sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A arte de escrever uma crônica

Como escrever uma boa crônica? Bem, para começar, pode-se jogar ao papel uma observação casual, tão banal e tão próxima do cotidiano do leitor quanto possível. Tão óbvia, mas tão óbvia que o leitor se surpreenda por não ter tido, ele próprio, aquela ideia.

Vejamos... Algo assim: há dois tipos de escadas, as que sobem e as que descem. Não, esqueçam o que eu disse: obviamente não há dois tipos de escadas, as escadas que sobem são as mesmas que descem. Então. Há dois tipos de pessoas: as que sobem escadas e as que descem escadas. Não, também não é um bom exemplo, pois tudo o que sobe, desce, já diz a sabedoria popular. Ah, sim, a sabedoria popular, aí está um tema que, embora batido, sempre pode se prestar a uma crônica de emergência. Escolham um provérbio e sigam em frente.

Terão de explorar o dito cujo, mas deliberadamente sem pretensões acadêmicas. Como uma conversa de bar, aí é que está o segredo. Embora as conversas de bar não tenham segredo. O problema é justamente controlar o ímpeto de se sentir como um orador falando do púlpito. Afinal, os escritores são normalmente uns tímidos enrustidos e, por isso mesmo, perigosos: escolhem uma das tarefas mais solitárias que existem, que é escrever, mas vingam-se na hora de publicar o texto escrito, momento em que são extremamente carentes de atenção. Esquecem que não temos necessariamente interesse em todas as suas reminiscências e opiniões. Assim como vocês não precisam ter paciência para me lerem até o final (mas, por favor, não me abandonem!). Lembrem-se da conversa de bar: ela não precisa levar a lugar algum para valer a pena (ninguém acredita realmente que pode convencer o amigo de que seu time é superior ao dele, mas não deixamos de discutir só por causa disso).

De repente, vocês se levantam da mesa do bar e pedem ao garçom a saideira, exultantes. É que, de tanto divagar, de tanto discutir seus argumentos com o interlocutor imaginário, vocês têm uma crônica na mão. Novinha em folha. A melhor crônica do mundo (os escritores são, normalmente, pais corujas). Pobre do cidadão que cruzar com o escritor neste momento: terá de ouvi-lo pacientemente até que consiga dar um elogio à altura de seu ego.

Então o texto vem a público, e o autor já mal se lembra sobre o que escreveu, mas se deleita com as respostas – elogios – que recebe. Raros são os leitores que discutem. E raros são os autores que gostam da discussão; mas estes são os melhores, talvez. Porque, no fundo, há dois tipos de escritores: os que preferem os elogios e os que preferem as críticas.

4 comentários:

João Luiz disse...

Muito boa !!!

Parabéns!!!

Sua entrada no blog só veio enriquecer ainda mais este time e estes momentos especiais em que temos acesso a um bom texto!

Mais um para eu aprender!

Abraços!!!

Andréa Amaral disse...

Já que talvez você prefira uma crítica, aí vai: porque não pensei nisso antes? Você "roubou" uma ideia que "tinha" que ser minha. Quanto ao fato de todo escritor ser tímido, talvez por isso, eu não escreva bem: sou mico de auditório. Adoro aparecer.

Andréa Amaral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lohan disse...

Edu, meu amigo, vc escreveu um verdadeiro ensaio sobre um cronista. Um texto tão simples e leve como uma conversa de bar acompanhada de amigos e cerveja; como de fato, uma boa crônica. Não sei se lhe elogio mais, ou se lhe critico, rs. Mas nessa escada, onde se sobe e se desce, prefiro apenas subir, pois, diante deste texto, a crítica seria a minha queda da escada: vc me empurraria, e com razão, pois não há o que ser criticado.
Parabéns!
Abs!