sábado, 21 de novembro de 2009

Que ser sou eu?


Quero, antes de tudo, ressaltar que também muito o admiro e respeito, Sidarta. Creio que todas essas discussões são benéficas para o crescimento de nossa cidadania e, acima de tudo, nossa identidade, nosso ser. Mas... Ser o que?



Seu texto foi, como não podia deixar de ser, perfeitamente construído. Porém suas palavras não foram o bastante para me convencer do contrário. Prezemos pela humanidade, como bem diz o João. Ser humano é a única certeza que tenho acerca da minha vida.



A semana retrasada foi, na Universidade onde estudo (Estácio de Sá), a chamada “Semana de Letras”. Nesta semana, na qual ocorrem eventos dedicados especialmente ao curso de Letras, destaco aqui uma palestra que me fez parar para refletir sobre um aspecto: o que eu sou, etnicamente falando?



A palestra era sobre capoeira: sua origem, seus componentes, sua importância social/cultural, etc. Muito interessante, por sinal. Em determinado momento da apresentação, um dos mestres de capoeira tomara a palavra e dirigiu a nós, espectadores, um pedido.



-Quem é negro aqui levante a mão, por favor.



Eu, “branco azedo” que sou, não ousei erguer minha mão. Então, para o meu assombro, percebi que muitas pessoas ditas “brancas” levantavam seus braços; até mesmo uma professora, que compunha a mesa principal, ergueu seu braço euforicamente. Ela é branca... Ou não... Já não sei mais. Já não sei mais me definir quanto à minha etnia. Então o mestre concluiu:



-Todos nós aqui somos negros. Somos miscigenados.



Eu, leigo constitucionalmente falando, me perguntei: o que sou eu? Estaria eu ali, ao manter meu braço sobre a perna, cometendo um ato racista? Sou branco, sou preto, sou todas as raças misturadas? Afinal, o que sou?



Diante de tal encruzilhada multicolorida, me tornei adepto de uma nova idéia: sou humano. Esta é a minha condição, já basta para me definir. E, levando ainda em consideração o que disse o mestre, não existe etnia. Somos resultado de uma profunda mescla. Todos sempre foram.



Ora, sendo assim, o Dia da Consciência Negra é o meu dia também. Então as cotas universitárias devem ser abolidas por definitivo, uma vez que não há quem seja negro em específico. O negro é branco, e o branco é negro também. Ou os negros não podem ser brancos? Ou são pessoas que constituem uma raça superior?



Tudo bem, as cotas estão aprovadas pela lei. Que tolo fui eu, poderia ter requisitado a minha cota. Ora, eu sou negro também! Mas não. Eu não precisei recorrer a tal meio apelativo. Nunca estudei em escola particular, tampouco tive condições de pagar explicadores particulares. Não sou branco de classe média alta, antes fosse... Morar de aluguel numa cidade do interior que me oferece oportunidades mínimas de emprego, bem como outros recursos, como saúde e educação, não é fácil.



Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não estou tomando o assunto como pessoal. Estou apenas me usando como exemplo, que, coincidentemente ou não, cabe no texto.



Apesar dessas dificuldades, não desanimei. Corri atrás, tentei o Vestibular, a Prova do Enem. Lembro-me bem, inclusive, da minha ficha de inscrição para a prova do Enem... Havia a seguinte pergunta: qual a sua etnia? Eu, inocentemente, ou não, marquei a alternativa que correspondia a “branca (caucasiano)”. Pra minha felicidade, independentemente de ter optado por esta questão, fui bem sucedido nas questões que integravam a prova. Tive muitos acertos, fui bem na redação, fui aprovado. Após diversos planos burocráticos para comprovação de renda, fui aderido ao programa Pró-Uni, e agraciado com uma bolsa de 100%. Hoje eu posso dizer que a minha cota eu conquistei disputando com mais de 3 milhões de estudantes no país inteiro, e me orgulho muito disso. Conquistei apesar de ter concorrido com muitos estudantes chamados “filhinhos de papai”, que tiveram a chance de estudar a vida toda em um colégio particular, viajar para o exterior, ter contato com novas culturas, entre outras benesses. Vale ressaltar que existem muitos negros bem sucedidos na vida também e que, não obstante sua ótima condição financeira, ainda requisita sua cota por direito... Isso é direito?



Admito que os negros sofrem ainda muito preconceito. Mas não vejo que este seja o melhor caminho para que um dia essa realidade se modifique, ou mesmo seja extinta. Estudar História, se informar sobre dados do passado é, de fato, muito importante. No entanto, vivemos em uma época completamente distinta da de um século atrás. Precisamos nos ater aos contratempos da nossa era. A mulher, por exemplo, era quase um animal doméstico em tempos de outrora. Ela conseguiu dar a volta por cima com louvor, sem estabelecimento de privilégios políticos que influenciassem em sua guinada social.



Com todo respeito, Sidarta, creio que o que você chama de incômodo eu sinto como sendo mais uma forma de discriminação no nosso país.



Dentro da perspectiva de que não há etnia definida, de que em nossas veias percorre um sangue vermelho que representa todas as cores, eu não faço questão do dia da Consciência Branca, nem do feriado para o dia do Índio, muito menos do dia do Sushi em homenagem aos nisseis. Pra que, se somos todos iguais?



Percebo que muitos os que defendem esta causa são, além dos componentes do Movimento Negro, políticos. Políticos demagogos, em grande parte, eu diria, os quais temem serem prejudicados pelos negros em se tratando de eleição...



No caso da novela “Viver a vida”, prefiro acreditar que todas essas críticas à cena exibida no dia 16/11 fazem parte de um processo de desmoralização da emissora mais forte do país. Que me perdoe o internauta Chico Mendes, autor do comentário a respeito da cena, no Blog do Azenha; mas muitas metáforas surgem em mentes de pessoas maliciosas, cujo propósito está muito aquém da defesa da etnia negra... Uma polêmica totalmente sem cabimento (aliás, ultimamente estão “chovendo” polêmicas desnecessárias...). Já assisti a diversas entrevistas do autor Manoel Carlos, onde ele sempre frisa seu horror ao preconceito racial. A Helena, uma das personagens mais consagradas da teledramaturgia brasileira, é a mocinha (pensaram que eu fosse dizer que ela era negra, não? Que diferença faria dizer que desta vez a Helena é negra?). Mocinhos costumam sofrer em novelas, independente de serem de cor ou não. Quantas vezes a excelente atriz Regina Duarte, que por três vezes já viveu a personagem Helena nas novelas do Maneco (História de amor, Por amor e Páginas da vida), não foi esbofeteada, não foi humilhada, não sofreu durante a novela inteira? E a escrava Isaura, era negra por acaso?



O dia 10/11 foi um dia de importantes decisões no Senado brasileiro. Além do estabelecimento das cotas, dos 20% obrigatórios de trabalhadores negros numa empresa, entre outros direitos destinados exclusivamente aos negros, ainda estava em pauta a “obrigatoriedade de cota para atores negros em filmes, novelas e programas brasileiros, em todas as emissoras”. Por sorte, ou não, o bom senso prevaleceu neste caso, e este item foi eliminado da pauta. Ora, supomos que a produção cinematográfica abordasse a vida indígena no Brasil: onde se encaixaria um papel negro? Os roteiristas ficariam limitados a construírem seus roteiros. Seria mais um absurdo aprovado.



O negro precisa ser consciente da discriminação que está direcionando às demais etnias e à sua própria etnia. É desta consciência que me refiro.



Meu cabelo é amarelo, meu sangue é vermelho, minha pele é branca, meus pêlos são pretos, meus olhos são verdes. Eu sou um ser humano, como outro qualquer. Se um dia me perguntarem se sou negro, ou branco; se sou arco-íris, enfim; minha resposta será exatamente esta:


EU SOU UM SER HUMANO.


Amar




Quão medíocre é a vida quando nos ensina
Que devemos viver para amar ...
Pois aí há uma contradição,
Pois nem todos aprendem esta lição,
Do amor sem condição,
Que deixa partido o nosso coração.

É preferível tudo, menos a dor de amar,
Quero correr, sorrir, dançar,
Quero não ser de ninguém,
Antes que se faça sofrer com desdém.

Quero ser de todo mundo,
E possuir todos,
Do que me prender a um, em vão.
Amar, amar e amar,
É o mandamento da vida.
Mas, saibamos amar,
Pra não o fazer em demasia.
E começar com histeria,
Na louca magia, na utopia,
De que um dia pertenceremos
A uma pessoa vadia.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Inconsciência Negra

“Não entendo um Dia Nacional da Consciência Negra. Creio que seria mais correto “Dia do Repúdio à Escravidão”, ou “Dia de Afirmação do Exercício da Liberdade”. Por que, se não, seria necessário também um Dia da Consciência Branca, da Consciência Nissei, e tantos outros diante dos inúmeros grupos étnicos que formam o país. Não podemos copiar os Estados Unidos, que são uma sociedade toda segmentada [...] Afinal, o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, não reproduzia uma estrutura africana e não era refúgio apenas para negros fugindo da escravidão. Era território que abrigava também mestiços, índios e brancos que buscavam a liberdade de viver e trabalhar por conta própria fora de uma estrutura colonial, em que trabalhador não tinha direitos”.


(Trecho da crônica do professor e economista Carlos Lessa, publicada no Jornal “O Dia” do dia 20/11/2009; página 14).


Hoje pela manhã, ao terminar de ler esta opinião tão bem escrita pelo professor Carlos Lessa, me senti regozijado. Suas palavras traduziram meus pensamentos, minhas idéias a respeito do dia de hoje. Dia o qual reverencio apenas por uma razão: por ser feriado, e por propiciar um descanso merecido a muitos trabalhadores que suam para sustentar suas famílias; trabalhadores brancos, pretos, amarelos, e vermelhos pelo sol que arde diariamente em suas faces.


Existe racismo no Brasil? Óbvio que existe! O Dia Nacional da Consciência Negra é a maior comprovação de que existe sim, o racismo no nosso país. Antes fosse um dia dedicado a Zumbi, como há um dia dedicado a Tiradentes, entre outros mártires da nossa história. Mas não. Hoje é um dia generalizado a um grupo étnico. Os brancos, os nisseis, os indígenas... Esses grupos étnicos não são componentes da humanidade? Por que privilegiar apenas um?


Hoje é o Dia da Consciência Negra. Vejam bem, o dia da CONSCIÊNCIA. Teriam os negros consciência da discriminação que exercem sobre eles próprios ao defenderem uma data como esta, ou o estabelecimento de cotas?


Agir por compensação é como agir por piedade. A pena é um dos piores sentimentos que existe. É um sentimento que designa inferioridade, submissão da parte considerada “vítima”. Compensação por atrocidades cometidas há mais de um século... Os judeus sofreram nas mãos dos nazistas momentos traumatizantes, além do pior genocídio que a História mundial testemunhou até hoje. Existe o Dia da Consciência judaica?


É triste saber que naquele tempo, eram os negros quem sofriam várias formas de discriminação. E, muito triste também, saber que hoje, em pleno século XXI, são os demais grupos étnicos que sofrem pelo racismo perante esses benefícios concedidos aos negros.


Pra completar, termino com outra reportagem, a qual também fora publicada hoje no jornal O Dia. Na novela “Viver a vida”, de Manoel Carlos, uma cena aparentemente comum causou polêmica. Uma mulher negra, a protagonista da história, é esbofeteada, de joelhos, por uma mulher branca. Eis a imagem:



O movimento negro protestou contra essa cena, alegando que “fora exibida num momento errado, devido a proximidade do Dia Nacional da Consciência Negra”. Agora me respondam: Existe algum tipo de preconceito racial nesta cena? Ou novela deixou de ser ficção? Só para lembrar, em capítulos anteriores, foi a personagem Helena, vivida pela atriz Tais Araújo, quem esbofeteou uma personagem branca. Se não me falha a memória, não houve qualquer tipo de burburinho a respeito disso. Absolutamente normal...

Enfim, na minha modesta opinião, o movimento negro do Brasil cria muitos alardes em torno de acontecimentos irrelevantes, e digo mais: se “armam” de um passado distante para conquistarem seus espaços no presente. Prezemos por nossas competências, nossa capacidade. Esqueçamos o que passou. Quem vive de passado não é o branco, nem o preto, nem o amarelo, nem mesmo o azul do céu que a cada dia se renova com suas nuvens. Quem vive de passado é o museu, e olhe lá.


Feliz Dia da Inconsciência Negra.










Dia da Consciência Negra


Algumas reflexões...

Dia da consciência negra!

É o dia de Zumbi dos Palmares que foi um grande herói brasileiro que lutou até a morte em busca da tão sonhada liberdade, um homem que tem de ser lembrado como grande símbolo da resistência e luta contra a vergonhosa escravidão, um verdadeiro herói nacional.

Vejo que o nome desse feriado deveria ser: “Dia de Zumbi dos Palmares”,assim como temos o dia de Tiradentes,mas, ainda não é assim, enquanto isso vou me acostumando com esta nomenclatura e estudando suas possibilidades...

Dia da consciência negra!

Quando ouço essa expressão, de certa forma fico incomodado, sei que esta consciência negra que comemoram hoje, dia 20 de novembro, em tese, é a consciência para termos com a raça negra, nos lembrarmos das atrocidades que fizeram durante tantos anos com nossos irmãos e de nos conscientizarmos e valorizarmos cada vez mais o trabalho e a verdadeira construção desse nosso Brasil pela mão de obra dos negros, escravos e perseguidos, sinto também que é o dia de celebrarmos a construção da identidade cultural deste país que tem grande diversidade cultural vinda da mãe áfrica.

Sinto mais forte no meu coração que todo dia é dia de celebrarmos nossas raízes, de desenvolvermos o respeito por nosso semelhante, mesmo que sua pele seja azul, rosa ou verde, mas que tenhamos o discernimento de enxergamos a pessoa que está diante de nós, o ser humano, sinto que é mais bonito agir com pelo menos um pouquinho de consciência todos os dias do que agirmos com a tal consciência só dia 20 de novembro.

Acima de raça e dessas divisões culturais,físicas e sociais que o homem faz, penso que temos de ter uma consciência clara, ou seja, uma consciência com mais luz para que não seja preciso ter um dia dedicado a se lembrar do negro, do branco, do amarelo, do índio, do pobre, do nordestino, dos excluídos e sim, que todos os dias nos lembremos do ser humano, do irmão, do próximo, do semelhante e trabalhemos por uma sociedade mais justa e equilibrada em que todos possam ter as mesmas condições, independentemente de cor da pele, classe social e naturalidade.

Dia da Consciência Humana!

.

Chegaremos num tempo em que todos os dias possamos agir com mais consciência, sabendo que somos todos irmãos, filhos de um mesmo Deus que não tem cor, nem conta no banco.

Abraços e Feliz Dia da Consciência!

A arte de escrever uma crônica

Como escrever uma boa crônica? Bem, para começar, pode-se jogar ao papel uma observação casual, tão banal e tão próxima do cotidiano do leitor quanto possível. Tão óbvia, mas tão óbvia que o leitor se surpreenda por não ter tido, ele próprio, aquela ideia.

Vejamos... Algo assim: há dois tipos de escadas, as que sobem e as que descem. Não, esqueçam o que eu disse: obviamente não há dois tipos de escadas, as escadas que sobem são as mesmas que descem. Então. Há dois tipos de pessoas: as que sobem escadas e as que descem escadas. Não, também não é um bom exemplo, pois tudo o que sobe, desce, já diz a sabedoria popular. Ah, sim, a sabedoria popular, aí está um tema que, embora batido, sempre pode se prestar a uma crônica de emergência. Escolham um provérbio e sigam em frente.

Terão de explorar o dito cujo, mas deliberadamente sem pretensões acadêmicas. Como uma conversa de bar, aí é que está o segredo. Embora as conversas de bar não tenham segredo. O problema é justamente controlar o ímpeto de se sentir como um orador falando do púlpito. Afinal, os escritores são normalmente uns tímidos enrustidos e, por isso mesmo, perigosos: escolhem uma das tarefas mais solitárias que existem, que é escrever, mas vingam-se na hora de publicar o texto escrito, momento em que são extremamente carentes de atenção. Esquecem que não temos necessariamente interesse em todas as suas reminiscências e opiniões. Assim como vocês não precisam ter paciência para me lerem até o final (mas, por favor, não me abandonem!). Lembrem-se da conversa de bar: ela não precisa levar a lugar algum para valer a pena (ninguém acredita realmente que pode convencer o amigo de que seu time é superior ao dele, mas não deixamos de discutir só por causa disso).

De repente, vocês se levantam da mesa do bar e pedem ao garçom a saideira, exultantes. É que, de tanto divagar, de tanto discutir seus argumentos com o interlocutor imaginário, vocês têm uma crônica na mão. Novinha em folha. A melhor crônica do mundo (os escritores são, normalmente, pais corujas). Pobre do cidadão que cruzar com o escritor neste momento: terá de ouvi-lo pacientemente até que consiga dar um elogio à altura de seu ego.

Então o texto vem a público, e o autor já mal se lembra sobre o que escreveu, mas se deleita com as respostas – elogios – que recebe. Raros são os leitores que discutem. E raros são os autores que gostam da discussão; mas estes são os melhores, talvez. Porque, no fundo, há dois tipos de escritores: os que preferem os elogios e os que preferem as críticas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Guernica




Eu vi Guernica e ela estava viva.
Saltou sobre mim e me cuspiu a verdade.
Em seus olhos brilhava o fogo,
E em seus cabelos ecoava o vento.

Eu vi Guernica e ela gritava.
Gritava a mãe, com o filho morto nos braços,
Gritava o toureiro, com sangue na espada,
Gritamos nós, que aqui padecemos.

Eu vi Guernica e seu hálito era doce.
Me lembrou caminhos percorridos,
Me trouxe a tona os tantos outros que virão,
Me lembrou que há paz depois da escuridão.

Eu vi Guernica e Guernica me viu.
Me viu descoberta e me reconheceu,
Me viu deserta e me acolheu,
Me ouviu pedindo e me concedeu.

Eu vi Guernica e ela transcende o absurdo.
Ela brilha no escuro,
Ela faz ver quem nunca viu.
Eu vi Guernica, e ela me sorriu.

Vergonha.





Ver
Verde
Ver-te
Ver-me?
Verme.
Vermelho
Ver melhor.
Ver melhorar.
O ar...
Ar?
O que se vê é o cinza.
Melhor?
Só o verde.
Que verde?
O que se vê são vermes.
Ah...sei.
E o que isso quer dizer então?
Meras rimas?
Não.
Mera falta do que dizer.
Mera falta do que pensar.
Mera falta de agir.
Como todos os que estão lá.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma flor e um cigarro

A noite nas ruas tem cheiro de angústia
Sorrisos apodrecidos
Olhares esquivos
Corpos apressados

Noite-amargura
De sirenes alarmes rangendo no asfalto
Luzes sons faíscas
Vida pulsando apagando dormindo

À meia-lua
Vozes ausentes
Vidas prementes
Corpos-esquinas
Olhares-calçadas
Feridas fagulhas fragmentos.

No meio-fio
Meias de seda
Pernas risos copos vazios
Sorriso prenhe batom barato
Hora dinheiro estômago

Um bar e suas sombras tênues
Vidas-copos bebendo angústia
Arrotam dores
Vomitam rotina.
Ruas sombras corpo medo

Faces adormecidas
Corpo-rua estendido no chão
Dormindo-calçada
Sonhando-fome
Exalando miséria
Brasas fome aflições

Asfalto.
Sinal. Fechado.
Motores. Parados.
Olhos-criança.
Pequenas mãos sorrateiras.
Brincando apressadas
Em bolsas alheias.
Tumulto gritos arranque.

Uma pausa:
Um grito
Um atropelo
Um soluço
Um sossego

- O tempo parou no caminho.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O homem que queria ser outro - Parte 10 - Charles

Amigos leitores! Quero me desculpar pela demora em postar o novo capítulo da história. Por um lado foi bom, para refrescarmos um pouco a mente das barbáries de Euclides, pois o que vem pela frente não será fácil... Reta final: Boa leitura a todos!













Ariano tinha o olhar perdido pelas esquinas cariocas. O carro que seu pai dirigia parou no sinal vermelho.
-Em que está pensando, garotão?
O jovem não o ouviu. Se ouviu, não escutou. Algo estava embaçado... Em sua mente, em seus olhos... Ou não seriam as lentes dos seus óculos?
-Ei, olha pra mim.
Desta vez, atendendo maquinalmente à imperatividade do pai, ele se vira, ainda que mudo.
-Que narigão inchado, hã? – Gozou Walter – Seque essas lágrimas. – Ordenou.
O sinal abriu. Walter arrancou com o carro. Ariano, encabrunhado, secou suas lágrimas. Agora enxergava melhor.
-Não me diga que ta chorando por causa daquele falso amigo?
-Eu nem sei porque estou chorando...
-É, mas eu sei.
-Ficaria agradecido se me dissesse.
-Você está carente, Ariano. Carente de um bom amigo, de uma companheira, de carinho. Na verdade, você sempre foi.
-Não, eu...
-Nada, não precisa dizer nada. Não há quem te conheça melhor que teu pai.
-Eu me conheço melhor. – Respondeu, com uma convicção incerta.
-Agora mesmo me disse que não sabia o porquê das lágrimas. É assim que você se conhece?
Ariano se deu por vencido. Dificilmente persuadia seu pai, o homem mais astuto que já conhecera.
-Eu consigo viver bem assim. – Disse, em tom resignado.
-Está apaixonado por aquela moça, não está?
-Por que me diz isso?
-Você dá bandeira demais. Sem contar a grande preocupação que teve por ela... Levou um soco para protegê-la, ligou para que eu fosse o advogado dela...
-Ela não me dá chance. – Disse, retirando os óculos para mais uma vez secar as lágrimas que insistiam em sair.
-Ela ainda não conseguiu enxergar a dimensão da sua bondade, e do seu amor. Se ama de verdade, tenha paciência, e continue assim, sempre ao lado dela, nas horas boas e nas ruins. Quando a maré da vida dela baixar... Sua hora vai chegar.
-O Euclides... Ele também está dando em cima dela. A Julia me contou... Nossa... Mas depois disso as chances dele conquistá-la são nulas.
-Ele estará em maus lençóis... O delegado Régis é esperto. Irá deduzir o mesmo que nós, com base no depoimento da Lia. Quem sabe ele não monte uma armadilha para o depoimento do Euclides?
Já era noite quando Régis chegava em casa. Ana não fora à faculdade naquela quinta-feira. Estava aflita, à espera do marido. Ela o recebe com um beijo.
-Andou bebendo, não foi Ana? – Repreendeu ele, ao sentir o gosto do seu beijo alcoolizado.
-Ai, Régis, isso não importa agora! Mal chega e já vem falando isso...
Ela se afasta, com as mãos na cintura. Ele não dá prosseguimento àquela “velha discussão”, e se senta no sofá, exaurido.
-Dia pesado hoje, não?
-É, hoje foi brabeira... E você faltou faculdade por que?
-Lá vem sermão de novo... Não to a fim, resolvi te esperar, tudo bem assim?
-Claro. Mas não quero que falte mais por minha causa.
-Olha, eu fiz até um jantarzinho pra gente. Dispensei a empregada mais cedo.
-Isso é bom... – Diz ele, abrindo os braços sobre o respaldo do sofá.
Ana Lucia caminha até ele, e senta em seu colo.
-O nosso menino já foi pra cama?
-Que nada, ta lá em cima, jogando vídeo-game.
-Ana, deixa eu te perguntar uma coisa... Voce disse uma vez que dois colunistas do jornal Boca do Povo estudavam com você, certo?
-É, o Ariano e o Euclides. O que tem eles? – Indagou, já em tom suspeitoso.
-Bem... O Euclides está envolvido no caso do assassinato do Adalberto. E não é pouco.
-Como assim, me explica isso!
-Eu vou te explicar, mas antes quero que me prometa que irá se afastar dele.
-Eu não tenho motivos, Régis.
-Eu lhe darei os motivos.
Régis conta detalhadamente à Ana tudo o que Lia depôs acerca de Euclides.
-Isso não significa que tenha sido ele... – Ela reluta – Pode ter sido ela, e está jogando a culpa pra cima dele.
-Pelo sim, e pelo não, quero que fique longe dele até que tudo se esclareça. Amanhã ele será intimado a depor. Eu acho que já sei como posso pescá-lo...
-O que ta pensando?
-Não posso te falar, por enquanto.
-Não confia na tua esposa?
-Confio. Mas não confio nele. Não quero que ele saiba que você é minha esposa. Pode haver retaliação, dependendo de como eu for agir com ele...
-Fique tranqüilo, não contarei...
-Agora vou tomar um banho, e depois jantar, porque não sou de ferro...
Ana Lucia permanece atordoada com aquela história. Enquanto Régis se banhava, ela vai até o bar de sua sala de estar e apanha uma garrafa de uísque. Fica dois minutos insólitos olhando para aquela garrafa, com as mãos tremulas. Ela abre a garrafa. As lágrimas corriam na face quando ela põe o gargalo na boca, deixando aquele líquido amargo descer garganta abaixo.
Euclides estava na sala, conversando com seu tio. Ambos sentavam-se cada um numa poltrona. A televisão estava ligada.
-Ligou pros seus pais, Euclides?
-Liguei hoje. Pedi a empregada pra avisar que estou aqui, e bem. Mas sei que eles não vão se importar com isso.
-A morte do seu irmão foi o inferno pra sua vida também, não foi?
-Por que diz isso? – Desconfiou.
-Porque eles entraram numa espécie de... Depressão. E descontaram tudo em você, o filho vivo. Eu vivi meu inferno, acusado por negligência, por ter deixado seu irmão morrer. Eu nem lembro ao certo o que aconteceu... Estava completamente bêbado.
-Foi uma fatalidade. – Disse, cinicamente.
-Para me livrar desses pensamentos, comecei a fazer meu artesanato... Hoje não consigo viver sem ele.
-Estranho... Não reparei em nenhuma oficina de artesanato aqui... Onde fica seu material de trabalho?
-Ah... É secreto – Sorriu – Mas não para você. Eu realizo meu artesanato no porão.
-Há um porão aqui?
-Sim. Lá guardo meus produtos, pinturas, todo tipo de arte. É mais seguro.
-Onde fica esse porão? Por curiosidade, apenas...
-Sob a minha cama há uma entrada. Às vezes, em noites de insônia, caio da cama propositalmente.
Ambos caem na gargalhada.
-Que interessante! Amanhã pode me mostrar tudo?
-Com certeza, será um prazer...
A jornalista anuncia a próxima reportagem: assassinato de Adalberto Rangel. Charles aumentou o volume da tv. Euclides inquietou-se no assento. Pediu licença, e foi à cozinha.
Enquanto assistia à reportagem, Charles sente seu corpo arrepiar. Ele olha para trás, a procura de Euclides. Estava na cozinha, tomando um copo d’água. “Mas sair assim, justo no momento dessa reportagem...” Algo estava errado. O celular de Euclides emite um som. Ele, por acidente, o esquecera sobre a poltrona. Charles não percebe nenhum movimento vindo da cozinha, e, tomado pela curiosidade, apanha o celular do sobrinho. “1 mensagem enviada”. Ele olha para trás novamente. Euclides ainda estava na cozinha... Pôs-se a ler a mensagem, que assim dizia:
-“Está assistindo a tv, Euclides? Está vendo a desgraça que cometeu na família desse jovem que tinha um futuro promissor? Eu sei que você o matou. E você pagará por isso.”
Charles largou o celular, espontaneamente. O celular caiu no chão. Euclides irrompe na sala.
-Amanhã irei cedo ao trabalho, colocar as coisas em dia... – Vinha dizendo ele, normalmente.
Charles rapidamente pega seu celular, mas já não há tempo para se esconder. Euclides o flagra.
-Por que pegou meu celular?
Charles se levanta do sofá, com o celular na mão, encarando Euclides.
-Man, mandaram uma mensagem agora. Está te acusando. Te acusando de ter matado esse cara aí da televisão. – Disse, nervoso.
-Me dá isso aqui, tio.
Euclides estende o braço.
-Antes eu exijo explicações! Você esta na minha casa, mal se hospedou e já me traz dor de cabeça!
-Ta certo... O que dizia a mensagem? – Disse, entrando cautelosamente no jogo do tio, recolhendo o braço.
-O número é desconhecido... Perguntou se tu tava vendo na tv a desgraça que cometeu. Disse que sabe que tu matou! Que história é essa, minha gente?
-Essa pessoa está me atormentando desde ontem, tio. Eu não sei quem é, é trote, só pode ser. Eu não matei ninguém. Deve ser alguém do hotel onde fiquei hospedado... Me viu sair na mesma hora do crime, eles tem meu telefone...
-Eles não fariam isso, seu imbecil! Fosse assim já teriam entregado você a polícia!
-Eu não sei quem pode ser... O senhor está nervoso...
-E não devia estar? De nada vai adiantar meu falso testemunho. Alguma alma desse hotel vai me desmentir quando essa história toda for pra mídia. Eu não quero me complicar com a Justiça, Euclides. Me desculpe, mas... Se for preciso dizer algo... Direi a verdade.
-Fará isso com seu sobrinho?
-Eu acredito que é inocente. Por isso direi a verdade. Nada irá te prejudicar.
-Serei preso inocentemente! Vou perder minha vida amargando uma cela de cadeia! Será capaz de fazer isso comigo?
-Meu depoimento não vai interferir dessa maneira no andamento desse caso, Euclides... Há muita coisa pra ser investigada além disso.
-O senhor tinha prometido me ajudar... Pobre de mim... Não existe nesse mundo quem me ajude, quem me dê valor. Não existe ninguém que confie na minha palavra, nos meus atos.
Amanhã eu vou dar o fora daqui. Só não vou agora porque ainda não sei para onde ir...
-Fique calmo, vou arrumar um advogado, tudo vai dar certo.
-Não quero mais a sua ajuda! Muito obrigado por tudo, titio.
Euclides vai para o seu quarto, fechando a porta. Charles fica desolado na sala.
-Euclides, vamos conversar, rapaz!
-Não temos mais nada pra conversar, grita ele, do quarto.
-Está bem... Vou te deixar sozinho, depois conversamos.
Charles sai. Euclides permanece deitado na cama. Suas faces estavam vermelhas de fúria. Seus olhos, mais arregalados do que nunca, mirados no teto.
-Desgraçado... Desgraça de vida... O que vou fazer? Preciso pensar... Preciso pensar... Maldita mensagem, só pode ser a Julia. Vou esmagar essa piranha.
Lia e sua mãe apreciava, aos prantos, algumas fotos de Adalberto. Sentadas na cama, elas se abraçavam e choravam muito.
-Ele queria voltar, mãe... Ele me amava de verdade... Eu o desprezei... Eu fui a culpada por tudo.
-Para de falar isso, menina! O culpado é o assassino! Você não esperava que isso fosse acontecer!
-Aquele homem... Ele me acusou, e com razão, mãe. Eu não o matei com minhas mãos, mas fui o pivô de tudo isso. Se não fosse eu, ele estaria vivo hoje!
-Filha... O destino de cada um já está traçado, desde o dia do nosso nascimento.
-Não acredito nessas coisas, mãe. Não acredito em mais nada.
Lia apertou uma fotografia de Adalberto contra o peito. Elas ouvem o telefone tocar na sala.
-Deixa que eu atendo, prontificou-se a jovem.
Ela correu até a sala, secando as lágrimas. Ao atender, mal disse alô, e já foi logo atacada verbalmente:
-Vagabunda, você não vai me escapar. A justiça pode te deixar livre, mas eu não. Você matou meu melhor amigo e vai pagar caro por isso.
-Eu não matei!!!!!!!!!!!
Lia escancarou sua voz, com toda a força da alma. E caiu de joelhos, com o fone na mão.
Dona Beatriz correu para acudi-la. Ela abraçou a filha, apanhou o fone de sua mão. Não havia mais ninguém na linha.
Havia se passado meia hora quando Euclides saiu do quarto. A casa estava completamente no breu, com a exceção de um raio de luz que escapava pela fresta da porta do quarto de Charles.
Antes de ir até lá, passou na cozinha e apanhou uma faca bem afiada na gaveta. Escondeu na bainha da calça, sob a camisa. Caminhou lentamente até o quarto do tio.
-Tio?
Não ouve resposta. Ele abre a porta devagar. A cama está fora do lugar, e o tapete enrolado. Há uma porta instalada no chão, e está fechada. Euclides puxa a alavanca da porta, e ela se abre externamente. Há uma escada em vertical. Ele desce com cuidado.
Lá embaixo, encontra seu tio. Ele estava fazendo uma pintura.
-Tio, eu vim lhe pedir desculpas.
-Não precisava disso. Se eu não confiasse em você, já teria te expulsado daqui.
-Obrigado... Mesmo assim, não quero comprometer o senhor com meus problemas. Amanhã vou embora.
-Faça o que achar melhor, Euclides. Já é bem grandinho...
-Vai mesmo depor contra mim?
-Direi a verdade, já disse.
Euclides fica cabisbaixo, como quem lamenta por algo que irá acontecer...
-Ok... Lindo esse lugar, hein? O senhor de fato é um artista.
-É meu maior lazer...
-Eu preparei um lanche pra gente lá em cima. Vamos comer um pouco, e conversar?
Charles o olhou com uma certa estranheza. Guardou o pincel em um estojo.
-Estou mesmo faminto. Vamos.
Ele passa na frente de Euclides, que o acompanha. Ao estar subindo a escada, Euclides arranca a faca da bainha e, sem pestanejar, a finca na coxa do tio, e puxa de volta.
-Ahhhhhhhhh! – Berra de dor.
Ainda que ferido, ele continua a subir. Euclides segura sua perna esquerda, a ferida, e puxa com toda sua força. Charles se agarra no degrau e tenta chutar Euclides. Euclides o ataca novamente com a faca, rasgando toda sua perna. O sangue espirra para todos os lados, inclusive no rosto pálido do assassino, que mesmo assim, não interrompe sua ação. A cada facada, ele sentia mais vida dentro do peito. Era uma diversão, quase. Era êxtase, era o auge da vida. Ser mais poderoso que o outro, nem que seja por poucos instantes.
-Pare com isso, seu louco!! Desvairado!!
-Eu tenho que te impedir!! Não posso me prejudicar por causa do seu maldito depoimento!
-Eles vão descobrir de qualquer maneira!!! – Urrava, enquanto Euclides cortava toda sua perna.
-Se não largar, eu vou decepar sua perna com uma faca doméstica!
-Por favor... Se eu largar, vai me matar de qualquer jeito...
-Não quero matá-lo! Desça!
Charles desceu um degrau, com cautela. Desesperado, ele pula sobre Euclides. Euclides cai no chão com o peso daquele corpo sobre o seu. Charles agora está sobre Euclides. Mas... Os olhos estão esbugalhados... Euclides com seu olhar epilético, vivo. Charles, com seu olhar esbugalhado, lutando pela vida. Suas mãos esmorecem. Ele não se mexe. Apenas olha fixo no olhar de Euclides.
Euclides o empurra vagarosamente para o seu lado direito. O corpo cai, mórbido, mortificado. Cai de barriga para cima, com a faca inteira cravada na boca do estomago. Ao pular sobre Euclides, ele cai sobre a faca que estava em punho na mão de Euclides... Euclides olha para seu semblante aterrorizado. Ainda estava vivo, no resquício da vida. A respiração já cessava.
-Eu não queria... Eu só queria te prender aqui... Mas, pensando bem, foi melhor assim. Grande arte a minha, não? A de matar. Como é gostosa essa arte... Meu lazer. Olha, tio, o meu irmão fui eu quem matou também. Só to dizendo isso agora porque sou bonzinho, e quero te livrar desse fardo antes de morrer. Você não tem culpa de nada. Eu que o empurrei na piscina e o deixei lá, se afogando. Pra minha sorte, você pagou de bode expiatório. Mas... É isso. Fim da vida.
Estava morto.
Mais uma vítima.
Euclides sorriu, aliviado.
Euclides sorriu.







CONTINUA NA PROXIMA SEMANA...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MALHAÇÃO IDiota







Esta semana cheguei um pouco mais cedo em casa e aproveitando o tempo livre liguei a televisão para assistir a novelinha Malhação, gosto de observar o que estão transmitindo para os jovens, até para poder conhecer e consertar de alguma forma com os adolescentes que estão ligados a minha pessoa os conceitos que são passados para essa geração tão carente de orientação.

Ao ligar a TV, me deparei com a mais nova repaginação da novela teen da globo que em sua nova fase ganhou o título “Malhação ID” este ID é de identidade,mas eu, após assistir este primeiro capítulo já mudei no meu conceito para ID de idiota.

Com o apelo de discutir a identidade do jovem brasileiro suas experiências e aventuras, vejo que a emissora traz mais um programinha vazio de entretenimento bobo em que muitos jovens expectadores vão encontrar ainda piores exemplos respaldados pela força que tem a televisão.

Em muitos momentos, fazendo meu estágio para a conclusão do meu curso universitário, me deparei com situações inusitadas e contraditórias em que pude visualizar claramente a influência deste programa na vida do estudante da escola pública de nível fundamental e médio. O problema neste ponto é que mesmo sabendo que se trata de uma obra ficcional, muitos jovens não conseguem encontrar um limite entre a vida real e a ficção e adotam aquele modelo como exemplo a ser seguido na vida e na maioria das vezes os resultados não são positivos. Em minha experiência acompanhando alguns jovens, observei certa alienação e também uma espécie de fuga da sua própria realidade, essa fuga se transforma em uma revolta por eles, na maioria das vezes não terem a condição financeira que permita ter o que as personagens do citado folhetim têm. Observo aí, aquela velha e triste constatação da busca pelo “Ter” e o esquecimento pelo “Ser”.

Ainda é cedo para dizer qual rumo à novelinha vai tomar, porém observando este começo,o que vi,foi mais uma vez um protagonista rico, filhinho de papai mimado estudando num bom colégio que se ele desse o devido valor iria contribuir para a sua formação, mas essa parte não é abordada, não deve dar ibope, é preferível mostrar as “aventuras” amorosas deste rapaz que sem valorizar um compromisso e até um respeito com as meninas “fica” com várias ao mesmo tempo e elas todas gostam e o acham o máximo, mais uma vez sutilmente passando este modelo volúvel para o jovem valorizando a falta de respeito e a falta de compromisso.

Falta seriedade ao modelo de jovem apresentado no programa,podemos mostrar felicidade com responsabilidade,podemos dar bom exemplo a tantos milhões que estão assistindo ao folhetim.

É possível que minhas palavras tenham um efeito negativo no jovem que lê meu texto, podem me achar careta, chato e quadrado, mas meu objetivo não é ser o repressor, o chato, pois acredito que o jovem tem sim que curtir a vida, ser feliz,namorar,aproveitar o tempo e a vitalidade da juventude,porém tudo isso pode ser feito com responsabilidade,respeito ao próximo,respeito ao pais e a aos mais velhos e desenvolvendo uma consciência crítica do mundo,sabendo que a vida não é só farra,que muitas pessoas não tem acesso ao conforto e ao consumismo exacerbado que é mostrado na TV,que muitas pessoas não tem nem o que comer.Vejo que a mídia tem um poder de influenciar as pessoas muito grande,mas,infelizmente vejo também que este poder é muito mal aproveitado por estar em mãos erradas,mãos de pessoas desorientadas na vida,que não respeitam,nem sabem o que é ter uma família e por isso não a valorizam .

Tenho esperança de um dia assistir programas melhores em que os jovens possam ser instruídos de uma maneira melhor e assim possam aproveitar os conceitos transmitidos na TV com mais tranqüilidade, gerando menos conflitos com a sua realidade e com as pessoas de sua convivência. Não podemos esquecer que esses jovens que estamos formando hoje, serão as pessoas que tomarão as decisões amanhã e depende de nós que essas decisões sejam acertadas.

É nossa responsabilidade hoje, o nosso futuro amanhã.

Dona Quitéria

Lá para os lados da serra.

Dona Quitéria, senhora mirradinha, de tanto dar de si ficou pequena. O mundo e a vida extraíram-lhe o sumo. Virou passa.

Dona Quitéria, de tanto se doar, cresceu. Meus olhos nunca viram mulher tão forte.

Dona Quitéria havia casado, enviuvado, depois casado com o retrato do falecido. Definitivamente. Teve um filho, que criou como quem cuida de um animalzinho frágil.

Dizia que não gostava de bichinhos de estimação, vivem presos, os coitadinhos. Um dia, deram-lhe um periquito muito bonito e muito triste. Dona Quitéria primeiro teve pena de ver a avezinha presa na gaiola. Depois ficou com pena de soltá-la. Enfim se afeiçoou ao periquito, tornaram-se amigos, ambos pequeninos e tristes. O periquito falava mais que Quitéria.

Quando falava, dona Quitéria dizia que seu nome lembrava dom Quixote. Que deveria ter sido ela, e não Dulcineia, a amada de dom Quixote. Que, sendo ambos um tanto loucos, combinariam. E assim o Cavaleiro da Triste Figura teria sido mais feliz.

Dona Quitéria em sua cadeira de balanço, bordando e cosendo. Dizendo-se louca. Tinha os olhos mais lúcidos da cidade. Quando, em 1985, elegeram o presidente, profetizou: “Esse não vai durar.” Não durou. Quando, em 1994, morreu o querido da nação, lembrou: “Para nós, nada vai mudar.” E nada mudou. Mas quando, em 1998, faleceu o cantor, Quitéria verteu uma lágrima que ninguém entendeu.

Dizem que, na sua juventude, Quitéria era a moça mais bonita da cidade. Os rapazes disputavam olhares sob sua janela. E havia sempre um vaso de flores no parapeito. Mas as flores não sobreviveram para me contar até onde tudo era verdade.

Tempos depois, dona Quitéria passou a fazer doces para fora. Quitéria quituteira. Sustentava a casa e os doces sustentavam seu sorriso de domingo. Até que o médico lhe pediu para parar. Andava muito cansada, debilitada. Ela parou de vender tortas e passou a presentear amigos com guloseimas.

Parou de cozinhar no ano em que o cometa passou. Passou quase despercebido e ela, desapontada, esqueceu as receitas. “No meu tempo, as estrelas eram mais bonitas, não era essa coisa mixuruca que mal se vê.”

“Dona Quitéria, a senhora precisa se alimentar melhor, precisa se cuidar...”

“Eu me cuido e estou bem com meu chimarrão, com meus chás...”

E um cálice de vinho todo dia, sabíamos todos, mas ninguém tinha coragem de dizer.

Passou a ter medo de sair de casa.

“Dona Quitéria, a senhora não gostaria de passear um pouco? Ou viajar? Há tempos não vai a Porto Alegre, a senhora não quer ver a cidade?”

Ela nunca queria, preferia o balanço da sua cadeira ao balanço do automóvel.

Passei a lhe levar flores. Do campo. Margaridas.

À tarde, a luz entrava oblíqua pela janela e desenhava sombras no assoalho de madeira. O nhec-nhec da cadeira de balanço ecoava no silêncio, as sombras se moviam. Dona Quitéria colocava as flores no parapeito.

Um dia, ela me pediu que lhe trouxesse miosótis. Não achei logo, mas trouxe-lhe um vaso da capital. Flores pequeninas. Dona Quitéria me olhou com seus olhos também pequeninos: “Miosótis quer dizer não-te-esqueças-de-mim, sabia?”

Dona Quitéria, de tanto sonhar, voou. E me deixou lembranças coloridas de seus olhos tristes. A mulher mais forte que conheci.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sina

Menino de sonhos errantes
Que deixa para trás sol e terra
E segue a lutar
A buscar um mundo novo
de estrelas, faróis
e monumentos

E agora, vês
teu novo chão é de cimento
tuas árvores são de plástico
tuas estrelas, de vidro
Aprendas depressa,
Tuas palavras não têm vez
Teus vaga-lumes não têm luzes
Teu dia cheira à fumaça
e as flores...
as flores estão nos vasos

Tua força é irrelevante
E teus sonhos ficam pendurados
no portão da fábrica
Teu campo agora tem paredes escuras
e corredores longos
o horizonte que te alarga
é o da esteira sempre viva
teus braços abraçam
ferro e fuligem
e esse sol que te queima os olhos
é artificial

-és agora um prisioneiro do tempo
da cor cinza do relógio
do verde que te impingem ao final do mês.

Direitos humanos já!


Olá. Meu nome é Deisy. Mas isso, vocês já sabem muito bem. Aliás, estou mais conhecida pelo meu micro-vestido do que pelo meu nome, mas isso não importa, pois meu sonho à la Marylin Monroe vingou e estou felicíssima. Tudo bem que sempre fui exibicionista, mas não pensei que atiçando a libido dos alunos da faculdade provocaria tal comoção...comoção esta que passou por fases bem distintas: em princípio me senti uma "superstar", sexy, desejada, "A" gostosa do pedaço, o que me deixou à vontade para me exibir mais e mais. Só que de repente, tudo virou um pesadelo, feito uma bola de neve. Passei de gostosa para prostituta, entre outras coisas, e em vez de ser desejada, passei a se hostilizada o que me deixou apavorada, e para resumir: fui expulsa da universidade SÓ porque queria mostrar a popa da minha bunda gostosa para todos na rampinha. Eu não tenho culpa de ser um mulherão, de poder usar vestido colado e deixar os marmanjos babando, querendo descobrir o que a calcinha fio dental cobre. Ainda bem que existem os politicamente corretos. O que importam as convenções hoje em dia? O que importa é ter tolerância. A reitoria teve que revogar a minha expulsão, pois eu fui a vítima, concorda? O melhor é saber que as luzes dos flashes do mundo todo se voltaram para mim, e poderei ganhar mostrando minha bunda e minha xereca, ao vivo e à cores numa revista masculina, dinheiro que dará para eu resolver meu futuro, coisa que nenhum estudo faria por mim. Não é o máximo?! Thanks God, meu cabelo estava retocado com o loiro platinado nas raízes...
Mas isso, é claro, que estou contando só pra você que é minha amiga e confidente. Deus me livre, alguém me ouvir falando tal coisa. Tenho que manter minha postura de traumatizada que está dormindo a base de calmantes. Afinal, tenho que tirar casquinhas de toda a situation. Todos os advogados que literalmente correram atrás de mim, querendo me defender, me orientaram a pedir indenização por ter meus direitos de cidadã, de livre-arbítrio, de liberdade de ir e vir (pelada se eu quiser), violados pelos alunos e pela faculdade. A vítima fui eu e não eles.


Como já disse, tolerância é a palavra de ordem. Roubar, matar, destruir patrimônio público, tudo isso tem explicação. Os direitos humanos estão aí para garantir o bem-estar dos psicopatas, dos viciados, dos miseráveis, das putas de plantão, dos políticos corruptos, etc. Bobos são aqueles que vivem as convenções. Esse lance de ter traje adequado já era. Sou a favor de ir todo mundo do jeito que quiser à qualquer lugar. Eu por exemplo, nunca liguei de deixar o fundo da calcinha aparecer para os professores de meu agrado. Eu lá sou boba? Mais um ou dois pontinhos garantidos. Formatura por exemplo, é uma ocasião onde todas as becas deveriam ter um velcro na parte da frente para na hora de sentar poder abrir e revelar um seio exposto ou uma coxa mal intencionada. Aliás, as mulheres se sentam com as pernas cruzadas para quê? Viva a Sharon Stone! Viva Madonna! Sempre flertei com padre, acho que toda paciente devia ficar pelada com o médico, adoro homem casado que não trás aporrinhação, enfim...

Me diz o que se ganha em ser correto no Brasil? Uma analfabeto é presidente, a melhor dupla sertaneja tem voz de taquara rachada, as celebridades são aquelas que dão pra jogador de futebol e cantor de pagode; apresentadora de programa é aquela que engravida de popstar inglês, mesmo sendo uma jumenta; um sequestrador, um assassino não ficam mais de dez anos (ou serão seis?) na prisão; político corrupto e praticante de nespotismo tem aval do governo; todos os fiscais do Ibama se vendem para continuar o desmatamento, o MST é protegido para esculhambar com o patrimônio e causar todos os tipos de vandalismos e vão encanar logo comigo? Eu também sou vítima, já disse. Me atire a primeira pedra quem vale alguma coisa neste país. Viva a liberdade sexual, comportamental e viva os direitos humanos e animais também.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Beto

Beto morreu.
Amanheceu ao lado de um monte de cinzas..
do fogo que lhe afastava o frio insuportável
o sangue seco a seu redor atraindo moscas
o peito cheio de furos, parado e morto.

Se viveu...
bem poderia, beto tinha seus sonhos...
também sentia e respirava humanamente
mas seus olhos escureceram
ele estava são.. só naquele dia
mas devia


Tão bem que dormi à noite
não ouvi nenhum dos tiros
sonhava meu conforto em lençóis limpos
e beto morria...

acordei já reclamando de ter acordado,
tomei meu café sublime, mas mau humorado
ofendi a quem me ama e fui egoísta
e o corpo de beto povoado de moscas

então sai, costurando entre os carros
como se fosse meu o mundo
a boca como uma metralhadora
palavrões para todos os lados

passei por beto ainda reclamando
da hora, do dia, do preço do estacionamento
olhei-o de lado, apressei o passo
a expressão de nojo e constrangimento

não tomei nenhuma providencia
deixei beto estendido a própria sorte
quem mais o visse que o fizesse
afinal , não fui eu que o matei

a noite, fechei os olhos mas não dormi
o que não incomodava agora quase doía
uma verdade fria e implacável
beto estava morto.

Não conhecia beto..
mas o conhecia
nunca o procurei
mas o vi sempre

beto que batia a porta
sempre a mesma roupa, suja
sempre a mesma expressão
"Um prato de comida dotô?"
não era isso que ele queria
sua cabeça sacudia devagar
conformado ante a negativa
tentava puxar assunto
sentir se menos só talvez
saia devagar, enxotado como um cão

a noite os dedos tremiam
tentava esquecer o mundo à volta
nunca tentou entender
não lhe disseram que poderia
conformava-se simplesmente.

tento sentir culpa, mas sou tão egoista
afinal, era beto, não eu..
mas algo em mim não quer ser assim
beto está morto
quantos mais?

Quem baterá a minha porta amanha?
Sem que eu falhe da mesma forma
beto esta morto...
mas anda há sobreviventes..
por enquanto..
talvez só abrir os olhos.

Fardo


Fardo

Tanto quanto seu significado,
Fardo é uma palavra pesada,
Que não deve ser escrita,
Tampouco dita,
À alma que de tão leve, levita...
Leve como pena,
Alma penada.
Fardo é o insuportável
Que se suporta,
É o calo que brota,
É a velhice batendo à porta...
Fardo é amor não correspondido
Pesa mais que remorso de bandido arrependido
Fardo o poeta carrega vida afora,
É o peso que o inclina,
É o bastão que o escora,
É a madeira pesada da cruz
Que se faz lápis
É o doce canto da sereia que seduz,
E te mata, impedindo de amar-te.
É morrer na praia, arquejante,
Quando se já se contornou o morro
Dos ventos uivantes,
Fardo é o implante da lágrima,
Nas veias do coração,
É o sangue que chora,
É o choro de sangue,
Fardo é a saga,
É a ponte, é a seca, é o mangue.
A tragédia de cada vida,
A ardência de cada ferida,
O adeus de cada despedida,
Fardo é a mazela,
É mofar na cela,
É o fim da vela.
Fardo é a sina,
É carregar o sino,
É badalar o sino,
É interpretar o hino,
De uma nação sem destino.
Fardo é a poesia,
Em letras de plumas,
Palavras de espumas,
Fardo é o cigarro que se fuma,
A fumaça que se engole,
É a prole.
Fardo é o fato
É o feto,
É o futuro.
Fardo não é o empréstimo,
É o juro.
Fardo é o diagnóstico,
Do nascimento:
É a morte que vem vindo,
No vento...
Fardo é o tempo.
Fardo é o caminhar
Sobre o sal do morto mar,
O fardo não é o amor,
Fardo é amar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Calafrios




Me tira do prumo
Me tira do salto
Me tira o sono

E eu rasgo a vergonha
E eu rasgo os critérios
E me rasga a roupa

Que me faz questionar meus limites
Que me faz questionar os meus planos
Que me faz questionar os meus desejos

Me trouxe de volta ansiedade
Me trouxe de volta inquietude
Me trouxe de volta instabilidade

Quem é esse que me desalenta e me acolhe
Que fala tanto e pouco me conta
Que levou minha paz, mas dança tango comigo todos os dias...

Palingenesia (e-book)

Nem luxo, nem lixo


Pouco me importa que o lirismo vá embora,
E que me cuspa o rosto
Pois que já dei minha cara à tapa,
Todas as faces das quais dispunha.
Quero apontar a grandeza de seus pequenos defeitos
E exalar novamente todo o perfume que me roubaste
Ter e desprezar teu sexo e coração,
Emprestar meu sentimento frio ao teu corpo quente.
Encontro-me morta, sofrida e louca,
Quero sentir-me aliviada
Quero transformar veneno em antídoto,
Quebrar a corrente atrelada a meus pés,
E transformá-la em jóia de puro ouro.
Quero ser indiferente às tuas palavras ocas,
Teu discurso clichê e tua canção fora de moda
Quero a não-clareza do que nutro por ti
Nem amor, nem ódio,
A mais crua e nua ausência de sentimento
Não quero luxo, nem lixo,
Nem mais, nem menos,
Quero algo bastante simples,
Quero que você peça,
Quero que você possua,
Quero que você perca,
Quero que você parta,
Quero que você pague.

sábado, 7 de novembro de 2009

Alegria de Viver




Viver, esta é questão!
Viver, viver, como?
Viver, com quem?
Viver, viver, aonde?
Não sei, não sei mesmo!

Só sei que nada é melhor que isso,
Viver é tudo! Viver é algo além da física,
Viver envolve muita coisa, as quais seria inútil dizer.

Só sei dizer que amo viver,
Porque viver é bom demais!
Viver com você, viver sem você
É bom demais viver.
Porque saber que a vida é isso já me basta,
Me basta porque eu rio, eu choro,
Eu amo, eu odeio,
Eu durmo, e também acordo,
Eu louvo, mas também reclamo,
Tem algo melhor que isso?
Viver, viver, viver!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Intolerância Religiosa ainda?




Algumas vezes passamos por situações na vida que nos fazem pensar no quanto o ser humano ainda é limitado, preconceituoso e egoísta. Ainda hoje,em pleno século vinte um,em que cada vez mais buscamos ter compreensão com as pessoas e com suas escolhas,ainda nos deparamos com intolerância religiosa.

Quando nos propomos a conviver em harmonia e com sinceridade com as pessoas, principalmente de nossa família e parentes mais próximos, procuramos desenvolver uma amizade verdadeira com as pessoas, é muito provável que no decorrer do tempo nós nos deixemos conhecer mais profundamente, as pessoa passam a nos conhecer melhor, saber dos nossos sentimentos, das nossas alegrias das nossas tristezas, das manias e defeitos e também das nossas qualidades. é natural que observem nossa maneira de ser,de criar nossos filhos e de agir em família com o coração aberto,sem prevenções nem armaduras que hoje em dia infelizmente temos de vestir para viver no mundo.

Muitas pessoas vivem durante anos suas vidas sem seguir a uma doutrina religiosa, pessoas de bem, cumpridoras de seus deveres como cidadãos e seres humanos, pessoas queridas por suas famílias por seu bom senso, equilíbrio e ponderação, por sempre trazerem uma palavra de carinho e amizade nas horas certas, porém um dia uma dessas pessoas, resolve seguir uma doutrina, abraçar uma religião e passa a se desenvolver,estudar e fazer um trabalho para levar pessoas que precisam de orientação espiritual para sua religião,para que outros irmãos também se iluminem e se equilibrem melhor na vida,buscando conhecer mais Deus e ser mais feliz.Com certeza este é um bonito trabalho,pois grande quantidade de pessoas se livram de problemas sérios como vício em drogas,alcoolismo e outras situações degradantes ao ser humano,porém,entendo que para fazer este belo trabalho a pessoa tem de estar realmente preparada,pois é sujeito que neste ímpeto de fazer o bem e com a visão distorcida por um fanatismo cego,a pessoa passe a ser intolerante com as outras pessoas e com isso, passe a não respeitar o próximo que também segue uma doutrina,porém diferente da sua ,mas que também se encontra,busca ter uma vida equilibrada,trabalha com zelo para manter sua família dentro dos princípios do bem viver e do respeito mútuo.

É muito triste quando percebemos motivações discriminatórias em visitas a nossa casa,as vezes a pessoa se coloca como um mensageiro da palavra do senhor para tentar desconstruir uma sólida base religiosa construída com muito carinho,trabalho de transformação espiritual de uma família,sem na maioria das vezes sequer conhecer a religião que o outro segue,chega a ser desrespeitoso.

Na declaração universal dos direitos humanos e também em nossa constituição federal temos o direito a liberdade religiosa assegurado em forma de lei,achei importante destacar também o artigo sétimo que fala no princípio da tolerância:

“Artigo 7.º - Princípio da tolerância:

Os conflitos entre a liberdade de consciência, de religião e de culto de uma pessoa e a de outra ou outras resolver-se-ão com tolerância, de modo a respeitar quanto possível a liberdade de cada uma.”

Este artigo mostra bem claramente a postura que devemos adotar com relação às escolhas, as convicções das outras pessoas, por mais que elas sejam diferentes das nossas, por mais que lá no nosso íntimo achemos que está errado, não temos o direito de falar, não temos o direito de julgar.

Se usarmos a inteligência que Deus nos deu a nosso favor, veremos com tranqüilidade que as diversas religiões que existem estão aí para atender ao ser humano e suas diversas compreensões, cada um buscando seguir ao que lhe atende melhor, ao que lhe proporciona um contato consigo mesmo e com o divino.

Podemos observar que a religiosidade de uma pessoa não está na numa nomenclatura religiosa nem num livro, a religião que significa religação com Deus está é na sua prática de vida, no seu dia a dia, se a pessoa procurar fazer o bem, auxiliar o próximo, não julgar, não discriminar, não fazer fofoca nem falar dos outros pros outros, aí sim, podemos considerar este ser, uma pessoa religiosa, pois um bom exemplo vale mais do que mil palavras ou pregações inconsistentes baseadas num fanatismo cego que tira o direito de pensar, de ver por outros ângulos cada situação, cada contexto.

É preciso que busquemos ter sempre bom senso em nossas vidas para não nos tornarmos pessoas chatas, desagradáveis e mal vindas na casa dos outros, se for preciso em algum momento falar alguma coisa, que saibamos a hora e o lugar certo para isso, pois Deus é amor, compreensão e sabedoria, não podemos esquecer que a maioria das guerras que já assolaram o mundo e até hoje nos trazem muitas tristezas, são em nome da religião e da fé cega, privilegiando uma doutrina em detrimento de outra, portanto devemos nos lembrar é que somos todos irmãos e estamos no mesmo barco.





quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sobre a restauração do afeto nos atos de libertação sexual em busca da preservação da libido.


"O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."
(Gabriel Garcia Márquez)


Máscaras. Tão logo chegou a entrada do clube visualizou um painel com inúmeras máscaras à venda. Vestia um sobretudo preto de pêlos sintéticos e a máscara. Agora estava pronta. Antes de entrarem, porém, foi-lhes avisado de que haviam certas normas a serem seguidas (regras num local onde supostamente não deveria havê-las). Primeiro: nada era forçado; segundo: todos deveriam usar preservativos; terceiro: o banheiro feminino era uma área onde nenhuma mulher deveria ser abordada. À parte isso, o casal deveria escolher em que "campo de ação" iria atuar. Opções não faltavam: salas reservadas e menores, com paredes de vidro, cortinas, sofá , cama e uma treliça pequena para os voyeurs; salas abertas com cama gigante para sexo grupal, sala de cinema e o tão famoso e famigerado labirinto: um conjunto de corredores cheio de surpresas que conduzem o casal ao destino final: a saída. Entre as várias surpresas, paredes com "glory holes", buracos por onde mãos espalmadas apalpam carnes suadas do outro lado da parede; onde mastros são içados e manejados por marujos cheios de dentes e de dedos febris, onde chave e fechadura tentam se encaixar para tentar abrir as portas de um prazer cheio de mistérios e que muitas vezes não se combinam.

"Amai-vos uns sobre os outros." (Woody Allen)




Os quatro personagens embriagados em seus desejos de posse carnal, manual, oral, animalesca. Feromônios à mil. Todos no mesmo ambiente sem se cruzarem, pesquisando, observando, tocando, petiscando, sem chegar aos finalmentes. Até que....
O labirinto, o destino final. Jesebel resolve se aventurar em tocar vários membros eretos, estendidos, pedindo um afago. Manipuladora hábil e detalhista que aprendera a ser, no terceiro buraco glorioso, algo se sucedeu: o toque de suas mãos naquele sexo sem roupagem parecia uma "leitura" de cego quando tateia o livro em braille: aquela espessura, aquele tamanho, aquela circunferência não lhe eram estranhos. Mesmo com todas as luzes e falta delas também, mesmo com uma parede se interpondo entre ela e aquele órgão, algo familiar lhe chamou a atenção: o escroto, cheio de veias protuberantes e enviezadas, comprido, com pêlos ralos, pele flácida...só havia uma pessoa assim. Não que ela conhecesse muitos membros, mas ESTE era seu velho companheiro de viagem...ou seria impressão sua? Não, não podia ser. Por um momento se indagou se aquele pensamento e aquela sensação eram imaginação da sua mente preocupada e culpada, receosa de encontrar alguém conhecido naquele ambiente dionísico. Por um instante, sentiu saudade do que nunca teve com seu marido: aquele ardor, aquele fogo desavergonhado que estava tentando descobrir agora. Abocanhou cheia de vontade aquele ser potente e sem nome e começou a fantasiar que Luís Arantes era o nome daquele pênis acariciado por seus lábios quentes.


Apolo e Ágata - Hugo e Jennifer. Ambos ludibriaram seus companheiros, saíram em perseguição da presa certa,e se deparam no mesmo labirinto. Suas sombras se reconhecem. Seus corpos se magnetizam. Almas vagantes e inquietas em busca de repouso para a própria solidão do ser que vende seu corpo, mas não encontra ou dá afeto verdadeiro. Mãos que se encontram, coxas que se tocam, bocas que se beijam. As línguas sedentas de paixão,se atraem e se se enroscam expelindo saliva de mel... Experientes, ávidos e sem escrúpulos, abrem uma porta onde um sofá pequeno e desocupado os aguarda. Exibicionistas, se sentem mais tesudos com os vários pares de olhos que os observam se entregando à luxúria de seus corpos que se encaixam feito o côncavo e o convexo. Algo estranho e inebriante, feito aroma original de café quando se rompe a aurora úmida, atinge suas narinas, e eles percebem que aquele seria apenas o primeiro encontro de uma longa história que estaria por vir.

"O amor é emoção; e o sexo, ação." (Madonna)




Do outro lado do corredor, Arantes muito doido, muito cheio de tesão, esbarrava em corpos suados que se entregavam maliciosos entre carícias eróticas, encostados nas paredes. Entre uma sala e outra, nada o satisfaz e um vazio interno parece corroer suas entranhas. Nada daquilo apetece uma vontade de algo que ele não sabe dizer ao certo o que é. Estava ali, mas aquilo não era exatamente uma novidade para ele. Se sentia frustrado e sozinho. Sua companheira estava vagando nos braços de alguém, nem ele sabia onde, nem
tampouco importava. Resolveu que já que estava ali, deveria se concentrar, e com o membro duro pelo efeito do Viagra, enfiou seu pênis em um buraco cujo destino parecia incerto.
De repente, algo estranho se sucedeu. Uma fina e delicada mão começou a acariciá-lo: girava para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo...dedos suaves, com unhas finas e longas fazendo cócegas no seu saco já murcho pelas andanças desta vida. Algo muito familiar naquele toque lhe chamou a atenção. Pensou em Iracy, cujos dedos acariciavam seu peito da mesma forma antes de dormir. Um toque cheio de aconchego e carinho, que ele sentia falta nos toques de Jennifer. Coisa de sua mente carente. Aquilo não era hora para se sentir assim. Até que uma boca quente cobriu a extensão territorial exposta do outro lado da parede, para além dos toques dos dedos e ele reconheceu o aveludado dos lábios que o sugavam feito um sorvete de flocos num dia de verão. O beijo de sua ex-esposa era assim: macio, circular, quente, com dentes curtos e arredondados que jamais machucaram sua língua. Nunca haviam praticado sexo oral, mas ele sabia que se ela o fizesse, este seria o sabor.

Com urgência, ambos pensaram a mesma coisa: quebrar a parede que os separava daquela fome e sede, por um banquete arrebatador de sexo e carinho. Saíram trôpegos, um de cada lado e quando viraram, um para direita, o outro para esquerda, se depararam frente a frente, e sem tempo para surpresas ou questionamentos, sem mais perda de tempo, entraram na primeira sala que encontraram onde um casal também familiar, se comia com sofreguidão.
Uniram-se na mesma cama, nos mesmos gestos, nos mesmos gemidos, nos mesmos olhares de cumplicidade de uma criança que rouba um doce e só pode dividi-lo com um grande amigo, tal é a extensão do segredo que agora têm que guardar.Quer saber mais?


Não tenho autorização da biografada para isso e só eles mesmos para terminarem de narrar o que rolou dali por diante.
Eu sou apenas um voyeur daqueles quatro seres em busca da preservação de si mesmos através do sexo, da libido, da novidade e do amor.
Agora se me dão licença, preciso praticar minha própria preservação. Voilà!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Semana passada


Passou uma semana
Uma semana passada
A limpo, às claras,
Uma semana passou
Passada uma semana
Pude entender tudo que emana
Do pedaço do céu
Que cobre minha cidade, meu mato,
Minha cabana.
Passei junto com a semana
Momentos pacíficos,
Pensamentos ao léu, levados no rio,
Que corre à margem do meu riso aberto
E sadio.
Saúdo a saudade,
Que me faz adormecer, em remanso,
Saúdo as saúvas,
Que trabalham em torno do meu descanso.
Digo que a saudade me embala,
Em sono profundo,
Pois se antes esta ausência invisível me afligia
Hoje me causa uma solene letargia.
Lembranças que antes, quase sonoras,
Hoje, soníferas.
Mergulhei em minha natureza,
De olhos bem abertos.
Enxerguei, lá no fundo, as ruínas de uma realeza,
Tudo corroído pela externa beleza,
A coroa, o trono, o cetro...
O ouro que reluzia, onde está?
Entregue nas mãos de quem merecia
Uma bijuteria.
O amor próprio é o nosso maior presente
E, como diz o ditado, presente não se dá,
Tampouco se vende,
Quantas mudanças ocorreram em minha mente,
Meus olhos olham para todos os lados,
Meu nariz exala o odor diferente,
Minha língua não mente.
Passou uma semana,
Uma semana passou,
E passou a minha dor
Junto com a semana
Que passou...

Noite

Eram 3 da madrugada, quando todos dormiam. Com um cuidado e agilidade impressionantes ela se esgueirava entre os vãos das telhas, sem um ruido sequer, em poucos minutos chegou à parte mais alta do telhado, estava livre agora.

Sentou-se com cuidado e pôs-se a observar a noite, o vento batendo-lhe docemente à face, procurava formas nas nuvens, nas casas, nas fogueiras dos andarilhos, mas acima de tudo pensava, deixava seu corpo por instante e voava até muito longe, no espaço e no tempo. Gostava desse modo de agir despropositalmente como se ainda brincasse rodopiando pelos corredores de uma escola primária, alimentar sua sensibilidade com coisas mais simples, apesar de tais momentos serem mais raros desde que as escolhas se tornaram difíceis... mas sentia-se livre o suficiente para olhar a noite, talvez imaginar-se em cada lugar onde não esteve ou lembrar de seus quatorze anos quando as coisas pareciam certas e boas. Antes lembrava de como as coisas eram e chorava olhando as ruínas, mas agora o que restou da cidade já não lhe intimidava.

Sentia-se diferente esse dia, parecia mais decidida, e algo impelia-lhe a pensar no futuro, coisa que evitara até então, ainda retia-se entre permanecer viva simplesmente e usar sua vida para algo maior, sabia que dificilmente lhe entenderiam em qualquer uma das escolhas, mas também sabia que podia conseguir em qualquer delas, exceto se desistisse... Talvez por isso aquele medo lhe acometia, entendera seu jogo, isso que ele queria , faze-la desistir para que não pudesse... Mesmo assim ainda não compreendia como o nada que tinha a perder parecia tão precioso.

Imaginou-se descendo pelas calhas, ganhando as ruas e o mundo afora, mas logo veio o medo, não à noite pelo menos. Mesmo assim não deixou de imaginar-se correndo até algum lugar verde e feliz, sem bombas nem sangue, enquanto passava pelas ruas em direção a seu paraíso, também passava pelas telhas em completo silencio. Quando chegou ao corredor, abriu os olhos, pensou que já deviam ter percebido sua ausência, apressou-se silenciosamente e desapareceu na escuridão.

domingo, 1 de novembro de 2009

Estranho

A porta gritou jogando duas moedas sujas no balcão: – Me dá dois cigarros no varejo!

Um cigarro na orelha, o outro na boca: – Tem fogo?

Três puxadas e a ponta já está em brasa. A brasa fica mais forte, mais brilhante – a primeira tragada. A fumaça sai devagar pelas narinas e por entre os dentes. O indicador e o polegar apertam o filtro, tirando o cigarro da boca, o médio bate a cinza – todos eles amarelados nas extremidades, assim como as unhas, essas até a metade. Mãos um tanto quanto nojentas – as palmas suadas e encardidas, uma sujeira preta por debaixo das unhas. Uma ajeitada no boné, que tinha manchas de suor que mais pareciam desenhadas com alguma tinta gosmenta encontrada ao acaso num depósito de lixo. Os dentes, amarelados também da nicotina, após mais uma forte tragada, soltaram uma baforada espessa na cara do balcão, que nela pôde ler com muita dificuldade – uma letra muito miúda e mal escrita – um “obrigado” tão amarelado quanto o recipiente de onde veio. O “obrigado” se desvaneceu com o bater da porta ensebada: – Estranho, não?! Não deve ser dessas bandas... Realmente não é. Nunca foi visto pela vizinhança, quanto menos aqui.

A porta torna a gritar, na mesma altura, no mesmo tom e com o mesmo bafo, que o balcão logo reconheceu: – Me dá um copo de cachaça! Até o risco!

O copo, já pela metade, se dirigiu ao banheiro. Após uns minutos ouviu-se um barulho. A cadeira, que estava mais próxima, levantou-se, toda torta, e entrou no banheiro – as cadeiras costumam ser muito curiosas. Lá dentro podia-se ver que após derramar-se um pouco no vaso brancamarelamarronzado, o copo caiu, bateu a cabeça na pia e se quebrou deixando no chão uma poça de cachaça, que agora já era avermelhada.