quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sem título.


Antes de iniciar o meu texto, quero dizer que ele foi escrito em 17/05/90. Naquela época, meu sonho de consumo foi concretizado pelo meu pai em forma de presente: uma máquina de escrever profissional. Foi um período fértil de descoberta das letras através das teclas. Escrevi muitos poemas e textos que guardo até hoje em suas páginas originais. Este texto, diferentemente de "A volta", não foi modificado em nada. Vou digitá-lo do jeito que foi escrito, sem correções ou acréscimos.



As almofadas me perseguem as costas deslocadas.
E ereta, levanto o corpo cheio de dores reumáticas.
Tento fingir altivez num olhar frio, nos ombros erguidos.
Mas eis que me corrói um vulcão interno
e lavas incandescentes borbulham em minha mente esquizofrênica.
A cleptomania devora as unhas da mãe querida.
E há graxa na pia do banheiro que uso
me lembrando que a sujeira está por toda a casa.
Começo a dissertar o que não alcanço
e o inferno sartriano me infunde um terror medonho,
da boneca de pano azul, que me fita com ares de espantalho.
A fumaça que solto retorna com a brisa que vem da janela aberta.
Sinto os olhos percustradores do vizinho por detrás da cortina cinza.


Todas as luzes se apagam.
E o meu real se infunde de um silêncio opressor.
Um desses silêncios que inspiram
as vozes de um coral catedrático medieval.
Olho a foto a minha esquerda: primeiro namorado.
E sinto que o tempo que aqui estou a escrever
se confundiu com um retrocesso de morte adquirida
em sã consciência.
De repente emerjo deste túnel nauseante
e percebo a herança das rugas nas mãos aflitas,
o cansaço das tentativas frustradas,
as noites mal dormidas com esperança
de sonhos interminavelmente concretos.


Sinto agora a mesma vontade de não acordar do adormecer.
Quero me drogar de sono.
Ruminar em lugar nenhum.
Olhar os livros amontoados na estante
vendo um arco-íris estampado de flores;
me iludir com a possibilidade de voar com asas,
de decifrar o enigma da Esfinge e despir o Cristo Redentor;
pintar os cabelos de verde musgo,
conversar com Jack, o estripador.
A chuva desaba com clarões e trovoadas
e pesa no ar o desabafo do frio de todas as criaturas dementes.
A melodia eletrônica relaxa os meus nervos,
um frisson formiga entre as minhas coxas
e na solidão do quarto que me entrega à caneta,
começo a desejar a almofada que antes me intimidara.


Master de mim mesma, preciso do aperitivo final:
o resto de cerveja que se aquece no copo largado.
Fumo um cigarro, examino a violeta também doente
e lembro no tempo exato de terminar
que poderia ter utilizado a máquina de escrever
E não o fiz.
Deslizo a tinta cinza no papel branco
como tocaria as teclas íntimas
da minha verdade erotizada pelo funesto.

8 comentários:

Lohan disse...

Maravilha de texto! Estou fazendo uma comparação dos dois textos de sua autoria escritos no ano de 1990 e os escritos atualmente. Percebo que, há quase vinte anos, vc mantinha uma sobriedade maior em sua escrita, uma coisa mais clássica, requintada, hermética até, eu diria, em certos pontos. Textos que exigem do leitor uma atenção redobrada, um repertório, para que possa compreender exatamente o que vc digitava em ''sua máquina de escrever'', rs.
No entanto hj, vejo uma autora totalmente diferente. Não ''perdendo a pose'', vc consegue aliar o humor e o despojamento das palavras em seus textos. Aliar a todo esse seu requinte característico, entende?
Mas de qualquer maneira, seja de tempos de outrora, seja de agora, seus textos são nota mil.
Parabéns!

K@rininh@ disse...

Olá Andrea!!
Adorei seu texto, quem dera eu conseguir escrever assim! rsrsrs
Não sei se foi intencional, mas fica explicita uma relação do seu texto com a da Juliana... Tocam na mesma ferida! A vida feminina! Tô até achando de depois da semana de politica iniciou-se a semana da mulher aqui no blog!rsrs
ahhh, engraçado q me identifiquei mto com seu texto, quase me caiu como uma luva, depois fui perceber a data q vc o escreveu e bumbumbum, foi exatamente um dia depois do meu aniversário de três anos... Será q vc já escreveu pra mim?? rsrsrsrsrs
Um abraço, parabéns!

Camila disse...

Caramba... Andréa, que texto bacana! Você é uma escritora muito talentosa e acaba de provar que sempre foi assim. Eu diria que seu texto estimula nossas percepções, pois consigo ver as cenas e sentir o peso dessas reflexões... Muito bom mesmo!

João Luiz disse...

É Andrea,dizem por aí que quem é bom já nasce pronto! Concordo em parte,acredito que alguns já nascem prontos sim,outros vão se construindo ao longo da vida e cada vez melhorando mais.Você já nasceu talentosa,podemos ver que há quase vinte anos você já escrevia maravilhosamente bem e hoje,com a experiência adquirida na vida nos oferece maravilhas de textos.

Salve Andrea! Ontem,hoje e sempre!!!

Felicidades!!!

Andréa Amaral disse...

Mais uma vez, obrigada aos meus amigos e companheiros de escrita.
Karina, se vc se identificou desta forma, talvez tenha havido uma correspondência telepática entre nós para que hoje, passados 20 anos, você estivesse aqui para receber esta mensagem. Who knows?
Lohan, nunca analisei o que escrevo desta maneira...hermética, eu? Não tenho uma bola tão calibrada assim. Na época, eu me espelhava nos meus ídolos e queria escrever como eles. Gostaria de saber o que pensariam lendo meus textos, tbm.
Camila e João, quando iniciamos qualquer ativida, queremos ser reconhecidos pelo que estamos fazendo. Não sei se tenho talento, mas com certeza procuro por ele cada vez que vocês me elogiam para superar as minhas limitações como "escritora". É um orgulho vocês elogiarem o que faço, sendo todos tão bons na sua escrita.

Cacarina disse...

Oi Amiga!
Então, ganhei o selinho e toda feliz indiquei esse blog interessantíssimo... Quando entrei para postar, já haviam recebido. Não vou tirar a indicação, ok?!
Grande beijo no coração desse grupo aventureiro!
Claudia

Sidarta disse...

Andréa, este foi um texto cheio de palavras e expressões simbólicas (talvez até oníricas), que devem ter um significado bem especial pra você. Pelo menos essa a minha impressão. Às vezes releio os meus primeiros textos, e como sugeriu Lohan em seu comentário, comparo com meus escritos de hoje. Acredito que, quando escrevemos diretamente da alma, sem censura, é como se fosse um sonho: pode ser o inconsciente nos falando. E se você escolheu este texto exatamente (um texto antigo), o que será que isto quer lhe dizer? Não sei, caberá a você pensar se minhas palavras tem algum sentido ou não.

Depois de uma identificação pessoal, vem a identificação com o outro.

No início, você disse em seu comentário que se inspirava em seus ídolos, e queria escrever como eles. Mas mesmo na "imitação", a gente acaba dando início ao nosso próprio estilo (primeiramente que você não escolheu aqueles determinados escritores por acaso, no próprio processo de escolha já tem algo de você). A nós, não resta dúvidas de seu talento.

Aliás a arte, a meu ver, só existe no encontro do leitor com o escritor, pois enquanto ele não mostrar o que escreve a alguém (ou alguém descobrí-los), seus escritos não passarão disso: escritos. Não sou crítico, mas analisando aqui livremente, penso que para haver arte é preciso que alguém a contemple. Talvez o que nos faltava estamos fazendo aqui: tornando disponível o que escrevemos. É nesse contato com o leitor que há a tão necessária relação de afeto, como a Karina se sentiu "atingida" pelo seu texto. E se você conseguiu afetá-la de algum modo positivo, como ocorreu, é porque o seu talento existe e tem uma função. O que precisamos, apenas, é estar atentos a esta relação, à maneira como afetamos as pessoas a partir das expressões de nossa alma poética. Assim nos encontramos, achamos nossa "roupa" artística que é nosso estilo.

Beijos!

Dante Pincelli O Velho disse...

Nossa!
Não é que nossos textos são muito semelhantes?
Inclusive na época em que foram escritos, ambos na década de 90...
Sintonias dos tempos.
Só vejo uma grande diferença entre os dois textos, o seu é extremamente feminino, percebe-se que foi escrito por uma mulher.
Bj
Dante.