sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dona Quitéria

Lá para os lados da serra.

Dona Quitéria, senhora mirradinha, de tanto dar de si ficou pequena. O mundo e a vida extraíram-lhe o sumo. Virou passa.

Dona Quitéria, de tanto se doar, cresceu. Meus olhos nunca viram mulher tão forte.

Dona Quitéria havia casado, enviuvado, depois casado com o retrato do falecido. Definitivamente. Teve um filho, que criou como quem cuida de um animalzinho frágil.

Dizia que não gostava de bichinhos de estimação, vivem presos, os coitadinhos. Um dia, deram-lhe um periquito muito bonito e muito triste. Dona Quitéria primeiro teve pena de ver a avezinha presa na gaiola. Depois ficou com pena de soltá-la. Enfim se afeiçoou ao periquito, tornaram-se amigos, ambos pequeninos e tristes. O periquito falava mais que Quitéria.

Quando falava, dona Quitéria dizia que seu nome lembrava dom Quixote. Que deveria ter sido ela, e não Dulcineia, a amada de dom Quixote. Que, sendo ambos um tanto loucos, combinariam. E assim o Cavaleiro da Triste Figura teria sido mais feliz.

Dona Quitéria em sua cadeira de balanço, bordando e cosendo. Dizendo-se louca. Tinha os olhos mais lúcidos da cidade. Quando, em 1985, elegeram o presidente, profetizou: “Esse não vai durar.” Não durou. Quando, em 1994, morreu o querido da nação, lembrou: “Para nós, nada vai mudar.” E nada mudou. Mas quando, em 1998, faleceu o cantor, Quitéria verteu uma lágrima que ninguém entendeu.

Dizem que, na sua juventude, Quitéria era a moça mais bonita da cidade. Os rapazes disputavam olhares sob sua janela. E havia sempre um vaso de flores no parapeito. Mas as flores não sobreviveram para me contar até onde tudo era verdade.

Tempos depois, dona Quitéria passou a fazer doces para fora. Quitéria quituteira. Sustentava a casa e os doces sustentavam seu sorriso de domingo. Até que o médico lhe pediu para parar. Andava muito cansada, debilitada. Ela parou de vender tortas e passou a presentear amigos com guloseimas.

Parou de cozinhar no ano em que o cometa passou. Passou quase despercebido e ela, desapontada, esqueceu as receitas. “No meu tempo, as estrelas eram mais bonitas, não era essa coisa mixuruca que mal se vê.”

“Dona Quitéria, a senhora precisa se alimentar melhor, precisa se cuidar...”

“Eu me cuido e estou bem com meu chimarrão, com meus chás...”

E um cálice de vinho todo dia, sabíamos todos, mas ninguém tinha coragem de dizer.

Passou a ter medo de sair de casa.

“Dona Quitéria, a senhora não gostaria de passear um pouco? Ou viajar? Há tempos não vai a Porto Alegre, a senhora não quer ver a cidade?”

Ela nunca queria, preferia o balanço da sua cadeira ao balanço do automóvel.

Passei a lhe levar flores. Do campo. Margaridas.

À tarde, a luz entrava oblíqua pela janela e desenhava sombras no assoalho de madeira. O nhec-nhec da cadeira de balanço ecoava no silêncio, as sombras se moviam. Dona Quitéria colocava as flores no parapeito.

Um dia, ela me pediu que lhe trouxesse miosótis. Não achei logo, mas trouxe-lhe um vaso da capital. Flores pequeninas. Dona Quitéria me olhou com seus olhos também pequeninos: “Miosótis quer dizer não-te-esqueças-de-mim, sabia?”

Dona Quitéria, de tanto sonhar, voou. E me deixou lembranças coloridas de seus olhos tristes. A mulher mais forte que conheci.

3 comentários:

Lohan disse...

Belo texto, Edu!
Marcante, eu diria. Qntas donas Quitérias não conhecemos por aí? Mulheres fortes, apesar da idade longeva, que já trabalharam em lavouras, fábricas, etc.
Batizo este texto de miosótis: não me esquecerei dele.
Abraços!

João Luiz disse...

Muito lindo!

lembrei de minha avó com seus quitutes e nossas horas de conversa boa...quanto aprendi com aquele senhorinha que também já voou.

Alegria ler um texto desse.

Parabéns!

Andréa Amaral disse...

Já na primeira frase que li, me veio um nome à mente: Érico Veríssimo. Sua alma gaúcha na narrativa ti´picamente regionalista sobre o modo de agir e pensar dos sulistas, com suas reflexões, com suas cismas, hábitos de "antigamente", de povo pioneiro. Adorei. Você é sutil e lúdico ao mesmo tempo, sem ser piegas.. Parabéns.