sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Quando se sabe o que quer

(por Camila Furtado)

       Finalmente conseguiu se separar! Assim que voltou do banco com a última prestação da casa própria quitada, sentiu que chegara o momento em que não precisaria mais da outra metade para nada. O carro, pago. A casa, paga. O carnê dos móveis terminou antes do último natal. Difícil era separar os discos e livros -  quais eram seus e quais eram dele?- tanto fazia... que ficasse com todos, porque até o repertório precisaria mudar. Só queria a cama toda para si, queria as camas estranhas também e toda sorte de aventuras que a solteirice pudesse trazer.

Um ano experimentando a sensação de desamar alguém. Um ano ensaiando a fatídica frase dita no meio do jantar, à queima-roupa. Um ano pesando prós e contras e ensaiando respostas para os que achavam que eles formavam um casal perfeito. Nenhum argumento pesou tanto quanto a falta de romance. Acreditava que o amor poderia sobreviver à qualquer coisa, à falta de dinheiro ou à qualquer outra falta, até de pão. Mas descobriu que nenhum amor resiste à falta de romance. Nenhum pró foi capaz de segurar essa, nem o sexo garantido, nem a sensação de proteção. É fácil, quando se sabe o que quer.

Agora vinha a parte operacional da coisa. Separar fotos, documentos, enxoval e mais um monte de tranqueiras. Esboçou um sorriso ao ver quão espaçosos ficaram seus armários agora que as coisas dele estavam encaixotadas e prontas para ir. Abriu o champanhe e deliciou-se andando pela casa, que de repente ficou enorme. Abria e fechava portas, encantada com os espaços vazios. Gostou tanto da sensação de liberdade que nem se deu conta de que a solidão estava à espreita, esperando passar o efeito da bebida para chegar e apossar-se de cada cantinho deixado por ele. 


domingo, 7 de setembro de 2014

Subúrbio

(por Priscilla Franco)


Se a Zona Sul soubesse a harmonia em que convivem a doçura e o caos nas ruas irregulares do subúrbio, certamente estaria de mudança para Madureira. Devo pedir perdão previamente à Urca, Copacabana, Leblon, Garota de Ipanema e Manoel Carlos. Mas tudo parece morno quando comparado à energia pulsante que move pessoas, carros, trens e metrôs por esse pedaço esquecido da cidade maravilhosa. É o lugar onde não é praxe esbarrar em uma celebridade e dificilmente se é descoberto por um caça-talentos. É dormitório de domésticas, serventes e operários, abriga o imenso staff que move a engrenagem dos famosos bairros cariocas. É um refúgio sem flashes, recanto dos anônimos.
       Lá amanhece quando ainda não há sol. Uma multidão de despertadores move trabalhadores até a condução. O ônibus é a extensão da cama para quem tem a sorte de conseguir um lugar. Os vagões do trem são mercados, bazares e até mesmo igrejas, quando alguém leva a bíblia para pregar. Dizem que todos os dias algumas almas são salvas entre o Engenho de Dentro e a Central do Brasil.
          Donas de casa rompem o marasmo da manhã encontrando-se nos muros para comentar sobre a vida alheia. A pauta inclui a programação das novelas e pessoas interessantes, que cabem ou não nas revistas de fofoca. Quem vê essas senhoras de longe até acredita que voltou no tempo. Não é o máximo que em uma cidade imensa ainda existam pessoas que dedicam seu tempo a uma boa prosa?
       Crianças brincam na rua, interrompendo o futebol vez ou outra para dar passagem a um carro, moto ou qualquer outro veículo inconveniente. As bonecas são compartilhadas, os carrinhos, pipas e bolas de gude. Creio que o subúrbio é um dos últimos lugares onde as pessoas ainda têm prazer em compartilhar. Compartilha-se desde o “gato” da TV a cabo até o bolo de fubá batido em uma tarde de quarta-feira.
      Na hora do almoço, os cheiros se confundem. Muitas panelas chiam feijão cozido enquanto alhos torram nas frigideiras. O burburinho das crianças cede lugar aos barulhos de pratos e talheres. Nessa hora, o passeio por uma rua de Marechal Hermes é o bastante para nos abrir o apetite.
    Apesar de conservar costumes deliciosos que a vida moderna tenta a todo custo extinguir, o subúrbio não está parado no tempo. Os prós e contras da vida contemporânea também são percebidos por lá. Se a máquina de lavar acabou com as reuniões de vizinhas no tanque, nas lan houses, o contato com a tecnologia é uma ótima desculpa para confraternizar.
       Se na Zona Sul as pessoas vivem com glamour, é no Subúrbio que se vive de verdade. Nem o orçamento apertado ou a falta de acesso aos serviços públicos desanimam esse povo. Posso afirmar que em toda madame cheia de roupas de grife, champanhe e prozac falta a alegria descontraída de um passeio no calçadão de Madureira.

     O subúrbio é assim, difícil de ser desvendado em apenas um olhar. Se é feio, inseguro ou esquecido, se não tem frescura ou se faz figuração no mapa do Rio de Janeiro, já foi imortalizado na poesia de Chico e está guardado com todo carinho nas minhas memórias afetivas.


sábado, 6 de setembro de 2014

Para Monica Vitti


(Por Thiago Carvalho)

Furta-cor
(Talvez fosco...)
Esse hieróglifo
Que pintaram
No teu rosto?