quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O significado dos nomes.


Acordei. Abro os olhos sem levantar as pálpebras. Isso sempre acontece comigo. Nada que eu mesmo estranhe já que sou um sujeito peculiar. Tão peculiar que meus pais acertaram em cheio quando resolveram me chamar de Paulo sem sequer terem me visto. Talvez eles tenham achado (inconscientemente), que a energia que emana da palavra falada é tão grande, que sua qualidade inerente se torna marca registrada da pessoa a quem nomeia.




Por exemplo: Ronaldo. Significa "aquele que governa com mistério". Realmente, se pararmos para pensar, é um grande mistério que vários seres que não fazem nada além de dar umas passadas mirabolantes atrás de uma bola, tenham salários dignos de um monarca, por se chamarem Ronaldo. Outro nome: André. "Forte , viril e valente". Todo André que conheço é comedor. E se acha o rei da cocada preta na hora de dar uma porrada em alguém. Por isso acreditei por um tempo, que de tanto ouvir o meu nome dito no aumentativo, aquilo que me diferencia dos outros homens mudaria de tamanho, ou seja: passei a ser chamado de Paulão. E esta alteração deu-se naturalmente, devido ao fato d'eu crescer a olhos vistos. Todos achavam que iria me dedicar, no mínimo, ao basquete. Mas me tornei um sacerdote a serviço da palavra do Senhor, entendi seus desígnios e me conformei com minha sina - entre aspas.
Olho para o lado, agora com os olhos abertos, e vejo deitada ao meu lado um hipopótamo siberiano. Sim, porque Rute, é tão branca, que parece uma versão albina ou ártica de algum espécime raro de hipopótamo nascido de um cruzamento produzido em laboratório. Leitosa, espaçosa e volumosa...deitada assim de perfil parece uma cordilheira andina coberta de neve, e eu, sou o único alpinista suicida que já se aventurou em tentar penetrar a sua caverna cheia de mistérios que ninguém ousou descobrir.
Mas não posso ser injusto. Entre nós dois existe uma briga de foice grande. Ela, por não conseguir quem fique seduzido por suas carnes, e eu, por não conseguir seduzir ninguém com a minha linguiça, daí, que unimos forças para que em conjunto pudéssemos descobrir os prazeres da gastronomia sexual , mas tudo em vão.

Quando eu tinha mais ou menos seis anos, comecei a perceber que o meu estilingue não dava pra ser muito esticado, parecia mais uma vara de virar tripa em versão miniatura. Enquanto os meus coleguinhas exibiam os seus caralhinhos uns para os outros em competições de quem tinha o pau maior ou mais grosso, eu me sentia envergonhado de exibir o meu exemplar minúsculo e ser alvo de piadas maldosas próprias das mentes cruéis das crianças. E nem preciso dizer, que a minha auto-estima (coisa que eu nem sabia existir na época), tornou-se tão pequena quanto o meu bastão, ou melhor seria dizer, batom?

Isso mesmo, podem rir, eu faço piada de mim mesmo e falo palavrão. E sim, sou repleto de desejos sexuais dos mais bizarros e dos mais comuns também, porque nem a esses, tenho acesso direito. Por isso, mais por imposição do destino do que por vocação, resolvi sublimar e enaltecer a alma...mas continuo buscando uma solução para meu Abacílio sem arrimo.


O tamanho do meu membro tornou-se uma espécie de obsessão para mim. Ao mesmo tempo, a minha essência jocosa não me permitia sentir pena de mim mesmo, e sim, buscar respostas científicas, históricas , genéticas, e até antropológicas, para o meu pequeno grande problema. Ainda bem. O Senhor escreve certo por linhas tortas. Se eu fosse me entregar a depressão e a pressão que isso acarreta em qualquer ser humano "normal", eu já teria me suicidado, por exemplo. Mas eu sempre quedei para o bom humor. Pode ser uma forma de auto defesa,mas é o que me permite me sentir ...um homem... de verdade. Por que não fui ser "a stand up comedy man"? Porque no mundo das artes rola muito sexo, muita variação, troca de parceiros, e eu não posso me permitir tal coisa, por falta de instrumento cirúrgico e por ficar muito exposto à mídia . Já pensou se eu ficasse famoso ou se recusasse a sair com todas as gostosas globais e as fãs que estivessem ao meu encalço? Como explicar a minha "timidez"? Iam pensar que sou um viado enrustido. E isso, eu não sou. No sacerdócio, curo minhas dores e minha vida é discreta e sem grandes desafios neste sentido.

Uma mulher não deve entender o que acontece a um macho - ser visual , instintivo e competitivo por natureza, que sempre coloca a sua virilidade como prova concreta de sua existência no mundo, não ter um órgão reprodutivo grande. Sempre ouvi as mulheres dizerem que o ideal de beleza masculina, vem da clássica escultura marmórea de Davi, do mestre italiano, Michelangelo. Quando teimo em olhar para sua imagem, penso que seu pênis é pequeno, em relação à sua altura. Mas quando olho para o meu, que tenho o mesmo tamanho de Davi, não consigo entender o que aconteceu. Seria uma espécie de atrofia no DNA peniano?
Comecei minhas investigações buscando o significado dos nomes. A razão pela qual eu comecei por aí? Pensa! PAUlo. E como já disse, não sei se por uma coincidência cósmica, numerológica ou se por escolha divinal, Paulo significa, "de baixa estatura, pequeno". Esta palavra segunda, me causa arrepios... Pequeno. Pau pequeno. Sou eu. Adorei, no entanto, me tornar um menino que sempre era mais alto do que seus colegas. Isso deu margem ao Paulão. Mantra repetido centenas de vezes diariamente. Quem sabe o efeito não seria inverso? Paulão, pau grandão,ão, ão, ão,om,om,om.... que viagem. Assim, vou acabar dormindo de novo e não posso.Tenho minhas obrigações de trabalhador e cidadão.

No relógio marcam cinco e meia da manhã. Daqui à pouco tenho que levantar e me arrumar para mais uma aula na escola dominical. Tenho que acordar Rute - "plena na beleza". Este é um dos exemplos para que eu passasse a não acreditar tanto no poder das palavras. Por isso, comecei a buscar explicações em outros campos do saber também.
Estou meio sem tempo agora. Mas devo dizer, que o melhor tratamento para uma alma ferida é a aceitação; veja bem, eu não disse, acomodação. Resolvi me aceitar dando uma identidade a ele, como se fosse um ser autônomo e independente de mim, mas que necessita viver colado ao resto do meu corpo material. Seu nome é Abacílio:" sem arrimo, sem apoio". Só que agora não dá para explicar. Em poucos minutos deverei estar pronto para exercer o meu papel celibatário, assexuado, religioso, vivo - só e para Cristo. Quem sabe outro dia continuo minha saga. Obrigado Senhor, por mais um dia e por ser perfeito em sua grandeza. Amém.
-Rute?! Acorda meu pudim de tapioca. Tá na hora.

11 comentários:

Camilissima disse...

Ai, tadinho do Paulão (ou seria Paulinho?). Adorei o texto, super bem humorado e cheio de analogias pertinentes e bem boladas! Você, com seu humor irreverente, pinta com detalhes o rosto de muitos anônimos por aí. Brilhante, como sempre!!!

Cassiane disse...

Andréa, você é uma ótima escritora! Gosto do seu estilo requintado e ao mesmo tempo despudorado, isso é uma arte. Não a conheço, mas tenho a impressão de que você é uma pessoa alto astral e desencanada. Tenho acompanhado este blog desde o início e confesso que a qualidade dos textos oscila drasticamente durante a semana... Eu, particularmente espero ansiosa as segundas, quartas e quintas feiras, na minha opinião, as melhores postagens. Beijos e parabéns por seu estilo e atitude.

João Luiz disse...

Olá Andrea!!!
Você como sempre nos brinda com um texto engraçado e inteligente,fico impressionado com sua facilidade e criatividade ao escrever de forma tão bem humorada.

Parabéns!!!

Ernesto Ulysses disse...

A foto é nojenta rsrsrsrs mas o texto é ótimo rsrsrsrsrsrsrrsrs

João Luiz disse...

Realmente sou obrigado a concordar com o Ernesto...rsrsrsrs

Camilissima disse...

KKKK... esses meninos são uma graça!!!

Andréa Amaral disse...

Para os meninOs: será que esta ojeriza a foto é um reflexo do tamanho dos seus "pingulins"? Se identificaram com Paulão,hein,hein,hein?kkkkk.
Camilíssima e Cassiane (e meninos): Obrigada mais uma vez. Os leitores fazem o autor "suar" idéias, pois acredito que é através dos olhos deles que podemos vislumbrar as possibilidades de um texto. Se escrevo bem, é um reflexo do respeito que sinto por aqueles que vão doar seu tempo, lendo algo que escrevi.E se me proponho a fazer algo, tento fazer bem feito. Fazer por fazer não faz parte do meu temperamento leonino. Beijos.

Lohan disse...

Abacílio, rs (Braulio é pros grandes, não é?) kkk, foto nojenta (comentários que nos quais partilho a opinião), e qnto ao texto, só tenho a dizer... Maravilhoso. Vc conseguiu empregar um toque certeiro de humor numa situação que pode-se considerar trágica para um homem... Não sei se todos pensaram o mesmo q eu, mas eu fiquei refletindo a respeito do que há por trás deste texto. O lance do sacerdócio. Não sei pq, mas pensei: Será q mtos homens q se dedicam inteiramente a religião possuem algum problema do tipo, ou até mesmo dificuldade em conquistar mulheres, algo assim... Não estou afirmando, apenas me passou a hipótese pela cabeça. E, pra completar o raciocínio, senti que vc, Andrea, subverteu um pouco a ideia celibatária da igreja, mostrando que, apesar do cara ser sacerdote e ter pau pequeno, ele possuia desejos sexuais, como qualquer outro homem, e, aparentemente, os punha em prática. Esse pressuposto tornou seu texto ainda mais rico. Enfim, matou a ''pau'', Andrea! rsrs O Paulão já entrou no hall dos grandes personagens já criados no nosso blog.
Grande bj, te espero na proxima quarta-feira, viu?? rs

aa disse...

Olá Andréa,
incrível a sua forma de escrever!!! Mais um texto escrito de forma inteligente e com muito humor! Que 'prende' desde o início até ao fim... Bem ao jeito que eu gosto:)
Adorei!!!
Beijos,

AA

Andréa Amaral disse...

Obrigada aos dois,Lohan e Alex.

piedadevieira disse...

Oi,Andrea.Maravilha de texto.Concordo com Lohan, também senti esse lado religioso, a começar pelo nome Paulo.
Beijos.