não aceita.
Inconformado, Haroldo pede o fone.
- Fale com calma com ele, ok? O garoto está hospitalizado. – Recomendou Julia.
Ela passa o fone para o editor.
- Como vai, Ariano? Aqui quem fala é o Haroldo.
- Olá, senhor. Estou bem.
- Por que não aceita a proposta? O que tem contra a escrita do seu amigo?
- Não tenho nada contra, quero deixar isso bem claro. Só que não vejo necessidade dessa farsa. Isso pode ser descoberto. Meus leitores são bastante atentos e conhecedores do meu estilo.
- Mas os estilos de vocês são bem semelhantes!
- Mas não são iguais, senhor. Eu sugiro o seguinte: publiquem a razão da minha ausência, e, como provavelmente já pretende lançar o Euclides na área das crônicas literárias também, aproveite para anunciar a estréia dele na próxima semana.-Nossa, realmente, é a melhor idéia! Como já sabia que eu ia lançá-lo nesse setor?
- O Euclides conseguiu o que queria... Ele é bastante adepto a mudanças, sabe.
Haroldo fez que não entendeu, e foi logo cortando este assunto.
-Ok, então está confirmado! Amanhã Euclides assumirá seu lugar, só amanhã. Publicarei que você passou por alguns problemas de saúde esta semana, mas nada grave, e que voltará na próxima semana. Desejo melhoras a você, rapaz. Obrigado pela idéia.
- Por nada. Eu é que agradeço.
-Passe bem.
Haroldo desligou.
-Tudo certo. Você terá seu nome publicado, Euclides. Saiba que é um homem de coragem. Há dois anos Ariano publica seus textos conosco, initerruptamente, às terças-feiras. Substituí-lo requer bastante cuidado e talento, o que você também tem de sobra, não?
Euclides, um pouco desapontado pela mudança de planos, assente com a cabeça.
- Estou disposto a fazer sempre o meu melhor. Será mesmo esta crônica ou o senhor prefere outra em específico?
- Será esta! Ficou ótima. Pode se despedir do setor esportivo, rapaz.
O celular do editor começa a tocar.
- Meus amigos, agora preciso ir. Me dêem licença. – Justifica-se, ao olhar o visor do celular.
Haroldo sai apressado da sala, deixando Euclides e Julia a sós.
- Pronto, Euclides. Tenho que admitir... Você foi muito esperto.
- Não entendi. Sinto que há algo malicioso por trás desse elogio.
- Está sentindo coisas demais. Digo que foi esperto porque eu sei que, para convencer o nosso rigoroso editor em tão pouco tempo, ainda mais você, um novato no jornal... Olha, não é pra qualquer um.
- Eu não sou qualquer um, dona Julia. Agora com licença, preciso transferir meu material de trabalho para outra sala.
Euclides se retirou da sala, retumbante. Julia ficou com os olhos vidrados na porta por alguns segundos após sua saída, pensativa, batendo a caneta sobre a mesa.
- Aonde você quer chegar, Euclides... Aonde...?– Sibilou ela, perspicaz.
Já era noite quando Ariano recebia o parecer médico. Seus pais estavam ao seu lado, mais apreensivos do que ele.
- Nada foi encontrado em seu cérebro, a não ser uma pequena lesão, superficial, do lado esquerdo da sua cabeça.
- Mas doutor, essa pequena lesão é que provocou esse desmaio?– Perguntou o pai.
- Aparentemente sim. Novos desmaios podem acontecer. No entanto, podem ser evitados também, com um medicamento que vou receitá-lo. Outra coisa: evite fortes emoções, como aborrecimentos, ou festas exuberantes, excesso de ansiedade... Repouse, se mantenha tranqüilo. Em caso de novo desmaio, mantenham as pernas dele erguidas de vinte a trinta centímetros, verifiquem a pulsação dele, e molhem seus pulsos e seu pescoço.
- Essa lesão pode avançar para um estágio pior? – Indaga Ariano, preocupado.
- Não mentirei para você. Pode, caso você não siga minhas orientações médicas. Na pior das hipóteses, pode criar um coágulo, chamado de aneurisma cerebral. E se isso acontecer, você precisará ser operado às pressas.
- Minha Nossa Senhora!, exclamou a mãe.
- Fiquem calmos, é uma possibilidade remota. Vou prescrever os cuidados, e liberar o garoto. Aliás, Ariano... Sua mãe disse que escreve para um jornal, e me mostrou um texto seu. Você vai longe, rapaz.
- Obrigado, doutor. Espero mesmo que meu caminho seja longo, e não se finde por causa de uma queda da escada.
- Não! Ainda o verei autografando livros. E um dos livros será o meu, combinado?Ariano inclinou a cabeça, para esconder as lágrimas que nasciam.
- Combinado...
Amanheceu a terça-feira. A primeira terça-feira sem Ariano desde o seu ingresso no jornal. Euclides comprou o jornal, o folheou rapidamente, e alcançou a página seis. A página. Lá estava, na margem superior, a sua foto, e, ao lado o comunicado sobre a ausência de Ariano. Mais abaixo, o texto. A crônica de sua autoria. Euclides abriu um largo sorriso, arrepiado.
- Assumi o seu dia, Ariano. Abaixo a hegemonia! Viva a democracia!
E saiu pelo calçadão do Leblon gritando, com o jornal esvoaçando nas mãos. Parou na próxima banca de jornal e arrematou todos os jornais “Boca do povo”. Saiu distribuindo os jornais, de bar em bar. Distribuía aos transeuntes também. Chegou em casa extasiado, e foi direto para o computador. Anunciou a todos os seus amigos do Orkut sobre o texto publicado. Foi ao site do jornal, e acessou os comentários sobre seu texto. Lá, inventou uns nomes e registrou comentários do tipo: “Parabéns, você superou o Ariano Bezerra”, “Grande texto, os políticos estão mesmo afundando o nosso país”, “Você deveria assumir a terça-feira!”, “Parabéns, você se utiliza de palavras requintadas para expor suas idéias. Isso denota cultura.”Feito isso, recostou-se no respaldo da cadeira e suspirou, satisfeito. Desceu e encontrou sua avó sentada rente à janela da sala, observando a movimentação na rua, três andares abaixo.
- Vó, a senhora já leu o jornal de hoje?
-Ainda não. Mais tarde lerei.
Rodolfo, um homem esguio e de físico atlético, vem descendo a escada, vestido com sua roupa de malhação. Este é o pai de Euclides. Os cinqüenta anos de idade estão longe de condizerem com sua aparência física. Nos tempos vagos do trabalho, pratica exercícios.
- Caiu da cama, Euclides? Só dorme até tarde, o que aconteceu hoje? – Zombou o pai, sentando-se no sofá para ajeitar as meias.
- Eu acordo às nove todos os dias, ok? Isso é dormir até tarde?
Em seguida desce sua mãe, Amália. Uma mulher charmosa, de belos cabelos negros, voz arrastada e enjoada, daquelas típicas de madame da Zona Sul.
- Filho, estou indo dar uma caminhada no calçadão.
- Eu já comprei o jornal.
- E...?
- Disse para que vocês não o comprassem de novo, só isso.
- Ah, eu nem ia lembrar disso. – Disse o pai, enquanto alongava as pernas.
- Hoje eu escrevi, substitui o Ariano Bezerra.
- Ah, que pena. – Resmungou Dona Hilda, da janela.
Euclides, meio sem chão entre os três membros de sua família, reflete no que irá dizer a seguir.
- Talvez eu almoce fora hoje. – Disse, esperando que alguém questionasse a novidade.
- Vamos, querida, já estou atrasado pra academia.
- Vamos, não quero perder mais nem um minuto desse sol!E saíram. Euclides ficou parado, no centro da sala. Olhou para a avó, que não lhe retribuiu o olhar, e continuou mirando a rua. Viu-se só, como sempre. Resolveu subir para o seu quarto, e lá, tirar proveito da solidão, lendo os mesmos livros que Ariano tinha lido.
Eram três horas da tarde quando Euclides chegou no trabalho. Agora, acomodado em novo setor, a mesma sala de Ariano, ele se prostra diante de seu computador e acessa novamente o site do jornal. Ao verificar os comentários da sua crônica, se surpreende. Abaixo dos cinco que ele mesmo havia registrado sob pseudônimos, ele encontra mais de dez comentários, postado pelos fiéis leitores das crônicas de Ariano.
- O quê?? – Ele se assusta, arregalando os olhos epiléticos.Dentre os comentários, os que se destacavam eram: “a falta que Ariano faz...”, “falar de política é demasiado enjoativo para quem está interessado em bons textos culturais”, “Volta Ariano!!”, “O que aconteceu com Ariano Bezerra??”, “Esse cara só manda bem em crônicas esportivas. Falar de política com esse vocabulário rebuscado, ninguém merece. Volta, Ariano”, “Ler jornal com um dicionário do lado é pior que ler sinopse de novela repetida” “Em que hospital foi internado Ariano Bezerra? Por favor, dêem noticias!”...
Abismado com a má repercussão, Euclides começa a comentar, desvairadamente, em seu próprio nome. Rebate todas as críticas, com muito despeito. “Nenhum de vocês possui titulação para me dirigir críticas! Quem são vocês? Leitores de gibis e revistas pornográficas! Decerto que nunca leram os grandes clássicos da História, ou sequer estudaram a teoria literária. Não gostam de política porque não amam o próprio país! O Brasil é assolado pelos maus governos, e vocês não querem abrir os olhos para isso. Quem são vocês, senão brasileiros que não sabem ser brasileiros?”.A partir daí, inicia-se uma grande “guerra virtual”. Os leitores fanáticos de Ariano versus um Euclides dos Santos irado, sem limites. Euclides não aceitava uma crítica sequer. Todas eram rebatidas de bate-pronto. Os comentários iam sendo multiplicados. Euclides já recebia xingamentos – a baixaria estava instalada.Euclides não conseguia se conter, e seus dedos deslizavam ávidos sobre o teclado; vez em quando suas mãos cerradas socavam a mesa, seus olhos flamejavam de raiva. Sua testa suava, suas mãos já começavam a se umedecer. Até que uma pessoa se aproxima dele...
- Euclides.
Ele ignora o chamado.
- Euclides dos Santos, por favor.
Ele olha para o seu lado esquerdo. Era Julia, imponente, com um semblante sisudo.
- O que foi, hein? Não vê que estou ocupado? – Diz ele, grosseiramente.
- Ocupado! – Ela ri – Você está fazendo um vexame do tamanho do seu orgulho!Euclides cessa a digitação e se levanta, encarando Julia.
- O que disse?
- Pensa o quê da vida hein, rapaz? Eu acompanho hora a hora o site do jornal, principalmente os assuntos ligados à redação. A opinião pública é essencial para nossos projetos, para o jornal!
- A opinião pública! Você sabe o que significa a palavra “pública”? Povo, coletivo, massa. Gentalha. A massa é ignóbil. Nunca deve se seguir o que a massa diz. Eles dizem o que são manipulados a dizer. São uns alienados, não são titulados, não possuem opinião própria! É desse tipo de gente que vocês consideram as opiniões?
- Tipo de gente... Euclides, o que é você? Suponho que seja um homem de plena capacidade, de Q.I 190, com pós-doutorado em “saber tudo”, autoridade máxima da nossa nação. O que é você? Nós recebemos opiniões de todos os tipos, e de pessoas tituladas também, conforme você diz. Ou você acha que só os jornais renomados são lidos por esses especialistas?
- Definitivamente, eu acho.
- Então que o faz aqui, cara? – Alterou-se – Se quer ser criticado por um Luis Costa Lima da vida, vá escrever no jornal O Globo, no Diário Oficial, o cacete a quatro!
- A gente sempre começa por baixo.
A dor da raiva. Quando explode no peito, só tem um jeito pra curar: extravasar. Naquele instante, a vontade de Julia era acertar uma de direita no rostinho de anjo daquele sujeito emproado. E olha que ela se garantia; quando jovem, nocauteara mais de cinco meninos em brigas de rua.
- Moleque. Isso é o que é. Vergonha, essa discussão no site... O editor lerá tudo isso, o dono do jornal também. Sua reputação irá por água abaixo. Aliás, você chegou a formar alguma reputação? Tenho minhas dúvidas. Sabe o que eu acho que você quer? Alcançar um êxito impossível de ser alcançado por você. Um êxito como o de Ariano Bezerra. Ter o talento que ele tem. O problema, meu caro, é que talento não se adquire. Se nasce com ele. A estética do seu texto me dá náusea, e pelo visto não fui só eu quem reparei isso. Cheio de palavrinha bonita, arcaica... Que isso, estamos no século vinte e um! Você está cursando Jornalismo, e já devia saber como deve ser escrito um texto jornalístico. E isso o nosso amigo Ariano sabe de cor e salteado. Sabe de prática, de talento. A essência dos textos dele é inigualável. Se pensou que fosse igualar o sucesso dele, se deu mal, cara. Bateu com a cara no muro. Incrível como as pessoas se preocuparam mais com a saúde do Ariano do que com o seu texto inaugural, haha. Até hospitalizado ele ofusca você, Euclides.
- Você foi longe demais.
- Você foi. – Enfatizou Julia, apontando o dedo para Euclides – Você foi longe demais. Nem mesmo este jornaleco de quinta categoria merece um profissional como você. Estando aqui, você já foi longe demais. – Ironizou – Um profissional que se preze sabe acatar críticas, sabe lidar com isso. Sabe reconhecer suas limitações. Sabe se conformar em ser ele mesmo. Ontem você disse que não era qualquer um. Hoje, para mim, você é menos do que qualquer um. Você não é ninguém.
Euclides engole a seco, e seu olhar epilético é tão forte que deixa o corpo de Julia inteiramente hirto. Ela sente um vento gélido tocar sua pele, mas não perde a postura.
- Agora me dá licença. Já falei tudo o que tava entalado aqui, na minha garganta – Diz, apontando para o pescoço.
Julia se retira da sala de Euclides. Ele fica ali, remoendo todas aquelas palavras. Num acesso de raiva, ele derruba todas as folhas e objetos que estavam sobre a mesa de uma só vez.
-Desgraçada! Você me paga! – Grita, com um olhar demoníaco.
Euclides não demorou em se prontificar para deletar todos os seus comentários antes que eles fossem visto pelos seus superiores. Saiu furioso do jornal. Ficou vagando pela rua, sem rumo. Entrou num bar e pediu uma dose de uísque. Seria a primeira dose de sua vida. O máximo que bebia era champagne adocicado nas viradas de ano. E às vezes, um copo ou outro de cerveja. Mas, definitivamente, não era adepto ao álcool.
Debruçado no balcão, ele vira a dose de uma só vez. Sente uma forte ardência tomar conta do seu interior, como se todos os seus órgãos fritassem com aquela bebida. Sentiu-se nauseado, e foi para o banheiro rapidamente. Deparou-se com um banheiro nada higiênico. Foi direto para a privada – o cúmulo do asco, de tão fétida e suja - e lá vomitou tudo o que tinha no estômago. Uma dose foi o suficiente. Misturada ao ódio, ao despeito, e à realidade que insistia em lhe dizer que Julia estava certa, a dose de uísque foi mera coadjuvante. Seu orgulho foi ferido, sangrava. Não podia dar o braço a torcer! Mas os pensamentos latejavam: “A essência dos textos dele é inigualável. Se pensou que fosse igualar o sucesso dele, seu deu mal...” “Talento não se adquire. Se nasce com ele.”Euclides, ainda agachado rente à privada, com a boca e as narinas sujas com resquícios de vomito, começa a bater a cabeça contra a parede. Até que na quarta vez, ele desmaia, ali dentro daquele cubículo.
No jornal, Julia procura saber se Euclides ainda estava presente.
- Não senhora. Eu o vi sair bem esquisito daqui. – Informou uma jornalista.-Obrigada.
Julia se dirigiu até o setor esportivo. Lá, ela chama Cláudio, um dos repórteres que cobriam as partidas de futebol.
- Claudinho, querido, preciso saber de uma coisa. Você tem um minuto pra mim?
- Tenho dez, Julia. – Sorri.Os dois se afastam um pouco do alvoroço.
- Em que posso te ajudar?
- O Euclides. Ele deixou o setor esportivo ontem, você soube?
- Claro. Ontem ele veio aqui e avisou a todos sobre sua mudança. Disse que foi solicitado pelo editor-chefe, felicitamos ele, enfim...
- Ele disse isso?-Com certeza. Mas há algo de errado, Julia?
- Ele pediu transferência. Não foi solicitado conforme disse a vocês. Mentiroso. Alguma vez vocês tiveram algum tipo de desentendimento com ele aqui?
- Nunca! – Sorriu – Ele era até carismático, contava umas piadas sem graça que nos fazia rir. Apesar do pouco tempo aqui, o Euclides deixou saudade.
- Minha nossa... – Boquiaberta.
- O que, Julia?
- Nada, nada, esquece. Eu pensei que ele tivesse arrumado confusão com vocês, só isso. Me enganei, pelo visto... – Disfarçou.
- Não, ele nunca arrumou problema.
- Cláudio, te agradeço muito. – Agradeceu, segurando nas mãos do repórter – Agora preciso ir avisar uma coisa ao editor. Fica na paz.
- Que nada, Julia. Quando precisar...
Julia sai a passos sôfregos até a sala de Haroldo. Ela bate na porta.
- Entre! – Autorizou Haroldo.
Ela abre, e vai logo dizendo:
- Precisamos conversar. É sobre o Euclides.
Já eram seis e meia da noite quando Euclides chega em sua casa. Meio desnorteado, ele cruza a sala e vê, sobre a mesa de centro, o jornal aberto, na página seis. Ele caminha até a mesa, pega o jornal e o rasga em vários pedaços. Nesse momento, seus pais estão descendo a escada. Estão vestidos com roupas de gala; ele com um smoke invejável, e ela, com um vestido azul um pouco decotado.
- Filho? Chegou agora em casa?
- Parece que sim, não acha? – Responde ele, com os nervos a flor da pele – E vocês, para onde vão desse jeito?
- Hoje é nosso jantar de aniversario de casamento. Não vai nos parabenizar? – Diz Amália, a um sorriso meigo e um requebrado repleto de classe, já defronte o filho.
Euclides estava em convulsão. Seu olhar epilético piscava a todo instante, como que se fosse um tique nervoso. Seu corpo suava por inteiro. Ele olhou para a mãe e disse:
- Parabenizar? Quantas vezes algum de vocês me deram parabéns pelos meus textos no jornal, hein?
Amália e Rodolfo, que ajeitava seu smoke, se entreolham.
- O que foi isso Euclides? Que frescura é essa agora? – Bradou o pai.
- Frescura? Frescura eu vejo estampada na cara mal lavada de vocês dois!
Do alto da escada, Dona Hilda observava a tudo.
- Enlouqueceu, é?
- Olhe os olhos dele, amor! Ele não está normal! – Assustou-se Amália.
- São os meus olhos de sempre, mamãe! Você que nunca parou para observá-los. Eu nunca sou notado nessa casa. Família de merda! Nunca ninguém se importa comigo aqui!
- Não diga isso! – Berrou Amália, contristada – Está sendo injusto! Nós sempre te demos tudo! Você, um homem com 25 anos na cara, que já podia ter sua casa própria, mas não! Se não nos importamos com você, porque ainda vive sob nossas asas? Ingrato!
- Vivo aqui porque quando me ofereceram um apartamento, senti que faziam isso para se livrarem de mim! Mas eu não dei esse gosto a vocês, jamais daria... A partir daí foi que eu percebi o quanto vocês me menosprezam. Tudo o que faço está horrível, está inferior ao padrão! Quantas vezes leram os meus textos, meus trabalhos da faculdade? ...
- Filho, você sabe que eu não gosto de ler nada sobre esporte...
- E eu odeio ler! – Complementou o pai.
- Vocês foram assistir minhas apresentações na faculdade? Meu pai faltou a minha própria formatura! Disse que me formei em Letras pra morrer de fome, e não foi me prestigiar por isso... Pensam que me esqueço desse dia?
- Eu estava viajando a trabalho...
- Mentira!! Eu sei de tudo, tudo! Vocês sempre o preferiram!
- Para com isso, Euclides! Basta! Vejo nos seus olhos uma outra pessoa. Não é você! – Exasperou Rodolfo, se aproximando de Euclides.
- Sou eu, sou eu! Me enxerguem ao menos uma vez na vida! Me ouçam!
- Está drogado, só pode...Amália leva as mãos a cabeça após esta conclusão.
- Euclides... Me diz a verdade: você fez uso de droga?
- Querem saber? A maior droga da minha vida é a minha família! – Define, lágrimas escorrendo dos olhos.
Euclides sobe para o seu quarto em disparada. Sua avó o vê entrar no quarto.
- Nossa, esse cara não consegue ver ninguém feliz! – Exclama Rodolfo.
- Estragou a nossa noite... – Lamentou Amália.-Não, não estragou nada! É isso que ele quer, Amália. Vamos para o nosso jantar, esqueça o Euclides. Venha.
Rodolfo pegou em sua mão e a conduziu até a porta. Eles se foram.
Julia estava ao volante quando ligou para a casa de Ariano. Quem atendeu foi Arlete.
- Como vai, dona Arlete? O Ariano está bem? Quais foram os resultados do exame?
- Sim, está. Os exames não detectaram nada de grave, graças a Deus.
- Eu até iria aí, mas estou meio sem tempo... Poderia chamá-lo para mim um instante? Preciso muito contar algo a ele.
- Me desculpe, mas... Ele adormeceu há pouco. Anda muito sonolento, começou a tomar um calmante hoje. Está em recuperação. O médico disse que ele não pode sofrer nenhum tipo de emoção forte. Precisa se manter tranqüilo, em repouso, por uma semana, ao menos.
- Ah sei... – Murmurou, em forma lamentosa – Nenhuma emoção forte...
- Por que, aconteceu alguma coisa?
- Não, imagina. Fico feliz pela saúde dele. E torcendo pra que ele volte logo pro jornal. Faz muita falta o seu menino.
- É, ele é especial mesmo. Não quer deixar recado?
- Infelizmente, é só com ele. Mas de qualquer forma, obrigada. Dê um beijo nele por mim.
- De nada, beijos.
Julia desligou e lançou o celular sobre o banco do carona. Em seguida, ela soca o volante.
-Droga! Pobre Ariano... Mas não vai demorar muito pra verdade vir à tona. O Euclides que se cuide.
Euclides estava enclausurado em seu quarto, ao som de uma ópera de Tchaickóvski no último volume, o Concerto número 1. Deitado na cama com o os olhos fitos no teto, ele não percebe a entrada de sua avó, no quarto. Sorrateira, vestindo seu vestido de cetim claro com adereços pretos, os cabelos arrumados em coque - ela se aproxima do aparelho de som, e abaixa o volume. Ele olha para ela, irritado.
- Tira a mão daí, velha enxerida!
- Veja lá como fala comigo, moço. Eu não sou sua mãe, muito menos o tonto do seu pai. Sei muito bem que não está drogado. Sei muito bem que é você.
- Quem sou eu? Ah, a senhora então sabe quem eu sou? Por favor, me diga quem sou, porque nem eu sei.
Euclides se senta na cama.
- Você sempre tentando ser o outro... Euclides, Euclides... Até quando? Até quando essa busca fatigável?
Euclides se sente ofendido, e se levanta da cama. Caminha até a velha, com uma expressão interrogativa.
- O que está dizendo, vó?
- Desde criança você não se contenta com o que tem e com suas aptidões.
- Tomou o seu remédio, vó? Porque não parece.
- Estou muito lúcida, rapaz! Sou a mais lúcida desta casa! Eu venho te observando, desde a infância! Te conheço como a palma de minha mão. Sei do que é capaz.
- Do que sou capaz?
- De tudo. – Ela diz, cravando um olhar tenebroso no olhar epilético do neto.
- O que está insinuando?
- Sempre desconfiado... Como quem esconde mil segredos dentro de si...
- A senhora ainda tem coragem de ficar do lado deles? Não vê o que passo aqui!
- Não estou do lado de ninguém, caia na real. Estou do lado dos fatos. Esta não é a família dos sonhos, Euclides, mas é a sua família. É a família que você plantou.
- Eu não escolhi nascer nesse inferno.
- O inferno nasceu com a morte do seu irmão.
A lembrança da morte de Ernando... O jovem Ernando. Aquela recordação fechada, quase impenetrável na memória dos membros daquela família. Em Euclides, era quase insuportável a dor daquela lembrança. Era a facada mais profunda que ele poderia receber.
Euclides oscilou pelo quarto, atordoado.
- O que foi, Euclides? O remorso ainda o persegue?
- Cale essa boca!! – Berrou ele, voltando a encarar a avó, agora muito furioso.
- Eu não tenho medo desses seus olhos. Através deles, eu enxergo tudo. As trevas que há em você.
- Sai do meu quarto! Agora!!! Sai, é uma ordem!!
Dona Hilda ainda deixa escapar um risinho cínico, e deixa o quarto, na lentidão de seus passos longevos. Euclides, mais atormentado do que nunca, resolve ir tirar mais uma satisfação com a velha. Ela, que já havia alcançado o topo da escadaria, se vira para ouvir o que Euclides tinha a dizer. Ele chega com mansidão.
- Vó, me explica isso... O que a senhora sabe?
- Eu sei de tudo.
- Tudo, mas tudo o que?
- Chega de se fazer de santo! Sei que você matou o seu irmão. Assassino... – Acusou, com uma voz venenosa.Euclides não contém as lágrimas.
- Eu não o matei. Ele...
- Ele se afogou! Ah, coitadinho! E você presenciando tudo. Eu fui a primeira a chegar no local da tragédia... Meu neto, morto naquela maldita piscina, e você ali, perto, fingindo ter chegado ao mesmo tempo. Mentira! Vocês estavam juntos o tempo todo!
- Por que eu mataria o meu irmão?
- Porque ele era mais inteligente que você. Ele sabia montar nos cavalos da fazenda, você tinha medo. Ele conquistou a menina mais cobiçada do município, você invejava a beleza dele... Seu irmão sabia de um tudo, e você... Você sempre foi medroso, mais limitado. E obviamente, você via seu irmão ganhar os melhores elogios, as melhores recompensas, tudo de melhor. Afinal, ele era melhor que você.
- Você disse que ele sabia de tudo... Ele não sabia nadar. – Disse, arrefecido.
- Maldito seja você. Matou-o exatamente em seu ponto fraco. Por isso está passando por todo esse sofrimento, Euclides. Jamais irá se encontrar. Sua vida estará sempre no outro, pois todos são melhores do que você. Você nunca se dará por satisfeito. A inveja vai consumir mais rapidamente os seus dias. Irás morrer seco, sem brilho, sem nunca ter sido ninguém. Deus te marcou, Caim.
- Eu sou o melhor! Sempre fui! – Berrou, visceralmente - Maldita é a senhora... Velha estúpida. Nove anos depois e ainda chora a morte do netinho querido. Sempre soube que eu o matei... Por que nunca me entregou?
- Não tenho provas, mas sempre soube, aqui, dentro do meu coração. E também, imagine o desastre que eu causaria na família ao ter que revelar toda a verdade...
- Por isso sempre me tratou com indiferença. Nunca me deu a atenção que toda avó dá ao seu neto... E continuará assim, até a morte. Esse segredo, essa indiferença...
- Já basta esse cinismo! Pois agora eu mostrarei a todos quem você é, sabe porque? Porque percebo que em breve você fará uma nova vítima... Eu impedirei que isso aconteça.
- Você? Haha, uma velha de oitenta e dois anos nas costas? Olha que velhos morrem fácil, fácil. Ainda mais a senhora, que sofre de labirintite... Coitada. Vai que perde o equilíbrio numa situação dessas, perto da escada, e bummm... Vai-se embora.
- Sai de perto de mim, demônio! Vai morrer sem nunca ter se encontrado!
- Disse que sou capaz de tudo, não disse? Ou sou eu o velhote que não escuta direito? – Dizia, zombeteiro.
- Satanás!
- Acabo de me identificar com ele. Vou te livrar desse sofrimento, vozinha. A vida é dura... Será melhor para a senhora descansar nas nuvens de algodão. Não era essa a historinha que contava pra gente? Que quando se morre, se passeia em nuvens de algodão? Sabia que o Ernando desejou morrer só pra passear nas nuvens? Eu apenas realizei o sonho dele...Euclides começa a gargalhar, sem piedade. Dona Hilda, ao notar o ápice de sua loucura, decide descer a escadaria, apoiando-se no corrimão. Euclides a vê descer dois degraus e diz:
- Não tem escapatória, vó. Bom Voyage.Euclides desce um degrau, estica os braços e dá um forte empurrão nas costas corcundas de sua avó. Ela se agarra ao corrimão como quem se agarra ao último fiapo de vida. Ele tenta arrancar suas mãos frágeis do corrimão, mirando seus olhos desesperados, que clamavam pela vida, ainda que cansados pela idade avançada. Mas ele, sem nenhuma compaixão, arregala ainda mais aquele olhar epilético, e finalmente, solta suas mãos do corrimão.
- Ahhh!
Foi o último berro da velha. Ela rolou dez degraus. Do alto da escada, Euclides ficou a observá-la, lá embaixo, mortificada. Ele sentou-se no degrau, apoiou o queixo numa das mãos e analisou a situação por alguns instantes, com uma expressão naturalíssima. Resolveu descer a escada. Calmamente, passo a passo, ele alcança o corpo da avó. Se aproxima dela, e se agacha. Ele olha nos olhos dela, que por sua vez, estavam arregalados de horror. Pela boca entreaberta da velha ainda se sentia um resquício de ar se esvaindo. Euclides conferiu sua pulsação.
- Maldita. Bem que dizem, vaso ruim não quebra. Me desculpa, vó, mas a senhora precisa morrer agora. Quem mandou ficar me ameaçando? Não sabe, com toda sua experiência de vida, que um bicho acuado procura sempre o melhor meio para se defender? E geralmente, sua defesa... É o ataque.
Euclides ainda olhava nos olhos de Dona Hilda, que podia ouvi-lo, mas não tinha forças para falar nada. Chegou a sussurrar algo...-Sa...ta...nás...-O que vou fazer agora? – Indaga ele, se erguendo – Não posso assassiná-la com minhas mãos. Em todo caso, ela se estabaca da escada... Se eu asfixiá-la, a perícia pode descobrir... Vó, que tal mais uma aventura radical na escada, hã?Euclides passa por cima do corpo da avó, se inclina e segura em suas pernas, uma já fraturada. Ele começa a puxá-la de volta para o topo da escada. A subida é vagarosa, tortuosa; a cabeça da velha vem se debatendo a cada passagem de degrau. Com muita dificuldade ele consegue trazê-la consigo até quase o cume.
- Bem, agora preciso virá-la ao contrário... – Disse, ofegante.
Euclides move o corpo de sua avó, colocando-o frontalmente, em direção a descida da escada. Ele a levanta um pouco, segurando em suas costas, e a empurra, promovendo uma nova queda da velha. Ela cai de cabeça, fraturando o pescoço. Rola até quase o fim da escada. Ele, ainda fatigado pelo “trabalho”, desce e verifica os pulsos dela. Percebe em seguida o pescoço virado. Os olhos, ainda esbugalhados, como se ainda esbanjassem vida. Ele, incomodado com aquela visão, fecha os olhos da falecida.-Enfim, morta.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA...
domingo, 13 de setembro de 2009
A última fotografia
Eu estava sentado à soleira de sua porta. Parecia um bêbado imundo e tolo, segurando uma foto dela. A última que restou. Sentia medo de que aquela imagem aos poucos se esvaísse, como toda a “nossa” história. Ela quebrou tudo, não posso entrar em minha casa e rever aqueles objetos estraçalhados.Fiquei ali sentindo frio, na companhia de uma garrafa de rum já vazia. Segurei aquela fotografia fortemente contra o peito, como se assim pudesse mantê-la junto a mim, mas logo me lembrei do dano que ela me causou e comecei a sentir novamente raiva. Rasguei a foto. Queria que ela me visse rasgar a foto. Queria rasgar o rosto dela. Queria possuí-la, queria amá-la, queria matá-la. Eu tentei lhe dizer, mas justamente isso a fez descontrolar-se. Como pode um ser tão belo ser desprovido de senso de humor? Como pode alguém desmerecer de tal modo o amor de outrem? Eu lhe dediquei meses da minha vida. Ela era a minha escolhida, a minha preferida.
Eu pensei em falar, fazê-la entender a intensidade com que a amava. Tentar lhe explicar que ela era a atriz principal da minha vida, da qual eu mesmo era figurante. Um figurante decadente e bêbado. Minhas palavras não serviriam para nada. Ela me olhava daquele modo esnobe e desdenhador, como se pertencesse a mais alta nobreza. Eu queria encontrar um modo de me encaixar naquelas curvas, de me esparramar sobre aquela pele macia. Mas ela não soube entender a minha necessidade, assim como eu não consigo entender que ela possa se deitar com tantos e me abnegue com tamanha frialdade.
Todos as noites eram assim... Da minha sala eu observava tudo. Sua delgada silhueta, seus cabelos ondulados e o balançar de seus quadris. Eu podia até mesmo sentir seu perfume adocicado. Sei que bebe uma taça de vinho tinto às vinte horas, depois de ter tomado seu banho de quinze minutos. Sei até que não usa cacinha em casa, só quando se apronta para sair. Minha câmera tinha lente objetiva intercambiável, com zoom óptico e 1.2. de abertura. Eu não perdia nada e ajustava o foco a cada movimento interessante. Ficava horas a fio observando aquela sombra curvilínea, era um vício delicioso. Mas quando ela chegava acompanhada, eu desejava que a câmera fosse um rifle M-21, daqueles utilizados por atiradores de elite. Nada podia fazer, só me restava beber para não acreditar no que via e direcionar o foco para uma janela qualquer.
Ela tinha prazer em me trair. Ela apagava a luz para que eu não pudesse testemunhar seu crime e aumentava o volume da música. Eu não conseguia descansar quando de sua janela saía aquela pavorosa melodia francesa. Aquilo era como uma ode à sua vulgaridade e vileza, torturava meus tímpanos. Minha dor era tão profunda quanto à letra daquela música. Meu amor era tão verdadeiro quanto meu pesar. Mas eu tinha de concordar com aquela voz que cantava...
“Les grandes amours sont frêles
Elles vacillent avec le temps
Les grandes amours chancellent
Les grandes amours sont folles
Elles sont folles de leur tourment
Les grandes amours cruelles.”
Eu não pude entender que estranha revolta se apossou daquela mulher, quando ao se refrescar na varanda, ela avistou meu aparato fotográfico. Minha musa desapareceu por alguns minutos e logo depois adentrou minha sala violentamente, quebrando tudo o que encontrou. Minhas câmeras caríssimas, meu estúdio de revelação, meu acervo. Ah, meu acervo... Quanta ingratidão! Haviam centenas de fotografias dela, em diferentes ângulos. Como ela conseguiu destruir tudo tão rapidamente? E para quê? Como alguém invade a casa de uma pessoa com quem jamais conversou e sai quebrando seus pertences? Como um homem feito pode ficar sem reação diante de uma mulher? Como poderei apreciar novamente aquele corpo tão belo, tão perfeito, tão meu...
Sei que vou me refazer. Sei que vou amar novamente. Sei que não será aqui. Mas, por enquanto eu só quero deitar na porta da casa dela e adormecer, ao som da música francesa que insiste em me dizer a verdade:
“Os grandes amores são frágeis
Eles Vacilam com o tempo
Os grandes amores oscilam
Os grandes amores são loucos
São loucos por seu tormento
Os grandes amores são cruéis.”
sábado, 12 de setembro de 2009
A Busca

Sonhos utópicos, longínquos.
Desvairadamente vai a vida...
Quem sou então?
Sou aquela em que no peito arde
O louvor a vida.
As emoções explodem a cada esquina escura,
Que me constituem.
Pretensões, utopias, anseios,
Fazem parte de mim.
Pranto, amor e ódio
Também podes encontrar aqui.
Fico então a duvidar,
Se sou tudo o que de fato sou.
A solidão pensada, o amor perdido,
A vida fugindo de mim,
Enfim, o que faço eu aqui?
Louca, desvairada,
Amante e sonhadora.
Nesse desejo volátil
Vou tentando me encontrar...
Tentando me expressar,
Nessa vida que hoje completa
Três meses, autoressa.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Você não vale nada e Não gosto de você!

Confesso que segurei até o finalzinho, mas hoje, sendo o último capítulo não agüentei...
Mais uma vez chegamos a mais um último capítulo da novela das nove da rede globo e acompanho, a começar pela minha casa (infelizmente) a grande comoção e expectativa pelo grande final da novela. Com certeza se pararmos para pensar só um pouquinho podemos prever o que vai acontecer, afinal é sempre a mesma coisa: O mocinho fica com a mocinha, o vilão morre ou vai pra cadeia e no fim, todos vivem felizes para sempre.
Sabemos que uma novela, sendo uma história fictícia, não tem qualquer obrigação de espelhar a verdade, nem a realidade; pode mostrar uma índia rica e pomposa sem mencionar o outro lado, a miséria, a fome e a desigualdade social de milhares de pessoas que lá vivem. Mas tudo bem, é uma novela, é ficção.
O problema é que a grande massa que assiste este tipo de programa não sabe disso. São trabalhadores que após mais um dia de jornada forte, de enfrentarem trânsito, violência e o medo das grandes cidades, querem chegar em casa e ter um “refresco”; querem descansar um pouco, assistir algo que lhe traga um prazer e sair um pouco daquela rotina estafante. Neste ponto tenho de concordar que é muito mais fácil sentar na poltrona em frente à TV do que pegar um bom livro (a maioria nem tem em casa).
Poucas pessoas têm acesso a melhores canais, pois são pagos e o que resta é a Globo com sua programação manipuladora e tendenciosa. Muitos telespectadores acreditam naquela realidade ficcional e vivem com aquele modelo de vida, se inspirando naquelas personagens. Não é a toa que tais novelas ditam moda e até o jeito de falar das pessoas. Não há dúvidas de que a novela é um grande meio de comunicação e algumas já trouxeram benefícios para a sociedade fazendo campanhas contra o alcoolismo, campanhas em prol da saúde e outras. Mas, a meu ver, trazem mais mazelas do que benefícios, principalmente por transmitir conceitos permeados pela falta de caráter, a infidelidade e uma série de influências negativas que são transmitidas como se fossem “coisas normais”; como se fosse bonito sair à noite, trair o marido e depois voltar para casa ao som daquele forró horroroso e com a maior cara lavada do mundo. O pior é que esse tipo de personagem faz sucesso, muita gente acha bonito. É só ver a quantidade de mulheres que hoje já estão andando mostrando parte do sutiã nas ruas. Por outro lado, ser corno também é sucesso?Por que não podemos ter personagens com ética, com moral, com vergonha na cara? Será que nossos “brilhantes” autores ainda não perceberam que as pessoas aprendem o que estão vendo na televisão?
Infelizmente, se formos aprofundar este pensamento, vamos constatar que grande parte da sociedade brasileira é educada (ou deseducada) pela Rede Globo e isso é grave! Imagine só a oportunidade que um meio de comunicação como este tem na mão: A condição de criar valores morais para milhões de pessoas e contribuir para um país melhor, em que as pessoas terão mais ética e bom senso no conviver com os outros. Mas não podemos pedir a quem não tem para dar, pois a alienação é interessante; com povo “anestesiado” fica mais fácil vender produtos e conceitos sem nenhum ou com poucos questionamentos.
O importante é continuarmos fazendo nossa parte, pensando, problematizando, sendo mais um “mala” a levantar essas questões, pois no final das contas, no mundo “encantado” da televisão acaba tudo na gafieira ao som do tal forró de quinta categoria.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Sem título.
Antes de iniciar o meu texto, quero dizer que ele foi escrito em 17/05/90. Naquela época, meu sonho de consumo foi concretizado pelo meu pai em forma de presente: uma máquina de escrever profissional. Foi um período fértil de descoberta das letras através das teclas. Escrevi muitos poemas e textos que guardo até hoje em suas páginas originais. Este texto, diferentemente de "A volta", não foi modificado em nada. Vou digitá-lo do jeito que foi escrito, sem correções ou acréscimos.
As almofadas me perseguem as costas deslocadas.
E ereta, levanto o corpo cheio de dores reumáticas.
Tento fingir altivez num olhar frio, nos ombros erguidos.
Mas eis que me corrói um vulcão interno
e lavas incandescentes borbulham em minha mente esquizofrênica.
A cleptomania devora as unhas da mãe querida.
E há graxa na pia do banheiro que uso
me lembrando que a sujeira está por toda a casa.
Começo a dissertar o que não alcanço
e o inferno sartriano me infunde um terror medonho,
da boneca de pano azul, que me fita com ares de espantalho.
A fumaça que solto retorna com a brisa que vem da janela aberta.
Sinto os olhos percustradores do vizinho por detrás da cortina cinza.
Todas as luzes se apagam.
E o meu real se infunde de um silêncio opressor.
Um desses silêncios que inspiram
as vozes de um coral catedrático medieval.
Olho a foto a minha esquerda: primeiro namorado.
E sinto que o tempo que aqui estou a escrever
se confundiu com um retrocesso de morte adquirida
em sã consciência.
De repente emerjo deste túnel nauseante
e percebo a herança das rugas nas mãos aflitas,
o cansaço das tentativas frustradas,
as noites mal dormidas com esperança
de sonhos interminavelmente concretos.
Sinto agora a mesma vontade de não acordar do adormecer.
Quero me drogar de sono.
Ruminar em lugar nenhum.
Olhar os livros amontoados na estante
vendo um arco-íris estampado de flores;
me iludir com a possibilidade de voar com asas,
de decifrar o enigma da Esfinge e despir o Cristo Redentor;
pintar os cabelos de verde musgo,
conversar com Jack, o estripador.
A chuva desaba com clarões e trovoadas
e pesa no ar o desabafo do frio de todas as criaturas dementes.
A melodia eletrônica relaxa os meus nervos,
um frisson formiga entre as minhas coxas
e na solidão do quarto que me entrega à caneta,
começo a desejar a almofada que antes me intimidara.
Master de mim mesma, preciso do aperitivo final:
o resto de cerveja que se aquece no copo largado.
Fumo um cigarro, examino a violeta também doente
e lembro no tempo exato de terminar
que poderia ter utilizado a máquina de escrever
E não o fiz.
Deslizo a tinta cinza no papel branco
como tocaria as teclas íntimas
da minha verdade erotizada pelo funesto.
Olha que blog maneiro!

Genteee... O nosso blog acaba de receber mais um presentinho!!! Não há nada melhor do que o reconhecimento de uma coisa que fazemos por amor, não é mesmo? Desta vez o selo nos foi dado pelo blog Page not found, do talentosíssimo Mauri Oliveira. Estamos radiantes com mais este mimo! Isso nos incentiva a continuar buscando oferecer sempre o melhor para nossos leitores! Bem... vamos as regrinhas e aos indicados por nós:
1.exiba a imagem do selo "Olha que blog maneiro"
2.poste o link que te indicou.
3.indique pessoas de sua preferência.
4.avise o indicado.
5.publique as regras..
6.confira se os blogs indicados repassaram os selos e as regras.
Indagadores virtuais
Sidarta Cavalcanti
Olhares e saberes
A red knight
Cacarinas
Palavras nuas
Sim, podemos pensar
Obrigada!!! E Não se esqueçam de visitar os blogs acima, que também são muito maneiros!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Bonequinha de Luxo

Fechamos negócios, estacionamos de ré em ladeiras e sempre estamos com as unhas lindas e impecáveis, mas ás vezes a vontade é abrir uma porta e gritar.....
É impressionante o que faz um olhar, um encontro que te desarma por dias...
Uma TPM, o último capítulo da novela, uma viagem.
Uma vontade desesperada de ficar sozinha e outra de companhia...
Tem dia que a gente não sabe se é fada ou se é bruxa, se é aço ou gelatina.
Por detrás dessa fortaleza quase que inviolável que o feminismo do século 20 nos impôs, estamos lá, vulneráveis, epidérmicas, totalmente abaláveis, choronas, cheias de dó, suspiros, desalentos... Vontade de tomar coca comum e comer brigadeiro de colher, andar descalça e não fazer sobrancelha... Vontade de esquecer quem paga o seu salário e o que pode ser ou não constrangedor para os outros, vontade de esquecer as regras e quem as impôs a você.
Por detrás de cada mulher de porcelana, perfumada, atarefada, impenetrável, existe outra querendo sair, e explodir.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O homem que queria ser outro - Parte 3 - A unidade

Era sempre assim. Por que alguém se recusa a olhar nos olhos de outrem? Um homem que guarda o seu olhar para si acaba se perdendo dentro dos próprios tormentos.
Seu olhar oculto se perdia pela avenida através da janela do carro em movimento. Estava sem rumo, não conseguia enxergar um futuro próximo. Geralmente, olhava para baixo. Para os lados. Para trás. Mas raramente, nos olhos do futuro. Do caos de sua vida não nascia um mundo de soluções.
Morava ela e sua mãe, em um apartamento modesto na Tijuca. O pai havia falecido há dois meses, e a dor da perda ainda latejava em seu peito. A imagem do enterro vira e mexe bagunçava seus pensamentos, desconcentrando-a, e fazendo-a chorar. O choro era invisível. Este ninguém presenciava, nem de longe. O término do namoro foi um acontecimento abrupto. O estado depressivo que lhe atingira com a morte do pai acabou por levar o relacionamento, já abalado, ao fim...
Lia sentava-se ao lado de Julia, que dirigia seu Astra rumo ao hospital onde Ariano estava sob observação.
-Ele voltou de viagem, Julia. – Disse, mirando a dianteira do carro.
-Ele... Ele quem, menina?
-O Adalberto. Meu ex-namorado.
-E daí? Ele está atrás de você?
-Pior que sim. Já me ligou três vezes hoje. Ele não se conforma com o término... Eu o conheço, não vai me deixar em paz.
-Não tem essa! Esse cara tem que tomar o semancol dele e partir pra outra!
-Também não é assim... Ele ainda me ama.
-E quanto a você, dona Lia?
Lia Neide se cala por algum instante, muito confusa.
-Eu não sei o que sinto, ao certo. Não sei o que houve, o que está havendo... Estou me sentindo uma psicopata, incapaz de denominar meus sentimentos.
-Não diga uma coisa dessas. Uma hora você se encontra. Veja, chegamos.
No hospital, as duas entram no quarto de Ariano, que explode de felicidade ao ver Lia Neide. Sua mãe, Arlete, que o fazia companhia, deixa o quarto para que as visitantes se sentissem à vontade. -Meu cronista favorito, o que voce foi aprontar? – Disse Julia, a um sorriso.
-Olá, Ariano. – Cumprimentou Lia, meio que timidamente.
-Lia... Que bom que você veio... – Disse, quase em transe – Ah, e vo, você também, Julia. – Gaguejou, sem graça.
Lia não conteve seu riso meigo.
Ficaram as duas ali, conversando com ele, durante dez minutos. Até que Euclides entra no quarto.
-Nossa, que surpresa boa! Eu tinha até me esquecido que viriam!
-E o jantar, desistiu? – Perguntou Lia.
-Jantar? – Indagou Ariano.
-É, eu ia jantar fora, sabe... Mas desisti. E então, já alegraram muito o nosso paciente?
-Vê se temos cara de palhaças, Euclides. – Intercalou Julia, um pouco áspera.
-Não foi nesse sentido que quis dizer...
Euclides fitou os olhos em Julia, descomposto. Elas continuaram falando, e ele, ali, paralisado, como quem estivesse se deparando com seu maior medo em forma humana.
-Pessoal, o tempo da visita está terminando. Vocês têm mais dez minutos. – Avisou uma enfermeira, pela fresta da porta.
-Obrigada. Lia, Euclides... Será que vocês poderiam me dar licença um minuto? Eu queria falar com o Ariano um assunto de trabalho a sós. – Pediu Julia, polidamente.
-Claro. Vamos tomar um café, Lia?
-É pra já. Ariano, eu já volto pra me despedir, ok?
Lia caminhou até a cama e beijou o rosto de Ariano. A quentura daqueles lábios estalando na face esquerda de Ariano o fez estremecer. Quando ela ergueu o rosto, trocou um olhar flamejante com aquele jovem apaixonado. Aquela troca de olhares a fez se sentir tonta. Era uma mal-estar sem explicação.
-Te espero... Te espero, o tempo que for. – Murmurou ele.
Lia pediu licença e juntamente com Euclides, saiu do quarto. Antes de sair, Euclides lançou um último olhar sobre Julia. Um olhar carregado de suspeita.
Sem demoras, Julia puxou uma cadeira para rente a cama, e nela acomodou-se. Ariano pressentiu uma “bomba”, haja vista o estado apreensivo da redatora.
-Eu só quero te fazer uma pergunta, Ariano Bezerra.
Ele se manteve calado, olhos atentos.
-Você e o Euclides... Vocês são grandes amigos, ou essa relação seria superficial?
-Como?
-Calma... Por favor, me responda.
-Somos quase irmãos.
-Quase irmãos... – Sibilou ela, imaginando a gravidade da situação – Sendo assim, eu suponho que você conte absolutamente tudo para ele. Sobre seus planos profissionais, amorosos...
-É, eu conto. Ele me conta também... Nós confidenciamos segredos, dona Julia. Confiamos um no outro. Ele é o meu melhor amigo. Por que essas perguntas? Está querendo me contar alguma coisa?
-Me desculpe, Ari... Mas... Eu não sei, eu tive uma má impressão desse rapaz desde o dia que ele foi admitido na redação do nosso jornal.
-E por que concordou com a admissão dele?
-Pra não magoar você, Ariano. Claro, o Euclides é talentoso, mas eu levo em conta muitos outros atributos num homem. E quando meu santo não bate... É certo que há uma obscuridade nessa pessoa.
-Impressão sua, dona Julia. Me perdoe, mas é coisa da sua cabeça. O Euclides é um homem íntegro, de boa família, bom caráter. Obscura está sendo sua visão. Talvez queira demiti-lo, reduzir custos. O trabalho dele pode estar sendo ineficaz, na sua opinião. Quer demiti-lo e procura um pretexto desses! Usa a intuição! Isso é crueldade.
-Ariano... Eu não devia ter dito nada a você, estou arrependida. Tem coisas na vida que precisamos aprender sozinhos. Que precisamos enxergar com os próprios olhos, pois caso contrário, não se acredita. Você é uma pessoa muito apaixonada. Em todos os sentidos. O ardor da paixão aflora em sua pele. Confia de olhos fechados em qualquer pessoa. Ama demais as pessoas que não merecem o seu amor.
-Está se referindo a Lia? Você mesma disse que eu tinha chances.
-Sim, não estou dizendo para você desistir. Só estou tentando te dizer que... É preciso saber o momento de parar. Imponha limites aos seus sentimentos. Não saia espalhando todo o amor do mundo ao léu. É só isso que tenho a lhe dizer por enquanto. Gosto muito de você. Você é muito parecido com... – Julia embarga a voz, contristada pela comoção - Com meu filho. Eu já lhe disse isso uma vez.
Julia se levanta da cadeira, secando as lágrimas que brotavam dos olhos.
- Quando eu olho nos seus olhos, Ariano... Eu vejo o meu filho. Eu o vejo, nitidamente. Seus olhos, ah! Tem o mesmo formato, o mesmo brilho que tinha os dele. Me tenha como uma mãezona, que só quer o seu bem. Não me veja como uma patroa, como sua “dona’’. Me veja como uma mãe.
Julia não resiste e vai até Ariano abraçá-lo.
Enquanto isso, na cantina, Euclides e Lia Neide saboreavam suas xícaras de café.
-Pra quem poderia estar jantando em um restaurante japonês, esse café está péssimo. – Gracejou Euclides.
-Ah, você tem razão. Mas eu não podia deixar de visitar o Ariano. Ele... Ele merece ao menos a minha atenção.
-E quanto a mim? O que mereço?
-Você... Não sei. – Sorriu ela, envergonhada, sempre mantendo o olhar esquivo do olhar de seu interlocutor – Merece a minha gratidão. Hoje você me presenteou com uma linda poesia. Mal sabe que dia é hoje...
-É? E que dia é hoje, posso saber?
-Pode. Hoje é meu aniversário.
-Jura??? Que sacana você é! Nem pra dizer... Olha... Então eu te dei um presente no dia certo! – Fingiu enorme surpresa.
-Eu não quis comemorar meu aniversário. Minha vida está bem atribulada, eu nem tenho cabeça pra festa, nada do tipo. Não sei como estou conseguindo trabalhar. – Disse, cabisbaixa.
-O trabalho nos livra do ócio. E claro, quando fazemos o que gostamos, ele nos dá prazer. Esse prazer te ajuda a superar suas dificuldades. Ele distrai você ao invés de acumular mais obstáculos.
-Nossa, você é um poeta mesmo... – Elogiou, encarando-o rapidamente.
-Pois brindemos ao seu dia!
Euclides ergue sua xícara de café. Lia hesita, no entanto, cede ao ato. Os dois brindam.
-Ah!
-Feliz aniversário, Lia. Que você seja muito feliz. Que você encontre o príncipe encantado que merece.
-Há, príncipe encantado? Eles ainda existem?
-Se as princesas ainda existem... Por que não os príncipes? Agora mesmo eu vejo uma princesa em minha frente.
-Obrigada... Está se superando, hein.
-É o meu objetivo. A superação, sempre.
-Superar não é nada fácil. Quanto mais se superar.
Lia toma mais um gole de seu café.
-O que será que a Julia está conversando com o Ariano?
-Não tenho a mínima idéia...
-Vocês duas são bem amigas, não são?
-Sim, ela é uma pessoa maravilhosa. Nos tornamos amigas desde o meu primeiro dia de trabalho como secretária de redação.
O celular de Lia toca.
-Dá licença...
Ela se levanta, e se afasta um pouco da mesa onde estava. Euclides permanece sentado, a observá-la. Praticamente ele a comia com os olhos. Lia cada palavra pronunciada por sua boca. Exalava seu cheiro como quem inspira cocaína derramada sobre uma mesa. Alucinava-se com aquela “droga de mulher”. Uma droga que podia matar.
Enquanto a observava, ia refletindo... “Provavelmente aquela redatora de merda está contando sobre o convite que fiz a Lia... Elas são amigas intimas, a Lia deve ter dito algo para a Julia. O que faço agora... O Ariano vai me encher de perguntas. Vai perder a confiança em mim. Agora só me resta esperar, e ver quais serão as atitudes dele para comigo...’’
Lia parecia discutir com alguém pelo celular.
-Eu não quero que me procure mais! Adeus, Adalberto.
Ela desliga o celular, nervosa.
-Ei, o que houve mocinha?
-Ai, nada... Quer dizer, tudo... Como se não bastasse, mais essa.
-Venha até aqui, desabafe comigo.
Ela se senta, levando as mãos à cabeça.
-Não quer me dizer o que está acontecendo? Olha, se não quiser falar, não vou insistir.
-É o meu ex-namorado – Revelou, com a cabeça apoiada nas mãos, os cotovelos sobre a mesa - Ele voltou de uma viagem de trabalho agora, e está azucrinando a minha cabeça. Ele quer reatar o namoro.
-Mas por que terminaram?
-Nós já vínhamos vivendo alguns problemas. Meu pai morreu, eu fiquei muito isolada. Ele foi capaz de reclamar disso, ao invés de me dar apoio. Foi a gota d’água pra mim. Dei um basta em tudo. Hoje quero ficar sozinha, retomar as rédeas da minha vida, sem interferência de ninguém. Mas ele insiste, ele é obsessivo.
-Você disse que tinham problemas. Ele traiu você?
-Não... Acho que não. Ele é pugilista. E, devido à prática desse esporte, fica violento às vezes.
-Ele não... – Espantado.
-Não, ele nunca bateu em mim. Mas ele já brigou com vários homens por minha causa, na rua. É muito ciumento. Por isso eu temo até pelos meus amigos agora. Se ele me vir com alguém... Não vai se controlar.
-Você precisa seguir sua vida, Lia. Não pode viver a mercê desse cara. Que absurdo!
-Não é assim...
-Como não é assim?
-É mais complicado do que imagina, Euclides...
-Por que voce não me encara? Tem medo de mim?
-Não... – A um sorriso enjoado.
-Diga a verdade.
-Por que eu teria medo de voce? Quem pergunta isso é porque tem sempre um perigo a oferecer. Meu pai sempre dizia isso.
-Está insinuando que sou perigoso?
-Quem não é?
Desta vez, ela o encara novamente, agora por mais tempo. Sua vista fica embaçada. Ela logo esquiva o olhar.
Neste momento, Julia os interrompe, aproximando-se da mesa.
-Olá, acabou o horário de visita. Vamos, Lia?
Lia olhou para Euclides, que inclinara a cabeça, tentando evitar que seus olhos se cruzassem com os olhos argutos de Julia.
-E você, Euclides? Não quer vir conosco? – Preocupou-se Lia.
-Não, eu agradeço. Moro aqui perto, não quero incomodá-las.
-Não será...
-Venha, Lia. – Chamou Julia, enrijecendo o tom de voz.
Lia despediu-se de Euclides com um aceno, o mesmo fez Julia. Euclides permaneceu ali, sentado, vendo elas partirem. Agora estava bem claro para ele o quanto Julia estava estranha...
No dia seguinte, Ariano recebeu alta. Com o tornozelo enfaixado, apoiando-se em uma muleta, ele chega no conforto do lar. A primeira noite em casa após a queda não foi tão boa. Sentiu fortes dores de cabeça. Um enorme desânimo o tomou no domingo. Passou a base de remédios, entediado. Além do mal estado físico, Ariano estava um pouco perturbado com as palavras que Julia lhe dirigira sobre Euclides. Iniciava um texto, e logo rasgava a folha, rejeitando-o imediatamente. Seus pensamentos não fluíam. Estava preocupado com a faculdade também. E com o texto que não “nascia” para terça-feira. Estava angustiado na solidão do seu quarto; solidão que o fazia recordar Lia Neide todo o momento. Era domingo à noite quando Euclides liga para Ariano.
-E então, meu irmão? Como se sente?
-Não estou nos meus melhores dias, confesso...
-E a crônica de terça? A crônica pós-acidente! Já está nos trinques?
-Que nada, amigo... Não sai nada. Estou pensando seriamente em não escrever nada essa semana. Preciso conversar com a Julia.
-Eu estava querendo falar um assunto com você semelhante a esse... Hoje eu decidi abandonar as crônicas esportivas.
-Como?
-Não sei como explicar, mas... Me apaixonei pelo sentido de literariedade que você emprega nas suas crônicas, seus contos. Até sua poesia... Enjoei do esporte. Cansei de acompanhar várias partidas de futebol ao mesmo tempo, corridas automobilísticas... Quero dar asas a minha imaginação; quero investir em uma nova faceta de Euclides dos Santos. O que me diz, hein?
-Então quer dizer que eu o influenciei diretamente pra essa mudança radical? – Perguntou, a um riso abobado.
-É, digamos que sim. Nos últimos três dias li dois livros de poesia: um de Drummond e outro de Fernando Pessoa. Estou alimentando esses gêneros em mim. E está dando bons resultados. Quero arriscar, Ariano. Mas pra isso... Preciso de uma chance.
-Ora, e o que eu posso fazer por você?
-Não sei... Sinto que a Julia não vai muito com a minha cara. Pensei em falar diretamente com o editor-chefe do jornal, o que acha?
-É, pode ser... O que vai solicitar?
-Ao invés de publicar uma crônica esportiva, publico outro gênero textual.
-Mas não é assim que funciona. Os gêneros precisam divergir. Na terça, sou eu quem escreve as crônicas literárias. Na quarta são piadas, na quinta é outro quadro, e por aí se vai. E a segunda? Você poderá arriscar seu emprego com isso, Euclides. Eu acho melhor você não por a cabeça na degola.
-Que seja, Ariano. Eu não vou continuar trabalhando com algo que já não me dá mais prazer.
-Você sempre mudando... Não se fixa em nada. Mal começou a trabalhar no jornal, a escrever suas crônicas esportivas! Olha que ainda chegará a ser ator de novela global. Já lhe disse isso uma vez.
-É, eu sou assim mesmo, Ariano. Isso te incomoda?
-Sim, me incomoda. Te incomoda eu me incomodar com esse seu defeito?
-Não vejo como um defeito. Antes ser assim do que continuar na mesmice, no marasmo.
-Se foi uma indireta pra mim, saiba que estou muito feliz em meu posto. Em time que está ganhando... Aliás, vivo no marasmo mais bem acatado pela crítica brasileira.
-Eu não conhecia esse seu lado prepotente, Ariano.
-Prefiro ser assim a ser um proclamador de falsas modéstias. Eu sou bom no que faço. Afirmar isso é ser prepotente?
-Desculpa, mas vou desligar. Esse papo já está me dando náusea. Passe bem, a-m-i-g-o.
Euclides desligou. Ariano permaneceu com o celular colado no ouvido por mais dois minutos, imóvel. Chocado. Foi escorregando o telefone pelo rosto. As lágrimas vieram acompanhando o aparelho. Este havia sido o primeiro embate considerado grave entre aqueles dois amigos. Quase irmãos. Quase um.
A alvorada da segunda-feira foi marcada pelo corre-corre na casa de Ariano. Ele desmaiou em seu quarto, e no chão permaneceu durante horas, provavelmente toda a madrugada. Socorrido pelos pais, Ariano foi novamente internado. Seria submetido a uma bateria de exames detalhada.
Ariano realizava uma tomografia computadorizada enquanto seus pais, Arlete e Walter, consultavam a opinião de um médico, no corredor do hospital.
-Veja bem, ele sofreu uma pancada na cabeça. Pode ser que tenha causado alguma lesão grave, ou não.
-Doutor, mas o senhor não tem idéia do que possa ser? – Indagou o pai, um homem alto e truculento. Entretanto, seus aspectos físicos não condiziam com seu estado espiritual de ser. Era bastante pacífico, voz mansa.
-Existem suspeitas, mas seria precipitado afirmar qualquer coisa.
-Que suspeita, doutor? Diga! – Clamou a mãe.
-É melhor que aguardemos os resultados dos exames. Por favor, acalmem-se. Me dêem licença, eu preciso verificar o paciente.
O médico entrou na sala onde Ariano era submetido à tomografia.
Horas depois, Ariano estava repousado novamente em uma cama hospitalar. O médico, por prevenção, ordenou que o deixassem sob observação até que saíssem os resultados dos exames.
-Mãe... Ligue para a Julia e avise o que aconteceu... – Pediu Ariano, esmorecido sobre a cama.
-Está bem, meu filho. Agora não se preocupe com isso. Sua saúde é o que importa.
Meia hora depois, Julia desligava o telefone do seu escritório, com uma expressão preocupadíssima.
-Coitado do Ariano... Deus queira que não seja grave.
Um homem baixo e careca bate a sua porta. Era o senhor Haroldo Fonseca, editor-chefe do jornal.
-Entre. – Permitiu ela, arrumando lepidamente algumas folhas sobre a mesa.
-Como vai, Julia? – Saudou, com seu tom de voz severo.
-Vou bem, Sr. Haroldo. Que bons ventos o trazem aqui?
-Acabo de receber esta solicitação via fax.
O pequeno grande homem entrega uma folha nas mãos de Julia, que, ainda um pouco zonza com a notícia que recebera, tateia a mesa a procura dos seus óculos enquanto tenta ler algo. Ela põe seus óculos.
-Mas o que é isso? – Diz, ao finalizar a leitura - Uma carta de demissão?
-É, eu também diria que sim. Não acha estranho? Esse rapaz, o...
-Euclides dos Santos.
-Isso. Ele não foi admitido há um mês no jornal e quer mudar de setor? Ele acha o que? Que e o “Boca do Povo” é a casa da mãe Joana?
-Ele deveria ter me consultado antes... Muito estranho.
-Com certeza! Ignorou sua autoridade! Ele diz aqui que se “enveredou” pelos caminhos da literariedade, e que, além disso, se envolveu numa confusão entre os colegas do setor. Eu não soube de confusão alguma, você está a par de algo?
-Não, não houve confusão! Isso é desculpa. Mas... Por que essa mudança repentina? Por que justamente pro setor onde o Ariano trabalha... – Indagou-se, pensativa.
-Agora... Ainda não lhe disse tudo.
-Como? – Sobressaltada.
-Além dessa solicitação, ele me enviou também, por e-mail, uma crônica de sua autoria. Pra provar que sabe escrever este gênero tão bem quanto o esportivo...
-E?
-E está fantástica. Eu a encaminhei para seu e-mail. Este rapaz, apesar da audácia, conseguiu ganhar minha admiração. Ele agiu de uma maneira minuciosa, segura... Como se tivesse a certeza de que fosse aceita a sua solicitação.
-Ele premeditou tudo... Inclusive, no final do texto, ele ameaça a deixar o jornal caso seu pedido não seja aceito! Quem ele pensa que é para chantageá-lo?
-Calma, Julia. Eu também pensei assim, logo que li. Mas eu não posso deixar escapar do meu jornal um grande autor como ele.
Mas e daí, isso não diz nada, senhor. Ou se esqueceu que é o Ariano Bezerra responsável pelas crônicas literárias semanais do jornal?
-Sim, o talento do Ariano também é inegável. Eu andei pensando numa maneira de encaixá-lo na semana também. O que acha?
-Mas e as crônicas esportivas?
-Ah, eu contrato outro quem a escreva. É mais fácil encontrar um jornalista esportivo do que um crítico literário, com a competência de Euclides e Ariano. Estamos prestes a revelar mais um grande talento, Julia. Ele vai despontar. Vamos receber mais propostas.
-Por favor, o senhor está sendo precipitado na minha opinião... Está pensando nas propostas? Mas e se ele não der certo?
-Ele dará certo, eu tenho certeza! Não quero desperdiçar este talento no setor esportivo.
-O senhor entrou em grande contradição. No inicio, criticou a ousadia de Euclides. Agora, cai nas graças dele. Não estou te reconhecendo.
-Eu confesso que fiquei aborrecido a princípio, mas ele soube como me convencer. Nesta semana, vamos analisar como faremos. Eu pedi que o chamasse até aqui. Precisamos conversar, sem que seja assunto da pauta.
Euclides bate a porta. Julia faz um esgar ao ouvi-lo pedir licença.
-Entre, rapaz.
-Recebeu o meu fax, senhor?
-Claro. É exatamente por isso que mandei lhe chamar. Antes de mais nada, quero repreendê-lo por não ter previamente comunicado a dona Julia a sua atitude, a sua insatisfação.
-Quero me desculpar, dona Julia. Não queria aborrecê-la com este assunto, preferi pegar um “atalho”.
-Estou sendo paga para isso também, Euclides. Da próxima vez... Se houver a próxima vez... Não hesite em me procurar.
-Meu amigo, por que essa mudança? – Perguntou o editor-chefe.
-O cenário esportivo já não me fascina como antes. Não me sinto “em casa” mais, entende. Pensei muito em pedir demissão, envergonhado com essa situação toda. Seria mais justo e ético. No entanto, eu amo este jornal. Amo este ambiente, esse corre-corre, essa ocupação. Precisava optar, e, então, tive essa idéia. Em mudar o estilo de minhas publicações. Ao mesmo tempo em que eu trabalharia satisfeito, eu permaneceria neste jornal que me acolheu com tanto carinho.
O discurso de Euclides causou arrepio em Haroldo, que, por sua vez, já não conseguia formular mais nenhuma idéia que desafiasse a integridade profissional daquele jovem a sua frente. Todavia, Julia manteve-se ereta, irredutível. Mas sua opinião seria logo descartada, diante da autoridade superior de Haroldo.
-Imagino que esta insatisfação tenha sido originada de uma certa confusão... Não é o que você cita aqui, em seu texto? O que se faz com alguém que participa de uma confusão dentro da redação de um jornal?
-Eu fui envolvido, senhora. Uma bobagem, uma discussão de idéias entre nós. Já não sou bem quisto lá, isso é verdade. Mas isso não é o fator principal da minha insatisfação.
-Rapaz, eu confesso que estou admirado pelo seu talento. Li a sua crônica. Como aborda bem a política! Esta crônica te salvou. Caso contrário, esta carta seria a razão de sua demissão.
-Eu fico feliz por ter apreciado o meu trabalho, senhor. E então, o que será resolvido?
-Até amanhã eu acerto tudo. Na quarta-feira já começamos a anunciar no jornal a nova coluna. E semana que vem, será a sua estréia. Ou melhor, sua reestréia.
Haroldo sorria, e batia a mão amigavelmente nas costas de Euclides, que se inflava de vaidade.
-E quanto a Ariano? Não desejo ocupar seu cargo...
-Você já deve saber que ele foi internado de novo, não sabe, Euclides? – Insinuou Julia.
-Não, eu não sei! O que houve?
-Ele sentiu fortes dores de cabeça, desmaiou nessa madrugada... Pode ser algo grave na cabeça.
-Isso significa que amanhã não teremos Ariano Bezerra! – Pasmou-se Haroldo.
-Ele não está em condições para escrever. O que faremos?
-Está muito em cima... E a coluna do Ariano é a mais lida e comentada do nosso jornal... Putz, estamos ferrados. – Lamentou Haroldo, oscilando pela sala.
-O povo irá entender. Publique um comunicado, dizendo o que aconteceu com ele.
-Ou não...
Haroldo se aquieta, e olha para Euclides.
-Eu acabo de ter uma idéia... Euclides, eu tenho consciência de que seria inapropriado colocá-lo na publicação de amanhã, pois o povo anseia pela coluna do Bezerra, e ficariam bastante irritados ao ver que o texto é de sua autoria.
-O que está pensando em fazer... – Disse Julia, temendo muito pelo o que o editor ia decretar naquele instante.
-Vamos publicar a crônica de Euclides em nome de Ariano Bezerra.
Julia quase caiu da cadeira, perplexa.
-Como???
-É isso, dona Julia. Está decidido. As escritas deles são semelhantes. Ninguém irá sequer suspeitar. Na semana que vem, Ariano já estará recuperado, e Euclides terá seu dia exclusivo. O que me diz, Euclides?
Euclides estava estático. Pálido. Ele sorriu, e, como se tivesse acabado de ingerir uma dose tripla de contentamento; como se esta alegria e satisfação fossem os ingredientes que faltavam na receita de sua vida; como se agora sim, se sentisse um homem completo. Ele respondeu:
-Eu concordo, senhor. Eu serei Ariano por um dia – Ele ri, embasbacado – E Ariano será eu, por um dia. Seremos um só.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA...
domingo, 6 de setembro de 2009
Segundo selo!

Liscabão, por João Luiz Neves Loureiro
Cacarinas, por Andréa Amaral
Condizer, por Sidarta Cavalcante
Basílio poeta, por Camilíssima Furtado
Na cabana com Jacob, por Lohan Lage Pignone
Barquinhos de papel, por Juliana künzel
Aos Blogs e seus respectivos escritores, parabéns! Aos leitores, visitem estes blogs, pois eles com certeza mereceram este selo!
Se...

Se minhas explicações respondessem...
Se sanassem as questões que me perguntasse...
Se você me ouvisse e então compreendesse...
Se suas palavras me arranhassem e não me ferissem...
Se sua certeza anulasse o medo que eu sentisse...
Se você pudesse segurar a minha mão e assim me conduzisse...
Se eu pudesse te mostrar tudo aquilo que eu dissesse...
Se as inseguranças bobas tua paixão anulasse...
Se você tivesse coragem por dois, acaso me faltasse...
Se com o calor da tua presença a minha face corasse...
Se além dos teus olhos eu enxergasse...
Se antes mesmo que pedisse eu me entregasse...
Se tudo o que sou já lhe pertencesse...
Se minha língua e a tua em um beijo se encontrassem...
Se teu hálito em meu pescoço me arrepiasse...
Se teu tesão e o meu se multiplicassem...
Se minhas curvas tua mão apalpasse...
Se minha pele de prazer suasse...
Se meus poros teu perfume exalasse...
Se minha carne e a tua se unissem...
Se entre minhas coxas eu te abrigasse...
Se nossos corpos perfeitamente se encaixassem...
Se nossos corações ritmados pulsassem...
Se minhas unhas em tuas costas eu cravasse...
Se obscenidades em teus ouvidos eu sussurrasse...
Se todos os desejos se saciassem...
Se completamente satisfeita eu sorrisse...
Se em teu peito adormecesse...
Se ainda que não dormisse, eu sonhasse...
Se as hipóteses verdade se tornassem...
Se nossa história então eu escrevesse...
Se o pretérito imperfeito não bastasse...
Se o futuro então nos permitisse...
Se você realmente quisesse...
Se você...
Se...
sábado, 5 de setembro de 2009
Andorinha
Ser livre!!
Queria sair a ver os sete cantos do mundo.
Eu queria ser como a borboleta,
Que sabe esperar o seu tempo.
Onde a flor exala o cheiro do amor
Embelezando a vida sem pudor
Queria ser como a águia
Que vai pra bem longe daqui.
Maneira boa de apaziguar o que ainda dói aqui.
Queria ser como a andorinha
Que traz a boa nova,
Anuncia o calor e dá- nos uma lição,
De que sozinhos nada somos,
Porque só quando somos mais
É que somos um.
Por isso como a andorinha,
Eu te espero
Para que juntos possamos fazer
O mais lindo verão!
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Abençoado por Deus e bonito por natureza!
Após ler esta maravilhosa crônica postada ontem (quinta-feira) da nossa querida Andrea, meu coração começou a bater mais forte, vários pensamentos recorrentes ao nosso querido Brasil começaram a invadir minha mente de modo que me senti com o dever de postar aqui algumas impressões pessoais a respeito da nossa situação.Há pouco mais de quinhentos anos os portugueses chegavam aqui em nossa abençoada terra, trazendo o “progresso”, doenças e um monte de degredados que vinham desde o começo da colonização extrair nossas riquezas. Através do escambo como citou muito bem nossa querida companheira Andréa, deixavam algumas quinquilharias (chocalhos, espelhos e apitos) e levavam toneladas e mais toneladas de nossa preciosa madeira. Na carta que Caminha escreveu ao Rei D. Manuel descrevia nossos índios como: “pardos, nus, sem coisa alguma que cobrissem suas vergonhas”, e eles, os civilizados chegando com suas roupas pomposas e malcheirosas, trazendo já consigo o espírito da pilhagem e da ganância ainda não tinham nenhuma vergonha e nem noção da mina de ouro que haviam encontrado, com o tempo foram dando cada vez mais importância à nova “descoberta”, principalmente ao perceberem que outros saqueadores (digo exploradores) das terras alheias começavam a chegar querendo levar um pouquinho dessa riqueza. E assim ao longo da linha do tempo esse nosso Brasil vem sendo explorado e saqueado por diferentes gatunos, que se revezam no poder de acordo com a história. Assim o povo brasileiro foi crescendo acostumado a ser saqueado, e nas vezes que começou a dar algum sinal de despertar foi censurado perseguido, ameaçado e muitos morreram por querer um país melhor, mais justo, por defender uma soberania com liberdade.
Herdamos de Portugal o Sebastianismo, que se traduz na inconformidade com a situação vigente e numa expectativa de salvação, é a espera por um herói salvador, espera essa alimentada pelo sofrimento, pela tragédia e pela esperança de dias melhores. Em nossa história tivemos a necessidade de termos o nosso D.Sebastião, encontramos em Tiradentes o herói revolucionário que se transformou no mito da liberdade que foi morto e esquartejado, deixando um exemplo para o povo do que o que acontecia com quem se voltava contra o “sistema”, o tempo passou e enfim tivemos uma “Independência” e depois uma “República”,mas a liberdade ainda não chegara,atravessamos políticas do café com leite, ditaduras e mais ditaduras e quando finalmente começamos a ver uma luz no fim do túnel com o movimento “Diretas já” ao termos novamente a possibilidade de eleger o nosso representante, o ingênuo povo Brasileiro se deixa ludibriar pela mídia principalmente televisiva e coloca no poder um produto de marketing sem caráter, nem compromisso com o carente povo brasileiro, esta mesma quadrilha que o colocou no poder e mais uma vez usando a máquina do poder e da alienação chamada televisão o tira do cenário num processo em que o povo foi pra rua e de certa forma,mesmo com toda uma manipulação por traz ,mostra sua força, mesmo sem saber.
Após esses fortes acontecimentos que nos davam sinal que algo de bom estava por vir, fomos acometidos por mais uma anestesia, dessa vez econômica chamada “plano real”, nosso país mergulha num período de letargia, onde um grande professor e “sociólogo” vende nossas riquezas a preço de banana para o capital estrangeiro que em troca de alguma tecnologia em prol dessa “maravilha” chamada globalização nos faz pagar ainda mais por precários serviços básicos.
Mais uma vez o povo decepcionado e ainda a espera do seu D.Sebastião consegue em mais uma demonstração do que esse povo é capaz, eleger o homem do povo, nordestino, metalúrgico e sindicalista que em sua história se destaca por defender as classes menos favorecidas. Finalmente, após várias derrotas, ele e seus “companheiros” aprendem a usar o marketing a seu favor e tocando no coração do brasileiro ansioso por uma grande mudança, consegue chegar ao poder, depois da grande festa da vitória da esperança sobre o medo, o povo começa a esperar pelas tais mudanças que chegam dessa vez, infelizmente em forma de assistencialismo eleitoreiro e o nosso “salvador” governa em meio a inúmeras denúncias e escândalos de corrupção envolvendo seus aliados que outrora eram ícones da honestidade da ética e que agora se vêem acusados, caçados e perseguidos publicamente e o nosso Sebastião da vez, infelizmente de nada sabia... Nosso herói agora é situação e para permanecer como tal,virou camarada(ou companheiro se preferir) daqueles que tantas vezes chamou de ladrão.
Hoje em dia somos alimentados pelas informações que nos chegam principalmente via televisão, jornais e internet, à medida que sabemos de alguma denúncia, recebemos uma boa notícia da Petrobrás e da riqueza que temos no pré-sal, além disso, em anos de eleição temos Olimpíadas ou Copa do mundo, pois como na Roma antiga o povo precisa de “pão e circo”.
Nas próximas eleições por algum motivo incomum ou sobrenatural, já nos esquecemos de tudo e eles estarão lá de novo, como nossos representantes e nós, Brasileiros, não perdemos a esperança, pois moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Felicidades e Esperança!
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O orgulho de ser brasileira.
Amo uma terra de clima tropical, onde tudo que se planta, dá...como bem atestou Caminha em suas cartas.
Agora podemos dizer que além do óbvio, plantamos muito bem a corrupção, a roubalheira discarada em nome do afeto de um vovô pela netinha, a falta de ética e a mentira em todo e qualquer meio ambiente. Sim , porque não podemos falar de ninguém sem nos incluir. Gostamos de estacionar em calçadas feitas para pedestres, damos jeitinho para furar fila, pagar menos impostos, exportar prostitutas, explorar "los hermanos" que trabalham num regime escravocrata em confecções espalhadas pela Grande São Paulo (mas só lembramos dos nossos irmãos explorados em outros países; os daqui em terras latifundiárias nem nos damos conta); ignoramos a Cracolândia com pequenas crianças utilizando e vendendo drogas em plena luz do dia, como se fosse um fato corriqueiro que substiuti uma creche ou uma escola; vendemos nosso voto por uma dentadura ( pois quem precisa de dentes? ). Idolatramos ídolos que se vendem no exterior e mal se lembram que são brasileiros com os milhões que ganham, enquanto aqui, o bolsa família é comemorado como se fosse um prêmio da Loto (inclusive por quem o ganha sem nunca dele ter necessitado).
Tivemos a cara de pau de reeleger para o Senado um ex-presidente que sofreu Impeachment... Queremos criar nossas filhas para aprenderem a sacudir as bochechas traseiras feito a dançarina do Tchan que acha que Nova Iorque é o melhor "país" do mundo; somos fãs de cantores com vozes de taquara rachada, que arrepiam qualquer cidadão de bom gosto com tamanha falta de talento. E por aí vai. Cansei. Se eu for continuar, a listagem é in-ter-mi-ná-vel!
E para piorar, pagamos cinco mil reais à uma cantora em fim de carreira, símbolo da Jovem Guarda, para assassinar o nosso lindo e também piegas Hino Nacional, na Assembléia Legislativa de São Paulo, sob aplausos sem graça de seus membros sempre políticamente "corretos", enquanto todos observavam a sua falta de respeito pela pátria, de tão chapada a dita cuja se encontrava. Só dizendo: Vaza, Vanusa!
Onde é que iremos parar? Os mais idealistas e chatos de plantão, irão querer colocar a culpa de nossa mediocridade generalizada em prol de qualquer notinha de um real, no capitalismo desenfreado e desumano com a chegada do industrialismo; outros continuarão dizendo que a culpa é dos miseráveis americanos que se acham donos do mundo e adoram explorar o terceiro mundo....mas eu não! A culpa é do nosso DNA. Carregamos o sangue indígena que adora trocar algo de valor por um espelhinho (viva as aparências - quinze minutos de fama e um botox são TUDO!). Temos os genes portugueses que queriam se dar bem nas trocas fazendo "os bobos de bobos" e tirando na marra, dos que não queriam trocar. (Lembram do fulano "Maluf" entre tantos outros?). Temos os genes católicos que adoram catequizar os nossos neurônios em prol de uma natalidade que prega "vida", enquanto uma pílula para controle desta natalidade não pretendida, salvaria milhares de crianças que estão largadas neste mundo, inclusive pela própria igreja, levando uma vida digna de vegetal, onde melhor seria nem ter nascido. Esta mentalidade burguesa "cristã" onde a minha verdade é a única verdade, também não é um tipo de fundamentalismo sem armas? (Talvez a pedofilia entre os padres seja uma forma de sexo seguro). Temos os genes dos africanos, que se iludem com qualquer coisa que os faça rir: uma bola no pé, um tambor pra tocar e uma sombra para dormir estão ótimos (Para que brigar? É só me dar a cota universitária, nem preciso saber ler para ter nível superior).
Aliás, nível superior hoje em dia, é o diploma universitário que compramos para que mais tarde tenhamos o direito "se por acaso formos presos algum dia" a algumas regalias que todos os políticos, magistrados e traficantes de carreira tem.
Toquei em outro vespeiro: a justiça. Os titulados nesta área estão de parabéns! Se tornaram uma unanimidade nacional. Quem tem diploma de advogado, tem garantia premium de impunidade, com direito a ser levado de helicóptero para o hospital mais próximo, enquantos as vítimas do seu alcoolismo e de sua falta de vergonha na cara é que foram obrigados a fazer o teste do bafômetro, mesmo já estando mortos e sendo as vítimas. Só no Brasil... Mãe gentil. Mesmo. Só mãe defende o próprio filho que não vale nada, tipo os "boyzinhos" dos condomínios de "lixo", que ateiam fogo em mendigo, desfiguram uma trabalhadora confundindo a mesma com uma prostituta, como se o fato deles terem grana e suas vítimas serem pobres, lhe dessem o direito de os matarem. Mas o dinheiro compra tudo mesmo, para quê se importar em jogar a "minha" filha do quinto andar? O vovô é "advogado" e só porque a mídia exaustivamente manipulou nossa piedade por um caso que também acontece as centenas diariamente e ninguém se toca, é que os bonitinhos - papai e madrasta com nível superior, foram parar na cadeia.
Ser pilantra, saber roubar com estilo e cara de óleo de Peroba são as profissões do futuro no país. Não basta roubar. Tem que fazer pós e doutorado no assunto. Desta maneira, a impunidade fica mais garantida ainda. Bandido também é ser humano, não esqueçam. Temos que zelar pela integridade de todos, até que a justiça se cumpra. E viva o Rabil! Digo: Brasil.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O relógio suíço
Bem, é preciso ressaltar que esta frase foi repetida inúmeras vezes: na França, enquanto visitavam o Louvre, na Alemanha, ao fotografarem o recém demolido muro de Berlim, na Itália, onde passearam por entre os canais de Veneza.Sua esposa, Marinete, já se encontrava no limite da razão, afinal de contas, planejara aquela viagem como uma segunda lua de mel, e seu amado só pensava e só falava no tal relógio suíço que iria comprar assim que chegassem a Suíça.

