segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pista Vazia


Neste post teremos, especialmente, um conto do professor Reinaldo Kelmer, que, de vez em vez, nos brinda com seus ótimos contos aqui no Autores S/A. A seguir, o texto do nosso sempre nobre convidado, intitulado "Pista Vazia". Boa leitura a todos.



A vida é, de fato, uma questão de prisma. Não consigo entender os homens, tampouco me colocar no lugar deles. Será tão difícil nos compreenderem um pouco? Olham sempre para o próprio umbigo; seu mundo resume-se aos seus interesses. Já me cansei. Namorei algumas vezes e não fui rigorosamente seletiva; aliás, deixei sempre meu coração me guiar, me iludir, me enganar. Fui livre, às vezes, e perdida, na maioria. Sei que não interessa ao leitor saber detalhes da minha vida, mas acordei com vontade de falar, de me expor, de abrir o caderno das paixões, para ver se me entendo mais.
Se não sou propriamente uma defunta autora, já morri para os sentimentos e, por isso, distante, fico à vontade para dizer tudo. Não me interessam mais as coisas do coração. Fui tola muitas vezes quando dava corda às canções, aos poemas, aos filmes românticos. Via-me nas cenas, nos versos. Caí. Vejam só, meu último relacionamento foi um soneto mal acabado, com rimas pobres. O sujeitinho era sempre reticente, não sabia o que desejava da vida, não tinha um objetivo direto, nem mesmo indireto. No fundo, tudo era indeterminado em nosso relacionamento. Tive dúvida, até mesmo, do gênero dele. Ainda hoje me pergunto se ele era ou não bitransitivo. Apesar de um nome grave, Normando era literalmente agudo. Eu hiperbolicamente apaixonada e ele conciso e ambíguo nos sentimentos. Mas felizmente acabou; pus um ponto final na relação.
Na adolescência, conheci um rapaz muito tranquilo e honesto. Participava de um grupo jovem na igreja do bairro. Conversávamos sobre o mundo, as virtudes da vida, as tentações; porém, terminávamos em longas ave-marias. Queria conhecer melhor os prazeres, mas ele me dava sermões de comportamento, e eu escutava longas ladainhas sobre certo e errado. Desfiz as contas e o deixei. Foi quando conheci Carlos Fortuna, gerente de um banco, homem bem vestido e altivo. Impressionei-me de cara. Que postura! Ao contrário de Zé Bento, Carlos sempre investia, era arrojado, agressivo, sempre em alta. Por mais que tentava ser cautelosa, acompanhava a movimentação. Um belo dia, resolvi fazer uma surpresa e apanhá-lo no banco para um namoro no almoço; estava com superávit de saudade. Não o vi e perguntei a um funcionário pelo gerente Fortuna. Ele me disse que havia saído para almoçar com uma cliente. Procurei pelos restaurantes vizinhos e o encontrei numa mesa, juntinho de uma bela cliente, fazendo novos investimentos. Na hora senti uma desvalorização; tinha ido para o vermelho sem aviso prévio. Eu que pensava ser nosso relacionamento uma aplicação segura.Fechei a conta.
Pensei não mais amar ninguém. Nem havia passado da juventude e já não via futuro estruturado, desenhado e bem planejado. Cogitei até dar chance a Pedro, estudante de engenharia, jovem promissor e sério que conheci pela internet. Pensei em um futuro construído em pilares sólidos, estrutura familiar firme. Mas estava desestabilizada, frágil; nada em minha vida parecia ser concreto, apenas andaimes inseguros. Hesitei em construir em terreno desconhecido e não tive coragem de entrar em uma nova empreitada.
Depois de Pedro, Jorginho também tentou, mas entrei logo de sola e o mandei para escanteio. Não queria nada com trabalho; sonhava com a seleção, com campeonatos, com títulos. Não há dúvida de que tinha talento; no entanto, não é fácil ser jogador de futebol profissional. Ele até conseguiu, mas terminou em um clube de Campinha Grande, na Paraíba, sem muito sucesso e com pouca grana. Não conseguiu seu pé de meia, apenas marcas de cirurgias e de pancadas.Quando pendurou a chuteira, desconhecido e sem alternativa de trabalho, voltou para o Rio. Hoje tem um botequim lá no bairro onde nos criamos. Ainda bem que não entrei no jogo dele, vi que era contrato de risco, senão estaria em um boteco cheio de fotos antigas e recortes de jornal, servindo bebidas e salgadinhos e ouvindo histórias de futebol.
A vida seguiu e, finalmente, pensei: agora vai.Comecei a trabalhar em uma montadora de carros e tive condição de buscar meu sonho: a faculdade de Direito. Os primeiros anos foram muito bons. Trabalhava com dedicação e me empenhava nos estudos. Os resultados eram sempre positivos no trabalho e na faculdade. Finalmente havia me encontrado na vida; uma realização plena. Estava satisfeita. Contudo, as flechadas do cupido insistem em desestabilizar as pessoas. Por que insistimos em sentir falta de alguém ao nosso lado? Poderia ser uma amiga, alguém da família; mas não. É a tal da carência? Da própria existência humana? Foram feitos um para o outro homem e mulher? O que interessa é que senti a ponta afiada da flecha me tocar. Pior de tudo, duplamente. Vocês me dirão: não se serve a dois senhores ao mesmo tempo. No entanto, um completava o outro. Entenderão o que digo.
Comecei a estagiar no fórum da cidade. Foi quando Luís ingressou com a ação de amar. Seu olhar era firme na convicção de pedir. Sabia fazer isso muito bem. Quando, pela primeira vez, paramos para conversar, ele me convenceu com um argumento muito bem articulado de que havíamos nascido um para o outro. Não demorou muito para que me persuadisse a almoçar com ele e, logo depois, no final de semana, estávamos juntos em um hotel no litoral sul do Rio de Janeiro. Sem contestação, finalmente me encontrei amparada, num relacionamento justo. Foi assim durante os primeiros meses. Luís era um homem muito ocupado. Trabalhava muito no fórum e levava vários processos para casa. Às vezes, viajava, dizia ele, para resolver outros processos. Uma petição aqui, um contrato ali, uma audiência lá. Assim as causas iam se resolvendo e se desdobrando. A justiça, por vezes, é cega. Luís foi me deixando, foi prorrogando nossa ação amorosa. Justamente nas brechas deixadas pela lei do homem, entram as interpretações. E foi assim. Justino trabalhava comigo e frequentemente levava para ele as ordens de serviço. Era um mecânico forte, alegre e franco. Não era muito polido, mas não chegava a ser grosseiro. Olhava-me com admiração, mas respeitava. Usava uma aliança grossa na mão esquerda. Um dia, porém, ele me olhou de baixo para cima, de cima para baixo e me disse: “Dona, a senhora é muito bonita e atraente, mas acho que não está recebendo o trato que merece”. Assustei-me e afastei-me imediatamente. O curioso é que não repudiei o comentário, apenas refleti.
Passei alguns dias pedindo a outra funcionária que levasse as ordens de serviço, pois não queria contato. Depois de alguns dias, voltei eu mesma para levá-las. Seu Justino, o senhor é casado? Sou sim, senhora. Tenho dois filhos. Por que o senhor me disse aquilo naquele dia? Dona, percebo de longe quando uma mulher não é bem amada. E a senhora merece ser. É só me dar chance. Saí dali mais pensativa ainda e, confesso, excitada. Conversamos mais duas vezes e, naquela semana, saímos mais cedo e nos encontramos juntos em um motel de terceira categoria dos arredores. De fato, a pegada de Justino era firme. Segurava-me e apertava-me tal como eu o vi fazendo no trabalho. Era para ele uma máquina que precisava de ajuste. Sentia o sangue correr quente em minhas veias como óleo lubrificando os motores. Fazia tempo que não fazia uma revisão completa. Valeu o check-up. Saí refeita e satisfeita pelo serviço daquele mecânico.
Assim, vivi duplamente durante seis meses. Amava meu doutor, apesar de pouca atenção, mas adorava a retífica semanal. Conforto e satisfação me completavam. Até que um dia Justino foi demitido e nunca mais o vi. A monotonia tomou conta de mim e resolvi uma separação amigável com Luís. Além disso, o estágio terminara , estava formada e precisava caminhar só. Luís me ajudara bastante com conhecimento e indicações. Foi um estágio vantajoso. Chegamos a um acordo e encerramos a causa.
Desse modo, errante fui-me construindo. Casos e descasos, encontros e despedidas, paixões e agruras; na verdade, mais dissabores do que sabores. Entre tantas, conheci Cunha, sargento da polícia. Era uma das suas, não a preferida nem a desprezada, mas uma delas. Quando me queria, me procurava, insistia, ameaçava; depois, voltava à grosseria, ao descaso. Isso não era privilégio meu, pois todas tinham o mesmo tratamento. Para conquistar, se controlava e até tentava um comportamento polido e culto, depois controlava as ações e as manobras eram de acordo com o interesse e a necessidade. Era uma espécie de tática, espírito policial. Sentia-me presa não por vontade, mas por um misto de medo e fetiche. Por fim, senti ter cumprido minha pena e libertei-me.
Às vezes buscava o oposto para curar-me. Quis alguém delicado, carinhoso, dedicado. Não foi difícil encontrar, homens estão aí aos montes. Pierre era isso. Demorou semanas na conquista, e outras tantas para a intimidade. Levava-me ao cinema para filmes clássicos; depois íamos a restaurantes finos. Nunca me deixou dividir a despesa. Apreciava bons pratos e boa música. Em sua casa, preparava pratos delicados e deliciosos, sempre com música ao fundo. Prezava pelo tempero exato. Cozinhar era invenção e magia; bastava saber combinar as poções. Dizia sempre que preferia pecar pela falta de sal ao excesso. Mas quem é que não gosta de algo picante vez ou outra? Senti falta de um tempero mais forte, de uma dose extra de pimenta, de um molho ao vinho tinto. Deixei-o num jantar perfeito ao som choroso deNina Simone: “I put a spell on you”.
Agora, vocês já sabem, fechei-me para organizar minha vida. Desejo paz e tranquilidade, para decidir meu caminho. Não disse sim nem não ao Lucas; não dei esperança, mas disse-lhe que as portas do coração estão encostadas. Ele, cardiologista, disse saber abri-las; possui chaves. Não quero mais batidas descompassadas que só trazem dores de cabeça. Quero me curar de vez. As paixões me trouxeram efêmeros prazeres e gastrite constante. Noites alegres e noites de insônia. Enchi-me de remédios inúteis. Agora me vem um especialista em saúde, para mexer com minha cabeça e com meu corpo de novo.  Ainda é cedo para qualquer decisão, mas o médico parece manter a mente sadia em seu corpo sadio; tem espírito saudável. Não consegui ainda examiná-lo a fundo, pois nos encontramos apenas três vezes, teclamos algumas palavras e nos falamos pouco ao telefone. Só uma anamnese dirá ou esconderá quem somos. É muito difícil um raio X da vida.
E por falar nisso, na semana passada, quando viajei para realizar um curso em São Paulo, conheci Ícaro Soares, um aeroviário muito interessante. Fui bem tratada; pareceu-me um pouso seguro.  Pois é, o que fazer? Fico esperando a vida decolar de vez, mas ainda sou pista vazia. Na verdade, não sei se sou a pista que espera ou a nave que procura.No confuso tráfego aéreo, busco um céu de brigadeiro e uma rota segura. Para onde voar? Qual meu destino? Com quem? A viagem é incerta; porém, para garantir, já marquei minha consulta e já fiz meu check-in.

Rio, 08/09/2012.
Reinaldo Kelmer

4 comentários:

Andréa Amaral disse...

Este texto parece uma pedra bruta esculpida pelas mãos de Michelangelo.
Gostoso de ler, de visualizar, de sentir. Sem muito fru fru ou mirabolantes construções linguísticas e intelectualóides, bem do jeito que eu gosto. Arrasou, mestre! Aliás, andas muito sumido, hein? Saudades...um beijão.

Ana Beatriz Manier disse...

Kelmer, belo texto.Cheio de imagens, de intertextualidades, de belo trato com as palavras e, acima de tudo, de extrema perspicácia e sensibilidade.
Continue.

Nathalia Ramos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nathalia Ramos disse...

Este é sem dúvidas um dos melhores textos que já li, parabéns Reinaldo. Um abraço.