terça-feira, 25 de junho de 2013

Engole!

Engole o choro, menina! Que coisa feia essa manha! 
Secou os olhinhos com a manga da blusa do pijama e recolheu os fungados longos, entrecortados. Guardou a dor num lugar que ainda não sabia que se chamava alma e esticou para a mãe os bracinhos pequenos. "E ainda quer colo, depois dessa feiura toda?". Queria. Mas não ia ganhar. Sentada no berço, agarrou pelas tranças a boneca de pano e se deitou sobre ela com soluços calados. 
Engole o choro, idiota! Que frescura é essa de chorar porque apanhou na escola! Se chegar em casa chorando de novo vai apanhar é de mim!
Choro guardado. Rosto lavado com água fria. Na alma quase não tinha mais espaço pra ajeitar nenhuma dor. Empurrou até caber. No quarto, abraçou as fotos dos artistas que adorava. Todas compradas nas revistas da banca. Autografadas e tudo. Gostava de pensar que cada autógrafo tinha sido dado só para ela. Dormiu ganhando um beijo na boca do seu cantor predileto.
Engole o choro, mulher! Que porra é essa? Cala a boca! Se não parar eu vou te quebrar todinha!
Quebra não. Não tem mais pedaço inteiro. E essa coisa salgada escorrendo dos olhos é hábito de menina feia. Prometo que passa. É que de vez em quando a alma expulsa uma dor que não cabe lá dentro. No banheiro, virou o rosto para cima e jurou para si mesma que aquelas lágrimas eram do chuveiro. 
Engole o choro, vovó! Por que é que velho fica chorando à toa?
Mania não. É a novela. É gripe, claridade, cebola, alergia. Eu sou bonita. Eu sei sorrir. Está vendo? Está vendo, sua porra de menina idiota? 
Engoliu o choro. Abriu a porta. Desceu dois degraus.
Na rua, gritou com as buzinas, encostou nas pessoas, abraçou os postes, dormiu com os mendigos. E estendeu os braços para o nada, aquela alma enorme.

domingo, 23 de junho de 2013

Boca Beija Vácuo

Tirava teus beijos do lixo
por não haver flores
a carregar teu nome...

gritava no vácuo!
o som se propagava
mais rápido
que em teu cordial
coração de melão
desabalado, convalescente...

Pedia-te: vira a boca para lá
que não suporto mais
ouvir os teus silêncios...

concreto e lástima
neste nosso desencontro...

Velho - BR - PAR - PT
20.06.13 14:00 h





quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pequenos Diálogos


No almoço

- Acho que não volto para o escritório. Não tô legal.
-Mas, o que você tem?
- Acho que contrai uma dessas doenças novas. Ou é “gaynusite” ou “bichite”. Sei lá. Acordei meio estranho, meio gay. Sabe como, né?
- Não! Não sei, não. Como é?
-Primeiro, eu fiz a loca na garagem do prédio. Você acredita que bloquearam meu carro. Dei a Elza e quase chamaram a policia.
- Hum...
- Depois, já estava trabalhando quando a Dona Arlete, aquela das finanças, entra na minha sala com uns sapatos horríveis. Quase morri!
- E, agora? O que está sentindo?
-Não sei. Mas, aquele ator global que acabou de entrar. Tá vendo? Ele é tudo!
-Cláudio, toma vergonha. Essa não cola aqui não, rapaz.
- Ué! Segundo Feliciano, ser gay agora é questão de saúde pública.
-Isso só é doença na Felicilândia. Agora para de frescura e vamos que tá na hora.
Passando pela mesa do ator global, Cláudio não se conteve.
- Mateus Solano, você arrasa! 

No café da tarde

- Eu me apaixonei foi pelo nariz dele. Aquele nariz meio árabe, nariz à La Rodrigo Lombardi.
As duas amigas de Clarice estavam chocadas com a revelação, mas ambas concordavam que o nariz do Lombardi era O Nariz.

No jantar

- Eu sou a favor da ditadura.
O espanto foi geral. Todos que estavam naquele jantar ficaram em silêncio. Constrangidos pela asneira que Clarice (sempre ela) acabara de pronunciar.
- Eu sei que é politicamente incorreto pensar algo assim. E, sei também que todos estão me crucificando interiormente. Mas, deixe-me concluir.
Passando do total estado de horror para o de total curiosidade, os presentes esperavam a justificativa do injustificável.
- Bom, numa ditadura não estaríamos expostos a esses tipos de Che Guevaras que aparecem do nada com suas militâncias milagrosas.
- Como diria Chico Anysio, “Caalaada”! – disse Alberto, um petista convicto – nós vivemos numa democracia, temos direitos e podemos fazer o que quisermos. Já pensou nisso?
- Vivemos nada. Pelo menos na ditadura teríamos certeza que não temos direito algum. O que nós temos ou tentam fingir que temos é uma democracia fajuta. Já parou pra pensar que a única coisa que funciona nesse país é o sistema eleitoral. Tentam nos empurrar a idéia de que é mais prático e rápido, é mais seguro e ninguém pode se passar por você. Já parou pra pensar porque é assim?
- Não. – disse o acanhado companheiro.
- É seguro, senão o que iria ter de fraude. Ia ser neguinho votando varias vezes, até os mortos e bebês iriam para as urnas. Festa da democracia. Aff... Pura lorota. Historinha pra boi dormir.
- Gente! Vamos para de discutir política – interveio Gláucio, um Tucano assumido e receoso da conversa parar no governo FHC.
- Só mais uma coisa. Clarice, o quê você tem contra o Che  Guevara?
- Nem queira saber! Nem queira!