segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ensaio sobre a amizade


Antes de mais nada, quero desejar feliz dia do amigo a todos os amigos! Perdoem pela extensão do texto, porém, estou certo de que será uma leitura válida, reflexiva. Como definir a amizade... Fico com a definição de Clarice Lispector. "A amizade é matéria de salvação". Boa leitura a todos! Obrigado, Lohan Lage Pignone.


Necessito de um amigo
Necessito de um amigo
Que ria e chore comigo
Que me tire deste castigo
De não ter um amigo
Amigo pobre ou amigo rico
O que importa é que esteja vivo
Amigo que desabafe e que ouça meus lamentos
Amigo que saiba o que sinto por dentro
Amigo de confidência, amigo de freqüência
Amigo tanto nas horas fartas quanto na falência
Amigo tal qual a lua e o mar
Que formam uma aliança de luz no escurecer do lugar
Amigo que sempre divida
As tristezas e as alegrias de sua vida
Amigo que não tenha medo
De revelar os seus segredos
Amigo que lute pela minha vitória
Mesmo que ao final seja minha a glória
Amigo que diga calado
Se caminho certo ou errado
Amigo de toda partilha
Que sem mais nem menos já é da família
Amigo que realmente entenda o valor da amizade
E veja que esta é a solução para a humanidade
Amigo que conceda sua vida
Para deixar que eu prossiga
Amigo que não saia da cabeça
Mesmo que o resto do mundo o esqueça
Amigo que, por fim, desfaça minha necessidade
De viver sem ter um amigo por toda a eternidade

Assim escreveu José, o jovem sentado no canto mais afastado do pátio escolar. Nas proximidades ouvia-se uma contente balbúrdia uma reunião de amigos, talvez. Estariam jogando futebol, gude, falando sobre rock and roll, correndo atrás de borboletas, que seja.
E ali estava José, o jovem de cara pálida, repleta de espinhas, com um óculos pouco convencional repousado sobre o narigão, físico macérrimo. Estava bem longe das passarelas da moda. Tampouco sonhava com essa hipótese, ele costumava se olhar no espelho toda manhã. Só pela manhã, já era o bastante.Tendo as pernas encolhidas como suporte para o papel, ele relia o que acabara de escrever. Então, ouve-se o som do quique de uma bola. Uma bola encouraçada, agora rolando rente a si. Ele a olha, com desdém. Ela o olha, com seu olhar redondo, pedindo para ser tocada. Um abraçar, um chute! Ela adorava ser chutada. Quanto mais forte o pontapé que lhe desferiam, mais completa ela se sentia.
Por um momento, José hesitou, ainda olhando para a bola. Por um momento, ele se identificou com ela, apesar de não dominar qualquer habilidade que dispusesse de bola. Ele costumava ser tão chutado quanto ela. Esse é o problema da humanidade, pensou ele, radicalmente. As pessoas costumam confundir seres humanos com uma bola.
Logo aparece um jovem, de aparência mais saudável, físico rigoroso. Ele pede que José passe a bola para ele. José se desfaz da posição, apanha a bola e a lança nas mãos do rapaz.
-O que faz aí, José? Por que não se junta a nós, lá na quadra?
-Não, eu agradeço, cara. Estou bem aqui.
O outro virou as costas e saiu correndo, de volta para sua diversão. José ali permaneceu, e pensou: eles dizem isso apenas para me agradar. Eles não são e nem pretendem ser meus amigos.

“Trabalho escolar:
Discorra sobre a amizade, em qualquer gênero textual. Boa sorte.”
André ficou ali, sentado em sua carteira, com os olhos azuis fitos no vazio. O restante da turma iniciara os trabalhos. Ele levantou o sobrolho, admirando a disposição dos demais. Escreviam sem pestanejar. Bufou, e resolveu rabiscar alguma coisa no rodapé da folha do exercício. Desenhou a si próprio. Cabelos cheios e loiros, boca carnuda, pele clara e bronzeada pelos finais de semana dedicados ao surf na Zona Sul do Rio. A íris dos olhos ele pintou de azul – a tinta da caneta. O busto ele traçou com detalhes, bem como o abdômen. Repleto de pequenos traços quadriculados, denotando o famoso abdômen “tanquinho”. Os músculos dos braços, avantajados. Ele sorria enquanto o desenhava. Gostava de olhar para si mesmo. Desprovido de um espelho, ele se desenhava. Espelho este que observava mais de dez vezes ao dia.
Trinta minutos se passaram, a sirene soou. Todos guardaram seus materiais, e, ao irem evacuando a sala, deixavam seus trabalhos nas mãos da professora. André foi um dos primeiros a fazer isso. Estava apressado. A professora relanceou sua folha e o intercalou:
-Está em branco, André. Por que não escreveu absolutamente nada?
André se deteve, virou para a professora, com um sorriso debochado:
-Professora... Vê se eu tenho cara de quem escreve sobre amizade. Eu vivo as amizades.
-Ah... Vive. Você não sabe o que é amizade, André.
-Quem é você pra dizer isso, Dona Arlete? Nem marido tem. Quanto mais amigos. Ninguém te suporta nessa escola. Quanto a mim... – André abre os braços, rindo – A torcida do Flamengo é minha amiga! Por que será hein Dona Arlete? Será mesmo que eu não sei o que é essa tal amizade? Olhe para si mesma!
A professora ficou paralisada, olhando-o virar as costas e sair às gargalhadas da sala. Os outros o seguiram, exaltando-o por aquele “feito”.

Eram quatro e quinze da tarde quando o telefone celular de Fábio tocou.
-Aurélio! Como vai, meu amigo?
-Vou bem. E você? Há quanto tempo não nos falamos.
-Ah, que isso! Nos falamos tem o que... – Breve pausa – Um mês, cara!
-E você acha pouco tempo? Que seja... Da última vez que nos falamos você me disse que estava com problemas, não quis me contar o que era. Fiquei preocupado.
-Não foi nada, amigo. É a Laura, que se tornou uma consumista compulsiva. Meu dinheiro tem sido destinado aos prazeres dela ultimamente.
-Você está precisado? – Preocupado.
-Não! Imagina! De qualquer modo, obrigado.
-Menos mal. Mas, indo direto ao ponto, não está afim de ir àquele velho bar que costumávamos freqüentar, o Rei do Taco? Estou doido pra te vencer na sinuca, sabe que até hoje aquela revanche não saiu da promessa? – Disse, com animação.
-Pra quando, cara... – Esquivo.
-Ora, hoje à noite. Estou liberado hoje.
-Sabe, eu já combinei de sair com a Laura hoje. Ela ta doida pra ver um filme lá, que estreou essa semana. Marcamos de ir hoje, sem falta. Você se importa, Aurélio?
-Não, não... Mas é uma pena. Depois terei que viajar novamente a trabalho, devo ficar uns dois meses fora. Mas tudo bem.
-Ah, sendo assim, eu aceito ir, ta fechado.
-Não, esqueça. Ir somente para me agradar. Além do mais, lá você ficaria pensando na Laura, e no provável aborrecimento que terá causado nela ao dizer que ia sair com um amigo.
-Não, eu vou! Às nove, pode ser?
Nove e meia. Aurélio estava sentado, ao balcão de um bar muito bem iluminado, de requinte visível. Ele bebia um Martini. Conferiu o horário em seu relógio de pulso. Estava com o semblante enjoado. Levantou-se, largando a taça com a bebida sobre o balcão. Caminhou até a área onde se localizavam algumas mesas de sinuca. Estavam todas ocupadas. Numa delas, dois amigos riam sem escrúpulos. Um contava uma piadinha, entre uma tacada e outra. O outro retribuía com jogadas incríveis, soltando alguns palavrões surpresos do adversário. Adversário... Não havia adversário ali. Era algo muito puro, natural. Os sorrisos, os apertos de mãos nos finais das partidas. Os abraços. Aurélio observava a tudo aquilo, com a cabeça longe... Os olhos lacrimejantes denunciavam seus pensamentos. Velhas lembranças de um passado nem tão distante assim. Momentos que se perderam com o tempo, com as circunstâncias. Promessas de uma amizade eterna que, só agora, ele podia entender que foram ditas nos ápices das emoções. Mas as lagrimas secaram, e os risos, ora, já não havia mais graça pra sorrir. Mais uma bola encaçapada. Já eram dez da noite quando Aurélio deixava aquele bar. Estava desolado. Não ligou para o amigo.

“Dizem que o cachorro é o melhor amigo do homem. Eu não acho. O cachorro não é amigo, ele é um ser obediente a seu dono. Apenas isso. Resultado a inimizade do mundo, entre os humanos. Fossem os homens unidos por laços fraternais inseparáveis, os cachorros seriam animais selvagens”.
José caminhava por um parque, recitando em murmúrios essas palavras. Andava cabisbaixo, como se não houvesse pessoas ou postes pelo caminho. Como se ele fosse só naquele mundo...
Então ele ouve alguém chamar pelo seu nome. Ele ergue a cabeça, e para. Ao seu lado, estavam dois rapazes, colegas de classe.
-José, ta perdido aí? – Pergunta um deles, risonho, chamado Carlos.
-Perdido... – Disse, confuso.
-E aí, ta preparado pra amanhã, velho?
-Preparado? Eu? Pra que?
-A festa da Camila! Vai me dizer que... – Diz o outro, de nome Douglas.
Os dois amigos se entreolham.
-É o aniversário da Camila, que estuda com a gente. Ela convidou a turma inteira.
-Pode-se considerar inteira me excluindo?
-Toda regra há exceção.
-Não seja babaca, Douglas. Não vê que o moleque ficou bolado com isso.
-Eu não to bolado. Eu já me acostumei com isso.
-Como assim, cara... Não é isso que você ta pensando. Olha, tenha certeza, sabe como são essas meninas... Você pode não fazer o tipo dela, nem das amigas dela.
-Você não fuma, nem bebe. Isso é um fator negativo.
-Concordo, negativo. Negativo para mim. – Rebate José.
-Digo negativo em relação ao social, meu chapa! Quem quer um convidado espantalho desse na festa?
José abaixa a cabeça.
-Douglas, pirou cara? Não liga pra ele Zé. Olha, eu posso falar com a Camila.
-Não! Eu não quero que fale com ninguém! Não falem mais comigo também, seus idiotas. Façam ótimo proveito dessa festinha amanhã.
José prossegue, agora a passos rápidos e firmes.

Há uma festa. Uma discoteca eletrizante. Os corpos se movimentam freneticamente. As bebidas são consumidas com abundancia. Alguns a desperdiçam, despejando champagne nos outros, ao léu. A música alta estremece o cômodo. Tudo se passa dentro de uma casa.
André faz sinal para que o DJ abaixasse o volume do som. A luz se acende. Ele sobe sobre uma mesa, no centro da sala, e discursa, em alto e bom som:
-Galera!!! Meus amigos, isso é êxtase puro!!! Continuem assim, vamos varar a noite, muita bebida, balinha e claro, orgia! Não quero ninguém desanimando, hoje sou eu quem manda nessa porra!!! Solta o som DJ!
E todos ovacionam André. Ele pula da mesa, e logo se agarra a uma mulher, que o beija. Em seguida, vem um rapaz, bagunça seu cabelo e diz:
-Amigão!! Você é o cara!
E sai, gritando e pulando, tomado por toda a euforia e os efeitos que uma festa daquele tipo produzia no ser.

Aurélio vem caminhando pela calçada de uma rua pouco movimentada. Está vestido com uma roupa social, carregando uma mala preta. Parece cansado. Está voltando de uma viagem, a qual foi destinado pela editora em que trabalha, como redator. Ele pára em frente um grande portão. Pelas frestas das grades do portão, podia se ver um lindo jardim de fachada e, mais adiante, um adorável sobrado de paredes vermelhas. Aurélio sempre conviveu próximo à natureza. Esse cultivo o fazia bem. As rosas vermelhas do seu jardim, assim que desabrochavam, causava-lhe um brilho no olhar indescritível.
Antes de caminhar até o sobrado, ele confere sua caixa de correio. Encontra duas correspondências. Ele as pega e leva consigo; já no aconchego do lar, após um banho revigorante, Aurélio senta-se em sua confortável poltrona e resolve abrir suas correspondências. Ele lê o remetente do primeiro envelope: “CEDAE”.
-Hum... Conta, isso não me importa agora.
Ele lança o envelope no chão. Pega o outro envelope. “PROMOÇÃO REVISTA LA’TRAVIATA”.
Curioso, ele abre o envelope com avidez. Logo começa a ler o conteúdo daquela correspondência... Seus olhos se esbugalham. Extasiado, ele salta da poltrona, jogando o envelope para o alto.
-Eu ganhei! Ganhei!!
Em seguida, após muita comemoração, ele abranda o espírito, respira fundo, e pega seu celular. Ele disca para alguém.
-Alô?
-Quem está falando? – Indaga a voz de uma mulher, do outro lado da linha.
-Esse telefone não é do Fábio?
-Sim, é do meu homem sim. Quem deseja falar com ele?
-Diga... Diga que é o amigo dele, Aurélio.
A mulher, Laura, faz uma expressão enjoada, larga o celular sobre a cama e vai chamar Fábio. Aurélio aguarda, ansioso.
-Aurélio?
-Meu amigo! Como vai?
-Vou bem... Olha, antes de mais nada, me desculpa por aquele dia, eu me esqueci realmente, tive vergonha de te ligar depois, eu...
-Esqueça, esqueça isso. Preciso te contar uma grande novidade, não consigo guardá-la só comigo nem por mais um segundo!
-Ora, diga então... – Disse, a um misto de alivio e contentamento.
-Eu fui sorteado numa promoção, de uma revista a qual assino mensalmente.
-Ganhou um kit primeiros socorros, é? – Gracejou.
-Ah, deixe de bobagem! – Riu – Será que uma viagem para a Itália, com todas as despesas pagas e direito a um acompanhante é melhor do que um kit de primeiros socorros?
Fábio ficou embasbacado.
-Cara... Meus parabéns!
-Putz, a ficha ainda não caiu, eu nunca ganhei nem aquelas rifas escolares com vinte nomes, lembra que disputávamos quem vendia mais?
-Lembro, claro. Eu sempre te vencia.
Os dois sorriram pelo telefone.
-Olha... Não quer ser meu acompanhante?
-Co, como?? Ir para a Itália, com você? – Gaguejante.
Surpresa, Laura olha para seu namorado.
-Sim, por que não? Você é o meu melhor amigo. Não tenho outra pessoa a quem convidar... Você foi a primeira pessoa que pensei.
-Nossa... Obrigado... Eu nem sei o que dizer.
-Diga que vai. Será daqui duas semanas.
Laura se aproxima de Fábio, abraçando-o.
-Bem, eu preciso... – Ele olha para a namorada, de esguelha - Eu preciso pensar.
-Ainda precisa pensar?
-É, eu tenho uns compromissos aí... Mas de qualquer maneira, eu estou muito agradecido, muito mesmo. Amanhã, sem falta, eu lhe dou a resposta.
Aurélio balbucia, como quem pressentisse uma recusa.
-Está bem. Eu espero. Espero que não decline meu convite. Quero que divida essa felicidade comigo, amigo.
Fábio sorri, sem graça.
-Claro. Então... Abraços, e... Até amanhã.
-Até, amigo.
Fábio desligou. Estava pensativo.
-Eu entendi bem ou o seu amigo o convidou para ir a Itália com ele? – Disse Laura, enfatizando maliciosamente a palavra “amigo”.
-É, foi isso, Laura. Ele ganhou uma promoção lá, de uma revista. Tem direito a um acompanhante.
-E por que justo você?
-Ora, ele é meu amigo, você não sabe disso?
-Amigo... Será que você não enxerga, amor? Esse cara nem namorada tem. Ele é... Estranho. Vai me dizer que ele não tem mais nenhum amigo?
-Laura! – Exclamou, perplexo. – Eu não acredito que você está insinuando isso.
-Eu não estou insinuando nada. Serei mais direta, então: o Aurélio é gay. Ele ama você.
Fabio oscilou pelo quarto, inconformado com aquelas palavras de Laura.
-Você não sabe o que ta dizendo, você pirou!
-Há, eu pirei? E você está fingindo que não vê! Não é por minha causa que você recusa os convites dele. Você sabe muito bem o que está acontecendo!
-Eu sei? Pelo amor de Deus! Então quer dizer que dois homens não podem ter uma relação de grande amizade? Laura, eu abri mão do meu melhor amigo por você. Você toma todo o meu tempo, todo o meu dinheiro!
-Ah, já entrou na parte financeira! Tinha que falar disso! Esse é seu problema.
-Olha, eu não quero discutir com você. O Aurélio é meu melhor amigo, desde os tempos de escola, e está acabado. Ele nunca... Ele nunca demonstrou ser nada disso que você está pensando.
Os dois se olham profundamente. Laura esboça um ar de sorriso.
-Que nós estamos pensando. Agora me dá licença, eu tenho mais o que fazer.
Ela sai do quarto. Fábio fica ali, estático, reflexivo. Lá se foi a magia da amizade.

Era noite alta. As luzes da cidade iluminavam um jovem desnorteado, caminhando por uma passarela. A mais alta do lugar. Seus olhos estão vermelhos, seu rosto, mais pálido do que nunca. Vestia um casaco espesso, com um capuz preto. Estava frio. Seu corpo estremecia, mas não só de frio.
José se debruça no gradil da passarela. Um vento gélido o atinge. Ele admira a cidade, a calmaria no tráfego de automóveis, alguns bons metros abaixo. As listras brancas que “decoravam” o asfalto cinzento o fizeram sorrir, embriagado de um contentamento que ninguém sabe a origem. Nem mesmo ele.
José sobe sobre uma barra de metal que compunha o gradil. Continua olhando para baixo.
-Sem podium de chegada ou beijo de namorada... – Sussurra.
Ele fecha os olhos com força. Mesmo assim, algumas lágrimas conseguem escapar.
-Ei!
O grito vem de perto. Alguém na passarela. Um homem.
-Ei, você! Não faça isso! Não pula!
José abre os olhos, assustado. Olha para o seu lado direito. Em sua direção, vinha um homem correndo. O homem se aproxima.
-Não se aproxime! – Adverte o jovem suicida.
O homem pára, ofegante.
-Se der mais um passo, eu pulo!
-Não faça isso, cara.
-Eu não te conheço. Sai daqui! Me deixe morrer em paz!
-Você não está em paz. Você quer encontrar a paz na morte, mas não conseguirá... Tirar a própria vida é se condenar, por toda a eternidade...
-Como você sabe que existe a eternidade?
-Como sabe que não existe?
-Eu prefiro que acabe tudo. Que não haja mais nada. Que seja um abismo, sem vozes, sem presenças. A solidão, completa! Antes a solidão do abismo do que a solidão dos farelos que são trucidados nesse liquidificador infernal.
-Você é um poeta... Como se chama?
-Meu nome não ficará na história.
-E você acha que se matando o seu nome entrará na história?
-Hoje é meu aniversário! – Berrou, dolorosamente.
As lágrimas agora saíram desgovernadamente.
O homem o olhou com tremenda compaixão.
-Quer que sua vida entre em desfecho no mesmo dia que ela veio ao mundo?
-Meu aniversário... Eu não tenho a quem convidar... Os vizinhos são uns velhos que não se cansam de me bajular em troca de serviços. Meu pai é um alcoólatra, que nem sequer lembrou do dia de hoje. Dei banho nele, troquei a roupa dele... Minha mãe fugiu de casa quando eu tinha cinco anos. Nem me lembro como ela era... Meu pai rasgou todas as suas fotografias.
-E quanto aos... Amigos?
-Ah! Você não disse isso, disse?!
-Você não tem amigos, certo? – Disse, tentando manter o tom de voz ponderado.
-Meus livros. Meu caderno, meu lápis. Eles me desejaram parabéns, sabia? Eu escrevi isso, em todos eles. “Parabéns, parabéns, parabéns... Hoje é seu dia”.
-Vamos, desça daí. Hoje é seu dia de viver. Venha comigo.
O homem dá dois passos em direção a José.
-Eu já disse pra não andar!
O homem cessa o andar.
-Hoje eu briguei com meu melhor amigo... Meu ex melhor amigo. Um homem que não sabe preservar uma amizade. Não soube reconhecer o poder desse amor tão puro, tão casto. Quando éramos jovens, me lembro como se fosse hoje... Fizemos um pacto. Uma aliança eterna. Nada nos separaria. Nada nem ninguém.
-A amizade de vocês esfriou, imagino. Ele se casou, teve filhos?
-Não, apenas uma namorada fútil, preconceituosa. Uma vadia.
-Ela trepa com ele. Você não, seu imbecil.
Aurélio sorriu, amargurado.
-Sabe... Quando queremos ser amigos de alguém, temos que criar pontes para isso. Ele destruiu a ponte que nos unia. E você, José? Você algum dia construiu essa ponte?
José inclinou a cabeça, mudo.
-Está vendo essa passarela, de onde você quer se jogar? Ela liga um extremo a outro. Ela está por cima de todo o alarido das ruas. Os carros, os atropelamentos, os guardas de transito, buzinas, pessoas correndo. Uma passarela. Superior a todas as adversidades. Você tem idéia de como uma construção dessas é demorada? Você acha que as passarelas são construídas para que jovens como você se joguem delas? Pois bem. Se você disser que sim, que seja algo mútuo.
Aurélio se aproximou de José, sem temer sua reação, e subiu no gradil. José o olhou espantado.
-Que vai fazer?
-Se não seremos amigos nessa vida... Quem sabe na próxima? Mas é arriscado. Vai que não exista mesmo a tal eternidade.
-Não, você é louco! Desça daí! Eu não pedi que morresse comigo!
-Eu não tenho mais razões pra viver. Me dê uma razão, rapaz. José olhou novamente para baixo. O asfalto, as listras brancas... Uma vertigem. Ele torna a olhar para Aurélio.
-Você quer mesmo ser amigo de um louco suicida?
-A ponte está criada. Basta caminharmos sobre ela. E não pularmos dela.
Aurélio estende a mão a José enquanto, com a outra, se apóia no gradil. José hesita, e, finalmente, segura a mão de Aurélio. Os dois recuam um passo abaixo. Estão a salvos do perigo.
-Foi o nosso primeiro aperto de mãos. – Disse Aurélio.
Eles riem. José seca as lágrimas, atordoado. Aurélio, também emocionado, o abraça.
-Então você gosta de escrever, rapaz... Traga os seus amigos até mim. Você terá uma surpresa. – Disse Aurélio, enquanto o enlaçava com um braço por cima dos ombros.
Ambos foram caminhando, até o fim da passarela, sob as luzes da cidade.

“Foi um grave acidente”, anunciou a médica aos pais do jovem. O semblante arrasado da mãe quase não permitiu que a doutora prosseguisse.
-Ele teve a coluna vertebral afetada... Sinto muito, senhores. O André ficará paraplégico.
A mãe foi consolada, nos braços do pai. A médica cumpriu seu papel. Era o fim de um trágico episódio. Agora, hora de recomeçar.
Já havia uma semana que André estava prostrado no leito daquele hospital. Já estava em um quarto, livre das mesas cirúrgicas. Às três horas da tarde, uma psicóloga, amiga da família, ia visitá-lo, todos os dias.
-Como se sente hoje? – Perguntou ela, sentada em uma cadeira, rente a cama.
-Eu não consigo sentir nada. Minha vida acabou.
-André, nós já conversamos sobre isso. A vida continua, basta você querer. É como você estar assistindo um filme, em um dvd. Você pausa o filme para atender ao telefone. Ele só terá continuidade se você apertar o play. Depende de você.
-Minhas pernas... Como vou surfar, doutora? Como vou dançar, correr? O meu filme foi paralisado para sempre.
-Assuma o controle dele. Lute por você. Quantas pessoas não vivem situações semelhantes, piores, até.
-Estou aqui há uma semana... Ninguém veio me visitar.
-Você se refere aos seus amigos?
-Meus amigos, há – Ele sorri, com agrura – Eu não sei o que é amizade. Nunca soube.
-Tudo foi uma ilusão. A realidade precisou ser drástica em sua vida, para que você despertasse. Fim da quimera.
-Veio um advogado aqui. Da família do meu... “Amigo”. O desgraçado disse que eu estava dirigindo o carro. Ele me entregou.
-Você queria que ele mentisse?
-Ele podia ter dito que foi o Cláudio. Estava morto mesmo no carro! Mas não... Preferiu me entregar, dedo-duro. Agora ainda vou ter que pagar indenização, descobriram que eu estava de porre.
-A verdade sempre vem à tona. Melhor que seja logo no início. O sofrimento, a angústia, nada disso se protela.
-Quem estará ao meu lado para me ajudar, doutora? – Disse, com os olhos marejados.
A doutora vacilou.
-A sua família... E eu. Eu estarei.
-Quanto vai receber por isso? É o seu trabalho, afinal.
-Por que não consegue enxergar o sentimento humano? Por que tudo para voce é superficial, material?
-Voce está sendo paga pra descobrir isso.
-Eu não estou sendo paga, André. Vou relevar a ofensa devido o seu estado.
Neste momento, entra uma mulher no quarto. É a fisioterapeuta.
-Hora dos exercícios, meu querido. – Anunciou ela.
A psicóloga se levanta, se despede friamente de André, e se retira do quarto. André fica submetido aos cuidados da fisioterapeuta. Sua nova rotina de vida estava apenas começando...

Aeroporto Tom Jobim – Rio de Janeiro
Aurélio e José caminhavam lado a lado, rumo ao embarque no avião que os levaria diretamente para Roma, na Itália. Junto deles, havia mais duas mulheres, e um guia turístico. Agora, José tinha as faces rosadas, nem tantas espinhas como antes. Seus cabelos, antes opacos, agora estavam sedosos e vistosos. Vestia-se com mais janota.
Aurélio também aparentava um senso de humor mais apurado. Já havia se recuperado bastante do baque que foi o fim de uma amizade de anos.
Já no meio do trajeto rumo ao avião, Aurélio ouve alguém gritando pelo seu nome, desesperadamente. Ele e José olham para trás, assustados.
-Quem é aquele? – Indaga José.
-Fábio... – Responde, incrédulo.
Fábio está detido, por dois seguranças. Aurélio resolve ir até lá.
-Aurélio, pelo amor de Deus, meu amigo... Não me abandone... – Aos prantos.
Aurélio pede aos seguranças que dêem licença por um minuto.
-Fábio, eu não posso demorar, diga o que quer de mim.
Fábio o abraça fortemente, chegando a dar um solavanco em Aurélio.
-Eu amo você, Aurélio. Só agora eu pude perceber isso.
-Por que só agora? Não venha me dizer aquela velha máxima, que só damos valor às coisas quando a perdemos.
-Não é isso, quer dizer, é isso também.
-Tarde demais. Não se deve esperar perder um amigo para valorizá-lo. Isso é covardia.
-Aurélio, eu terminei tudo com a Laura. A gente brigou feio, eu quase até bati nela!
-Bater nela? Você enlouqueceu!
-Eu quero te pedir perdão. Vamos ser como éramos antigamente. Me perdoe pelas palavras que dirigi a você naquela discussão.
-Você insinuou que eu era gay. Isso foi... Uma punhalada.
-Me perdoe...
Aurélio hesitou. Seus olhos se encheram de lágrimas.
-Eu te perdôo. Sabe por que? Pois não consegui me libertar da idéia de que já não somos mais amigos. E amigos... Sabem perdoar. Amigos de verdade se amam. Dois homens podem se amar. E o que é a amizade senão a forma mais pura do amor?
Fábio o abraça, muito agradecido.
-Você é um grande homem, Aurélio.
-Seja feliz, Fábio. Não posso perder minha viagem.
-Então irá sozinho mesmo?
-Não. Eu tenho um novo amigo. Ele se chama José. Você ainda o verá liderando as listas de vendagem de livros. Adeus, e... Se cuida, viu?
-Pode deixar.
Apertaram as mãos. Fábio viu o amigo sair às pressas em direção ao avião, e dirigiu-lhe um tímido aceno, um adeus.

André está acomodado em sua cadeira de rodas na quietude do seu quarto, lendo um livro. A porta do quarto se abre. É a sua mãe.
-Olá, meu filho. Quer que eu peça a Norma pra trazer seu lanche?
-Não, obrigado, mãe. Estou lendo, me deixe só. Depois eu como.
-O que está lendo? - Se interessa a mulher, se aproximando de André.
-Se chama “Alguma coisa sobre amizade”... – Diz, melancolicamente.
-Oh, meu querido... – Confortou, afagando seus cabelos – Não fique assim. Nenhuma daquelas pessoas que conviviam com voce merecem sua amizade. Você é uma boa pessoa.
-Eles só queriam meu dinheiro. Farras, zoação. Eles me sugavam; e eu... Eu confundi amizade com interesse. Mas estou me conformando. Quer melhor amizade que esta? Um livro?
A mulher o olhou com piedade.
-Pois então, não vou mais atrapalhar você com a sua companhia. Depois eu volto.
Ela beija o rosto do filho e sai do quarto.
André repousa o livro sobre uma mesa. Na mesma mesa, ele faz uso do seu computador. Ao acessar a página do seu orkut, ele vê, na lateral direita, no item “amigos”, um número zero, indicando que não havia nenhum amigo adicionado. Ele vai em “editar perfil”. Em seguida, apanha o livro que estava lendo e abre uma determinada página, demarcada pelo marcador de livros. Repousa o livro aberto sobre a mesa, diante de si. Faz a leitura da página de seu interesse e se dirige ao teclado. Ali, ele digita algumas palavras no item “quem sou eu”, retiradas do livro.
Enquanto digitava, as lágrimas rolavam em suas faces. Aquele era o desfecho. Um jovem, entrevado, clamando por uma amizade que nunca existira em sua vida. Ele salvou as modificações. E assim ficou a sua nova página no orkut...

Quem sou eu: Necessito de um amigo
Necessito de um amigo
Que ria e chore comigo
Que me tire deste castigo
De não ter um amigo
Amigo pobre ou amigo rico
O que importa é que esteja vivo
Amigo que desabafe e que ouça meus lamentos
Amigo que saiba o que sinto por dentro
Amigo de confidência, amigo de freqüência
Amigo tanto nas horas fartas quanto na falência
Amigo tal qual a lua e o mar
Que formam uma aliança de luz no escurecer do lugar
Amigo que sempre divida
As tristezas e as alegrias de sua vida
Amigo que não tenha medo
De revelar os seus segredos
Amigo que lute pela minha vitória
Mesmo que ao final seja minha a glória
Amigo que diga calado
Se caminho certo ou errado
Amigo de toda partilha
Que sem mais nem menos já é da família
Amigo que realmente entenda o valor da amizade
E veja que esta é a solução para a humanidade
Amigo que conceda sua vida
Para deixar que eu prossiga
Amigo que não saia da cabeça
Mesmo que o resto do mundo o esqueça
Amigo que, por fim, desfaça minha necessidade
De viver sem ter um amigo por toda a eternidade. Autor: José Campos da Silva

14 comentários:

Ernesto Ulysses disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ernesto Ulysses disse...

Parabéns, rapaz. Você é um escriba que alia a criatividade à objetividade na escrita. Feliz dia do amigo.

Andréa Amaral disse...

Serei sucinta: estou embasbacada....José, André, Aurélio, Fábio...carente de amizades sinceras, o "cara" cheio de amigos por interesse, o sensível carente do afeto de infância, o amigo egoísta e preconceituoso.Todos eles vivem uma reviravolta e são completamente pormenorizados lindamente por sua criatividade e talento imensuráveis...e o que dizer do poema de "José"?
Lohan, só posso te dizer que estou orgulhosa de estar no seu rol de amigos e quero ser aquela amiga que lute pela sua vitória e assista sua glória e que enxugue suas lágrimas quando precisar apenas de um ombro para chorar. Você é lindo de alma e coração e óculos também. Meus sinceros elogios e agradecimento à Deus por você existir. AH! Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Beijos e bons sonhos para arrebentar novamente na próxima semana.

Paula Renata disse...

Muito bonito seu texto! E bastante real, infelizmente.. parabéns! =)

João Luiz disse...

Que belo texto Lohan,parabéns pelo jeito de enxerga a vida e pelo talento de colocar essa visão em seus textos.Continue escrevendo assim que você vai longe!!!
Abraços!!!!

Camilíssima disse...

Lohan, me fez chorar, seu danadinho!!! Que lindo texto e quão profundo ele é. Emocionante. Sei exatamente o que é ser um José, um Aurélio... pode ter certeza de que sei. Já perdi amizades sem nunca saber o porque. Já me iludi, já fiz mais do que podia por uma amiga, já esperei pessoas que nunca apareceram... Hoje sou feliz por ter algumas pessoas ao meu redor que me querem bem e aprendi a ser feliz assim, pelo tempo que isso durar. Vivo intensamente uma amizade, na esperança de que seja eterna, mas aproveitando o momento. Seu texto trouxe alguns nomes à tona em minha mente e confesso, foi um pouco doloroso lembrar... Mas foi bom perceber que a vida continuou e que hoje tenho pessoas maravilhosas, como você, ao meu redor. Prezo sua amizade e cuidarei dela com todo zelo possível. Beijos!!!

Camilíssima disse...

Agora... porque a menina baladeira tinha de ser Camila, hein??? As Camilas são tão quietas, rsrs...

Andréa Amaral disse...

Camila vc é quieta????Essa pra mim é novidade...kkkkk

Mayra disse...

Lohan,vc foi brilhante!!
PARABÉNS!!
O texto infelizmente é uma realidade mesmo,amizades de infância q se distanciam,pessoas q acreditam ter amigos,mas na verdade só estão junto dele por conveniência...enfim o texto é ÓTIMO!!
ADOREIIIII!!!!!
GRAÇAS A DEUS TEMOS AMIGOS VERDADEIROS E ESPERO Q PELA VIDA INTEIRA!! :)

iêda disse...

PARABÉNS LOHAN,você é simplesmente,SHOW!!!Você como sempre,sabe como ninguém,reunir talento e criatividade.A verdadeira amizade,pode se distanciar pela vida,mas nunca esquecida pelo tempo!Saiba que você pode estar longe dos meus olhos,mas HABITA o meu coração...Beijos da sua eterna amiga e fã,Iêda.

Lohan disse...

Meus amigos, deixo aqui meus sinceros agradecimentos a todos os elogios! Esse texto, de fato, me emocionou em determinados pontos, pois há momentos ali que já foram vividos ou presenciados por mim. Dediquei a ele uma grande carga emotiva, e valeu a pena. Ao terminar de faze-lo, senti que passei a entender melhor o sentido da amizade. Um ponto que ia abordar, e acabei não falando nada, é sobre a amizade entre um homem e uma mulher. É possível, isso, não há dúvida. O problema é qndo essa amizade se torna um amor incondicional. Seria o amor, no sentido mais amplo, carnal, enfim - um sentimento que deturparia a pureza de uma amizade? Ou seria esse amor um enobrecimento da amizade entre um homem e uma mulher? Continua-se amigo ou dá-se o passo adiante? Fica a deixa... E qnto a Andrea, Camila, vcs duas me comoveram realmente com seus comentários. Ahh rs, era só o aniversario da Camila rsrs, Camilíssima! João, Paula, Mayra, obrigado msm pela força, esse texto de fato foi extraido de realidades alternadas... Ieda, minha amiga, a distancia nao esfria nossa amizade, que sejamos sempre assim, sem preconceitos do Fábio, sem tristezas do José, sem interesses do André. Grande abraço a todos!

Lohan disse...

Ah Ernesto, adorei o escriba kkk!
Qnto tempo nao lia essa palavra, mto obrigado tbm amigo!

Juliana Künzel disse...

Lindo, amigo!!!! Vc escreve lindamente!!!! Assim vc irá longe!!!
Parabéns!!!!
Beijos

Anônimo disse...

Oi amigo, adorei!!!
Lindo, vc escreve muito bem!!!
Parabens!!
Bjus, Vivi...