quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Em que bicho você aposta?


Samanta saiu do barraco pisando em ovos. Era incrível o que a velha conseguiu enxergar no copo com água. Tudo que ela mesma detectou foram os grãos finos de areia da água suja, no fundo do copo transparente. Mas a velha... a velha tinha um dom especial. Por detrás do vidro e da água, ela vislumbrou seu passado e seu futuro também. Sim, porque se ela conseguiu falar TUDO sobre sua vida até o dia de hoje, é claro, que o futuro seria aquele mesmo.



Era uma pena que ela não tinha grandes ambições materiais, senão podia ter pedido a velha um palpite certeiro para jogar no bicho. Bicho era com ela mesma. Vocês vão saber o motivo daqui à pouco. Mas isso não importava a mínima agora. Seu prêmio viria a contento, com as magias que lhe foram passadas e que iria seguir de cabo a rabo para seduzir o grande amor de sua vida - Paulo - aquele ingrato, sem-vergonha, que só vivia esnobando e esbanjando seu charme e seus músculos pra mulherada da gafieira, menos para ela... Mas ele ia ver só uma coisa. Ia se ajoelhar a seus pés pedindo pelo amor de Deus para lhe dar uma chance; e é claro, que ela ia dar TUDO, mas primeiro o bofe de ébano ia sofrer um pouquinho, só para sentir na pele, o que é ser esnobado por quem se gosta. Ai, como dói. Sem contar a humilhação de ver o cretino se esfregando nas outras barangas, que nem chegavam aos seus pés! Não conseguia entender o motivo pra ele mal olhar para ela, uma mulata arretada, peituda, bunduda, do jeito que os machos gostam. Só tinha umas estriazinhas, e nem zebra ela era, em horóscopo nenhum.Vá entender.


Isso tudo foi pensado durante seu trajeto ao bairro Paissandú. Até o bairro tinha nome de pai-de-santo. Tradicionalíssimo para os adeptos dos mundos paralelos. E o comércio atendia a todos os gostos: lojas especializadas em ervas, velas, imagens de santos católicos, africanos, artigos de umbanda e candomblé, incensos; ofertas de leitura de tarô, carta cigana, runas e até I CHing. Pode? Até a onda do New Age já havia se instalado por ali. Isso sem contar as essências para ofurô, massagem, aromaterapia e afins...coisa de gente rica e embestada. Samanta tinha nome de grãfina, mas era de família humilde. Sua mãe resolveu homenagear a Samanta- feiticeira da tv. Pois é, ela foi criada neste mundo. Desde cedo costumava frequentar centros espíritas, cartomantes que liam todos os tipos de carta, sempre com a mãe, Dona Eulália, supersticiosa até a última gota. Todos os problemas a mãe resolvia com algum tipo de consulta. De tanto ser benzida por rezadeiras, resolveu cultivar em latas vazias, todos os tipos de ervas que serviam para fins medicinais, terapêuticos e afrodisíacos. Essas palavras estranhas e difíceis, aprendeu a falar de tanto ler os cartazes e com as explicações das vendedoras a quem pedia informação. As coisas mais simples ela aprendeu com a mãe, que se ressentia por ela não ter desenvolvido nenhum tipo de dom ou mediunidade. Talvez tenha sido castigo porque primeiro a mãe pensou em Jeannie, mas depois refletiu que gênio fica engarrafado, e isso não podia ser bom, não é? Daí mudou pra Samanta. Será que fez mal? Bem, o que importa é que ela era temerosa com as coisas do divino e do além. Seguia a risca suas orações. Xangô era seu pai no candomblé, no horóscopo chinês era cavalo de fogo, no egípcio era Sekhemet (chique), a deusa gata que simbolizava...o quê mesmo? Ai, eram tantos símbolos pra guardar que até esqueceu. Além disso, era touro na astrologia ocidental, seu ascendente era o caranguejo (detestava falar o outro nome- aquele daquela doença), e às vezes se perguntava como seria sua imagem representada por todos aqueles deuses. Melhor nem pensar...parece que ela já era o próprio jardim zoológico, Deus que me perdoe. E ainda por cima, agora tinha mais os santos da Índia por causa da Maya e do Raj da novela. Esperava não ser o tal do lorde Ganesha ( êta nome esquisito), sim , porque este era um elefante azul. Que tristeza... O santo que perdoasse, mas ter tromba, ser gorda, e ainda por cima AZUL! Ninguém merece.

Entrou na loja certa, percorreu rapidamente as prateleiras com os olhos e foi certeira também nos artigos que escolheu. Seu Adamastor já estava acostumado com ela, e foi logo perguntando quais as fitas e velas ela necessitava. Pronto. O valor da compra foi pago com uma parte do salário da semana, que ela recebia como diarista, em diferentes residências. A outra parte ficou na pendura. Como ela já era freguesa antiga, tinha o privilégio de ter crédito para pagar no fim do mês. Não gostava de pendurar o valor integral porque gastava muito com as mandingas. Ela não ganhava mal. Além das faxinas, ela vendia Avon, Hermes, Tappeware e começou a fazer uns bicos vendendo Natura e Racco pras patroas, pegando as revistas com outras amigas que eram representantes dessas marcas. Apesar de não ter passado da quinta série, era inteligente e gostava das letras. Fazia questão de falar bem. Gostava de imitar os modos das atrizes na tv. Sua favorita era Zezé Mota. Adorou quando ela fez aquele filme Xica da Silva. Se tivesse grana e tempo queria estudar inglês. Adorava os negões americanos. Suas amigas morriam de inveja do seu sotaque. Era que nem um papagaio: repetia certinho o que ouvia. Aproveitava as patroas pra perguntar o que algumas palavras queriam dizer. Tinha uma que ela não esquecia nunca: miss. Dona Nívea contou que miss era senhorita, que os gringos educados sempre se referiam as mulheres solteiras como senhorita. Imagina ela, Miss Samanta, não era lindo? Além disso, ficou sabendo que miss também significava sentir falta de alguém, saudade... Queria perguntar pro Paulo um dia: - E aí negão, miss minha falta? Será que ele ia ficar olhando pra ela feito um Pedro Bó ?

Ponto final. Agora era só caminhar uns duzentos metros e estaria em casa. Pensou em tomar primeiro um banho com sal grosso, para se livrar da inveja e do mal olhado antes de começar o ritual. Olhou mais uma vez para dentro das sacolas plásticas. Estava tudo ali: vela rosa e vermelha; essência e incenso de rosas,uma fita vermelha e uma rosa. Só faltava a rosa de verdade, a flor. Mas isso ela não precisou comprar, tinha plantado num latão do lado de fora no corredor. E tinha também a maçã, que ela também tinha na cozinha, no cesto de frutas. O negócio era botar fé que ele ia ser seu. Depois da mandinga ele ia olhar pra ela com outros olhos: ia enxergar uma pantera cor de rosa. O bicho da sedução com a cor do amor. E aí, quer fazer sua aposta? Não vai dar pra nenhuma galinha, cachorra, vaca ou qualquer fêmea do calendário do bicho. Só vai dar euzinha: Miss SamANTA.

7 comentários:

Lohan disse...

kkkkkkkk
Até no nome a sujeita tem bicho! rsrs
Andrea, vc escreveu um texto muito bem humorado, eu adoro esse seu lado ''cômico cult''. Além do mais, este seu texto me deu vários palpites para a ''corujinha'' de hj...rsrs
Pena que não tem anta no jogo, se não... Mas tem ANdrea no blog, e isso é demais!! Como já disse, essa semana está incrível! Já tivemos de Sergio Endrigo à macumba! kk Congratulations, my friend!

Camilissima disse...

Ai, ai... Que delícia de texto!!! Adoro seu humor refinado. Flui, é coisa rara. Texto para ser lido num só fôlego, ótimo, bem tramado, do início ao fim, e que fim! Não me deixe sem notícias de Miss Samanta! Eis uma personagem capaz de render novos contos... Parabéns, Andréa!!!

Andréa Amaral disse...

Obrigada meus amigos. O seu entusiamo sincero faz com que eu queira criar e superar minha imaginação. É muito bom compartilhar este blog com todos vocês.

aa disse...

Olá Andrea,
simplesmente adorei...!
Então a frase: "E aí negão, miss minha falta?" está o máximo...:)
Um texto cheio de humor e com muita originalidade...
Aguardo novos episódios para saber se os desejos da Samanta se vão concretizar...:-)
Parabéns amiga!
Beijocas,

AA

João Luiz disse...

O pessoal aí em cima já disse tudo,também gosto muito do seu humor chique,inteligente,das descrições pormenorizadas que fazem a gente ir visualizando a história,prende a atenção,faz com que a gente fique imaginando que "bicho" vai dar.
Muito legal!!!

Um dia eu aprendo a fazer assim...rsrsrsr

Andréa Amaral disse...

Mais uma vez, obrigada.Me sinto lisonjeada por pessoas tão gabaritadas estrem sempre prestigiando meus textos.

Ernesto disse...

Parabéns, Andréa. Humor aliado à criatividade, excelente.