quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Vermelho


O sinal ficou vermelho. Pensei na cena do crime. O lençol, vermelho de sangue. Não. Antes: ele, vermelho de raiva. Ela, vermelha de vergonha. Vagabunda, de sardas no rosto e cabelo vermelho. Desejei não ter nascido para viver uma situação dessas. Mas nasci. De parto normal. Após nove meses e 12 longas horas de agonia. Finalmente minha mãe me apresentou ao mundo. Eu, coberta de um sangue denso e vermelho, deitada sobre o peito dela, tive de aprender ali mesmo que a vida é feita de cordões umbilicais que se rompem depois de um sonho bom.


Nunca sonhei com um mundo multi colorido. Não existe. O mundo é vermelho. Lembrei de quando descobri que era uma mocinha, uma alegria pontualmente vermelha. Ao mesmo tempo não queria ser adulta. Queria poder continuar subindo em árvores, caindo vez ou outra, abrindo talhos na testa ou ralando o joelho. Minha mãe reclamava do sangue misturado com terra, era difícil de remover.

O sinal abriu há algum tempo, segui ainda pensando no que deixei para trás. Tinha de encarar os fatos, como um dia tive de encarar o fato de ter crescido. Isso foi quando o conheci. Amor à primeira vista. Cartões cheios de corações vermelhos; uma rosa vermelha, cujo espinho me furou e fez sangrar o dedo. A primeira vez, sem jeito e sem graça, que ficou manchada no banco de trás do Chevette vermelho. Achava incrível as semelhanças que nos uniam. Nossa cor favorita era vermelho. Eu não comia carne, nem ele. Eu porque tinha pena de comer algo que sangrou até a morte, ele porque era alérgico a proteína. Éramos torcedores do América e votávamos sempre no PT. Ele, por questões de princípios; eu também, seguia meu princípio de que o mundo é vermelho. Éramos felizes. Até hoje. Até uma hora atrás. Ao avistá-lo num cruzamento, fiquei tentada a seguir seu carro e acabei dando um flagra no “Motel praia vermelha”.

Ele não esperava por essa. Nem eu. Um surto psicótico e duas gargantas cortadas. Vermelho por toda parte. Agora os carros dos bombeiros e suas sirenes passam por mim a toda velocidade. Vermelhos e imponentes, desta vez, heróis de uma causa perdida.
Já em casa, debaixo do chuveiro, o vermelho das mãos vai aos poucos se diluindo e descendo pelo ralo. Deitada na cama, trajando camisola de seda vermelha, vou engolindo um a um os comprimidos vermelhos que me levarão a outra dimensão. Rapidamente sinto meu corpo reagir, meu coração se acelera e meus olhos aos poucos se fecham. Antes mesmo que pudesse voltar atrás, tive a constatação: o inferno é vermelho.

7 comentários:

Andréa Amaral disse...

The scarlet writing, dear! Very good.I love your style lady in red.And please, keep killing people, especially those fucking traitors.

Camilissima disse...

Desculpe manchar o blog de sangue de novo... Eu sei que todos estão alegres e sentimentais e eu estou adorando esse clima de paz e amor, mas é mais forte que eu, amigos. Sou uma serial writer irrecuperável, rsrs... Sorry.

Lohan disse...

Puta q... (Piii)!! Que texto bom! Red, que cor forte. Porém, mais forte é a sua escrita, Camila. Que babem os àrabes, os americanos, e os coreanos. Não temos vermelho na nossa bandeira, mas temos Camilíssima Furtado com seu vermelho retinto, de muita qualidade. Essa semana está demais! Olha, sem precipitações, na minha opinião, digo que o texto da Juliana e este, foram, respectivamente, os melhores de cada autora até então. Meu vermelho coração agradece, rs.
Grande bj!!

João Luiz disse...

Nossa!!!
Cheguei a quase ouvir a sirene do carro dos bombeiros...rsrsrs
Camila inspirada e sanguinária!!!
Muito bom texto,esta semana o povo ta se superando,deve ser por causa das indicações e das estatísticas...rsrsrs

Estamos bem,estou muito feliz em fazer parte disso!

Felicidades!!!

Andréa Amaral disse...

Tive que voltar.You're the BEST!!!

Camilissima disse...

Obrigada, amigos. Beijo vermelhinho pra todos!!!

Ernesto Ulysses disse...

Parabéns Camilíssima. A fraternidade é vermelha! rsrsrsrs