segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Girassol
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Vendedor de bilhetes
É claro que nem todos se sentiriam bem com uma pergunta assim, mas o olhar do garoto trazia uma segurança estranha, confidente, quase hipnótica, qualquer um se veria dizendo mesmo que não quisesse. Ele ouvia calado, os olhos atentos à cada gesto, ao fim , agradecia com um sorriso e levantava-se de volta à rua. Gritava ainda mais alto, sentia-se abastecido, pensava consigo mesmo, estaria vendendo bilhetes ou sonhos?
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Segunda, segundo.
Segunda começo o regime.
Segundo lugar.
Segunda chance.
Segundo infarto.
Segundo tempo.
Segunda... Um dia comum.
Segunda é feriado.
Segunda pago as contas.
Segundo passa rápido.
Segunda ele vem.
Segundo mudou tudo.
Palavra segunda, palavra segundo.
Saudades segunda. Segundo saudades.
Segunda faço tudo. Segunda tudo acabou.
Um segundo para pensar.
Um dia de muitos segundos.
Segunda passando, indo embora.
Escoando segundos.
Hoje não importa.
É segunda de Carnaval.
Confetes e serpentinas.
Nem vejo passar as horas.
Amanhã será outro dia.
Segundos de folia.
Segunda alegria.
imagem Andréia Designer
O homem que queria ser outro - ÚLTIMO CAPÍTULO (PARTE 1) - O homem

Amigos leitores,
Sei que falhei em meu comprometimento para com todos em relação a publicação da história "O homem que queria ser outro", a qual vinha publicando regularmente a cada semana. Tive muitos contratempos durante dos dois últimos meses, os quais contribuíram para que eu me ausentasse e não desse a atenção merecida a essa história que vem sendo acompanhada por vocês já há um bom tempo.
Não sei se irão me perdoar por isso, rs, espero que o final seja compensador! Ele já está escrito há algum tempo, mas precisava de alguns reparos...
O último capítulo, devido o tamanho exarcerbado, foi dividido em duas partes. A primeira será postada agora, e a segunda logo em seguida. Antes, para me redimir um pouco e refrescar a memória de todos que acompanham a história, preparei um ''resumão'' de tudo o que aconteceu até então. Vale a pena conferí-lo antes de mergulharem no ultimo capitulo.
Obrigado, e, mais uma vez, me perdoem. Boa leitura! (Lohan Lage Pignone)
Resumão em apenas 15 tópicos:
-Ariano Bezerra e Euclides dos Santos tornaram-se melhores amigos na faculdade de Jornalismo. Ariano intercede por Euclides em seu local de trabalho, o jornal “Boca do Povo”. Ariano é apaixonado por Lia Neide, uma das secretárias do jornal. Euclides começa a desenvolver uma inveja sem igual de Ariano, ambicionando tudo o que o amigo possui, seus talentos, sobretudo o da escrita, e o que ele pode vir a conquistar.
-Ana Lucia e Julia são personagens vinculadas aos protagonistas Ariano e Euclides. Ana Lucia é colega de faculdade de ambos, tem um filho de oito anos, chamado Pietro, e é casada com o delegado Regis. Ela, uma mulher aparentemente depressiva, que se inunda de bebida alcoólica para fugir dos problemas, desenvolve uma boa amizade com os garotos, os quais ela muito admira. Alimenta o sonho de que seu filho será como eles quando crescer. Já Julia, redatora do jornal Boca do Povo, é grande amiga de Ariano e Lia Neide. Ela não simpatiza com o mais novo contratado Euclides.
-Lia começa a ser cercada por Euclides, que aos poucos vai se aproximando e demonstrando interesse na jovem. Lia Neide é uma jovem cuja vida anda rodeada por tragédias. Seu pai falecera recentemente, e seu namoro foi terminado logo em seguida. Ela se fecha para qualquer tipo de relacionamento amoroso, acirrando a batalha invisível entre Ariano e Euclides.
-Julia nota o interesse de Euclides em Lia Neide, e o quanto ele é falso com Ariano. Ariano se acidenta na escada da Universidade, devido um olhar de mau agouro de Euclides. Ele fica internado e, ao deixar o hospital, recebe recomendações de que precisa repousar e não sofrer fortes emoções, pois havia sofrido uma pequena lesão na cabeça.
-Lia Neide sofre perseguições de seu ex-namorado, Adalberto Rangel, homem por quem ela ainda guarda um sentimento. Ariano é provisoriamente afastado de sua função no jornal, dando espaço a Euclides, que almeja seu cargo de cronista literário. O editor chefe, Haroldo, cede este lugar a Euclides, a contragosto de Julia.
-Euclides publica no dia de Ariano e recebe muitas críticas. Enfurecido, ele rebate a todas, vorazmente, sendo flagrado por Julia. A essa altura, o personagem já assumira totalmente a postura de antagonista, demonstrando seu caráter através de mentiras, como o roubo da autoria da poesia de Ariano, a qual deu a Lia.
-No capítulo quatro, descobrimos o passado negro que assola a família de Euclides. Apresenta-se o clã dos Santos Figueiredo: Amália, sua mãe; Rodolfo, seu pai; e Hilda, sua avó paterna. Descobre-se que Euclides assassinara o irmão mais velho afogado numa piscina devido sua obsessão por reconhecimento e preferência. Hilda revela saber de toda a verdade, e acaba sendo assassinada pelo neto, que a joga da escada duas vezes. Agora, Euclides é mais do que um jovem invejoso e complexado: agora ele se mostra como um psicopata frio e calculista.
-Euclides se aloja na casa de Ariano por uma noite, e dá prosseguimento as suas armações, que agora viriam uma seguida de outra. Ele altera o medicamento de Ariano. No jornal, ele presencia uma discussão entre Lia e Adalberto. Planeja habilmente um modo de descartar o ex-namorado da jogada, ao ouvir de Lia que ela ainda o ama. Ele rouba o celular da jovem e envia uma mensagem a Adalberto, se passando por ela. Marca um encontro fatal, na praia do Leblon. Lá, Adalberto é friamente assassinado.
-Euclides vai se hospedar na casa do tio, Charles. No velório de Adalberto, ele surge para apoiar a mocinha Lia, que sofre muito com mais esta perda. A essa altura, Julia alerta a Ariano sobre o caráter dúbio de Euclides, e pede que o jovem permaneça atento. Ela diz ainda que sua missão é protegê-lo enquanto estiver viva. Euclides passa a receber mensagens anônimas em seu celular; mensagens que o ameaçam caso ele não se revele um grande criminoso.
-Vitor, melhor amigo do finado Adalberto Rangel, acusa Lia de tê-lo assassinado. O delegado Regis entra na história. Walter, pai de Ariano, assume o papel de advogado de Lia.
-Charles se recusa a ser álibi de Euclides ao desconfiar de que o sobrinho seja realmente culpado pelo crime que mobilizou o país. Euclides, acuado, mata o próprio tio, escondendo o corpo no porão da casa. A essa altura, Lia, Ariano e companhia já começam a desvendar as falcatruas do vilão, pondo em xeque a amizade entre Ariano e Euclides.
-Lia recebe ameaças de morte por telefone de Vitor. Euclides se demite do jornal, e no mesmo dia, recebe uma grande surra de seu pai, que o acusa, com base no testemunho do porteiro e de uma vizinha, de ter assassinado a senhora Hilda. Ariano fica balançado entre a amizade de Euclides e o amor de Lia. Não sabe em quem confiar.
-Ana Lucia deve manter segredo a respeito do seu casamento. No entanto, ela, que ainda confia em Euclides, vai visitá-lo no hospital e lhe conta sobre o aniversário de Ariano no dia seguinte, do qual ele não seria convidado. Regis aparece por lá e ela precisa se esconder às pressas do marido. Ariano tem mais uma prova da canalhice de Euclides: descobre que o amigo roubou sua poesia para dar a Lia.
-Euclides comparece no aniversario de Ariano, constrangendo a todos. Ariano se mostra superior, e o humilha com sutileza. Ariano ganha um carro de presente dos pais. Euclides é obrigado a presenciar o talento de Ariano expressado através da música, e sofre ao perceber que ele tem todo o reconhecimento da família, além do amor, o qual nunca recebera. Euclides agarra Lia a força na cozinha, e a beija. Os dois são flagrados por Ana Lucia, que por sua vez, contaria o que viu a Ariano.
-Ariano corta relações com Lia e Euclides, acreditando que ambos tramam contra ele. Desesperado, ameaça se jogar de um penhasco, mas é salvo por Rebeca, uma surfista que, através do diálogo, consegue fazê-lo mudar de idéia. Euclides contrata homens para seqüestrar Lia Neide. Ariano anuncia que vai matar Euclides.
ÚLTIMO CAPÍTULO - PARTE 1 - O HOMEM
Não havia ninguém em casa além dele. Era segunda de manhã. Seus pais haviam saído a compromisso.
Entrou no quarto dos pais com uma determinação nunca antes tida. Um objetivo maquiavélico, que não condizia com sua índole benévola.
Abriu e revistou todas as gavetas da cômoda; o próximo passo foi o guarda-roupa. Uma das gavetas inferiores possuía um fundo falso, como já previra. Retirou-o, e encontrou uma pequena caixa de sapatos. Abriu a caixa... Lá estava ela... Sua procura foi extremamente bem sucedida. Aquela mão delicada apanhou cuidadosamente o objeto que torna um homem dois homens. Um revólver, calibre 12, rutilante. Estava envolto num lenço de cor branca. Ao lado, um pequeno estojo de cartuchos.
-Touché.
Vitória? Talvez não. Somente o fim da história poderá dizer quem será o vitorioso e o derrotado. Euclides? Não. Este o qual me referi acima se chama Ariano Bezerra. E o fim... Eis o final que tanto se esperou.
Tudo ocorreu de forma agressiva, abrupta. Duas viaturas, seis policiais, incluindo o delegado Régis. Praticamente, a casa do cidadão fora invadida. Tomava café com sua mãe quando foi imobilizado por um policial, algemado e levado para a delegacia.
-Pelo amor de Deus, o que ta acontecendo? O que estão fazendo comigo?!
-Soltem o meu filho, ele não fez nada! – Gritava a mãe, acompanhando os policiais.
Vitor foi empurrado para dentro de um dos carros da polícia. Estava desnorteado. O delegado sentou-se no banco da frente.
-Delegado, eu não fiz nada com a Lia, eu juro.
-E por acaso alguém aqui disse que aconteceu algum incidente com a Lia? Você disse, Mandrake? – Indagou, sarcástico.
-Não senhor, chefe. – Respondeu o policial ao volante.
-Mas então... Por que isso?
-Na delegacia a gente conversa. Toca aí, Mandrake.
Euclides está sentado em uma cadeira de praia, sob um guarda-sol, avistando de não muito longe o mar calmo que quebrava suas ondas nos pés dos banhistas que por ali se divertiam. De óculos escuro, sem camisa e de bermuda, Euclides aproveitava o dia ensolarado com ares satisfeitos e tranqüilos. Ao lado, na areia, um coco furado com um canudo.
-E aí, meu irmão? Cumpriu direitinho o combinado? – Disse pelo celular, após discar pacientemente o número do receptor.
-Tudo na moral, bicho. Aqui não tem vacilão não, ta ligado?
-Estou mais ligado do que imagina. Bom saber que não tem vacilão, não to cuspindo dinheiro não. E ela, como está?
-Coé, ta preocupadinho com a mina?
-Eu amo essa menina, portanto, não quero um arranhão nela, entenderam?
-Ama? Valeu... Ela ta nervosinha... Mas ta segura, e em boas mãos...
-Não toque nela, ouviu bem?! A noite finalizamos o plano. Fiquem atentos.
-Xá com nós. Parceiro do Aranha é parceiro nosso.
-Assim que se fala. Até a próxima ligação.
Euclides fecha o celular, com um sorriso escapando dentre os lábios.
-Lia, Liazinha... Nossa hora vai chegar.
Lia estava trancafiada em um cômodo escuro, amarrada em uma cadeira e amordaçada. De seus olhos esquivos, lágrimas escorriam. Um negro forte e truculento abriu a porta ruidosa do cômodo, entrou e foi lentamente ao seu encontro. Ele abaixou-se, equiparando à sua altura na cadeira, afagou-lhe uma das faces e disse:
-Nunca raptei uma princesinha... Mas pra tudo nessa vida tem sua primeira vez, não tem, gracinha?
Lia gritou, mas sua voz foi completamente abafada pela mordaça. As lágrimas falavam pela sua boca, brotando incessantes dos olhos. Remexeu-se, tentando se livrar das amarras.
-Você tem cara de ser cabacinho... Que delícia.
Lia balançou a cabeça negativamente, em tom de desespero. Rogava para que ele não concretizasse a insinuação... O homem tocou a coxa de Lia, deslizando sua mão suavemente pela sua perna, em direção a seu órgão genital.
-Eu to doidinho pra ser o primeiro nessa lista... – Continuou, com uma voz repleta de tesão.
Nesse momento, Clóvis entra no quarto.
-Ei, Carlão, deixa a menina em paz! Sai fora daí, sai.
-E, qual é a sua, Aranha? Tu nem ta na jogada, ta fazendo o que aqui? – Retruca, tirando a mão da perna de Lia, que tremia feito vara verde.
-Eu indiquei vocês pro esquema, mas não quero sacanagem com o meu parceiro! A mina é dele, moro? Deixa ela quieta aí. Vem comigo.
Carlão lançou um último olhar ardente de desejo à Lia, passou uma das mãos em sua perna e levantou-se.
Clóvis olhou com compaixão para a Lia, que o encarou fixamente, com um olhar clemente. Clóvis desviou o olhar, retomou a postura e saiu do recinto com Carlão.
-Minha filha, seu desgraçado! O que você fez com a Lia!?
Esta foi a recepção de Vitor, na delegacia. Dona Beatriz estava muito exaltada, e tentou agredir o rapaz, que fora protegido pelos policiais.
-Tenha calma, senhora, calma!
Vitor foi levado, sem as algemas, para uma sala reservada pelo delegado Régis. Sentaram-se, um defronte o outro, separados por uma pequena mesa.
-O que está havendo, delegado?
-Onde está Lia Neide?
-Acredite em mim, eu nem sei o que está acontecendo! – Disse, ruborizado de raiva.
-A Lia Neide foi seqüestrada hoje pela manhã. Um Opala preto parou rente a ela e sua mãe que saíam juntas para irem ao mercado e a raptou. Um seqüestro relâmpago. Ela foi levada por dois homens encapuzados. Isso que aconteceu.
Vitor se mostra surpreso e confuso.
-Peraí... Quer dizer que... Não pode ser!
-Vitor, por enquanto estou mantendo a minha paciência com você. Eu não vejo em você um homem de má índole, se é que minha percepção não esteja ficando falha depois de velho. Eu apostei que você não arriscaria nada contra a integridade física da Lia depois daquela conversa que tivemos no sábado.
-Eu tive medo, aliás, eu to com medo... Eu posso parecer um machão, lutador, mas no fundo não sou assim. Eu ainda acho que a Lia é culpada pela morte do meu melhor amigo, não retiro nada o que disse. Mas retiro o que fiz. Agi por impulso quando eu a ameacei. Mas... Mas eu seria muito estúpido em cometer qualquer deslize com ela depois daquele papo que tivemos, certo? Eu simplesmente estaria pedindo pra ser preso!
-Você pode estar jogando comigo agora. Utiliza o argumento do “óbvio” para se apoiar.
-Preciso que acredite em mim... E de um advogado.
-Sim, você terá seu defensor. Vitor... Quem mais teria motivos para seqüestrar uma jovem tão doce, tão inofensiva?
-Inofensiva até que se prove o contrário. Sei que to sendo burro em insistir que ela é culpada, mas é a minha opinião. Isso não significa que eu tenha seqüestrado ela. Eu não seria tão idiota! Se eu pegasse essa menina, seria com minhas próprias mãos. Não ia pagar ninguém pra fazer isso.
-Quem teria motivos, Vitor?
-Não sei! Algum familiar do Adalberto, ou algum desafeto dela... Maldita seja esta pessoa que resolveu tramar contra ela justo agora! Aliás, isso é um caso a ser pensado, delegado. Quem garante que a pessoa que fez isso não tinha conhecimento das minhas ameaças?
-Eu já levantei essa suspeita... E vou investigar. Torça para que essa pessoa, se é que o criminoso seja mesmo outra pessoa, seja descoberta. Só assim você poderá sair da prisão.
-Eu vou ver preso?!
-Provisoriamente. O juiz analisou a situação e expediu um mandado de prisão temporária para você. Enquanto isso, vamos continuar averiguando, e tentando encontrá-la. Vitor... Se foi mesmo você, confesse agora. Quanto mais tempo demorar, pior será a sua pena.
-Eu não tenho nada a confessar. Podem me torturar, se quiserem.
-Nós não aplicamos estes métodos criminosos aqui. Mas existem outras maneiras de tortura, diferentes da física, que é a que você mais teme apesar de demonstrar tranqüilidade. Venha, vamos para sua nova moradia.
Vitor foi levado por um policial até sua cela. Logo sua mãe chegaria acompanhada por um advogado. Dona Beatriz estava aterrorizada. Regis a chamou num canto.
-Delegado, ele precisa dizer onde está a minha menina, delegado...
-Ele não vai dizer nada. Ele é inocente, Dona Beatriz.
-Como assim, inocente? Como...?
-Não foi ele quem mandou seqüestrar a sua filha. Não tenho provas que afirmem sua inocência, mas... Tenho uma boa carga de experiência.
-Então por que mandou prendê-lo?
-Pois ele estando preso teremos mais chances de pegar o verdadeiro culpado. Esta pessoa ficará relaxada, pensando que está a salvo com a prisão decretada do Vitor. Mas ela está enganada.
-Meu Deus... Como vamos descobrir?
-Com sua ajuda, e com a ajuda dos mais próximos a Lia. Se não for um seqüestro premeditado, o seqüestrador entrará em contato. Portanto, é melhor que permaneça em sua casa, juntamente com os policiais que enviarei para lá, entendido?
-Claro...
-Antes, gostaria de saber se a Lia teve algum desentendimento com alguém, seja no trabalho, com amigos, seja quem for. A senhora saberia me apontar algum caminho?
Dona Beatriz hesitou. Lembrou-se de Euclides, e das armações do rapaz para com a filha. Lembrou-se de Ariano também, e das duras palavras que dirigiu a Lia ao descobrir que ela e Euclides se beijaram dentro de sua própria casa.
-Sim, há dois caminhos que posso apontar, seu delegado. – Disse ela, com firmeza.
Ariano chega à delegacia com cara de poucos amigos. Estava acompanhado do pai, Walter. Fora chamado para depor sobre o desaparecimento de Lia. Estavam todos na sala de espera.
-Fique tranqüilo, filho. Não é culpado de nada, portanto, não há o que temer.
-Por maior que tenha sido minha raiva... Eu não chegaria a esse ponto, pai. Não com ela.
-Como assim, “não com ela?”.
-O senhor entendeu.
Ariano se afasta do pai, seguindo até o bebedouro da delegacia. Dona Beatriz se aproxima de Ariano, constrangida. Havia acabado de depor.
-Ariano... Quero que saiba que tenho muito apreço por você, e por sua família. Seu pai vem dando muita força à minha filha, e você também.
Ariano se vira para ela, após ter bebido alguns goles d’água.
-Gosta de mim e levantou suspeita contra mim? Não há uma contradição aí, Dona Beatriz? Acha mesmo que eu faria algo contra ela, mesmo depois da conversa que tivemos ontem lá em casa?
-Você não se mostrou agradável com a gente... O tempo todo impôs uma barreira contra a Lia. Não confiou na palavra dela em nenhum momento.
-Portanto, estamos quites. A senhora também não confia na minha palavra agora, confia?
-Eu confio, Ariano.
-Não é o que parece.
Ariano se afasta de Beatriz, voltando ao encontro do pai.
-Não fique magoado com ela, filho. Ela é mãe, está com os nervos à flor da pele. Você e a Lia tiveram uma grave... Ruptura, digamos assim, e calhou disso acontecer justo agora. Ela só está fazendo tudo que está ao seu alcance para descobrir o que aconteceu à sua filha.
Neste momento, Euclides entra na sala, com a rompância de costume. Estava levemente bronzeado, de aparência ótima. Nem parecia que ia realizar um depoimento nos próximos minutos. Surpreende-se ao encontrar a todos ali.
-Ora, ora, a cúpula está formada – Disse, em alto e bom som.
Walter repousa a mão sobre o ombro de Ariano, que explodia de ódio.
-Rapaz, saiba que não vamos cair nas suas provocações.
-Não estou provocando ninguém, estou?
Euclides olha para um policial que estava à porta, observando a situação.
Ele se senta num dos bancos encouraçados, disponíveis na sala. Beatriz, Walter e Ariano ficam a observá-lo com esgar.
-O que estão olhando, hein? Policial, estou me sentindo intimidado com tanta gente me olhando.
Ariano se aproxima de Euclides, olhando-o fixamente.
-Ariano... – Chama Walter, tentando detê-lo.
-Fica calmo, papai. Não vou fazer nada contra ele. A hora dele vai chegar, quando ele menos esperar. – Disse, sem desviar os olhos do crápula, que ria, cinicamente.
-Minha hora? Sim, falando nela, já se passaram dois minutos. Fui o mais pontual possível, pra que? Nada!
-Nunca pensei que fosse tão cínico e nojento.
-Por que essa raivinha aí, hein? O que mais te falaram a meu respeito? Devia estar me apoiando agora, como faz os amigos nas horas difíceis. Mas não. Fica aí, me encarando feito um cão raivoso. Pensei que você não fosse tão manipulável, Ariano. Mas agora começo a mudar de idéia...
-Você fala como se eu fosse um completo idiota, Euclides. Ou então, age na esperança de eu voltar atrás e ser reatar a amizade que tivemos. Você sabe que eu já sei das suas tramóias, e fica dando uma de santo! Mas eu vou te pegar, cara!
-Ouviu, policial? Estou sendo ameaçado aqui.
-Senhor, afaste-se, por favor. – Ordena o policial a Ariano.
-Filho, eu avisei pra não se alterar. Vamos sair daqui.
Walter leva Ariano consigo. Beatriz e Euclides trocam olhares eloqüentes. Ela também deixa o recinto, em seguida. Um minuto depois, Euclides é chamado para depor.
Euclides dos Santos. Delegado Regis. Ambos, frente a frente. O grande depoimento se inicia.
-Sr. Euclides, como se sente?
-Bem, obrigado. – Disse, demonstrando-se assaz confiante.
-Ótimo! – Sorri o delegado – Pois bem... Chega ser complicado iniciar este depoimento tão... Tão repleto de desdobramentos. Em cinco dias, uma turbulência de acontecimentos envolvendo você e algumas pessoas próximas a você têm movimentado os nossos trabalhos. A minha mente, principalmente. Sendo assim, vamos iniciar uma conversa informal antes de dar acesso às formalidades...
Regis pausou, movimentou uma caneta sobre a mesa e prosseguiu:
-Chega ser engraçado o rumo que as coisas andam tomando... Parece que... Parece não: há uma mão muito forte e controladora por detrás de todos esses acontecimentos. Uma mão que sabe exatamente quais peças moverem, bem como o momento em que elas devem ser movidas.
-Um jogo de xadrez, senhor.
-Sim, concordo. E, até então, um adversário poderoso leva muita vantagem sobre o outro... Mas o xeque-mate pode estar longe de acontecer para essa... Mente que mente. Enfim, é até difícil dizer de onde você deve iniciar seu depoimento. Você já foi acusado de dois homicídios, e agora...
-E agora?
-E agora está aqui.
Euclides desconfia do levantamento de Regis, imaginando que o delegado fosse mencionar o seqüestro.
-Euclides, Euclides... Diga onde estava no dia do assassinato de Adalberto Rangel.
-Eu estava na casa do meu tio, Charles.
-Você teria dito ao seu amigo Ariano que ia para um hotel, certo?
-Sim, mas mudei de idéia. Não tinha grana suficiente pra bancar hospedagem. Meu tio sempre gostou de mim, e no dia da morte de minha avó, ele me ligou e me ofereceu estadia caso eu precisasse.
-Por que ele te ofereceu estadia?
-Simplesmente porque ele presenciou a minha discussão com meu pai no velório.
-Qual a sua relação com este seu... Tio?
-Comigo, sempre foi boa.
-Por que, com outras pessoas da família ele tinha uma má relação?
-Meu tio Charles nunca foi bem quisto na família, digo, desde a morte do meu irmão.
-Hum... O que houve com seu irmão?
-Ele morreu afogado em uma piscina quando tinha dezessete anos. Meu tio estava próximo, e não correu para socorrê-lo. Era uma festa, e ele estava bêbado. Mesmo assim, a família o considera culpado.
-Que coisa... – Murmurou, cofiando o bigode – E por que você seria a exceção da família quanto a seu tio?
-Simplesmente porque discordo das acusações contra ele. Coitado, ele não teve culpa de nada.
-Realmente é uma acusação pesada e injusta. Como ele suporta essa acusação? Ele sofre por isso?
-Sofrer, eu acredito que sim... Mas não fala com meus pais há tempos. Além do mais, costuma afogar as mágoas em bebida e no trabalho.
-Em que ele trabalha?
-Ele é aposentado, mas trabalha como pintor. Na verdade, seria mais um hobbie do que um trabalho. Uma válvula de escape.
Regis se levanta da cadeira e caminha até o respaldo da cadeira onde Euclides se sentava.
-Pelo o que posso notar, você nunca teve um bom relacionamento com seus pais, teve? Essa briga com seu pai, essa discordância deles...
-Assuntos de família não vêm ao caso no depoimento, vem? Acho que já disse o suficiente sobre este bendito clã...
-Ok, Euclides. Quero que me diga o endereço do seu bondoso tio.
-Claro.
E assim Euclides o fez, sem mentir.
-Então tem um álibi, certo? Porém, um álibi suspeito. Primeiro que se trata de um parente. Segundo, que, mesmo estando na casa de seu tio, você poderia ter saído durante a madrugada, tranqüilamente, e ido assassinar Adalberto.
-São suposições. Quero saber onde estão as provas.
-É, você está certo! Onde estão as provas? – Gracejou, ironicamente.
-Quero fazer uma ressalva: eu não tenho álibi. O meu tio viajou e deixou a chave da casa comigo. Ou seja, na noite do crime, ele já havia deixado a casa. Eu fiquei sozinho.
-Olha, que novidade! Seu tio confia mesmo no sobrinho que tem, hein! Para onde ele viajou?
-Ele disse que ia para o interior, passar uns dias. Só não disse onde. Disse que precisava espairecer um pouco, andava estressado. Ele confiava mesmo em mim.
-Ele tem outra residência no interior do Estado?
-Não.
-Quero me dê o número do telefone dele no final do depoimento. Agora... Você poderia me dizer por que discutiu com seu pai no velório da sua avó.
-Isso vai influir no caso? Que eu saiba, o caso é Adalberto Rangel.
-Eu utilizo o artifício que eu bem entender, garoto. Por que está se esquivando dos assuntos familiares agora?
-Porque são condizem com o caso.
-Quem sabe se condiz ou não sou eu. Agora diga o que aconteceu naquele velório.
-Meu pai ficou furioso comigo por eu ter saído de casa naquela noite. Havíamos discutido em casa. Eles saíram para jantar, sei lá. Fiquei sozinho com minha avó. Saí, não quis dormir em casa. Então... Ela se acidentou e ele achou se eu estivesse lá, ela poderia ter sido... Salva.
-Para onde foi naquela noite?
-Para a casa do Ariano, meu... Ex amigo.
-Ex amigo... Espere um pouco: foi para a casa do Ariano na terça-feira à noite, certo?
-Sim, por que?
-Porque no dia seguinte não retornou para lá, uma vez que já tinha ficado uma noite? O que te impediu de voltar para lá na quarta-feira à noite?
-Nada me impediu. Foi uma questão de escolha, eu precisava ficar... Mais sozinho, se é que me entende.
-Estando na casa do Ariano, você não teria como executar o assassinato. Não teria como sair de sua casa sem que ninguém o notasse.
-Está me acusando levianamente, delegado. Está se aproveitando da minha vulnerabilidade, não está? Estou aqui de cara limpa, sem advogado, nada. Mas saiba que me garanto, e conheço bem os meus direitos.
-Bom garoto. Admiro sua coragem... Eu não o acusei. Apenas levantei uma suposição em voz alta.
Os dois sorriram em meio ao ar tenso. Regis retornou para sua cadeira.
-O que fez depois que deixou a casa de Ariano na quarta-feira?
-Eu fui para o trabalho, no jornal. Chegando lá, me deparo com a Lia discutindo com o falecido Adalberto na portaria do prédio. Ela parecia bastante irada com ele, a ponto de lhe dar um tapa na cara.
-Sim, e depois?
-Eu subi, fui avisado da morte de minha avó. Fui à sala da Lia, a convite dela, para fazer uma ligação. Em seguida, saí.
-Para onde?
-Fui para o velório da minha avó. O resto... O senhor sabe.
-Não tomou posse de nada que pertença à senhorita Lia?
-Absolutamente não. A Lia Neide planejou tudo, a meu ver. Ela não me chamou a toa até a sua sala. Caí na armadilha daquela loba em pele de cordeiro. Ela mesma ocultou o tal celular e agora me acusa de tê-lo roubado.
Regis deu uma gargalhada.
-Contei alguma piada, delegado?
-Não, não... É que há uma contradição nisso tudo. Quero que você defina para mim a sua relação com a ex-namorada de Adalberto Rangel: a Lia Neide.
-Eu era amigo dela. Nos conhecíamos do jornal.
-Só isso? E no momento, qual a sua relação com ela?
-Já sabe do beijo, não sabe? Sua esposa presenciou tudo... – Jogou Euclides, fingindo constrangimento.
-Como sabe que Ana Lucia é minha mulher?! – Indagou Regis, desviando o rumo do interrogatório.
Euclides sorriu.
-Oh, seu delegado! Imaginei que ela tivesse contado ao senhor... – Dissimulou.
-Contado o que?
-Eu não queria te dizer isso, principalmente neste momento, tão delicado... Nem vem ao caso, mas...
-Diga de uma vez, Euclides! – Exasperou.
-A sua mulher, Ana Lucia... Ela estuda comigo, você deve saber. Mas não deve saber que ela é louca por mim. Ela já propôs traí-lo comigo.
Regis ameaçou levantar da cadeira e pular sobre Euclides. A redatora do depoimento ergueu os olhos, assustada com a declaração do suspeito.
-O que pensa que é, seu... – Regis fechou a mão direita, controlando sua raiva - Está tentando tirar a minha concentração do caso, mas está tirando a minha paciência. E saiba que isso está longe de ser bom para você. Não queira me ver irritado. – Disse, trincando os dentes.
-Estou sendo sincero, apenas. Como eu saberia que ela é sua esposa se ela mesma não tivesse me confiado esse segredo? Ela foi até me visitar no hospital da última vez, aquela, em que o senhor foi me intimar. Sabe onde ela estava naquele momento em que entrou no meu quarto? Debaixo da minha cama, escondida. Ela o viu chegando e correu para lá. Quase que o senhor flagra... Um assédio, eu diria.
Regis dá um forte murro na mesa, agora encolerizado.
-A Ana Lucia jamais desejaria um homem que não fosse eu!
-Por que é tão convencido? Que prepotência dizer isso! Ninguém pertence a ninguém, delegado. – Continuava Euclides, perfidamente – Pra sua sorte, ou azar, não sei, eu me recusei a ter qualquer coisa com sua esposa. Ela não faz meu tipo.
Regis deu um salto da cadeira e foi até Euclides, agarrando em seu colarinho.
-Seu desgraçado, você conseguiu me deixar muito irritado!
Um dos policiais que estava à porta percebeu o tumulto e correu para apartar. Ele se aproximou do delegado, que fez sinal para que o deixasse cara a cara com Euclides.
-Euclides... Seu plano não vai funcionar comigo... Conheço essa tática, cara. Eu não acredito em uma palavra que me disse. Não quer continuar falando de Lia Neide? O que ela é para você? Ela faria seu tipo, Euclides?
-Não. Ela é falsa. O senhor poderia me largar agora, delegado? Ou serei obrigado a denunciá-lo por agressão.
Regis hesitou e soltou a camisa de Euclides, recuando dois passos do suspeito.
-E o beijo? Como explica o beijo, Euclides?
Regis estava visivelmente atordoado. Suava às bicas.
-Quer um copo d’água, delegado? – Ofereceu o policial, ao notar seu estado.
-Não, eu estou bem. – Afirmou, não dando o braço a torcer.
Euclides o encarou com seus olhos epiléticos, com um sorriso quase explícito dentre os lábios. “Aposto minha vida que ele não pára de pensar um segundo sequer no que disse a respeito de sua mulher... Eu desconcertei todo o esquema dele”, pensava Euclides.
-Diga, Euclides. O beijo.
-Bem, tudo que tenho a dizer é que fui até a cozinha no momento em que Ariano estava tocando piano. Não suportava mais assistir aquela babação de ovo na sala. Então ela me seguiu, me abordou na cozinha e disse que era louca por mim, mas que não podia ficar a meu favor neste caso, pois era a vida dela que estava em risco. A Lia sempre foi apaixonada por mim, desde que me conheceu. Só que eu nunca dei margem para ela se aproximar mais intimamente de mim.
-E por que não daria, Euclides? Ela é uma bela moça, não acha?
-Não se trata de beleza. Trata-se do meu caráter. Eu era o melhor amigo do Ariano, e sabia que ele é tremendamente apaixonado por ela. Eu jamais trairia meu amigo. – Disse, de uma forma tão convincente que chegou a arrepiar o delegado.
-Euclides... O que está afirmando é muito sério. Saiba que se estiver mentindo, eu vou descobrir.
-Certamente ela e sua patota negará. Negará até a morte, aquela falsa. Quando sua esposa nos flagrou, ela fez uma encenação espetacular. Aliás, com aquela carinha de santa, ela engana sempre, a todos. Pobre Ariano... Não sabe a quem dedica seu amor.
-A Ana não soube me dizer com certeza, mas... Segundo o que ela se lembra, você disse algo parecido com: “em breve todos saberão de nós”.
-Sim. Eu quis dizer essa relação de gato e rato que temos. Mas disse isso repreendendo ela, como quem diz: se você continuar agindo assim, vão pensar que somos um casal e que manipulamos juntos toda essa situação’’.
-Estou começando a contemplar esta hipótese.
-Eu não mataria o ex-namorado dela para ficar com ela.
-Ela disse que ainda o amava, e disse que confidenciou isso a você um pouco antes do desaparecimento do celular dela.
-Acredita nisso? Uma hora ela dá um tapa na cara dele, noutra ela diz que ainda o ama? Não é meio controverso? Aliás, não acha meio inadequado ela me confidenciar uma coisa dessas logo que fiquei sabendo da morte da minha avó? Eu não estava com cabeça pra nada!
-Ela estava a fim de mim, esta é a verdade. Mas agora a verdade está vindo à tona, graças ao flagra da sua mulher.
-A mãe dela afirmou que foi você quem a agarrou na cozinha.
-Achou que ela dissesse algo que fosse contrário a isso? Como já disse: elas negarão até a morte!
-Você sente raiva da Lia, Euclides?
-Sinto.
-Teria coragem de ficar frente a frente com ela nesse momento, dizendo tudo isso olhando nos olhos dela?
-Sem problemas! Aliás, seria ótimo!
-Quando o Vitor disser aonde ela está, nós faremos isso.
-Como assim?
-Ela foi seqüestrada a mando do Vitor, amigo do Adalberto Rangel. Ele vinha ameaçando a Lia, foi preso hoje.
-Nossa... Incrível. – Disse, estupefato.
Regis o analisou com olhos de águia.
-Então você se considera a grande vítima, Euclides?
-Desde o início, eu sou a vítima dessa história.
-Quem é a vítima dessa história, Ariano?
-Todos são vítimas. Até mesmo os culpados. São vítimas da própria maldade que o cerca. – Respondeu Ariano, com propriedade. Pediu ao pai para entrar sozinho, alegando saber se defender.
-Sim, concordo com você... A sociedade provoca a doença que ela mesma tenta curar. A sociedade gera os criminosos, que por sua vez, geram suas vítimas.
-Acredita que a Lia Neide seja tão ingênua quanto parece, Ariano?
-Pergunta difícil, não? – Sorri, nervoso – Eu cheguei à conclusão de que ninguém confia em ninguém. Por que eu devo confiar nela? Ingênua ela não é. Ela pode ser inocente, mas não ingênua.
-Quem ama confia, Ariano.
-Eu... Eu não a amo mais. Quem te disse isso? O Euclides, não foi?
-Você a ama sim, está escrito no seu olhar. Por mais que tenha raiva do que aconteceu, por mais que tente se afastar dela... O seu amor é verdadeiro. Eu sinto isso, Ariano. Você é uma pessoa transparente.
-Não sei se isso é bom ou ruim... Para um investigador, certamente é ótimo. É mais fácil pegar uma pessoa transparente do que uma pessoa de alma sombria.
-Com certeza, Ariano.
Regis sorriu, a um sentimento de leveza. A presença de Ariano era totalmente o oposto da de Euclides. Era leve, pueril, como uma canção italiana, ao som de uma harpa, tocada à em meio ao trajeto das águas clássicas de Veneza.
-Ariano, aonde esteve na manhã do dia de ontem? Rumores me disseram que você saiu repentinamente.
-Eu tentei me matar quando descobri o caso entre Euclides e Lia.
-Não me diga! – Assustou-se Regis.
-O Euclides sempre soube que eu amava a Lia e mesmo assim, fez o que fez!
-E o que ele fez além do beijo, Ariano?
-Ah, ele enviou poesia a ela – poesia que inclusive é de minha autoria. Convidou pra sair... Tudo pelas minhas costas.
-Como soube disso?
-A própria Lia me contou.
-E se ela estiver mentindo? E se o desejo dela por ele não for recíproco?
-Por que diz isso, delegado?
-Por nada, ora. Só uma hipótese. Ela não poderia gostar dele?
-Sim, claro... Mas não foi o caso. Bem, pelo menos foi o que ela me assegurou.
-Ariano, eu posso notar o quanto está confuso. Você está no meio de todo esse tiroteio, sem saber em quem acreditar. Entendo sua posição. Agora... Uma pessoa que tenta se matar é potencialmente capaz de matar outra pessoa. Afinal, não teria nada a perder, certo?
Ariano abaixou a cabeça, se sentindo acuado. Ele a ergueu e disse:
-Eu jamais machucaria a Lia Neide. Eu me mataria, mas não tiraria a vida dela.
-E quanto ao Euclides?
-Eu não posso garantir nada quanto a ele.
-Então sente ou já sentiu vontade de assassiná-lo?
-Nunca sentiu vontade de matar uma pessoa, delegado?
-Já. – Disse, rememorando rapidamente alguns fatos que marcaram sua carreira – Eu já matei uma pessoa, e não queira saber o quanto foi doloroso para mim, meu filho – Disse, em tom paternal.
Ariano observou a tensão que tomou conta do delegado naquele instante.
-Não queira construir essa lembrança na sua mente. Se em algum momento cogitou matar o Euclides, ou seja lá quem for, esqueça. Isso é pior que um suicídio.
Ariano sentiu aquelas palavras tocando fundo em sua alma.
-Está liberado.
Ariano saiu, silenciosamente. Regis acendeu um cigarro, com as mãos trêmulas. Havia chegado no seu limite. Precisava descansar.
Regis não conseguia mais pensar em nada além do que Euclides lhe contara a respeito de Ana Lucia durante o depoimento. Estava com os nervos agitados, a cabeça à mil. Chegou em casa. Já era noite.
-E então, querido? Notícias da Lia? – Disse Ana, indo recepcioná-lo. Não havia bebido.
-Nada. Ainda. – Respondeu, maquinalmente.
Regis penetrou um olhar frio nos olhos de Ana Lucia.
-Por que está me olhando desse jeito?
-Por que revelou nosso segredo justamente para o Euclides, o homem que estou investigando palmo a palmo, a cada gota do meu suor! – Vociferou, explodindo toda sua tensão recolhida naquelas palavras.
Ana Luca ficou sem reação por alguns segundos.
-Diga alguma coisa!!
-Eu já esperava que aquele... Aquele filho da mãe fosse te contar isso. Sim, eu disse a ele que você era meu marido.
-Estava no hospital quando... – Regis embargou a voz, temendo ouvir da mulher a confirmação do que Euclides dissera – Estava no quarto de hospital quando eu fui intimar o Euclides, na sexta-feira?
-Estava. Eu me escondi sob a cama dele.
Regis acerta um tapa na face direita de Ana. Virou as costas para ela, afastando-se a passos tortos, levando as mãos ao rosto.
-Por que... Por que fez isso comigo? – Indagou, arrasado.
-Pai?
Do alto da escada, Pietro, o filho do casal, havia presenciado a cena. Estava aparentemente horrorizado.
Regis se volta para ele, tocado por um súbito arrependimento. Ana Lucia lança um olhar vazio para Regis e vai de encontro ao filho na escada, levando-o para o quarto consigo. Regis fica parado, na sala. Desolado, ele começa a chorar. Despejava a carga pesada que carregava há muito tempo através daquelas lágrimas. Lágrimas que raramente expelia-se de seus olhos. Caiu sentado no sofá. Não sabia como explicar aquela atitude ao filho. Que exemplo ele era? Que profissional ele era? Nunca se sentira tão impotente em toda sua carreira! Um caso aparentemente simples, um homicídio com suspeitas evidentes! Como não ter desvendado ainda? Os jornalistas já batiam em sua porta, já começavam a atormentá-lo, em busca de respostas... Respostas. As respostas doíam, sempre, por mais que seu ofício o obrigasse a desejá-las, a todo e qualquer custo.
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Para vocês, quem é a maior vítima da história até agora? Aliás... Existem vítimas?
domingo, 14 de fevereiro de 2010
O que não foi
O sentimento já antigo que assola seu pobre coração solitário
Mistura os sorrisos de hoje
Com as lágrimas de ontem.
Todas as palavras não ditas continuam engasgadas,
Se misturando com suas verdades
E seus motivos para seguir em frente.
Tudo que não foi continua a existir em uma dimensão paralela,
Num lugar que guardam a mágoa
E deixam a tristeza repousando.
Os beijos que beijariam sua face
São só fantasmas gritando por liberdade.
Os momentos cheios de alegria e sol
Estão agora tomando banho na tempestade sentimental do impossível.
As fotos que nunca serão reveladas
Vão se perder no tempo no esquecimento.
Tudo que nunca foi
Vai continuar vivendo nessa espécie de submundo
Do irrealizável.
Nada vai conseguir mudar o fato
De que a vida toma seu rumo, irremediavelmente,
Para a felicidade ou solidão;
E deixa esses pequenos pedaços de nostalgia para depois.
Até que você se lembre tudo vai se manter exatamente como está,
Monótono.
Então não provoque sua memória
E se atenha ao corriqueiro e mecânico.
Assim será.
"Vai saber se o que me deu quem sabe
Vai saber quem souber me salve
Vai saber o que me deu quem sabe
Vai saber quem souber me salve"
(Teatro Mágico- Sobra tanta falta)
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Sem Demora

Venha sem demora
Antes que a dona da vida
Chegue e se apodere
De todo o meu ser.
Vem, vem, vem calar em mim
Tudo o que grita pelo teu sim
Sim, vem demora!
Hesitações? Indagações?
Pra quê?
Eu nasci para te amar e
Você nasceu para me amar!
Assim não podemos mais ficar.
O que fizeram de nós?
Venha, venha!
Estou a te esperar,
Para que em meu colo possas chorar,
Tudo o que foi feito de nós,
Nessa errância de viver a sós!
Basta! Ignorância, deixa pra lá!
Tolerância, essa sim cabe a nós.
O orgulho veneno mortal e
Atenuador das nossas dores.
A esses monstros dos nossos eus
Amantes e errantes,
Só basta dizer uma simples palavra:
Desculpa, eu só quero te amar!
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Eu

Crio hipóteses que mais tarde viram problemas de difícil solução
Acredito em contos de fadas contados pelo meu coração
Imagino finais felizes que só existem na ficção
Aceito como inteiro o que só me é dado em fração
Eu deixo você ir porque jamais tranco a porta
Tento caminhar em linha reta, mas tua estrada é torta
Renasço em um segundo, depois de dada como morta
Continuo abrindo mão do que realmente me importa
Aceito esse teu amor que ora me cura, ora me corta
Eu te falo o que sinto, mas inalcançável é minha meta
Percebo que ando em círculos, não sei como ser mais direta
Todos os caminhos apontam para ti, mas não sei a direção certa
Minha palavra-bumerangue sempre volta, não te afeta
Eu escolho músicas lindas para te ofertar
Escrevo poesias sinceras para me expressar
Perfumo meu corpo para te agradar
Enquanto isso teu mundo segue a girar
Ironicamente, tudo isso volta para me torturar
Eu
Para te fazer feliz me reinvento, dou um jeito
Para que digas que sou flor e que teus dias enfeito
E ainda que isso não passe de uma frase de efeito
Sempre amanheço despetalada sobre o teu peito...
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Onde tudo começa
Se a morte mata, por que não eu?

Wellington de Carvalho Franco. Uma família turca. Doca Street. O que têm em comum? Todos são criminosos. Pessoas tiveram suas vidas aniquiladas por culpa dessas pessoas. Por que o ser humano é levado a matar outro ser humano? E por que não matar?
Mata-se por muitos motivos. Matar é justificável? Não, perante as Ordens Religiosas. Matar é justificável? Sim, perante a realidade e a essência de cada ser. Wellington matou por dinheiro. Às vezes cobrava cinco mil, dez, no máximo, trinta. O mandante do crime também matava, mas não por dinheiro, e sim, através do dinheiro. Wellington cometeu mais de trinta assassinatos e, ao ser detido, disse “não ter matado ninguém”. Por que mentir diante das evidências? Por que temer perder uma liberdade que nunca teve, uma vez que sempre fora acorrentado à ambição, a um pedaço retangular de papel. Não existe liberdade. Existe a utopia da liberdade. Mas isso é assunto pra outra hora...
Uma família turca enterrou uma menina, de dezesseis anos. Triste, não? Pior é saber que esta menina foi sepultada viva pela própria família. Matou pela honra. A menina vivia conversando com meninos, só tinha amigos do gênero masculino! Uma atitude suspeita. Uma saliência precoce, uma, uma... Uma mancha no tecido invejável daquela família. Na Turquia, bem como em outros países, sobretudo asiáticos, a mulher é tolhida por muitos aspectos. Crime de honra. A honra da família deve ser preservada. Pois eu reflito: pressupõe-se que, na Turquia, matar um ser humano não é desonroso para aquele que comete tal ato. É absolutamente normal. Um crime forrado por uma justificativa incontestável.
Doca Street é um criminoso “de renome” aqui, em nosso país. Ele já foi preso, já foi solto, e vive sua vida dentro dos conformes. Matou por amor. Matar alguém por amor não devia ser motivo de prisão. É o ato mais nobre que pode existir. Costuma-se pedir provas de amor àquela pessoa que amamos. Portanto, eis a prova maior. No entanto, ao mesmo passo que se consiste num ato nobre, matar por amor é um ato de extrema burrice. É quase um tiro no pé (ou, dentro do contexto love, um “tiro no próprio coração”) E, como nós, seres humanos, somos movidos pela racionalidade, conclui-se que ninguém mata por amor, e sim, pelas circunstâncias que destroem o amor, como, por exemplo, aquele tal ciúme, aquela discussão rotineira que se torna maçante, estressante e que, de alguma maneira, precisa acabar.
Quais desses criminosos merecem pena maior? Quais crimes são mais justificáveis, se é que um crime se justifica?
Freud, um ateísta de marca maior, já dizia que o indivíduo pensa duas vezes antes de matar outro indivíduo. Mas Deus não entra nessa história. Eu não mato aquele idiota que me roubou porque ele possui entes familiares e amigos. Provavelmente, ao menos um desses poderia buscar vingança pela morte do idiota. Poderia voltar-se contra mim. Minha segurança estaria em jogo. Eu não viveria em paz por um bom tempo, ou nunca, talvez. Bom raciocínio este de Freud, não?
Quando se mata, não se pensa em si, ou em liberdade, ou sequer em Deus. Geralmente o assassino não valoriza a própria vida, logo, não tem medo de morrer. Liberdade é balela. No parâmetro legislativo, a palavra liberdade foi substituída por impunidade. No parâmetro filosófico, liberdade é utopia, como já disse antes. No parâmetro religioso, é contradição: se tenho livre arbítrio, porque seguir a risca dez mandamentos?

A prisão – me refiro àquela que contém um gradil de metal – é uma materialização da que se vive além daquelas grades. Talvez o ser humano esteja percebendo isso, mesmo que inconscientemente, e por isso cometa, cada vez mais, atos bárbaros em nome do money, da honra e do amor. Não se importam com nada. Arrependimento, no sentido que conhecemos, também não existe; não passa de um temor a Deus atrasado. Ninguém se arrepende porque ama a Deus, aos anjos, e a todos os irmãos da face terráquea. Se arrepende porque se tem medo de ir para o que chamamos de inferno. Não é uma demonstração de amor a Deus, mas sim, um “tirar o cu da reta” quando não se vê outra saída no plano físico, digamos assim, para se livrar de tal castigo. Aliás, se um dia disserem que não existe o inferno, preparem-se, pois “vão baixar” o Robespierre e muitas cabeças rolarão. Será o maior terror da História. De vez em quando é bom agradecer ao inferno por existir.
Quem sou eu para julgar uma pessoa que matou se alguma vez já senti vontade de matar alguém? Se já senti vontade, posso, a qualquer momento, concretizá-la. Por que não matar se um dia morreremos nas mãos de Deus e Este é nossa imagem e semelhança? Deus está em nós, certo? E se ele sair para tomar um ar? Nos tornamos assassinos? Ora, é doloroso chegar a essa conclusão, mas acreditem: num mundo infestado do vírus humano, matar é preciso. É questão de sobrevivência. E, para ser mais positivista no que digo: uma vez que um vírus se auto-destrói, o que nos impede de nós, vírus humanos, nos matarmos?
Enfim, contrarie Tim Maia. Não dê motivos. Motivo, seja ele qual for, o mais ridículo que seja, é um motivo. É um motivo para que você adquira sua passagem pro além mais cedo do que imagina.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
À dama da janela
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Eu Preciso de Ti

Por que não fostes de vez de minha vida?
Insistis em permanecer em mim!
Por que será que ainda estais aqui?
Sinto- te mesmo longe,
Amo-te mesmo com outra.
Lembro-te a todo instante,
Pois cada momento meu,
A ti pertence.
Por que ainda vives em mim?
Já não basta tudo o que nos aconteceu?
Estais em mim, sim!
Meu amor grita por ti!
Meu desejo por ti inflama,
Como fogueira em chamas.
Diz-me, que insana, és tu!
Não sou! Pois você vive em mim,
Assim como o peixe depende de água,
Como o automóvel, de combustível,
Assim preciso eu, de ti!
Eu sem você é como
Se meu ser fosse nulo,
Inútil,
Infame.
Eu preciso de ti,
Por isso, espero-te,
Como se fosses o meu Sebastião,
Parecendo a mãe que espera seu filho,
Eu espero por ti.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Acomodação

Já faz um tempo que não escrevo nada.
Ultimamente a TV tem ficado muito tempo ligada.
Entorpecendo o olhar.
Atrofiando o meu pensar.
Fazendo eu me acomodar.
Vendo o tempo passar.
Sem me incomodar.
Vendo no tal BBB a baixaria rolar.
Mas já ta ficando demais.
Pois esses ditos “Heróis” eu não consigo imitar.
Essa moda na minha garganta tá difícil passar.
Eu vou é levantar do sofá.
E mais uma vez a TV vou desligar.
Vou é olhar pra família e com meus filhos brincar.
Jogar bola no quintal e as paredes sujar.
Viver a vida de verdade, sem novelas nem insanidades.
Sem contos de fadas e nem traição.
Com simplicidade e arroz com feijão.
Obs. Ando meio sumido, mas estou com saudades deste ambiente virtual tão bom, onde posso estar junto de pessoas tão talentosas. Sempre que posso venho aqui e leio a postagem do dia, estou trabalhando para ter mais tempo de estar mais presente neste projeto que tanto gosto e admiro.
Felicidades!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O APRENDIZ
Acredite em você.
Você é capaz.
Tenha coragem de fazer a coisa certa.
Faça o que tem que ser.
Seja Aprendiz.
Seja feliz.
É preciso estar preparado
em constante aprendizado.
Faça acontecer.
Não canse.
Dance todos os rítmos.
Rítmo do Bem.
Siga em frente.
Vá adiante.
Diante do Bem.
Cuide bem de você.
Vitalidade,
Força e Prudência
com Humildade
afirma e afina o Sucesso,
Dá Intuição.
Mude seu visual.
Seja Cordial.
Reveja conceitos.
Comece de novo.
Encare a dor com Firmeza.
Você é Vencedor.
Você é Vencedora.
Um amor inventado
Encontrei o amor numa pista de dança. Sim, eu que nem sei dançar. Em meio à poluição sonora/visual/atmosférica algo brilhou, reluziu de um neon único. Subitamente aquela pseudo-canção se fez poesia e tudo que eu ouvia era o que eu queria ouvir. A bebida parou no meio da garganta, para depois descer lenta e doce. Estranhei, acho que me acostumei ao gosto amargo... Sorriram-me. Sorri de volta prontamente. Palavras, risos, segredos e olhares depois, já era primeira bailarina do teatro municipal. Éramos dois descompassados insistindo numa valsa demodè. Fiquei sem palavras ao perceber que tudo o que já escrevi cabia exato naquelas entrelinhas e sem repensar, já estava recitando Cazuza ao pé do ouvido. Exagerada. Me reconheço. Sabia que aquele momento duraria a eternidade de um instante. Só sei amar imenso, o que há de se fazer? Um dia o amor acaba, esvazia, mas continua-se a viver e amar todos os dias, é preciso, tanto quanto viver. Me apaixonei pela luz, pela alma, pela cumplicidade momentânea. Me apaixono pela ideia de me ver em outro alguém. Misturo memórias, gestos, pessoas e instantes aos meus segredos de liquidificador, bebo minha mistureba chamada vida. Eu sei que vai partir, não tenho medo, pois não pedi que viesse e também não vou me despedir. Vou continuar catando pedaços de mim perdidos no meio-fio, continuar fazendo piruetas na corda bamba e malabares com meu coração.
Então encontrei um amor numa pista de dança. Por um instante meu pé coube no sapatinho de cristal, o corpo dele coube no meu corpo e eu era a primeira bailarina.
"Até nas coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais."
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Hibisco

Hibisco,
É a verdade do mundo.
Não há outra explicação,
Essas coisas que acontecem,
Hibisco!
Jarro ruim não quebra,
Vive mais aquele que erra,
Hibisco.
Um dia vive na Terra,
Um vulto de rara beleza,
Dentre aquela macega.
Hibisco,
Vive a cada hora o seu ano,
A cada minuto, seu plano,
Cumprido com louvor.
Hibisco,
Quanta inveja há de seu viço,
Inveja mata, estou certo disso.
A rosa tem que ser soberana,
O cravo, único cavalheiro da dama,
O narciso tem de ser o mais belo da varanda,
A mais cheirosa, não há outra: é a lavanda.
Margarida, violeta, jasmim,
Ai delas se não forem as mais célebres do jardim...
Hibisco,
O bem em flor,
Perene ardor,
Fonte da cor,
Hibisco,
Que tão cedo adormece,
Seca, sua morte cada pétala tece
Admirada, alvejada de insetos,
Sabe ser generoso,
Flor fina.
Hibisco,
Morre jovem,
Como aquela menina,
Como aquela menina,
Como aquela menina.
Hibisco,
Deixa as maiores lembranças,
Pois legou ao mundo valorosa herança.
Música, livro, protestos.
Hibisco,
Flor sem sexo,
Que se faz existir.
Hibisco,
Tudo que é bom dura pouco,
Porém, mesmo que tenha sido breve,
Foi intenso, e nos fez sorrir.
Hibisco,
É a marca eterna na face,
Criada por um largo sorriso.
Hibisco,
É Aquiles, aquele que aceitou o risco,
É viver em luta,
É morrer em glória.
Hibisco é a flor que faz,
Em apenas um dia,
A história.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Sonhei que a neve caia em pleno verão
Uma vez sonhei que a neve caia em pleno verão,
os flocos tão frescos misturavam-se às minhas lágrimas..
misturavam-se, derretiam-se congelavam-se.
Em meio á neve e ás ruas vazias, encontrava-me finalmente só,
não por mero acidente, mas de certa forma quis estar só...
e da mesma forma errei estando só.
E estando só corriam as lágrimas de nunca antes,
misturavam-se á neve em pleno verão,
misturavam-se, derretiam-se, congelavam-se...
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Ah...
Musiquinha tão simples e bonita. Diz tudo que eu quero dizer.
Que tal você falar um pouquinho para eu escutar você?
Não tem graça conversar sem escutar o som da sua voz, sem ouvir o encanto que mora em você.
Agradeço que me escute assim, tanto... Mas também quero aprender, também quero crescer.
Também quero saber que aí em você tem muito de mim.
Como em mim há tanto você.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Sorvete
sábado, 30 de janeiro de 2010
A Bênção

Queria eu poder perder-me
No deserto montanhoso do seu corpo
Leve e cheiroso.
Alimentar-me dos pêssegos,
E saciar-me com teu ser junto ao meu,
Onde eles se perdem de tanto amor.
Você como um cavalo feroz,
Um pocoyo dengoso,
A procura de um abrigo.
Eu sou teu amparo,
Onde resides com luz.
Amor há de sobra,
Não quero nada em troca, a não ser
A bênção da minha sogra.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Camicase

Camicase
O caso com Camila
Caso de um eu em euforia
Caso libertino em alforria
Caso de palavras soltas
Em odes, haicais,
Em simples poesia.
Camila, ah,
Deusa do vento que soprou
No ouvido dos meus olhos
As palavras escritas
Surgidas para mim
Ditas;
Ditas meu destino, meu ataque mortal,
Em teu navio que foge das calmarias
Circunda minhas terras sem sal
Atraque de noite, ou de dia.
Camicase
Tua palavra é a vida de minha morte
Se me mato, é por querer saber
Camila, o que sinto eu
Por você?
É a sede da água que nunca bebi
É a fome de um estar com,
De com você sentir,
De contigo rir.
Tua rouca voz ressoa nas noites mais quentes,
Me excita, já não sou mais gente
Sou um animal, puro instinto
Já não sou o que penso
Existo no que sinto.
Camila no superlativo, no clímax da tragédia,
No múltiplo orgasmo do sexo,
No gargalhada da comédia,
No tiro no pé.
Camicase,
Meu caso com Camila,
A menina mulher de olhos de amêndoa, e sorriso de pétalas de bem me quer,
Sua alma vibrante, como corda de harpa,
Sua ousadia errante, sua presença radiante,
Que do meu pensamento não escapa.
Camicase,
Meu caso com Camila,
Caso com Camila?
Melhor parar por aqui,
Se não ela me mata.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Vida noturna
sábado, 23 de janeiro de 2010
A Garça
COM GRAÇA A GARÇA
DEIXA O FILHOTE...
ESTICA O PESCOÇO E VOA...
VOA BEM ALTO
FAZ U'MANOBRA... E REVOA...
VEM DESCENDO LENTO
PÁSSARO BRANCO POUSA NO LEITO
DO RIO QUE É RIACHO
MAS ACHAM
QUE É SÓ COVA, FOSSA, LIXEIRA,
DEVASTAÇÃO...
DIZ "GRAÇAS!", A GARÇA,
E DÁ UM PASSO, BEBE ÁGUA, MURMURA E ACHA GRAÇA...
"TUDO É BELO E CERTO.. E CHEIO DE GRAÇA!"
SÚBITO,
DO MATO, O ESTALO, O FILHOTE, O TIRO E A MORTE.
FORTE PULSA O CORAÇÃO DA AVE QUE
AGORA TRISTE AGUENTA DOR E MEDO
LEVANTA VÔO E CHORA
"PORQUE PERDI MEU FILHO TÃO CEDO?"
LÁ EM BAIXO...
NA ESQUINA DA ESTRADA DA CONSCIÊNCIA
DIZ O LETREIRO:
"LIBERADA TEMPORADA DE CAÇA!"
A GRAÇA ESTÁ EM EXTINÇÃO
E AGORA?
AGORA LÁ NO ALTO...
A GARÇA VOA E REVOA EM PIRUETAS
SILHUETAS AO ACASO...
"HÁ QUEM DESFAÇA!"
MESMO ASSIM DIZ A GARÇA
"TUDO É BELO E CERTO...
E CHEIA DE GARÇA!".
Poema premiado 1º Lugar no Concurso de Poesia promovido pela Secretária Municipal de Cultura de Duque de Caxias - Rio de Janeiro - em 1997
A Voz que soa por aí

O que está acontecendo?
Olho, olho e nada entendo.
Grito, grito e ninguém
Se atenta a mim.
A cada dia cresce por ai
Essa ferida irremediável
Que vai se alastrando e
Cegando cada vez mais
Os corações pedregosos.
Como não estender a mão,
A esse irmão que vem na contramão?
Como não questionar a irracionalidade
Que nos congela em meio a rotineira vida?
Não há sequer um pouco
De irmandade aos que perecem.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Sombras.
Meus neurônios estão massacrados.
Anos de profecias mal intencionadas
que nunca repercutiram senão dentro da minha cabeça.
As retinas da minha visão distorcida
Estão cegando minha própria capacidade de enxergar.
Vejo mas não enxergo.
Olho mas não vejo.
Perpetuo entre piscadas automatizadas
algumas imagens que em nada dignificam
as pinceladas do criador.
Tinjo o vermelho de manchas.
Mancho de ferrugem os corais...
Apresento uma vela para as estrelas
E elas riem de mim por só enxergar a escuridão.
O que é uma vela diante de todo o firmamento?
Meu peito anoiteceu antes do tempo previsto.
Nostradamus profetizou o fim da luz.
Mas continuo tateando no meio do dia
Uma estrada bifurcada que me faça acreditar
que a luz existe por detrás das íris que só enxergam
as trevas do absoluto silêncio repetitivo e intediante.
Ser daltônico é uma perspectiva iluminada.
Mas como números premiados
Ser capaz de colorir a vida
com cores que se pintam antes dentro de nós
é uma dádiva a que poucos escolhidos tiveram acesso.
Por isso tive que me adaptar aos óculos.
E mesmo assim a nitidez das imagens que persigo
não me salvaram das sombras que mancham
as lentes da minha mente verdadeiramente cega.
Continuo na caverna de Platão.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Tão perto

domingo, 17 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
Inspiração

Hoje nada me vem a cabeça,
Nenhuma palavra tem graça,
Nem a frase tem semântica,
E a sintaxe, desgraçada!
Falar de quê?
Escrever o quê?
Algo que te aqueça?
Coisa que me descreva?
Queria eu conseguir
Falar de tanta coisa!
Coisa que resolveu fugir...
A inspiração,
Minha inimiga ficou!
O coração, não sei, não!
Anda por aí, em busca de um chão.
A fé mesmo retraída,
É o que me dá pé!




