terça-feira, 10 de novembro de 2009

Beto

Beto morreu.
Amanheceu ao lado de um monte de cinzas..
do fogo que lhe afastava o frio insuportável
o sangue seco a seu redor atraindo moscas
o peito cheio de furos, parado e morto.

Se viveu...
bem poderia, beto tinha seus sonhos...
também sentia e respirava humanamente
mas seus olhos escureceram
ele estava são.. só naquele dia
mas devia


Tão bem que dormi à noite
não ouvi nenhum dos tiros
sonhava meu conforto em lençóis limpos
e beto morria...

acordei já reclamando de ter acordado,
tomei meu café sublime, mas mau humorado
ofendi a quem me ama e fui egoísta
e o corpo de beto povoado de moscas

então sai, costurando entre os carros
como se fosse meu o mundo
a boca como uma metralhadora
palavrões para todos os lados

passei por beto ainda reclamando
da hora, do dia, do preço do estacionamento
olhei-o de lado, apressei o passo
a expressão de nojo e constrangimento

não tomei nenhuma providencia
deixei beto estendido a própria sorte
quem mais o visse que o fizesse
afinal , não fui eu que o matei

a noite, fechei os olhos mas não dormi
o que não incomodava agora quase doía
uma verdade fria e implacável
beto estava morto.

Não conhecia beto..
mas o conhecia
nunca o procurei
mas o vi sempre

beto que batia a porta
sempre a mesma roupa, suja
sempre a mesma expressão
"Um prato de comida dotô?"
não era isso que ele queria
sua cabeça sacudia devagar
conformado ante a negativa
tentava puxar assunto
sentir se menos só talvez
saia devagar, enxotado como um cão

a noite os dedos tremiam
tentava esquecer o mundo à volta
nunca tentou entender
não lhe disseram que poderia
conformava-se simplesmente.

tento sentir culpa, mas sou tão egoista
afinal, era beto, não eu..
mas algo em mim não quer ser assim
beto está morto
quantos mais?

Quem baterá a minha porta amanha?
Sem que eu falhe da mesma forma
beto esta morto...
mas anda há sobreviventes..
por enquanto..
talvez só abrir os olhos.

4 comentários:

Eduardo Trindade disse...

"Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber."

Nestas horas, lembro-me d'A Morte do Leiteiro, um dos mais geniais poemas do genial Drummond, e chego a me arrepiar.

Camilíssima Furtado disse...

Nossa... adorei!!! Muito reflexivo... Quem é Beto? Quem são os "Betos" que ignoramos diariamente? Essas vidas carregadas de não-existência, vidas desperdiçadas,anônimos que formam a coletividade... Ahhh... Esse texto merece uma discussão ampla (adoro)!!! Isso tem muito a ver com os livros que tenho lido ultimamente e é um tema que incomoda, que provoca, que toca na consciência do leitor.
Mauri, deixo aqui meus parabéns e uma sugestão de leitura de um livro que conheci muito recentemente num seminário e que me interessou muito, chama-se 'Vidas desperdiçadas', de Zygmunt Bauman. Trata exatamente dessa temática, das vidas transformadas em lixo, que são um refugo da globalização.
Adorei mesmo! Bjs!

Lohan disse...

Adorei!!
Show de bola a poesia, e, grande coincidencia ou não, tbm me lembrei da Morte do leiteiro, Edu!
Poesia arrasadora!
Abraços!

Andréa Amaral disse...

"Nunca tentou entender
Conformava-se simplesmente."
"tento sentir culpa
mas sou tão egoísta
afinal, era Beto, e não eu..."
De quem ou do quê serão as culpas? Do nosso comodismo ou da nossa frieza? Da nossa falta de entendimento ou do nosso egoísmo quando fechamos os olhos deitados sobre os lençõies limpos e travesseiros macios?
Um drama cotidiano narrado com poesia. Fantástico.