quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quarto de tralhas

(por Cinthia Kriemler)


Carmem enterrou o marido e, quatro meses depois, a sogra. Estava finalmente livre daquela família que fora sua por conveniência. Uma conveniência que tinha se arrastado por muitos anos. Não fosse a recompensa que agora desfrutaria, não teria aguentado Nestor ao seu lado. Tinha nojo do marido. Do seu corpo, da sua risada, dos seus dentes amarelados pelo cigarro importado que fedia tanto quanto fumo vagabundo. E um nojo maior ainda do sexo morno que fazia com ele sem vontade. Mas se entregava à função como esposa apaixonada. Precisava ser assim.
Não fora apenas o dinheiro que a mantivera naquele casamento por 14 anos, mas também o status de ser casada com um homem tão rico e importante. A infância de pobreza e abusos fizera dela uma mulher insensível. Por isso comprazia-se em obrigar as pessoas à reverência, ao servilismo, à obediência. Dava ordens em tom de voz cortante e tratava os empregados com rispidez. Mas o que mais a fazia feliz era sentir a inveja nos olhos das amigas. Quanto mais era admirada ou temida, com mais intensidade e sensualidade fingia o sexo com o marido.
Cuidou para não ter filhos. Não precisava de crianças para satisfazer nenhum desejo primitivo de maternidade. Um filho só serviria para fazê-la ter que disputar ou dividir, mais tarde, a herança do marido. Além do mais, crianças são criaturas cruéis que falam a verdade. E havia coisas, como um ou outro amante ocasional, que ela preferia manter longe de testemunhas.
Quando a sogra foi morar com eles, Carmem mal disfarçou a fúria que tomou conta dela.
— Mas a sua mãe aqui, amore? Por que é que ela vem para cá?
— Mamãe está velha e cansada, Carmem. Eu fico preocupado com ela lá naquela casa imensa, só com os empregados.
— E as enfermeiras, meu bem?
— Essas só fingem que tomam conta dela! Mas vivem vendo TV, dormindo no horário de trabalho, falando ao telefone. Não, não. Sem ninguém para supervisionar, é um risco muito grande mamãe morar sozinha.
— Coloque uma enfermeira para vigiar a outra — ela sugeriu, desesperada.
— Não dá! Dois dias atrás, mamãe caiu de uma escada. Subiu para pegar uma echarpe que estava no alto do armário e a enfermeira nem viu. Caiu, fraturou o fêmur e ainda bateu a cabeça. Pois assim que ela sair do hospital, vem morar conosco e não se fala mais nisso. Já pedi até ao pessoal do escritório para mandar avaliar a casa dela e vender.
Para Carmem, nenhum argumento era mais convincente do que esse. Aumento de patrimônio era sempre assunto de sua preferência, o que serviu para amenizar a decisão de Nestor. Uns anos antes, quando o marido lhe perguntara se ela gostaria de saber mais sobre os negócios da família, sentiu-se tentada. Mas depois, pensou que demonstrar interesse poderia ser visto como um gesto de ambição e desistiu. Quando chegasse a hora de herdar a fortuna do marido, não queria que as pessoas dissessem que ela havia se casado por dinheiro nem que era a oportunista que realmente era.
Nestor morreu de causas naturais. É verdade que, muitas vezes, desanimada pelas finas rugas que começavam a surgir ao redor da boca e dos olhos, desesperava-se.Vou estar uma velha quando esse traste morrer! Imaginava, então, se seria capaz de matar o marido. Não, não seria. Tratava-se, na verdade, não de ser capaz, mas de avaliar os riscos. Uma investigação mais aprofundada, um passo em falso e, em vez de dinheiro, cadeia. Não. O marido tinha 18 anos a mais do que ela e seria normal que morresse antes. E, de um jeito ou de outro, ela estaria bem. Com Nestor vivo, não lhe faltava nada. Com ele morto, se livraria daquela boca murcha e molhada que fazia carícias frouxas no seu corpo.
Após a morte de Nestor, a presença da sogra na casa passou a ser um tormento a mais. A mulher não lhe dirigia quase a palavra e era óbvio que não gostava dela. Fora contra a decisão do filho, à época viúvo e sem descendentes, de casar-se outra vez com uma quase criança. Para piorar, ela percebera, desde cedo, que Carmem manipulava Nestor de modo a não dar-lhe filhos. E esse foi o ponto final em qualquer tentativa pacífica de aproximação entre as duas.
— Sua mãe não gosta de mim!
— Não gosta mesmo não. Ela acha que você se casou comigo por interesse — ele dizia, sem meias palavras, sempre que o assunto vinha à tona.
— E você, meu bem, o que você acha?
— Que todas as mães são assim mesmo, ciumentas.  Não se preocupe, bebê, eu sei que você me ama e que não vive sem mim.
Homens! Sempre tão autoindulgentes, tão cheios de si. Uma lingerie provocante, gemidos fingidos de prazer em troca de sua atuação medíocre e eles se acreditam inesquecíveis.
Enfim,  quando o marido morreu de ataque cardíaco, Carmen se empenhou com afinco no papel de esposa arrasada. Foi fácil fazer crer às pessoas que seu abatimento se devia à perda do parceiro. Estava, realmente, abatida. No entanto, o que a devastava era o medo do futuro. E agora? Como é que ele foi morrer antes dessa velha horrorosa? O que vai ser de mim com essa mulher no meu pé? Eu queria tanto ficar livre dela e desta casa.
Detestava a casa. Nestor nunca tinha permitido que ela mudasse nada de lugar ou que se desfizesse de nada. Os móveis antigos; as paredes pintadas e retocadas com uma cor apagada; o escritório do marido, austero e sombrio. Mas, acima de tudo, o que mais lhe dava repugnância era o quarto de pesca, um cômodo no qual Nestor tinha entulhado objetos variados, durante anos. Varas, molinetes, iscas artificiais, caixas pesadas ou pequenas repousavam ao lado de equipamentos mais sofisticados. Tentou convencê-lo a guardar a tralha fora de casa, num galpão construído especialmente para isso, mas pura perda de tempo. Nestor não abria mão daquela extravagância.
— Meus objetos de pescaria são sagrados. Eu quero tudo bem perto de mim, dentro de casa.
Só havia uma vantagem naquele quarto de entulhos: quando ia para lá, Nestor se esquecia dela por uma, duas noites, livrando-a do sofrimento de tê-lo por perto antes de dormir. Devia isso, também, a Júlio Cortes, o administrador dos negócios da família, único amigo de Nestor. Os dois se conheciam desde meninos. Estudaram no mesmo colégio e consolidaram uma amizade que se estendeu pelos anos. Quando assumiu a empresa, a pedido da mãe, Nestor convidou o amigo, no mesmo dia, para trabalhar com ele. Agradecido, sempre disposto a ouvir, Júlio foi a única visita que o marido recebeu em casa durante anos. Sua rotina era sempre a mesma: ficavam primeiro no escritório, por pouco mais de uma hora, para os despachos da firma, e depois seguiam para o quarto de pesca, onde conversavam e riam por horas.
Não houve surpresas no testamento de Nestor. Conforme previa a lei em caso de não haver descendentes, cinquenta por cento de seus bens iriam para a esposa e a outra metade para a mãe idosa, caso ainda estivesse viva. Em cláusula única, deixava para o amigo Júlio a caixa de iscas artificiais importadas, como “um gesto simbólico”, explicara o testamenteiro. Que ideia! Ainda bem que não deixou o iate — Carmem pensou, debochada. Após a partilha, a sogra não a incomodou mais. Melhor dizendo, passou a ignorá-la totalmente, evitando qualquer contato, até que, quatro meses depois, amanheceu sem vida. Morrera dormindo, de algum mal súbito próprio das pessoas de idade. Finalmente, Carmem estava livre. Rica, rica, rica! Rica e livre! —repetiu para si mesma durante toda a noite, rolando excitada na cama.
Naquela mesma noite, Júlio Cortes sentou-se no pequeno escritório instalado em um dos quartos do seu apartamento e abriu a caixa de iscas artificiais importadas. Pegou cuidadosamente um dos dois envelopes sobrescritados com a letra de Nestor e retirou de dentro dele o bilhete que lera inúmeras vezes :

Meu querido,

Deixo para você tudo o que é meu. Tenho medo do meu coração, que anda me dando sustos. Mas tenho mais medo de pensar que tudo o que construí pode ir parar nas mãos de Carmem. Por isso, escondi este último testamento num lugar onde só você o encontrará.
Se você está lendo este bilhete é porque eu morri antes de mamãe. Por isso, no outro envelope, está o testamento dela, fazendo de você também o seu herdeiro. Mamãe está muito doente. Cuide dela com carinho durante os dias que lhe restam, sim? E, principalmente, proteja-a de Carmem.  Eu lhe peço apenas que deixe para tomar posse de tudo depois que mamãe morrer, porque eu tenho receio que Carmem a ponha num asilo se souber que não herdou nada.
Só lamento não poder estar presente quando a notícia for dada. E não se preocupe, meus advogados estão instruídos a não deixar este testamento ser contestado. Eles estão de posse de algumas informações sobre o passado de Carmem.
Espero que esta tenha sido uma boa surpresa. Já estou com saudade, mas sei que um dia vamos nos reencontrar, meu amor. Até lá, seja feliz.

Beijos eternos

Nestor


domingo, 25 de agosto de 2013

Acontece sempre aos personagens

(Por Cinthia Kriemler)

Um dragão exausto. Isto sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e uma pingada leve de licor. Aceita uma xícara?
Estou escutando músicas antigas, enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho, mais tarde, e assisto a um filme em casa mesmo.
Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...
Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante esse tal de tempo! O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice. 
Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é este: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável mesmo só as desigualdades das nossas percepções.
Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, pela mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu! — gritamos. — Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para termos uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento estende-se a um futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você, aos 35; ele, nunca. Você aprende o sofrimento aos 10; nós, aos 38; eles ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe.
Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
Ah, não? Você não acha? Deixe ver se eu entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de “maturidade” o assassinato dos meus sonhos. Aliás, melhor dizer: massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
O tal do amor maduro, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar, tipo: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder o fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
O que foi? Apavorou-se? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender como o tempo é ladrão? Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Eu sei como é isso, portanto, não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.

Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também te abandonam, mudam de corpos.
É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens!




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Puta



(Por Cinthia Kriemler)

Cuspiu na pia. Junto com a saliva, os restos do sexo. Estremeceu. Não tinha nascido para aquela vida. Fazer dinheiro trepando é pra quem tem estômago. Lembrou de antes. De quando não contava as rugas e as unhas estavam sempre feitas e o perfume francês e as roupas eram recebidos de presente, pagos por homens importantes.  E de quando cada encontro era uma festa de bebida e pó. "Cheira aí, meu bem". E ela fungava tudo. Pra aguentar as trepadas alucinadas, os tapas, as humilhações. Tinha que cheirar. E beber. Que o champanha e a vodca deixavam qualquer porra com gosto de importada. 
Sacudiu a cabeça. Em seguida, estremeceu de novo. Dessa vez, mandou embora o tempo. Porra de madrugada fria! Porra de úlcera maldita que dói toda hora! 
Mas tinha coisa que doía mais. Os murros do cafetão; a penetração por trás, forçada, apressada, arrebentando tudo. Não se acostumava. As outras debochavam: "Onde já se viu puta com frescura?" Pois ela era uma puta danada de fresca. Desconsentia. Negava. Argumentava. Depois fazia. Tinha medo de o freguês reclamar para o cafetão. Mas não entregava a bunda sem lutar.
Até que não é caro o remédio da úlcera. Só não adianta de nada. Vai ver é este conhaque vagabundo que está cortando o efeito dos comprimidos. 
Jogou na boca dois chicletes de hortelã. Testou o hálito. Retocou o batom vermelho e limpou os dedos na moldura de madeira apodrecida do espelho. Parou um instante para ver o coração rabiscado na parede. Não estava ali na semana anterior. "Marcelo ama Polaca". Mais uma idiota achando que cliente se apaixona por puta. Polaca, Polaca, fica esperta! Deve ser menina nova. Tinham chegado umas catarinenses que ela ainda não tinha visto. Só gente bonita essas gurias do sul. Duro era trabalhar ao lado delas na rua. Altas, cabelos loiros, pele sem marcas. Droga! E ainda trepavam bem, as vacas. Atraíam os homens mais novos. Os melhores. Desses que transam com a puta falando poema e prometendo amor. Uns fodidos, isso sim! 
Depois, ia sobrar pra ela falar a verdade. Que puta não sonha. Que puta não faz planos. Que puta não fala de amor. E juntar os pedaços. Oferecer o pó, a pedra. Entregar o conhaque vagabundo. Estancar o sangue nos pulsos frios numa noite de navalha cega.
Porra! Quem será essa Polaca? 
Cuspiu no chão da rua. Estava ficando velha. Sentindo pena da menina do sul. Sentindo falta daquele antigamente de merda. A dor da úlcera queimando por dentro. O coração rabiscado na parede mostrando o pesadelo dos sonhos. O poema ausente em cada transa fazendo falta, finalmente.
Pegou os comprimidos na bolsa minúscula. Aquela desgraça toda ia passar.




terça-feira, 25 de junho de 2013

Engole!

Engole o choro, menina! Que coisa feia essa manha! 
Secou os olhinhos com a manga da blusa do pijama e recolheu os fungados longos, entrecortados. Guardou a dor num lugar que ainda não sabia que se chamava alma e esticou para a mãe os bracinhos pequenos. "E ainda quer colo, depois dessa feiura toda?". Queria. Mas não ia ganhar. Sentada no berço, agarrou pelas tranças a boneca de pano e se deitou sobre ela com soluços calados. 
Engole o choro, idiota! Que frescura é essa de chorar porque apanhou na escola! Se chegar em casa chorando de novo vai apanhar é de mim!
Choro guardado. Rosto lavado com água fria. Na alma quase não tinha mais espaço pra ajeitar nenhuma dor. Empurrou até caber. No quarto, abraçou as fotos dos artistas que adorava. Todas compradas nas revistas da banca. Autografadas e tudo. Gostava de pensar que cada autógrafo tinha sido dado só para ela. Dormiu ganhando um beijo na boca do seu cantor predileto.
Engole o choro, mulher! Que porra é essa? Cala a boca! Se não parar eu vou te quebrar todinha!
Quebra não. Não tem mais pedaço inteiro. E essa coisa salgada escorrendo dos olhos é hábito de menina feia. Prometo que passa. É que de vez em quando a alma expulsa uma dor que não cabe lá dentro. No banheiro, virou o rosto para cima e jurou para si mesma que aquelas lágrimas eram do chuveiro. 
Engole o choro, vovó! Por que é que velho fica chorando à toa?
Mania não. É a novela. É gripe, claridade, cebola, alergia. Eu sou bonita. Eu sei sorrir. Está vendo? Está vendo, sua porra de menina idiota? 
Engoliu o choro. Abriu a porta. Desceu dois degraus.
Na rua, gritou com as buzinas, encostou nas pessoas, abraçou os postes, dormiu com os mendigos. E estendeu os braços para o nada, aquela alma enorme.

domingo, 23 de junho de 2013

Boca Beija Vácuo

Tirava teus beijos do lixo
por não haver flores
a carregar teu nome...

gritava no vácuo!
o som se propagava
mais rápido
que em teu cordial
coração de melão
desabalado, convalescente...

Pedia-te: vira a boca para lá
que não suporto mais
ouvir os teus silêncios...

concreto e lástima
neste nosso desencontro...

Velho - BR - PAR - PT
20.06.13 14:00 h





sábado, 25 de maio de 2013

Opinião


Discutiram desde os primeiros encontros. Porque ele gostava de cães e ela amava gatos. Porque o melhor dia da semana era sexta-feira, mas não para ele, que preferia o sábado. Assistir ao jogo ouvindo rádio, coisa de maluco, debochava ela. Ou não, rebatia ele. Lavar os cabelos todos os dias; ou em dias alternados. Tomar chope com ou sem colarinho. Ser protestante; ser católico, espírita, budista, ateu.
Com os anos, casaram-se. Igreja ou cartório. Poucos ou muitos convidados. Pela manhã, no inverno; à noite, na primavera. Não tiveram filhos. Ninguém queria. Mas discutiram até sobre os porquês. Ela, porque era mulher de carreira, bem sucedida e sem tempo, Ele, por qualquer motivo diferente do dela. 
Carro branco; moto preta. Macarrão com molho de alcaparras; camarão na moranga. Lispector, a melhor. Hilst, a incomparável. E enquanto ela escutava jazz no home theatre, ele aumentava o volume dos clássicos no headphone. 
Discutiram muito sobre sexo, o deles, o dos outros, o dos anjos. E sobre a cor do mar, azul, verde, acinzentado. Sobre verduras, estrelas, rodapés, sentimentos, fantasmas, sogras, drogas, duendes, países, escovas de dentes. Cada um — com sua couve ou agrião, com hipernovas ou anãs, com sua Áustria ou Dinamarca —, seguiu em frente. Prontos, sempre, para a próxima rodada de opiniões.
Quando ela ficou doente, discutiram sobre o diagnóstico, antes e depois de o médico dizer que era grave. Tratamento tradicional ou alternativo; em casa ou no hospital; com ou sem cirurgia. Ela pediu para morrer, ele disse que não. Ela morreu assim mesmo. 
Ele foi para casa. Fechou as cortinas, arrumou, lavou, recolheu o lixo. Recolheu também, em algumas malas, tudo o que era dela. Depois, carregou consigo para o quarto o porta-retratos prateado e o colocou no travesseiro ao seu lado. Antes de dormir, disse para a foto dela: "Você diz que morreu. Mas amanhã nós vamos discutir sobre isso, viu?".
 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Serei...???




Serei areia
onde dorme sereia?
Serei seu canto,
seu pranto,
acalanto?
Serei tão
seriamente surdo
que não ouço
suas escamas
a brilhar ao luar?

PAR - PT
22.05.13
19:00

Serei sereno
calado, ameno
seresta
de orquestra
muda
que não toque
não iluda...

Sonho
aqui sentado
que um dia serei
a cereja do bolo de alguém
por enquanto
sou o bobo da corte do rei
do corte do rei...

Serei
saudade...

Velho - BR
22..05.13
15:00


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Cartas rápidas.












“Momento PARDante”





por mares

nunca

por Dante

navegados

segue O Velho

bilhete

na garrafa

papel em branco

vazio de letras

que tudo

que queria dizer

pareceu

irrelevante

frente à possibilidade

de leres

nas entrelinhas

daquilo que não

foi escrito

a PAR do que

o teu pensamento

poderá criar...





PAR - PT 05 FEVEREIRO 2013

13:45




&*&*&*&*&*&












“PAR de dois”





Par de dois

sempre pode ser um,

o mistério se decifra

nas entranhas do oceano

que de tão pequeno

não separa

velhos corações.




o VELHO

se renova

quando sova letras indiferentes

no passado presente

de um PAR de rimas...




o VELHO PAR

se afina..."





Dante Pincelli O Velho-BR 05 FEVEREIRO 2013

13:49

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Mais


Mais. Esse sempre foi o maior problema da sua vida. Mais abandono, mais tristeza, mais revolta. Tudo feito de exagero e atrevimento. Comia, chorava, sofria a mais. E amou demais, com um desses afetos que não se sabe se arrancam a alma ou se pisam a existência. Foi tomado de um amor carnívoro, urgente em consumir, apressado em seguir adiante, em direção a mais corpos, mais sexo, mais despedidas, mais silêncios.
Tornou-se, assim, homem desconfiado, complexado, tímido. Muito além do que deveria ser um homem razoavelmente feliz. E incapaz de ser ou de ter em metades, em poucos, perseguiu os excessos até a imensidão do nada.
Em um tempo já de muitos nadas, descobriu a bebida. A companheira que o fez mais alegre, mais falante, mais próximo daqueles que se juntavam a ele em seu abismo fundo e escarpado de carências plurais. Marcaram encontros semanais, depois diários, até que se decidiram, finalmente, por um mesmo teto.
Deixou de ser visto nas ruas. E nos botecos. Ou sentado na sarjeta com a cabeça entre as mãos, barba por fazer, unhas sujas. As garrafas, em cores várias de ilusão, desapareceram da lixeira grande que fica em frente a casa. Recolheram-se com ele ao chão imundo do quarto que fede a desistência.
Ele está lá. Ainda está. Dentro da casa branca de paredes descascadas. No quarto de chão fedido. Dizem que insiste com a morte para que venha mais cedo, mais rápida, mais ávida. Para convidá-lá, abre mais uma garrafa. E brinda. Muitas vezes.
... Mais...
Esse sempre foi o maior problema da sua vida.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

móbile


por quantos caminhos haveremos de passar então? enquanto o silêncio percorre veias e cicatrizes e abre espaço para esse desamparo lento. eu que não sei principiar  o mundo com adjetivos. esqueço. e às vezes ouso fazer a pergunta pior e me debater entre o suor frio e o medo afiado da incompreensão. eu que mal posso dizer eu e digo, contrariando a ordem certa das coisas indizíveis, sigo. tentando aprender  o que se quer leve e bonito, sem o peso das certezas fáceis, sem esses ombros caídos. é tarde e o corpo já dói. mistura de vida seca que não se quer mais na aridez dos mistérios. enquanto fujo do que é prolixo me pego às voltas com essas repetições todas.  ecos de mim, sabe? o azul reverberando pela sala, pela casa, pela vida toda que se era, sempre sem saber. e é quase sem querer que tenho passos quase sempre trôpegos. as incertezas em minhas mãos fazendo cirandas. fico pintando em cores de derrota as paredes e os ventos do quarto. e me gabarito na hesitação. mas se é sem fim a noite e já não há mais festa cabível, o que se há que fazer além de habituar-se? há que trocar as roupas então, refazer cama rima corpo e pele, semente. se despir dos medos e dos velhos modos. beijar a vida assim crua que vai se abrindo.  se abrindo se abrindo. nessa reinvenção diária de todas as versões do que vou sendo. mesmo sem me saber bem.

domingo, 7 de abril de 2013

quinto


a canção repetia:

...que parece que estou carregando os pecados do mundo.
...que parece que estou carregando os pecados do mundo.

como um refrão de acusação
uma constatação relativa baseado
em particular perspectiva sem nenhuma confirmação divina

a primeira canção da estrada que ouvia na radio
embalava estranhos sonhos de viagem

o que teria vivido se abandonasse a casa paterna
e movido pelo rock rural partisse sem destino pela estrada

seria possível recuperar nessa altura da vida essa jovialidade ingênua
seria possível ainda cantar o refrão da antiga canção

tantos anos  passaram quase despercebidos
quebrando certezas
restou apenas a primeira canção da estrada
quase intacta cantada na radio imaginária
insistentemente tocada dentro da saudade de um tempo que não aconteceu.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Um palco para o crepúsculo

 
Finalmente o crepúsculo. Esta hora de sombras indecisas que se despedem da luz. Eu me pergunto para que tantas manhãs de claridade se é para o ocaso que sempre nos arrastam as tardes.

Já não escuto o pássaro que canta na janela do meu quarto. Ele se cala com medo de tanta noite. Tudo o que me resta é o presente, esta hora acinzentada. E eu não gosto do cinza. Nem do presente, esse gatuno oportunista, desconcertante. Que deixa intactos os cristais, a prataria, os quadros, o piano de cauda. E carrega os sentidos. E as pessoas. Quer-nos a todos mortos.

Mas por que estou aqui falando de mim? Como se fosse minha vontade colher dó e lágrimas. Não! Chega de piedade fabricada à esmola! É inútil. Além do mais, não há por que prantear o meu outono se a mim sempre agradaram as folhas amarelas e o vento cometido em rajadas de posse. Agradam-me as rugas do meu rosto que se esvai em anos. Eu as meço apenas em lembranças. Há esplendor plantado nestes sulcos, nestas linhas irregulares.

O que não há é tempo para os detalhes. Vocês aí, nesse teatro semiescuro, mal se concentrando em esperar a minha ida. Querendo a urgência do defunto vivo. Abutres! Criaturas arrogantes que se acreditam diferentes de mim! Pois vou lhes contar um segredo: quando chegar a sua hora, farão exatamente como eu. O mesmo apego ao passado, as mesmas lembranças. O mesmo corpo ainda sentindo desejo. A mesma espera por uma cama quente, por um arrepio, por um sexo que alivie qualquer dor.  Vocês farão exatamente como eu! Vão se agarrar a esse olhar para dentro, para trás, de forma a não verem no relógio do tempo que não há mais tempo.

O que vocês não sabem é como fazer. Ainda. Mas eu posso lhes mostrar como não se entristecer quando a plateia se esvazia. E tentarei fazer das suas almas, como fiz com a minha, um lugar de coxias e cortinas. E lhes direi que o passado é a única certeza que nos deve mover. Porque nele não há mais a ansiedade da mudança. E lhes direi que fujam do presente. Porque a realidade é equívoco.

Enfim, quando os panos de boca subirem pela última vez, eu lhes direi que não se inquietem com o silêncio dos aplausos que se foram. É hora de colher algazarra na memória. É hora de solidão. Nosso melhor papel.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Filho





Bebeu três ou quatro goles de água. Como se quisesse hidratar a coragem. Não tinha o que dizer. Não encontrava o que pudesse dizer ao filho. Tinha ensaiado umas poucas, curtas frases. Mas não lembrava, agora, onde havia guardado as palavras. Quis recompor a memória entre um passo e outro. Passos lentos no corredor comprido. Voltou nos anos. Pegou novamente nos braços o corpinho pequeno do filho. Sentiu o cheiro bom daquela pele macia. E descobriu onde Deus tinha deixado os seus melhores anjos. As mãos de bebê incrivelmente fortes. Agarrando o dedo dele numa confirmação de posse. Noites de sono no sofá da sala. O menino no colo; ele, nas nuvens de um céu a dois. Cantando coisas idiotas que falavam de bois e de cucas. Olhos nos olhos. Pra ver quem piscava primeiro. Pestanas com pestanas, pra fazer cócegas, dar gargalhadas. Futebol com bola colorida. Bichos de pelúcia transmudados em monstros, dragões, cavaleiros. Robôs e carros de metal. Movidos à pilha, bateria e dinheiro. O dele, sempre esticado em milagre. Coisa de pai. Pai de zoológico, de piscina, de corte de cabelo no barbeiro. Coisa de homem. Dever de casa complicado — no tempo dele era mais fácil. Viagens de verão. Uma vez para conhecer o mar. Muitas outras, acampados no quintal, domando feras, caçando quimeras, cruzando o oceano das poças. O primeiro cabelo no pênis. Mostrado com vergonha no chuveiro. As primeiras perguntas difíceis. Feitas a ele, não aos amigos. Orgulho de ser pai e confidente. Um gole de cerveja escondido da mãe, só um. Pra aprender em casa o gosto da rua. Faculdade de Engenharia. Como ele. No primeiro vestibular. Formatura com direito a viagem. Pra Nova Iorque, junto com a turma. Bolso esticado mais uma vez em milagre de pai. Dívida grande. Grandes expectativas. A ligação importante, chamando para o emprego dos sonhos — o primeiro sempre é. A ligação do hospital. Chamando para o pesadelo.
A água do copo acabou. Entrou no quarto sem frase na boca ou na memória. Olhos nos olhos. Nenhum dos dois piscou. Pegou nos braços o corpo semi-imóvel, semivivo do filho. Delicadamente. Sentiu o cheiro podre do acidente. Descobriu o que Deus fazia com seus melhores anjos. A mão incrivelmente fraca encostou no dedo dele. Esticou uma coragem do bolso da alma. E cantou cantigas de bois e de cucas. Até que seu menino foi brincar de infinito.