sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quando se vai


(Por Cinthia Kriemler)

escuta este grito
(é meu)
grito de besta impotente
que ainda faz sangue
vivo embaixo das crostas
é meu este flagelo que mil
porres não aplacam
e o sofrimento-capataz
que se entranha nas vísceras 
—  e comanda a casa



escuta meu berro, meu urro
que não sou surdina ou elegância 
imbecil 
eu bato o portão 
{fazendo muito alarde !
porque sou rangido, atrito
nesta dor  de corte 
porque não há silêncio 
no que mutila a alma

partir é sempre mais que se afastar
das grades
: é cedo, é desterro
inferno com deus
céu do diabo
dia sem som, sem tom
straight flush incompleto em noite
de mão de mando
vontade de esconder embaixo
do lençol a vida
amarfanhada
o gesto, o afeto, o ar
que falta
mas nada disso adianta
                     [o grito, o berro, o urro, as grades]
que quando se vai
já se foi

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Quarto de tralhas

(por Cinthia Kriemler)


Carmem enterrou o marido e, quatro meses depois, a sogra. Estava finalmente livre daquela família que fora sua por conveniência. Uma conveniência que tinha se arrastado por muitos anos. Não fosse a recompensa que agora desfrutaria, não teria aguentado Nestor ao seu lado. Tinha nojo do marido. Do seu corpo, da sua risada, dos seus dentes amarelados pelo cigarro importado que fedia tanto quanto fumo vagabundo. E um nojo maior ainda do sexo morno que fazia com ele sem vontade. Mas se entregava à função como esposa apaixonada. Precisava ser assim.
Não fora apenas o dinheiro que a mantivera naquele casamento por 14 anos, mas também o status de ser casada com um homem tão rico e importante. A infância de pobreza e abusos fizera dela uma mulher insensível. Por isso comprazia-se em obrigar as pessoas à reverência, ao servilismo, à obediência. Dava ordens em tom de voz cortante e tratava os empregados com rispidez. Mas o que mais a fazia feliz era sentir a inveja nos olhos das amigas. Quanto mais era admirada ou temida, com mais intensidade e sensualidade fingia o sexo com o marido.
Cuidou para não ter filhos. Não precisava de crianças para satisfazer nenhum desejo primitivo de maternidade. Um filho só serviria para fazê-la ter que disputar ou dividir, mais tarde, a herança do marido. Além do mais, crianças são criaturas cruéis que falam a verdade. E havia coisas, como um ou outro amante ocasional, que ela preferia manter longe de testemunhas.
Quando a sogra foi morar com eles, Carmem mal disfarçou a fúria que tomou conta dela.
— Mas a sua mãe aqui, amore? Por que é que ela vem para cá?
— Mamãe está velha e cansada, Carmem. Eu fico preocupado com ela lá naquela casa imensa, só com os empregados.
— E as enfermeiras, meu bem?
— Essas só fingem que tomam conta dela! Mas vivem vendo TV, dormindo no horário de trabalho, falando ao telefone. Não, não. Sem ninguém para supervisionar, é um risco muito grande mamãe morar sozinha.
— Coloque uma enfermeira para vigiar a outra — ela sugeriu, desesperada.
— Não dá! Dois dias atrás, mamãe caiu de uma escada. Subiu para pegar uma echarpe que estava no alto do armário e a enfermeira nem viu. Caiu, fraturou o fêmur e ainda bateu a cabeça. Pois assim que ela sair do hospital, vem morar conosco e não se fala mais nisso. Já pedi até ao pessoal do escritório para mandar avaliar a casa dela e vender.
Para Carmem, nenhum argumento era mais convincente do que esse. Aumento de patrimônio era sempre assunto de sua preferência, o que serviu para amenizar a decisão de Nestor. Uns anos antes, quando o marido lhe perguntara se ela gostaria de saber mais sobre os negócios da família, sentiu-se tentada. Mas depois, pensou que demonstrar interesse poderia ser visto como um gesto de ambição e desistiu. Quando chegasse a hora de herdar a fortuna do marido, não queria que as pessoas dissessem que ela havia se casado por dinheiro nem que era a oportunista que realmente era.
Nestor morreu de causas naturais. É verdade que, muitas vezes, desanimada pelas finas rugas que começavam a surgir ao redor da boca e dos olhos, desesperava-se.Vou estar uma velha quando esse traste morrer! Imaginava, então, se seria capaz de matar o marido. Não, não seria. Tratava-se, na verdade, não de ser capaz, mas de avaliar os riscos. Uma investigação mais aprofundada, um passo em falso e, em vez de dinheiro, cadeia. Não. O marido tinha 18 anos a mais do que ela e seria normal que morresse antes. E, de um jeito ou de outro, ela estaria bem. Com Nestor vivo, não lhe faltava nada. Com ele morto, se livraria daquela boca murcha e molhada que fazia carícias frouxas no seu corpo.
Após a morte de Nestor, a presença da sogra na casa passou a ser um tormento a mais. A mulher não lhe dirigia quase a palavra e era óbvio que não gostava dela. Fora contra a decisão do filho, à época viúvo e sem descendentes, de casar-se outra vez com uma quase criança. Para piorar, ela percebera, desde cedo, que Carmem manipulava Nestor de modo a não dar-lhe filhos. E esse foi o ponto final em qualquer tentativa pacífica de aproximação entre as duas.
— Sua mãe não gosta de mim!
— Não gosta mesmo não. Ela acha que você se casou comigo por interesse — ele dizia, sem meias palavras, sempre que o assunto vinha à tona.
— E você, meu bem, o que você acha?
— Que todas as mães são assim mesmo, ciumentas.  Não se preocupe, bebê, eu sei que você me ama e que não vive sem mim.
Homens! Sempre tão autoindulgentes, tão cheios de si. Uma lingerie provocante, gemidos fingidos de prazer em troca de sua atuação medíocre e eles se acreditam inesquecíveis.
Enfim,  quando o marido morreu de ataque cardíaco, Carmen se empenhou com afinco no papel de esposa arrasada. Foi fácil fazer crer às pessoas que seu abatimento se devia à perda do parceiro. Estava, realmente, abatida. No entanto, o que a devastava era o medo do futuro. E agora? Como é que ele foi morrer antes dessa velha horrorosa? O que vai ser de mim com essa mulher no meu pé? Eu queria tanto ficar livre dela e desta casa.
Detestava a casa. Nestor nunca tinha permitido que ela mudasse nada de lugar ou que se desfizesse de nada. Os móveis antigos; as paredes pintadas e retocadas com uma cor apagada; o escritório do marido, austero e sombrio. Mas, acima de tudo, o que mais lhe dava repugnância era o quarto de pesca, um cômodo no qual Nestor tinha entulhado objetos variados, durante anos. Varas, molinetes, iscas artificiais, caixas pesadas ou pequenas repousavam ao lado de equipamentos mais sofisticados. Tentou convencê-lo a guardar a tralha fora de casa, num galpão construído especialmente para isso, mas pura perda de tempo. Nestor não abria mão daquela extravagância.
— Meus objetos de pescaria são sagrados. Eu quero tudo bem perto de mim, dentro de casa.
Só havia uma vantagem naquele quarto de entulhos: quando ia para lá, Nestor se esquecia dela por uma, duas noites, livrando-a do sofrimento de tê-lo por perto antes de dormir. Devia isso, também, a Júlio Cortes, o administrador dos negócios da família, único amigo de Nestor. Os dois se conheciam desde meninos. Estudaram no mesmo colégio e consolidaram uma amizade que se estendeu pelos anos. Quando assumiu a empresa, a pedido da mãe, Nestor convidou o amigo, no mesmo dia, para trabalhar com ele. Agradecido, sempre disposto a ouvir, Júlio foi a única visita que o marido recebeu em casa durante anos. Sua rotina era sempre a mesma: ficavam primeiro no escritório, por pouco mais de uma hora, para os despachos da firma, e depois seguiam para o quarto de pesca, onde conversavam e riam por horas.
Não houve surpresas no testamento de Nestor. Conforme previa a lei em caso de não haver descendentes, cinquenta por cento de seus bens iriam para a esposa e a outra metade para a mãe idosa, caso ainda estivesse viva. Em cláusula única, deixava para o amigo Júlio a caixa de iscas artificiais importadas, como “um gesto simbólico”, explicara o testamenteiro. Que ideia! Ainda bem que não deixou o iate — Carmem pensou, debochada. Após a partilha, a sogra não a incomodou mais. Melhor dizendo, passou a ignorá-la totalmente, evitando qualquer contato, até que, quatro meses depois, amanheceu sem vida. Morrera dormindo, de algum mal súbito próprio das pessoas de idade. Finalmente, Carmem estava livre. Rica, rica, rica! Rica e livre! —repetiu para si mesma durante toda a noite, rolando excitada na cama.
Naquela mesma noite, Júlio Cortes sentou-se no pequeno escritório instalado em um dos quartos do seu apartamento e abriu a caixa de iscas artificiais importadas. Pegou cuidadosamente um dos dois envelopes sobrescritados com a letra de Nestor e retirou de dentro dele o bilhete que lera inúmeras vezes :

Meu querido,

Deixo para você tudo o que é meu. Tenho medo do meu coração, que anda me dando sustos. Mas tenho mais medo de pensar que tudo o que construí pode ir parar nas mãos de Carmem. Por isso, escondi este último testamento num lugar onde só você o encontrará.
Se você está lendo este bilhete é porque eu morri antes de mamãe. Por isso, no outro envelope, está o testamento dela, fazendo de você também o seu herdeiro. Mamãe está muito doente. Cuide dela com carinho durante os dias que lhe restam, sim? E, principalmente, proteja-a de Carmem.  Eu lhe peço apenas que deixe para tomar posse de tudo depois que mamãe morrer, porque eu tenho receio que Carmem a ponha num asilo se souber que não herdou nada.
Só lamento não poder estar presente quando a notícia for dada. E não se preocupe, meus advogados estão instruídos a não deixar este testamento ser contestado. Eles estão de posse de algumas informações sobre o passado de Carmem.
Espero que esta tenha sido uma boa surpresa. Já estou com saudade, mas sei que um dia vamos nos reencontrar, meu amor. Até lá, seja feliz.

Beijos eternos

Nestor


domingo, 25 de agosto de 2013

Acontece sempre aos personagens

(Por Cinthia Kriemler)

Um dragão exausto. Isto sou eu sentada aqui neste começo de noite gelada, soltando neblina pela boca e pelas ventas. Já aqueci os dedos murchos e a garganta com duas xícaras de chocolate quente com chantilly, raspinha de casca de limão e uma pingada leve de licor. Aceita uma xícara?
Estou escutando músicas antigas, enquanto decido se vou ao cinema ou se abro um vinho, mais tarde, e assisto a um filme em casa mesmo.
Eu vejo o futuro repetir o passado... O tempo não para, não, não para...
Que coisa! O tempo não para é de vender essa imagem de inesgotável. Bobagem. É um grande ilusionista, isso sim; um fanfarrão elegante esse tal de tempo! O que ele faz, e bem, é aplicar recursos. Mas não resiste a um olhar mais de perto, a uma avaliação mais detalhada. De perto, é fácil ver que os acontecimentos, as histórias e as vontades são sempre os mesmos, ciclicamente. Guerras, amores, terremotos, mortes, tudo se repete. Modernizam-se os instrumentos, as palavras e os atores. As tramas, nunca. Uma mesmice. 
Pois saiba você que o tempo sobrevive mesmo é das percepções, como num truque houdiniano. O que eu vejo não é o que você vê. Não vemos na mesma hora. Não nos importamos do mesmo modo a respeito do que vemos. O truque é este: impedir que a gente tenha consciência de que de inesgotável mesmo só as desigualdades das nossas percepções.
Uma vez ou outra, é claro, passeamos, sem querer, pela mesma sintonia, por uma fração de segundos. Déjà vu! — gritamos. — Que déjà vu que nada! É o tempo escorregando na gestão. Mera digressão.
Costumo pensar em cada um de nós como um grande globo de metal, igual ao que se usa nos bingos ou nos sorteios de prêmios. No início de nós, o tempo nos recheou de uma vez com todas as datas e fatos e sentimentos que iríamos precisar para termos uma vida. Mas se tocou que um bom planejamento estende-se a um futuro, e aí decidiu que era melhor liberar uma pedra por vez. Acrescentou o mexe e remexe aleatório do globo para assegurar transparência e criar um pouco de frisson na plateia.
Por isso, o meu bingo nunca é, foi ou será igual ao seu. Eu recebo o amor aos 20; você, aos 35; ele, nunca. Você aprende o sofrimento aos 10; nós, aos 38; eles ainda sofrem. Tudo culpa do mexe e remexe.
Não me importo com o estratagema. Do tempo, só registro uma queixa: para si mesmo, nunca traz velhice; para nós, rugas dolorosas no corpo e na alma. Injustiça!
Ah, não? Você não acha? Deixe ver se eu entendi... Experiência. É assim mesmo que você desculpa o reumatismo que proíbe às suas juntas subir escadas? Segurança é o nome mais interessante que você encontra para o seu platô de conformismos? Está bem. Entrego os pontos. Eu mesma apelidei de “maturidade” o assassinato dos meus sonhos. Aliás, melhor dizer: massacre, porque os exterminei em conjunto para não ouvir mais suas vozes insensatas.
O tal do amor maduro, então, é o pior dos disfarces. Preciso forçar mais a memória, um dia desses, e me lembrar quando foi que aprendi a gritar “Bingo!” na pedra da desistência. Logo eu que nunca dispensei um amor maldito, uma paixão inconsequente, me conformar com um amorzinho morno, centrado, sem tempero?
Pois me escute: o mal é que a gente aceita qualquer coisa depois das rugas. E não adianta reclamar, tipo: Hei! Eu quero aquele olhar que vi na mocinha de ontem, na fila do supermercado. Quero aquela roupa sensual da vitrine do shopping. Quero atravessar a piscina sem perder o fôlego. Reclamar só traz mais rugas.
O que foi? Apavorou-se? Descobriu que lhe furtaram as possibilidades? Finalmente você começou a entender como o tempo é ladrão? Como eu lhe disse, um ilusionista. E você aí pensando que eram seus o amor, a alegria, as gargalhadas e os sonhos! Eu sei como é isso, portanto, não se preocupe, você não é bobo sozinho. Acontece sempre aos personagens.

Ainda dá tempo de me acompanhar numa xícara de chocolate. Mas, se preferir, venha tomar um vinho mais tarde. Afinal, ainda não falamos sobre a melhor parte disso tudo. Aquela onde eu lhe conto que insônia, depressão e amor despedaçado também te abandonam, mudam de corpos.
É o tempo, redistribuindo recursos. Acontece sempre aos personagens!




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Puta



(Por Cinthia Kriemler)

Cuspiu na pia. Junto com a saliva, os restos do sexo. Estremeceu. Não tinha nascido para aquela vida. Fazer dinheiro trepando é pra quem tem estômago. Lembrou de antes. De quando não contava as rugas e as unhas estavam sempre feitas e o perfume francês e as roupas eram recebidos de presente, pagos por homens importantes.  E de quando cada encontro era uma festa de bebida e pó. "Cheira aí, meu bem". E ela fungava tudo. Pra aguentar as trepadas alucinadas, os tapas, as humilhações. Tinha que cheirar. E beber. Que o champanha e a vodca deixavam qualquer porra com gosto de importada. 
Sacudiu a cabeça. Em seguida, estremeceu de novo. Dessa vez, mandou embora o tempo. Porra de madrugada fria! Porra de úlcera maldita que dói toda hora
Mas tinha coisa que doía mais. Os murros do cafetão; a penetração por trás, forçada, apressada, arrebentando tudo. Não se acostumava. As outras debochavam: "Onde já se viu puta com frescura?" Pois ela era uma puta danada de fresca. Desconsentia. Negava. Argumentava. Depois fazia. Tinha medo de o freguês reclamar para o cafetão. Mas não entregava a bunda sem lutar.
Até que não é caro o remédio da úlcera. Só não adianta de nada. Vai ver é este conhaque vagabundo que está cortando o efeito dos comprimidos. 
Jogou na boca dois chicletes de hortelã. Testou o hálito. Retocou o batom vermelho e limpou os dedos na moldura de madeira apodrecida do espelho. Parou um instante para ver o coração rabiscado na parede. Não estava ali na semana anterior. "Marcelo ama Polaca". Mais uma idiota achando que cliente se apaixona por puta. Polaca, Polaca, fica esperta! Deve ser menina nova. Tinham chegado umas catarinenses que ela ainda não tinha visto. Só gente bonita essas gurias do sul. Duro era trabalhar ao lado delas na rua. Altas, cabelos loiros, pele sem marcas. Droga! E ainda trepavam bem, as vacas. Atraíam os homens mais novos. Os melhores. Desses que transam com a puta falando poema e prometendo amor. Uns fodidos, isso sim! 
Depois, ia sobrar pra ela falar a verdade. Que puta não sonha. Que puta não faz planos. Que puta não fala de amor. E juntar os pedaços. Oferecer o pó, a pedra. Entregar o conhaque vagabundo. Estancar o sangue nos pulsos frios numa noite de navalha cega.
Porra! Quem será essa Polaca? 
Cuspiu no chão da rua. Estava ficando velha. Sentindo pena da menina do sul. Sentindo falta daquele antigamente de merda. A dor da úlcera queimando por dentro. O coração rabiscado na parede mostrando o pesadelo dos sonhos. O poema ausente em cada transa fazendo falta, finalmente.
Pegou os comprimidos na bolsa minúscula. Aquela desgraça toda ia passar.




terça-feira, 25 de junho de 2013

Engole!

Engole o choro, menina! Que coisa feia essa manha! 
Secou os olhinhos com a manga da blusa do pijama e recolheu os fungados longos, entrecortados. Guardou a dor num lugar que ainda não sabia que se chamava alma e esticou para a mãe os bracinhos pequenos. "E ainda quer colo, depois dessa feiura toda?". Queria. Mas não ia ganhar. Sentada no berço, agarrou pelas tranças a boneca de pano e se deitou sobre ela com soluços calados. 
Engole o choro, idiota! Que frescura é essa de chorar porque apanhou na escola! Se chegar em casa chorando de novo vai apanhar é de mim!
Choro guardado. Rosto lavado com água fria. Na alma quase não tinha mais espaço pra ajeitar nenhuma dor. Empurrou até caber. No quarto, abraçou as fotos dos artistas que adorava. Todas compradas nas revistas da banca. Autografadas e tudo. Gostava de pensar que cada autógrafo tinha sido dado só para ela. Dormiu ganhando um beijo na boca do seu cantor predileto.
Engole o choro, mulher! Que porra é essa? Cala a boca! Se não parar eu vou te quebrar todinha!
Quebra não. Não tem mais pedaço inteiro. E essa coisa salgada escorrendo dos olhos é hábito de menina feia. Prometo que passa. É que de vez em quando a alma expulsa uma dor que não cabe lá dentro. No banheiro, virou o rosto para cima e jurou para si mesma que aquelas lágrimas eram do chuveiro. 
Engole o choro, vovó! Por que é que velho fica chorando à toa?
Mania não. É a novela. É gripe, claridade, cebola, alergia. Eu sou bonita. Eu sei sorrir. Está vendo? Está vendo, sua porra de menina idiota? 
Engoliu o choro. Abriu a porta. Desceu dois degraus.
Na rua, gritou com as buzinas, encostou nas pessoas, abraçou os postes, dormiu com os mendigos. E estendeu os braços para o nada, aquela alma enorme.

domingo, 23 de junho de 2013

Boca Beija Vácuo

Tirava teus beijos do lixo
por não haver flores
a carregar teu nome...

gritava no vácuo!
o som se propagava
mais rápido
que em teu cordial
coração de melão
desabalado, convalescente...

Pedia-te: vira a boca para lá
que não suporto mais
ouvir os teus silêncios...

concreto e lástima
neste nosso desencontro...

Velho - BR - PAR - PT
20.06.13 14:00 h





quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pequenos Diálogos


No almoço

- Acho que não volto para o escritório. Não tô legal.
-Mas, o que você tem?
- Acho que contrai uma dessas doenças novas. Ou é “gaynusite” ou “bichite”. Sei lá. Acordei meio estranho, meio gay. Sabe como, né?
- Não! Não sei, não. Como é?
-Primeiro, eu fiz a loca na garagem do prédio. Você acredita que bloquearam meu carro. Dei a Elza e quase chamaram a policia.
- Hum...
- Depois, já estava trabalhando quando a Dona Arlete, aquela das finanças, entra na minha sala com uns sapatos horríveis. Quase morri!
- E, agora? O que está sentindo?
-Não sei. Mas, aquele ator global que acabou de entrar. Tá vendo? Ele é tudo!
-Cláudio, toma vergonha. Essa não cola aqui não, rapaz.
- Ué! Segundo Feliciano, ser gay agora é questão de saúde pública.
-Isso só é doença na Felicilândia. Agora para de frescura e vamos que tá na hora.
Passando pela mesa do ator global, Cláudio não se conteve.
- Mateus Solano, você arrasa! 

No café da tarde

- Eu me apaixonei foi pelo nariz dele. Aquele nariz meio árabe, nariz à La Rodrigo Lombardi.
As duas amigas de Clarice estavam chocadas com a revelação, mas ambas concordavam que o nariz do Lombardi era O Nariz.

No jantar

- Eu sou a favor da ditadura.
O espanto foi geral. Todos que estavam naquele jantar ficaram em silêncio. Constrangidos pela asneira que Clarice (sempre ela) acabara de pronunciar.
- Eu sei que é politicamente incorreto pensar algo assim. E, sei também que todos estão me crucificando interiormente. Mas, deixe-me concluir.
Passando do total estado de horror para o de total curiosidade, os presentes esperavam a justificativa do injustificável.
- Bom, numa ditadura não estaríamos expostos a esses tipos de Che Guevaras que aparecem do nada com suas militâncias milagrosas.
- Como diria Chico Anysio, “Caalaada”! – disse Alberto, um petista convicto – nós vivemos numa democracia, temos direitos e podemos fazer o que quisermos. Já pensou nisso?
- Vivemos nada. Pelo menos na ditadura teríamos certeza que não temos direito algum. O que nós temos ou tentam fingir que temos é uma democracia fajuta. Já parou pra pensar que a única coisa que funciona nesse país é o sistema eleitoral. Tentam nos empurrar a idéia de que é mais prático e rápido, é mais seguro e ninguém pode se passar por você. Já parou pra pensar porque é assim?
- Não. – disse o acanhado companheiro.
- É seguro, senão o que iria ter de fraude. Ia ser neguinho votando varias vezes, até os mortos e bebês iriam para as urnas. Festa da democracia. Aff... Pura lorota. Historinha pra boi dormir.
- Gente! Vamos para de discutir política – interveio Gláucio, um Tucano assumido e receoso da conversa parar no governo FHC.
- Só mais uma coisa. Clarice, o quê você tem contra o Che  Guevara?
- Nem queira saber! Nem queira!

sábado, 25 de maio de 2013

Opinião


Discutiram desde os primeiros encontros. Porque ele gostava de cães e ela amava gatos. Porque o melhor dia da semana era sexta-feira, mas não para ele, que preferia o sábado. Assistir ao jogo ouvindo rádio, coisa de maluco, debochava ela. Ou não, rebatia ele. Lavar os cabelos todos os dias; ou em dias alternados. Tomar chope com ou sem colarinho. Ser protestante; ser católico, espírita, budista, ateu.
Com os anos, casaram-se. Igreja ou cartório. Poucos ou muitos convidados. Pela manhã, no inverno; à noite, na primavera. Não tiveram filhos. Ninguém queria. Mas discutiram até sobre os porquês. Ela, porque era mulher de carreira, bem sucedida e sem tempo, Ele, por qualquer motivo diferente do dela. 
Carro branco; moto preta. Macarrão com molho de alcaparras; camarão na moranga. Lispector, a melhor. Hilst, a incomparável. E enquanto ela escutava jazz no home theatre, ele aumentava o volume dos clássicos no headphone
Discutiram muito sobre sexo, o deles, o dos outros, o dos anjos. E sobre a cor do mar, azul, verde, acinzentado. Sobre verduras, estrelas, rodapés, sentimentos, fantasmas, sogras, drogas, duendes, países, escovas de dentes. Cada um — com sua couve ou agrião, com hipernovas ou anãs, com sua Áustria ou Dinamarca —, seguiu em frente. Prontos, sempre, para a próxima rodada de opiniões.
Quando ela ficou doente, discutiram sobre o diagnóstico, antes e depois de o médico dizer que era grave. Tratamento tradicional ou alternativo; em casa ou no hospital; com ou sem cirurgia. Ela pediu para morrer, ele disse que não. Ela morreu assim mesmo. 
Ele foi para casa. Fechou as cortinas, arrumou, lavou, recolheu o lixo. Recolheu também, em algumas malas, tudo o que era dela. Depois, carregou consigo para o quarto o porta-retratos prateado e o colocou no travesseiro ao seu lado. Antes de dormir, disse para a foto dela: "Você diz que morreu. Mas amanhã nós vamos discutir sobre isso, viu?".
 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Serei...???




Serei areia
onde dorme sereia?
Serei seu canto,
seu pranto,
acalanto?
Serei tão
seriamente surdo
que não ouço
suas escamas
a brilhar ao luar?

PAR - PT
22.05.13
19:00

Serei sereno
calado, ameno
seresta
de orquestra
muda
que não toque
não iluda...

Sonho
aqui sentado
que um dia serei
a cereja do bolo de alguém
por enquanto
sou o bobo da corte do rei
do corte do rei...

Serei
saudade...

Velho - BR
22..05.13
15:00


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Cartas rápidas.












“Momento PARDante”





por mares

nunca

por Dante

navegados

segue O Velho

bilhete

na garrafa

papel em branco

vazio de letras

que tudo

que queria dizer

pareceu

irrelevante

frente à possibilidade

de leres

nas entrelinhas

daquilo que não

foi escrito

a PAR do que

o teu pensamento

poderá criar...





PAR - PT 05 FEVEREIRO 2013

13:45




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“PAR de dois”





Par de dois

sempre pode ser um,

o mistério se decifra

nas entranhas do oceano

que de tão pequeno

não separa

velhos corações.




o VELHO

se renova

quando sova letras indiferentes

no passado presente

de um PAR de rimas...




o VELHO PAR

se afina..."





Dante Pincelli O Velho-BR 05 FEVEREIRO 2013

13:49