sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Do alto da minha laje


Tinha só sete anos e já conseguia entender um bocado de coisas dessa vida. Naquela sua realidade de menino nascido e criado na favela, desde cedo conhecia seu inimigo. Chegava a se arrepiar quando via aquele carro azul e branco e já corria pra contar pro seu amiguinho mais velho que soltava fogos quando a policia chegava. Aos poucos ele foi entendendo por que aqueles fogos não eram motivos de festa nem comemoração, principalmente quando o carro azul levou seu irmão mais velho, de quinze anos. Lembra até hoje de sua mãe chorando, implorando pro homem de farda não levar seu menino. Jonatas era seu nome, sua mãe achava bonito, dizia que ele tinha nome de gente importante e um dia ele seria importante, teria dinheiro. Do alto da rocinha mostrava o luxuoso prédio no bairro de São Conrado, que dizia que seu filho iria morar. O menino sempre subia na laje e olhava para aquele prédio.

À medida em que foi crescendo e começou a andar para mais longe sozinho, começou a ir até o prédio. Um dia ficou olhando lá pra dentro, segurando nas grades do portão. Estava lá se imaginando do lado de dentro, andando no elevador, correndo naquele gramado. Pensava que seria bom jogar bola ali, mas não via nenhuma criança fazendo isso. Pensava que eles não deveriam gostar de futebol. Foi interrompido do seu sonho com o barulho do portão automático se abrindo. Ele levou um susto e ficou olhando. Vinha uma senhora bonita com calça e camisa branca e um menino aparentando a sua idade com um carrinho de controle remoto na mão. Ele achou aquele carrinho lindo, já tinha visto no comercial da televisão e sua mãe disse que era muito caro, que dava para comprar comida pra quase um mês com o dinheiro necessário. Ele pensou e se lamentou naquele momento e disse baixinho:


"Que pena que temos que comer..."

Quando a moça bonita vestida de branco viu sua presença no portão, seu semblante mudou, deu uma meia parada e segurou mais forte a mão do menino; olhou para trás e chamou o porteiro, que entendeu logo a situação e veio resolver, ou seja, tirar o menino de perto, para que eles pudessem passar com tranqüilidade. Jonatas percebeu a situação e, moleque esperto que era, antes mesmo do porteiro vir falar com ele, já saiu. Mas saiu dali triste, se perguntando porque as pessoas que moravam no prédio tinham medo dele. Será que era porque ele era negro? Porque era pobre? Porque morava no morro? Saiu dali cheio de perguntas sem respostas para aquela cabecinha tão jovem. Ainda teve que passar pelos “inimigos” que faziam uma blitz na subida do morro, ainda bem que dessa vez, nem viram ele passar.

Chegou em casa com a imagem do menino na cabeça, pensava que podia brincar com ele, podia brincar com seu carrinho e ele podia ensinar o menino a soltar pipa, jogar futebol. Se questionava porque tinham que ser inimigos. O menino ia pensando nas coisas que o pessoal da assistência social falava. Há pouco tempo um grupo de jovens ligados a uma instituição religiosa começou a fazer um trabalho com as crianças da comunidade, mas logo tiveram que parar, pois o pessoal do “movimento” não tava gostando das idéias que os jovens estavam tendo. Mas uma coisa ele não esqueceu, uma vez numa conversa, ele ouviu que para Deus todos são iguais e isso ficava sempre martelando suas idéias, ele queria acreditar naquela frase, mas não conseguia.

Naquela sua vida de privações e decepções, questionava se Deus realmente existia, principalmente nos dias de tiroteio em que ficava com medo embaixo da cama, agarrado a sua mãe e sua irmã. Pensava em ir logo embora dali, crescer logo para morar no bonito prédio branco de São Conrado, mas por que demorava tanto? Pensava. Naquele dia o tiroteio tava demorando demais, a cada estampido, ele soluçava com medo, pois lembrava do amiguinho que tinha morrido com uma bala perdida, tinha medo de morrer, queria viver. Gostava de jogar bola, de correr, de soltar pipa na laje e olhar para o mar, ver seu prédio branco de frente para praia com gramado na frente...

Mas todos aqueles sonhos foram interrompidos quando o traficante arrombou a porta do barraco, ao fugir do cerco da policia. A casa de Jonatas foi a primeira que ele viu e entrou, neste momento Jonatas começou a gritar de medo e os policiais que perseguiam o criminoso ouviram e cercaram o bandido junto com a família de Jonatas. Infelizmente a polícia do Rio de Janeiro atira primeiro e pergunta depois... Horas depois o carro do IML chegava à favela para recolher o corpo do traficante e do pequeno menino, que virou escudo da covardia e do contraste social de um Estado em guerra civil. Naquela manhã não houve passeata pelos direitos humanos, a polícia comemorava que conseguira abater o chefe do tráfico, mas e o menino? Agora ele era só o menino que morreu na troca de tiros, mais um para entrar nas estatísticas da violência e do medo. Na capa do jornal sanguinário, uma foto da favela com o carro da polícia na frente e a manchete com a seguinte frase: “Polícia pacificadora contém tráfico na favela”...

O prédio branco em frente à praia continuou lá, abrigando atrás de suas grades quem pode pagar para ter um pouco de segurança e conforto. O menino do carrinho de controle remoto ainda não jogava bola no gramado, talvez fosse proibido pisar na grama. seu futuro ilustre morador, o menino Jonatas que ia estudar para ser importante e ter dinheiro para morar lá, já não ia mais chegar, também já não olhava para o prédio do alto de sua laje, não olhava mais, não chorava mais, não sonhava mais.

10 comentários:

Camilissima disse...

Impossível não lembrar de uma das minhas bandas preferidas...
"Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia o medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia. Então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia(...) Nas grandes cidades de um país tão violento os muros e as grades nos protegem de quase tudo. Mas o quase tudo quase sempre é quase nada e nada nos protege de uma vida sem sentido(...) Nas grandes cidades de um país tão irreal os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal. Levamos uma vida que não nos leva a nada. Levamos muito tempo pra descobrir
que não é por aí, não é por nada não. Não pode ser. É claro que não é. Será?" (Muros e grades - Engenheiros do Hawaii)
Parabéns, João. Acho que a citação musical fala por mim. Beijos!!!

Dri Viaro disse...

Passando pra conhecer seu blog, e desejar bom fds
bjsss

aguardo sua visita :)

Andréa Amaral disse...

João, você é todo denúncia social,voz dos excluídos, justiceiro...continue apostando e se dedicando à sua veia literária. Muitos irão te agradecer.

K@rininh@ disse...

Puxa, cara, mais uma vez vc conseguiu me tocar! Quase chorei... queria poder imaginar que isso tudo é uma utopia, mas não, infelizmente, isso é a dura realidade com a qual temos que lidar...
Vou abrir um fã clube seu, amo seus textos... Parabens!

Ernesto Ulysses disse...

Parabéns, cara. Excelente texto!

K@rininh@ disse...

João, imprimi seu texto para minha ler e adivinha???? Ela chorou horrores! kkkk Mas, enfim ela adorou!!!bjs

Lohan disse...

Lindo texto João, vc conseguiu emocionar. Destaco dele uma frase que, apesar da simplicidade, me marcou: ''se questionava porque tinham que ser inimigos''.
Pq as pessoas precisam ser inimigas? Por causa das condiçoes que a sociedade impoe, a desigualdade? O amor e as boas virtudes não estão acima dessas verdades que nos afligem?
João, parabéns. Na minha opinião, seu melhor texto até agora. Continue nessa linha q ainda vou me emocionar mto com vc, rs. Abraços.

João Luiz disse...

Muito grato pelas palavras de incentivo,quero me aprimorar mais,ler mais para estar mais a altura de fazer parte deste belo projeto.

Gabriela Roizen disse...

Gostei bastante da sua sinceridade, clareza e contestação ao escrever.
Que esse seja só o começo de um longo caminho iluminado pela consciência que você tem a trilhar.

João Luiz disse...

Minha amiga Gabriela,que bom ver você por aqui,me sinto feliz e honrado por sua visita.Volte sempre!