quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sensibilidade


A coisa toda ficou feia quando ele sentou perto de Lúcia e disse: "O problema é que você chora demais." Aquilo foi o começo do fim. As palavras de Renato foram sua própria sentença.

- Que cara de pau sua, falar isso. Eu choro demais? E qual deveria ser a minha reação ao descobrir que meu noivo tem um caso com minha melhor amiga? Se bem que se essa é a melhor amiga, imagine a inimiga.
- Eu não queria te magoar. Nem a Bárbara queria. Mas nem precisa, você se magoa com tudo. Fizemos tudo da melhor forma possível, para que ninguém saísse mal dessa história.
- Fizeram tudo da melhor forma possível? Ah, vai pro inferno, Renato!
- Eu precisava de liberdade, você me sufocava com essa sua sensibilidade toda.
- Queria liberdade?
- É, homem precisa ter seu espaço, senão acontece alguma merda.
- Mas eu sempre deixei você fazer tudo o que queria, nunca fui de pegar no seu pé. De que liberdade você tá falando? Esperei dez anos por essa bosta de casamento.
- Ah, sei lá, Lúcia. Eu tava me sentindo aprisionado, que nem um pássaro na gaiola. Você me dava tudo o que eu queria, mas eu precisava voar, sacou?
- Voar? Vou me esforçar pra entender...

As lágrimas de Lúcia eram verdadeiras. Ela tremia só de lembrar as mensagens que viu no celular dele. Renato estava tranquilo, parecia já prever que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.

- Por que você não terminou comigo e foi ficar com ela? Por que trair? E às vésperas do nosso casamento?
- Você está certa. Eu sou um covarde. Devia ter feito isso, mas não tive coragem, tive medo de você começar uma choradeira, exatamente como você está fazendo agora.
- Deixa pelo menos eu chorar, caramba!
- Eu detesto quando você chora, DETESTO!-esbravejou- Você chora por tudo. É um filme, é um livro, é uma exposição de arte, é uma notícia no jornal. Chora até assistindo comercial de tv. Ah, haja paciência!
- Eu sou sensível, dá licença? E naquele filme de Bergman você chorou também que eu vi.
- Aquele filme foi foda, não deu pra segurar. Mas foi só aquela vez; homem não chora, meu pai sempre disse. Mulher chora, mas você chora à toa.

Lúcia caminhou até a sacada do apartamento e ficou olhando para baixo, as pessoas pareciam formiguinhas lá embaixo; e os carros, flashes luminosos.

- Lúcia, eu não estou nada bem-disse Renato, se aproximando de onde ela estava.
- E eu estou ótima. O que você acha?
- Tô falando sério. Parece que o mundo caiu nas minhas costas. É muita pressão, é a Bárbara me enchendo pra assumir o lance da gente, é a empresa que descobriu umas paradas erradas que eu andei fazendo...
- Que paradas?-Lúcia interrompeu.
- Uns desvios que tive que fazer, tá dando uma merda danada, tô sob investigação...
- Desvio? Você roubou a empresa, Renato? E pra quê? Pra custear o casamento?
- Antes fosse pra isso, nem queira saber Lúcia, nem queira saber...
- Pra gastar com a vagabunda da Bárbara.
- Ela não é vagabunda, Lúcia. Porra, eu tô abrindo meu coração pra você, ninguém sabe disso.
- Eu quero que seu coração se foda, e a Bárbara e a empresa.

Renato mostrou um monte de documentos que comprovavam as tais falcatruas nas quais ele estava envolvido, além de inúmeras contas atrasadas. Ele entrou novamente na sala, deixou a papelada sobre a mesa, abriu uma gaveta, pegou algo e voltou para a sacada.

- Tá vendo essa arma, Lúcia?
- Tô. Vai me matar, seu desgraçado?
- Não. Comprei essa merda pra me matar. Mas sou um filho da puta tão covarde que não tive coragem de puxar o gatilho. Eu sou um merda, Lúcia. Você merece coisa melhor.
- Não diga... Sério? -ironizou Lúcia.
Mostrou também uma carta de despedida que havia escrito, onde explicava as razões para seu futuro suicídio. Deixou sobre a mesa a carta e guardou a arma na gaveta.

Com os braços apoiados no parapeito, Lúcia pensou nos longos dez anos que passou ao lado de Renato. Dos vinte aos trinta, viveu em função dele. Não teve filhos, porque Renato não queria, ele já tinha um. Não estudou Letras porque Renato dizia que Letras era curso de maluco e que professora ganhava pouco. Cursou Direito para agradar Renato. Pensou na infância difícil que passou, sofrendo abusos por parte do padastro, pensou na mãe que nunca lhe apoiara, pensou em todas as confissões que fez a Bárbara e no quanto havia confiado nela. As lágrimas de Lúcia eram grossas, salgadas e mornas e caiam daquela altura toda, uma após a outra, incessantemente. Pensou que talvez Renato estivesse certo, talvez ela precisasse tratar essa sensibilidade excessiva que tinha. Questionou se haveria mesmo uma possivel cura para a angústia que ela sentia naquele momento. Pensou, pensou, chorou, chorou.

Renato veio até ela novamente e disse:

- Desculpa. Desculpa por tudo.
Lúcia entrou na sala, sem dar conversa ao que ele dizia. Abriu a gaveta e pegou a arma. Apontou em direção à cabeça de Renato.

- O que você tá fazendo? Você quer mesmo me matar? -Perguntou ele
- Não. Você quer se matar. Você disse.
- Tá louca?
- Você disse que comprou essa arma pra isso, mas como é um cagão, filho da puta, não teve coragem de por fim à própria vida. Mas eu vou te ajudar, pela última vez.
- Lúcia, abaixa essa arma, vamos conversar. Não é assim que se resolve as coisas. Assim você não está me ajudando...
- Estou sim. Livro você desse monte de merdas que você andou fazendo e de quebra você nunca mais vai ter de me ver chorar.
- Se você atirar em mim, vai ser presa, vai acabar com a sua vida.
- Já disse que não quero te matar. Sobe no parapeito.
- Como é que é?
- Sobe!- Disse Lúcia, aproximando a arma do ouvido de Renato.
Renato tremeu feito vara verde e começou a chorar

- Não faz isso, Lúcia. Você me ama, eu sei.
- Para de chorar, porra! Homem não chora! Sobe agora nessa merda de parapeito!

Renato subiu, aos prantos, no parapeito. Lúcia mirava com a arma a cabeça de Renato. Do alto do décimo nono andar ele sentiu o vento lhe tocar fortemente o corpo, mas equilibrou-se. De olhos fechados ouviu Lúcia dizer:

- Aproveite os cinco segundos que terá agora, será sua única chance de voar.
Ao ouvir Lúcia engatilhar a arma, Renato pulou.

Lúcia entrou para a sala, guardou a arma novamente na gaveta, deitou no sofá, ajeitou as almofadas. Deitou para dormir, foi um dia intenso, ela estava cansada; logo, logo começariam os borburinhos dos vizinhos e da polícia e ela teria que, pela primeira vez, fingir que estava chorando.

13 comentários:

Andréa Amaral disse...

Camila "Fonseca" Furtado.Puta que o pariu!!! Só falando assim, mulher!Já ganhou tananã!Já ganhou tananã...Quero autógrafo no dia do lançamento.Rubem vai se torcer de orgulho, tá melhor que ele. Ameiiiiii.Mata mais,vai? Tô sentindo o sangue escorrendo perto do meu canino vampiresco.Vamos eliminar todos os FDP da face da terra!!!

Lohan disse...

''Para de chorar, porra! Homem não chora!''. É, a Lúcia se revelou pior que o Renato. Mandou a sensibilidade pro espaço... Muito inteligente a cronica, Camila, vc impressiona cada vez mais. Eu, enquanto lia o inicio, ficava imaginando... Do que vai sair desta ''DR''? O que Camila vai aprontar? rs E aprontou mto bem!
Bjs, parabéns!

Andréa Amaral disse...

Desculpe minha ignorância Lohan, mas o que é "DR"?

Camilíssima disse...

Andrea, agora que você descobriu que eu sou uma serial writer, que tal matarmos juntas na ficção? Podemos escrever em parceria algo bem sangrento qualquer dia... Agora, melhor que o 'tio' Rubem... Poxa, sinto-me honrada, mas ele é o mestre.
Lohan, se toda 'D.R.' terminasse assim, toda 'D.P.' viveria lotada de casais fazendo 'B.O.'... kkk, piadinha medíocre, eu sei... Obrigada, meus amigos, você são demais!!!

Lohan disse...

kkkkkkkkkkkkk
Andrea, imagino que as demais siglas citadas pela Camila vc saiba o que são rsrs Qnto a D.R, significa Discussão de relacionamento, rs. Camila, já pensou? A piada foi demais, rsrs.
Bjão!

João Luiz disse...

É Camila,cada vez melhor hein!!! Camila Furtado Fonseca.Chegou a dar um nó na garganta pensando no que aconteceria e como sempre um final surpreendente e fantástico.
Parabéns,seu talento me impressiona!

K@rininh@ disse...

Perfect!!! Fodástico! rsrsrsrsrs
Quando crescer quero ser igual a vc! Parabens!
Bjinhos

Ernesto disse...

Parabéns, Camilíssima. Excelente!

luciana disse...

Parabéns Camila!
Vc consegue transmitir os sentimentos ...
Excelente.

Camilissima disse...

Obrigada Andréa, Lohan, João, Karina, Ernesto e Luciana: vocês são demais!!! Obrigada a todos e aguardem... Minha mente não pára de inventar novas historinhas, rsrs...

Matheus disse...

Muito bom, gostei do "Aquele filme foi foda,..."
Até chorei com seu texto.
rsrs

Paulo Fodra disse...

A forma como você conduz o texto em direção ao desfecho é envolvente... sem detalhes demais a não ser os que nos fazem sentir calculadamente o que vc quer que a gente sinta... parabéns!

Camila disse...

Obrigada, Matheus. Não quero fazer ninguém chorar, mas gosto de provocar sensações.
Paulo, muito obrigada. Estas palavras vindas de um escritor como vc, são uma honra e tanto. Valeu a todos!