segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amar por amar e ponto!

Olá vocês aí da coluna ao lado! Como vão?
Convidaram-me para unir-me a vocês e registrar aqui um pouquinho de mim.
Então achei que deveria fazer como fazemos quando somos novos em uma casa.
Primeiro a apresentação: Claudia.
Era para ser Maria Claudia, mas foi Claudia Regina. E eu passei uma boa parte da minha vida sendo Claudia mesmo. Claudia vem de claudicar, que significa caminhar com dificuldade. Sabe Deus a razão! Acho que é porque eu me perdia no mundo das palavras. O ser humano é bem interessante com sua expressão. Nem sempre diz o que quer dizer. Nem sempre ouve o que está escutando... Mas eu fui aprendendo e sendo um pouco mais Regina com o passar do tempo. Regina é rainha. Conhecedora do seu domínio, da sua situação, do seu reino...
Hoje, Claudia Regina, caminho devagar por entre as pessoas, procuro perceber meus espaços, meus poderes e meus limites. E descubro cada vez mais que meu caminho é por aqui mesmo.
Eu gosto muito da vida, do ser humano, de conviver mesmo, de música, de ouvir e falar. Aliás, gosto da habilidade humana de se comunicar... Falando, olhando, tocando, escrevendo, lendo, sentindo...
E por essa razão eu já havia estado aqui algumas vezes lendo um pouco sobre suas idéias!
Foi a Andréa (querida!) quem me convidou! E vejo que vocês têm almas inquietas, curiosas, dispostas! Tão lindo isso!
Assim, atrever-me-ei a digitar umas letras por aqui, unindo-me a vocês! Exercendo algo tão necessário para nosso aprimoramento... Acolhendo, curtindo e respeitando as diferenças. Do modo de ser, pensar, escrever, sonhar, criticar! E falando sobre diferenças, eu lembrei de um fato bem marcante em minha história profissional, que fez marcas inesquecíveis em meu ser pessoal!
Aí está ela. Eu queria mesmo era fazer um livrinho infantil sobre esse tema, por isso diria que mesmo não sendo tão novo, tem direitos autorais em essência o que vou contar. Mas ao refletir sobre o que escrever hoje no Autores S/A, como estréia, achei merecidíssimo compartilhar com essa casa virtual esse sentimento real!
Um beijo em seus corações, um abraço forte aos que passarem por aqui!
Claudia


Com apenas seis anos, ela já sabia o significado de ser deixada de lado.
Com uma cicatriz nos lábios, seus coleguinhas da escola * mangavam dela, o que a fez desistir de ir à escola...

A mãe, já sofrida com o fato da filha ser portadora de uma fissura lábio-palatal, também sentia o coração cansado e por essa razão não insistiu que a filha voltasse à aula. Era demais!

Aqui estavam, depois de longa viagem, para uma nova consulta e possivelmente uma outra cirurgia. Quem nasce assim faz inúmeras cirurgias para ficar esteticamente melhor, o que não quer dizer livre de sinais evidentes de uma má formação.
Eu pensava em tudo isso enquanto a atendia...


Foi ela mesma quem me contou sobre como faziam as outras crianças. Foi ela quem provou que era melhor não mais passar por isso todos os dias. A mãe, evitando chorar na frente dela, deixou-nos a sós.

E eu nunca me senti de fato tão sozinha. Porque era eu e um abismo até chegar aquele coraçãozinho. Uma criança de seis anos já havia passado pela dor da indiferença que um ser humano é capaz de proporcionar ao outro.

E quando eu estava para concordar, com um sufoco no peito, convencida por um sotaque infantil vindo do nordeste, comecei a contar:
- Sabe? Existem dois tipos de pessoas com deficiências... As que podem ver as suas deficiências, e as que não conseguem ver as suas e passam a vida vendo a dos outros.


De onde eu tirei isso nem sei. Só sei que ela se aproximou da mesa e colocou os bracinhos em cima dela, olhando-me no fundo da alma... Eu continuei...

- E quando a pessoa sabe que tem um problema, nos olhos, nos lábios, nas pernas, nas mãos, ela sabe que precisa tratar para melhorar. E cuidará disso o quanto for preciso. Mas se a pessoa não souber que tem um problema, no jeito, no coração, no pensamento, pode ser que ela leve uma vida inteira para perceber e cuidar dele... Pode ser que ela precise que alguém lhe diga qual é o seu problema, mas como ela não sabe, não vê, ela pode não acreditar, e nunca melhorar... E tem mais! Para não saber sobre a sua deficiência, pode ser que ela passe uma vida inteira vendo e falando das deficiências dos demais... Os exames ajudam a ver o que temos por dentro, mas maldade, raiva, egoísmo, essas coisas não vemos assim...



Ficamos silenciosas por um tempo, segurando as lágrimas nos olhos. Eu pensava no que eu havia dito. Tão simples e ao mesmo tempo tão tudo. Ela interrompeu erguendo-se e alinhando sua coluna:



- É por isso que meus amigos ‘mangam’ de mim. Eles ainda não sabem! Vou voltar para a escola!



* mangar de alguém quer dizer rir dele, zombar dele
E eu soube que ela realmente retomou sua vida escolar depois. E eu? Eu aprendi com ela a olhar mais profundamente uma pessoa, a demorar a palavra sobre aquilo que eu desconheço, a desejar com maior intensidade que as pessoas sintam-se amadas e valiosas pelo que são como pessoas, nada mais!


6 comentários:

Andréa Amaral disse...

Cláudia, seja muito bem-vinda a esta "casa de loucos". Cada um com sua mania, mas sempre respeitando as opiniões uns dos outros.
Aqui tem de tudo um pouco, cada um mostrando o que trás dentro de si , de suas experiências e leitura de mundo. No meu ponto de vista, sempre uma troca enriquecedora e cheia de desafios também.
Sugeri seu nome, pois sei que o seu lado humanitário, lúdico, generoso, entre outras coisas, só têm a acrescentar aos leitores deste blog. Quem ler os seus textos não se arrependerá.
Todas às vezes em que leio o que vc escreve, seja fato ou ficção, me sinto mais perto de ser qualificada como humana. Você consegue despertar em mim uma vontade de acreditar que ainda existem pessoas sinceras de coração e de atitudes, sem intenções excusas e que realmente queiram se doar, sem dar nada em troca. Pessoas que acreditam e são a personificação de um Deus justo e generoso. E pode acreditar que sentir isso é quase um milagre, para uma pessoa tão cética e descrente no ser humano quanto eu.
Obrigada por nos brindar com sua presença iluminada e com um texto tão profundo. Um beijão.

Andréa Amaral disse...

Retificando: pessoas que queiram se doar, sem querer nada em troca.

Simone Prado disse...

Oi Claudia! Muito prazer! E seja mais que bem vinda!
Que texto gostoso de ler foi esse, menina?!. A Andrea tem razão ao dizer que você iria enriquecer, iluminar esse blog. Não só o blog como também a nós leitores com esse belo texto. Em mim formou-se uma pegada, não na areia, mas no coração; e aprendo a cada passo trilhar melhor essa vida. E por falar em vida... É isso que vejo em seu texto. É isso que você nos doou em sua reflexão diante de um problema tão sério que mexe demais com as crianças que têm lábio leporino . Que possamos prestar mais atenção nas pessoas que nos rodeiam e que são valiosas...
Um beijão e Tudo de bom!

"Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria acesso ao sentimento de amar a vida dos seres humanos. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora...Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem.A capacidade de escolher novos rumos.Deixaria para você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: Além do pão, o trabalho.Além do trabalho, a ação.E, quando tudo mais faltasse,um segredo: O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída."(Mahatma Gandhi)

Camilíssima Furtado disse...

Estou encantada com suas palavras! Brilhante indicação da Andrea, realmente és muito talentosa e sensível. Seja bem vinda ao blog, acomode-se, aceite uma xícara de café ou chá e sinta-se a vontade, a casa é sua. Beijos!

Cacarina disse...

Olá meninas!
Muito obrigada pela acolhida e pelo carinho! Adorei a frase do Gandhi também.
Andréa, só você mesmo! Pode ter certeza de que sou muito pequena, limitada e cheia de defeitos, mas sempre quis justamente o que escreveu... Mesmo na simplicidade, na singeleza, ser a lembrança de um bem maior! Fiquei tocada com o que escreveu... E feliz!
Um beijo para vocês!
Claudia

Lohan Lage Pignone disse...

Seja muito bem vinda a, como bem disse Andrea, casa dos loucos rsrs!Mas esta aqui é a mais bela Casa Verde que existe, pode acreditar. E ficou ainda mais deslumbrante com a sua chegada. Compartilhar uma experiência tão emocionante como esta é mais do que um presente: é um aprendizado.
Bjs, muito prazer!