terça-feira, 10 de agosto de 2010

As vidas de um livro (Quarto post)

Peço licença aos meus amigos autores desta terça-feira para realizar essa postagem!
Boa leitura a todos, e segurem a ansiedade!!! rs.

Capítulo 8


“COLISÃO”



-Então era você...

Lohan relaxou os músculos, antes retesados pela ansiedade.

-Eu não podia perder a oportunidade de te dar esse susto, baby – Disse Camila Furtado, a um gole de uísque – Vamos, sente-se ao meu lado. Acompanhe-me nesse Scott.

-Não gosto de uísque. Você está brincando comigo, está brincando com a situação.

-Isso soou como uma ameaça ou foi impressão minha?

Lohan, um homem inquieto, diante de uma pacífica e sonsa Camila, sentada de pernas cruzadas, com seu vestido vermelho sedutor... Na taça, o marrom bruto de um uísque ardente e o vermelho escarlate de um batom, impregnado na borda, marcado por uma boca igualmente ardente.

-Por que veio aqui? E como sabe o nome da Karina? Não me lembro de ter te falado isso.

-Eu fiquei sabendo hoje, em meu depoimento. Aliás, que grande ingrato é você. Apesar da grosseria que fez comigo no saguão desse hotel, eu considerei nossa amizade e fui até lá, quebrar o seu galho.

-Eu não sabia que éramos amigos.

-Somos o que, então? Comparsas? Olha aqui, cara – Ela se levanta, colocando-se como uma leoa diante de Lohan – Você me colocou nessa merda de história, e agora terá que conviver comigo. Terá que aceitar essa personagem. Uma história sem Jéssica Rabbit não tem graça.

-Você me acusa de ser um assassino, e me ajuda, e vem ao meu encontro... Que diabo de mulher é você? E se eu realmente for um assassino?

-Diabo de mulher, adorei isso, hum! – Sorriu, tomando novamente a taça de uísque em mãos – Eu já devo ter dito a você que amo viver em perigo... Ou não? Que eu admiro homens como você... Eu adoro aprender com eles.

-Eu e você já vivemos tudo o que tínhamos pra viver, Camila. Eu te agradeço por tudo o que fez por mim, eu... Eu não quero que se meta mais nisso. A barra ficou pesada, entende?

Um delicioso tango ecoava naquele restaurante, embalando os desejos a flor da pele. Camila se aproximou de Lohan novamente, puxou o colarinho de sua camisa contra o seu peito e alcançou a ponta de sua língua em seu ouvido, sibilando...:

-Eu quero você outra vez... Quero ser sua outra vez.

Lohan é lentamente inebriado por aquele perfume, aquela voz... Aquele corpo que colava ao seu, que invadia o seu...

-Você disse que eu tinha passado na prova, lembra?

-As melhores professoras nunca se esquecem dos seus melhores alunos... – Disse, a um sorriso malandro – Hoje eu quero que você me mate em sua cama. Me assassine, me estupre. Quero que cometa um crime com o meu corpo, que o rasgue inteiro... Quero sangrar na mesma cama que você dorme, ser extirpada...

-Para, pára com essa loucura!

Lohan a empurra, e se afasta, virando-lhe as costas.

-Você não gostou de mim, não foi? Não fui boa o suficiente pra você?

-Fale baixo! Não estamos sozinhos aqui! Claro que eu gostei, mas foi o momento, acabou, Camila.

-Não, pra mim não acabou. Eu quero a última vez. Eu juro que depois disso, você nunca mais irá me ver.

-Você bebeu demais...

-Trate de mim, enfermeiro. Dê-me o doce da tua boca.

Lohan a olha profundamente, e, sem mais resistir, agarra-a a e a beija. Cessam, e tomam fôlego.

-Você me disse uma vez que já matou pessoas. Isso é verdade?

-E se for... Isso não te excita?

-É ou não?

-Isso agora não importa.

-Pra mim, importa.

-Eu não quero te matar. Não aqui.

Ela o beija. Ele recua, e insiste:

-Quer me matar, em que lugar, hein?

-Ainda não planejei. Você merece uma morte excepcional.

-E se eu matá-la antes?

-É justamente esse o seu meio de salvação. O que está esperando pra me levar pro abate?

Quarto 301: o local do crime.



"Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.


Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva


É verdadeira. Aceito,


Cerro olhos: é bastante.


Que mais quero?"


(Ricardo Reis)



O dia amanheceu sangrento. As cortinas vermelhas, transpassadas por raios fúlgidos de sol, criavam um ambiente maculado, manchado de sangue vivo. Lohan, esgotado, abriu os olhos e sentiu-se a voar por alguns instantes. Sentiu-se alma, e gostou daquela sensação. Estava morto... Sim, morto de cansado.

Apalpou a cama, do seu lado direito. Apenas lençóis amarrotados... Levantou-se, sobressaltado. Vestiu sua roupa, e foi até o banheiro lavar o rosto. “Será mesmo que ela sumiu pra sempre?”. Não sabia se sentia alívio ou saudade. Os sentimentos que nutria por Camila agora eram confusos... O mistério que a envolvia o seduzia, e ao mesmo tempo, o deixava receoso.

Saiu do banheiro com um aspecto mais revigorado. Longo dia teria pela frente... Encontrar Karina Shuenck, descobrir o mistério da dedicatória e trazê-la a depor a seu favor.

Olhou o relógio: dez horas da manhã.

Apanhou sua mochila, e a revirou, a procura de algo. Parou. Abandonou a mochila, dando um salto da cama. Abriu todas as gavetas da cômoda, da escrivaninha... Olhou sob a cama, sob o colchão, atrás da cortina, no banheiro... Procurou por cada canto do quarto.

-Aquela safada pegou o livro – Concluiu, furioso.

Não demorou muito e já estava à procura dos seus pais. Estavam no quarto.

-Pai, preciso do seu carro.

-Eu vou com você, filho. A gente tinha programado de ir juntos, não se lembra?

-Não, eu quero ir sozinho, eu quero resolver isso da mesma maneira que eu comecei: sozinho. Fiquem aqui e atendam a quem vier procurar por mim, se alguém vier. Confiem em mim.

Os pais se entreolham, cismados. Por fim, o pai lança-lhe a chave do carro.

-Já sabe aonde ir?

-Eu nunca sei, pai. Mas sempre chego lá.

-Boa sorte.

-Obrigado.

Lohan já havia consultado um dos guardas do hotel, e tomado nota dos endereços de alguns jornais da cidade. Consultado placas e pessoas, ele chega na primeira redação.

-Bom dia, por acaso a Karina Shuenck trabalha aqui?

-Não, senhor.

-Obrigado.

A busca continuava. Havia mais dois jornais. Voz da Serra.

-Bom dia, a Karina Shuenck se encontra?

A moça da recepção estranhou aquela pergunta, e pediu que ele aguardasse um minuto. Ligou para alguém da redação, que logo veio até a recepção.

-O que aconteceu? – Indagou o jornalista.

-Esse rapaz... Está procurando pela Karina também.

Lohan ouve o diálogo e logo se intromete:

-Também? Por que, mais alguém veio procurá-la hoje?

-Sim, uma mulher.

-Hum... Deve ter sido a minha prima. Somos parentes da Karina, mas perdemos todos os contatos com ela. Era a loira a mulher que veio até aqui hoje?

-Era sim – Respondeu a mulher – Esteve aqui tem meia hora, por aí.

-Então, foi ela mesma! E vocês sabem dizer se ela conseguiu falar com a Karina?

-Não, cara. A Karina trabalhou aqui durante um bom tempo, como redatora-chefe. A mãe dela é dona desse jornal. Você, como sendo parente dela, devia saber disso...

-Sim, eu sei. – Mentiu Lohan – Por isso mesmo vim aqui. Só que, pelo visto, perdi a viagem... Como vou encontrar a minha prima, agora, não sei... – Lamentou.

-Poxa, nós já demos o contato pra sua prima que veio aqui hoje.

-Vocês se importariam de me dizer também? É que... É que eu não falo com essa prima, entende... Não quero pedir nada a ela.

-A Karina é uma excelente jornalista. Não atoa está no cargo que está. Mudou-se pro Rio há dois anos, trabalha na redação do jornal O Globo. Nós costumamos acompanhar o trabalho dela – Comenta o jornalista.

-Que maravilha! Ela sempre foi muito inteligente, tem anos que não a vejo! Morei um tempo no exterior, e perdi todos os contatos. Eu agradeço muito a vocês pela informação.

-Não há de que. Espero que a encontre.

-Valeu mesmo.

Lohan sai apressado do Jornal.

-Como ela sabia que a Karina era jornalista? O que a Camila quer? Por que ela ia querer entregar o livro a Karina? O que ela ganhará com isso?

Ia se perguntando, enquanto dirigia. Até que teve uma idéia. Estacionou o carro e telefonou para o seu advogado, o Dr. Fontes.

-E então, meu rapaz, tudo certo?

-Mais ou menos, doutor. O livro foi furtado.

-Furtado? Como assim, quem fez isso?

-Eu dormi com uma mulher, uma das testemunhas a meu favor, a Camila. Hoje de manhã, quando acordei, ela já tinha desaparecido com o livro.

-Que estranho. Você sabe que motivo ela teria?

-Não tenho a mínima idéia. Pra me provocar, não sei!

-E agora, você tem idéia de onde podemos encontrar essa moça?

-Fui pesquisar em um jornal local, descobri que a Karina realmente existe, e atualmente trabalha na redação de nada mais, nada menos, do O Globo. Descobri também que a Camila está atrás dela. A essa altura, deve está chegando no Rio, indo direto pra redação.

-Isso não está me cheirando bem... Essa Camila pode estar querendo te prejudicar, Lohan. Ela pode tentar enganar a Karina de alguma forma, evitando que ela venha confirmar sua existência, e que de fato conheceu a Simone. Lembre-se que a Karina se tornou uma peça importante na comprovação da sua inocência!

-Eu não sei mais o que pensar. A Camila é muito misteriosa, eu não podia ter ficado tão vulnerável... Só tem um jeito de saber o que está acontecendo: você precisa alcançá-la.

-Quer que eu vá até a redação do jornal?

-É o único jeito. Ela saiu há uns quarenta minutos de Friburgo. Será impossível eu chegar a tempo. Você precisa ir até lá, e descobrir as intenções dela.

-Entendido. Estou saindo de uma audiência, chego lá em poucos minutos. Preciso que me passe a descrição dela, do carro dela, enfim...

-Ok.

E assim foi feito.

“... recolhidos


No impalpável destino


Que não 'spera nem lembra”.


(Ricardo Reis)

Dois policiais batem à casa de Mauri. Um deles toca a campainha. Dois minutos depois, a maçaneta gira. Era Mauri, com uma expressão pálida, e a frieza característica do olhar.

-Bom dia. O senhor Mauri Oliveira, por favor.

-O que querem comigo? – Indaga, tentando ocultar o nervosismo.

-Queremos algumas respostas. Pode ser?

-Como encontraram a minha casa?

-Somos policiais investigadores. Não vai querer saber os métodos que utilizamos agora, vai?

-Também gosto de conhecer certas respostas.

-Porém as nossas não te interessam. Podemos entrar?

-Com ordem de quem?

O outro policial apresenta um mandado judicial. Mauri escancara a porta, e entra, relutante. Os policiais o acompanham, observadores. Podia se ouvir uma televisão ligada, em algum cômodo daquela casa, bem como o chiado de um chuveiro ligado.

-Eu me chamo César, e o colega ao lado, Valter. Somos do Departamento de Homicídios do Rio de Janeiro. Deve saber o que estamos fazendo aqui, não?

Mauri balança a cabeça, positivamente.

-Somos responsáveis pela investigação do caso Simone Prado, que foi transferido para cá. Segundo informações que já recolhemos, sabemos que o senhor discutiu com a vítima dois dias antes de sua morte pelo telefone. O senhor confirma essa informação?

-É mentira.

-Mentira... E quanto ao celular dela, o qual já foi averiguado? E quanto à sua ligação, do sábado à tarde, que consta no celular da Simone? O que tem a dizer? Uma ligação longa, por sinal.

-Eu não disse que não liguei. Disse?

Os policiais se entreolharam, espantados com a segurança de Mauri.

-Eu não discuti com a Simone. Eu não discuto com pessoas que não vejo há tempos.

-Então diga, qual foi o teor dessa conversa?

-Falamos sobre nós, sobre as flores, as nuvens... Falamos sobre o nosso não viver.

-Que papo poético, não? E no meio dessas flores e nuvens, ela gritou pra você nunca mais procurá-la?

-Ela gritou. Ela me magoou... Mas eu soube suportar essa dor. Eu descobri o meu verdadeiro caminho graças a ela ter me libertado.

Nesse momento, sai do banheiro, enrolado em uma toalha, um rapaz alto e loiro.

-Mauri, meu amor, o que esses policiais fazem aqui?

Os policiais trocam olhares, compreendendo a situação.

-Fique de boa, Ernesto. Eles só vieram em busca de respostas. Tiveram respostas até demais...

-Sim, nós não queremos mais... Atrapalhar. Voltaremos em outro momento, não é, Valter?

-Claro, claro. Vambora daqui.

Ao fechar a porta, Mauri vira-se para Ernesto e diz:

-Você não devia ter saído do banheiro. Daqui a pouco todos saberão!

-E não é pra saber? Se esqueceu de que agora somos um casal de pombinhos, primo?

Mauri fez um semblante de asco, e disparou para o seu quarto.


"No fim tudo será silêncio, salvo


Onde o mar banhar nada."


(Ricardo Reis)

Dr. Fontes estacionou o carro próximo a redação do jornal, na rua Irineu Marinho. Permaneceu ali dentro, somente a observar os carros que por ali passavam. Não identificara o carro de Camila, e calculou que ela ainda não tivesse chegado.

Pensou em ir falar com Karina... Mas o que diria? Que coerência teria a sua palavra? E se Camila não aparecesse?

Vinte minutos depois, eis que Camila estaciona o seu carro a poucos metros do seu, à frente. Fontes força a vista, atentando para os mínimos detalhes. Ela sai do carro, com uma sacola branca não mão direita. Dentro dela, algo no formato de um livro...

Fontes a viu entrar no prédio, e arrancou o celular do bolso. Ligou para Lohan, que por sua vez, não recebeu a chamada. Estava a caminho do Rio, não havia sinal na estrada.

Ficou ali, a esperando retornar. Quinze minutos se passaram. Ela desceu ao lado de uma mulher de estatura baixa, devia beirar 1,50; cabelos curtos e castanhos, e um porte elegante. Parecia afligida por alguma razão. Camila abre a porta do carona para a entrada da moça. Na mão direita, a mesma sacola...

Fontes atentava a todos os gestos, sem piscar. A mulher entra no carro, com ares desconfiados. Camila entra, logo em seguida. Fontes liga o seu carro, de imediato. Estava pronto para seguir Camila, e descobrir o que de fato ela tramava. Além disso, suspeitava de que a mulher que a acompanhava fosse Karina.

Manteve uma distância cuidadosa do carro de Camila, que passava pela Marques de Pombal.

A perseguição já havia durado três minutos. O carro de Camila toma a Frei Caneca e segue adiante. No cruzamento com a Avenida Trinta e Um de Março... A batida.

“O frio leve treme”


(Ricardo Reis)

Dr. Fontes abandonou o carro próximo ao Batalhão de Polícia que havia próximo, e saiu em disparada até o local do acidente. Um ônibus havia acertado em cheio o carro de Camila, que por sua vez, avançara o sinal vermelho...

Alguns transeuntes formaram um círculo em torno do carro atingido; o estrago era assustador. Fontes infiltrou-se entre as pessoas e começou a gritar por ajuda. O motorista do ônibus também gritava desesperado, eximindo-se da culpa que deveras não teve, temendo perder sua carteira de habilitação!

-O livro... – Lembrou-se Fontes.

Correu até o carro, sob protestos de algumas pessoas.

-Não se aproxime, a ambulância já está a caminho!

-Eu sou médico, eu sou médico!!

Sob esse disfarce, Fontes aproximou-se das vítimas. O lado de Camila era o menos atingido. Ela estava desacordada, e um filete de sangue escorria de sua testa. Sua perna direita estava presa entre as ferragens. Já a outra moça estava em situação assaz delicada. Muito sangue esvaía-se de sua cabeça. Fontes tocou a face pálida de Camila; seus dedos sujaram de sangue e algum outro líquido, semelhante a lágrima. Notou que ela respirava. Não conseguiu alcançar a outra moça. Seu olhar desesperado encontrou a sacola com o livro dentro. Esticou o braço pela janela, cujo vidro havia se espatifado por inteiro, e alcançou o livro, que estava próximo a marcha.

A ambulância chegou. Fontes se certificou do título do livro. Feito isso, rapidamente enfiou-o dentro do paletó.

Os para-médicos se aproximaram com a maca.

-Eu sou médico, há sinais vitais na motorista. Quanto à carona, preferi não interferir...

Dito isso, Fontes retira-se à francesa. Ele se encosta à ambulância, e pergunta ao motorista a que hospital elas seriam levadas.

-Souza Aguiar, doutor.

-Obrigado.

Fontes telefona novamente para Lohan. Cai na caixa postal. Ele deixa uma mensagem:

-Lohan, tenho más notícias... A Camila, juntamente com a moça que eu acredito ser a Karina, sofreu um acidente de carro. Consegui apanhar o livro, e estou a caminho do Souza Aguiar a fim de tentar descobrir algo. Me encontre lá. Abraços, Fontes.

Os policiais identificam as vítimas através de seus documentos: Camila Furtado e Karina Shuenck, como já tinha sido previsto pelo advogado.

O procedimento para tirar a jornalista do automóvel foi custoso. Ainda vivas, as duas foram levadas para a central de emergência mais próxima. Fontes acompanha a ambulância. Chegando lá, Karina segue diretamente para a mesa cirúrgica. Camila é encaminhada para o UTI.

Fontes registra-se como amigo das vítimas, e tenta ficar a par de informações acerca das duas. Um policial o aborda.

-O senhor tem algum contato com algum familiar dessas vítimas?

-Não, eu... Eu não tenho. Por que não consultam os celulares? Se eles foram encontrados em perfeito estado...

-Eles estão sob custódia da perícia, no momento. Vamos providenciar contatos... Obrigado.

-Por nada.

Fontes conferia a hora em seu relógio de pulso a todo momento. Meia hora depois, Lohan chega ao Souza Aguiar. Fontes o aguardava próximo a entrada.

-Lohan!

Apertam as mãos, ofegantes.

-Nossa, eu voei nessas estradas. Se meu pai sabe disso... Doutor, afinal de contas, o que está acontecendo?

-Eu ainda não sei! Tenho apenas suspeitas. Observei a Camila entrar no jornal e sair ao lado de Karina. As duas entraram no carro da Camila. Eu as segui, até que... A colisão, na minha frente! O sinal foi avançado.

-Meu Deus... – Lohan esfrega as mãos no rosto, pasmo – E isso na sua mão, é o livro?

-Sim, eu o capturei.

-Como fez isso?

-Eu fui até o carro acidentado. Consegui pegá-lo, por sorte.

-E o estado delas?

-Da Karina, bastante precário... A Camila estava inconsciente, mas nem tanto machucada. Apenas cortes, parece que quebrou a perna também. Ainda não me deram informações concretas.

-Doutor, eu não consigo acreditar em tudo isso. Parece um pesadelo, um pesadelo que eu criei. Pense que se eu não tivesse começado com essa história insana de investigar uma mera dedicatória de um livro velho, nada disso teria acontecido!

-Não, não se culpe! Olhe pra mim, garoto: tudo que acontece, é porque é pra acontecer.

-Eu não acredito nesses determinismos baratos. Eu sou pé no chão, sempre fui. Como eu pude me envolver em tal trama... Que droga, que droga!!

Lohan estava transtornado.

-Eu vou destruir esse livro.

Lohan tenta arrancá-lo das mãos de Fontes, que o impede de tal ato.

-Pare, você está fora de si, acalme-se! Eu não vou deixar você fazer isso!

Lohan, já sem forças, verte uma lágrima cansada e frustrada. Cai sentado em um degrau, com a cabeça enfiada entre os joelhos.

O advogado senta-se ao lado de Lohan, demonstrando um companheirismo admirável.

-Lohan... Eu te conheço desde pequeno. Seu pai e eu somos amigos de infância, eu sempre tive contato com sua família. Eu sei que você é um homem de caráter, determinado. Seu pai sempre me falou de você com orgulho... Ta certo, ele queria que você fosse engenheiro, como ele, mas essa sua decisão contrária enobrece ainda mais a sua personalidade.

-Por que ta me dizendo essas coisas agora? Que sentido faz eu ser tudo o que sempre fui?

-O sentido é que um bom homem jamais será punido pelas suas boas ações. Por mais, por mais... Tolas que elas sejam, tolas sob o ponto de vista dos outros, as boas ações são recompensadas no final. Tudo o que você fez, até agora, não será em vão. Você vai alcançar o seu objetivo.

-Eu não quero mais, Fontes. Eu desisto. Se uma delas morrer, eu vou me sentir culpado pelo resto da vida.

-Sabe por que a culpa não foi sua? Porque o livro não estava nas suas mãos. Estava em mãos erradas. A Camila armou, e teve o castigo dela. A Karina foi afetada pela atitude da Camila, infelizmente. É a maior estupidez você se considerar culpado. E olha que eu entendo de culpados. – Graceja, alisando a cabeça do jovem.

Algum tempo depois, um enfermeiro vem comunicar a Fontes o falecimento de Karina Shuenck. Ela não resistiu aos ferimentos.

Logo aparece um dos colegas do jornal onde ela trabalhava, e fica arrasado com a notícia. A polícia entrara em contato com as pessoas cujas ligações no celular das vítimas eram recentes.

Lohan se isola, num canto do saguão do hospital. Fontes se aproxima dele, e diz:

-Já ligou para os seus pais?

-Já... Eles virão de ônibus... Eu to arrasado.

-Vamos pra casa. Não adianta ficar assim.

-Eu não vou. Ficarei até a Camila despertar. Ela não pode morrer. A Karina já se foi... Uma vida... Quanto ao livro, já era também. Sempre acontece alguma tragédia quando eu alcanço a pessoa que é ligada a esse maldito livro.

-Infelizmente, não há mais o que fazer. Você foi até onde pôde. Logo vai chegar alguém pra ficar esperando notícias da Camila, eles já fizeram contato.

-Não, eu vou ficar. O senhor pode ir, deve está cansado.

-Não por cansaço, mas terei que ir por compromissos, meu amigo. Tenho uma audiência em uma hora. Tem certeza que não que vir comigo?

-Obrigado, eu prefiro ficar. A Camila precisa viver... E quando ela estiver recuperada, eu estarei ao lado dela pra descobrir tudo.

-Fique com o livro. E cuide dele.

Fontes entrega o livro a Lohan, e se vai. Lohan fixa um olhar mórbido no livro, seguro pelas suas mãos trêmulas. Uma mulher de expressão preocupada cruza com o advogado pela porta... Ela se dirige à recepção, perguntando por Camila Furtado. Dentre tantas vozes, Lohan reconhece, de longe, a voz fina daquela mulher... Alça o olhar, e se depara com Andréa Amaral.

Ele se levanta, e caminha até ela. A recepcionista informa que Camila ainda estava sob tratamento. Andréa oscila de um lado para o outro, muito preocupada. Lohan se aproxima dela.

-Andréa Amaral.

Andréa leva um susto.

-Você aqui? O que faz aqui, cara?!

-O mesmo que você. Esperando a Camila ficar bem.

-Peraí, deixa eu ver se entendi... Então a polícia entrou em contato com você também?

-Não. Eu estava seguindo a Camila. Ela havia tomado uma coisa de mim.

-E você ia matá-la, não? Não pense você que eu não sei do que você está sendo acusado! – Encara, sem medo.

-Eu não matei ninguém, Andréa. Você disse uma vez que tinha a capacidade de captar a energia das pessoas, e afirmou que eu era uma boa pessoa. Não confiar em mim é não confiar em suas percepções.

-Lohan... Você estava lá, no momento do crime!

-Por que eu mataria a Simone?

-Os motivos eu desconheço. O livro teria sido apenas um pretexto.

-É fácil julgar pelo óbvio. A dedicatória do livro era o que realmente importava pra mim.

-Que importância enorme você empregou a esse livro! É antiético ficar lendo mensagens de outras pessoas, sabia? Ela não foi pra você, portanto, deixe que essa dedicatória morra com o tempo.

-Antiético? Você ta exagerando, Andréa. O que eu acho interessante é o modo como você se refere ao livro... Ele é tão insignificante que foi roubado de mim pelas mãos da sua amiga Camila. O que tem esse livro de tão importante pra Camila também? Você fez essa pergunta a ela?

-Eu não sabia, como eu ia saber...?

-Ela te ligou hoje. A polícia verificou as ligações recentes dela, e por isso você está aqui.

-Ela me ligou, e daí? Isso não diz nada!

-O que ela te disse?

-Isso não te interessa, seu xereta! Vai querer saber o que eu tomei no meu café da manhã também?

-Ela se encontrou com a Karina Shuenck... Por que? Qual o interesse dela? Ela causou a morte da Karina.

-A Karina morreu?! – Alarmou-se, levando a mão ao peito esquerdo.

-Morreu. Estava no mesmo carro que a Camila... O livro, as duas... Espera, de onde você conhece a Karina? – Percebeu Lohan, espertamente.

-De onde eu conheço...? Você bebeu? Eu não sei quem é Karina!

-Quando eu falei da morte da Karina, você exclamou o nome dela de um jeito tão familiar... O certo seria você ter perguntado, “quem é essa Karina?”. Mas não: o seu coração disparou, você ficou de um jeito aterrorizado.

Sem jeito, Andréa inclina a cabeça. Não sabia como explicar. Lohan chega mais perto da professora, que agora se via acuada.

-Vamos, conte o que sabe.

Andréa, indiferente à curiosidade extrema de Lohan, caminha até um espaço vago no banco e se senta, pensativa. Lohan não a deixa respirar, seguindo-a.

-Eu mereço saber a razão disso tudo. Por favor, me diz.

Andréa respira fundo e lamenta:

-A Camila não devia ter feito o que fez. Não mesmo – Disse, com pesar.


Capítulo 9

“UM AMOR DE IRMÃO”


Rio de Janeiro, inverno de 1990.

Uma jovem alta e esbelta, de cabelos cheios e negros, e um sorriso no rosto transbordando vida; havia também um rapaz, exprimindo gestos contentes, abraçado a ela, trocando a cada dois passos um beijo veloz como o tempo que não se fazia perceber naquela relação.

Voltavam de um jantar romântico. Eram dez e vinte da noite quando foram abordados por ele.

-João?! – Ela espantou-se, cessando os passos.

-Como vai, meu cunhado! Aproveitando a noite também?

João tinha um olhar carregado de ódio. Um ódio acumulado, feixe a feixe, durante meses... E meses... E uma vontade, um desejo desesperado, trancafiado em seu peito... Tudo se revolvia, e dos seus olhos diabólicos respingavam gotas liquefeitas do ardor que emanava do caldeirão do seu peito.

-João, vai pra casa, por favor.

-O que foi, meu amor? Ta com medo do seu mano?

O olhar atemorizado da jovem era justificável. João puxou da bainha da calça um revólver. Apontou-o para o rapaz.

-Não!!! Não, João!! – Implorou a jovem, avançando no irmão.

Ele a empurra no chão, com violência. O rapaz, defronte a mira daquela arma, faz sinal para que João se acalmasse, que não fizesse uma...

-Não!!!!!!!!!!!! – Ecoou um grito feminino.

Besteira.

Trinta anos de cadeia.

-Qual é crime que tu carrega nas costas, malandro?

João, encolhido num canto escuro da cela, nada responde ao velho que lhe dirige a pergunta.

-Só falta dizer que é inocente! – Diz um dos prisioneiros, com os dentes podres na boca.

Os demais caem na risada.

-Eu não sou inocente. Eu matei um homem com um tiro na cabeça.

Todos se calam, restando apenas resquícios de risos esparsos.

-Qual foi a sua sensação após ter matado esse homem? – Continuou o velho, interessado em descobrir mais a respeito da personalidade daquele novo companheiro de cela.

-De prazer. Um prazer indescritível. Mas depois... Depois veio a tristeza... A tristeza adquirida do olhar dela... – Falava, em tom sereno e profundo, olhando para um ponto fixo; um ponto vago, inexistente.

-Dela quem, a mãe do presunto? – Zombou um prisioneiro.

-Não. Da minha irmã. A minha irmã.

Aos poucos, foram se afastando de João. Era um prisioneiro muito recluso em seus pensamentos, pouco sociável. Alguns começaram a tomar implicância por ele. Dois meses se passaram, e somente uma pessoa ia visitá-lo com freqüência.

-João, temos visita. – Anunciou um policial troncudo, abrindo a cela de João – agora exclusiva – um benefício dado devido seu nível superior de escolaridade.

João sai, cabisbaixo. Chegando na sala reservada, ele a encontra. Algemado, ele fica à porta.

-Não vai vir me dar um beijo?

Ele permanece olhando para o chão, feito um bicho indomesticável.

-João...

A mulher caminha até ele, abraçando-o. Ela beija seu pescoço, seus cabelos, sua boca. Ele não altera em nada o seu estado de frieza.

-Te fizeram algum mal aqui? João, olha pra mim. Te fizeram algum mal?

João olha para a mulher, e diz:

-Sai daqui.

-Como assim, sair daqui? O que te deu, meu amor?

-Eu não sou o seu amor. Eu não te amo. Nunca te amei.

-As pessoas a quem você amou a vida toda, onde elas estão agora, hein? Onde, João?! Onde estão sua mãe, suas irmãs, seus primos? Cadê seus amigos?

-Eu nunca tive amigos.

-João, é assim que você me trata? Será que não consegue expressar um mínimo de gratidão?

Os olhos da mulher tremulam, inundados de lágrimas.

-Eu não quero te ver presa a mim. Quero que viva a sua vida, pois a minha... A minha já acabou.

João vira as costas e bate à porta. A mulher segura em seu ombro.

-Pelo amor de Deus, eu sempre vou te amar. Não me peça pra te esquecer!

-Se você me ama de verdade, Simone... Me esqueça. Pra sempre.

O policial abre a porta, e conduz o prisioneiro de volta à sua cela. Simone cai de joelhos, aos prantos. O policial a enxota dali.

No dia seguinte, enquanto tomava seu banho de sol, João observava o velho Lúcio, o que o interrogara logo no advento de sua prisão, lendo um livro. Em conversas fortuitas com Lucio, João admirava sua inteligência e sua cultura vasta.

O velho fecha o livro, e demonstra certa tristeza no olhar. Dirige-o às nuvens, talvez à procura de alguma explicação, de alguma razão... A razão para viver.

João se aproxima do velho, a fim de animá-lo.

-E então, meu companheiro, o que olha tanto nessas nuvens?

-As nuvens... Tão livres nesse céu azul! Assim eu era, em minha juventude. Tudo era tão denso... Eu era tão cheio de vida! Tal qual uma nuvem carregada de chuva...

-Eu nunca soube viver muito bem a minha infância. Sempre trancado no quarto, saía pouco. Enfurnado com os livros, os discos!

-Você aproveitou a sua mocidade do seu jeito. Aliás, você ainda é moço...

-De que serve minha mocidade agora?

-Sonhe, ao menos. Sonhar sempre é válido. Em poucos meses eu deixarei essa casa, e me mudarei para uma maior e sem grades.

-Tem alguém a sua espera, velho?

-Tenho... Como não? Eu tenho as pessoas a minha espera. As pessoas que vão pro trabalho, pra escola, ou a fazer compras, namorar...

-Não estou entendendo.

-Minha nova casa será a rua. A rua é a moradia mais livre e ao mesmo tempo menos privada que existe. Porém nela eu viverei o cotidiano em sua ferida, viva. Vou ver gente, vou respirar coisas diferentes, tal qual as nuvens, que se formam a partir de vapores de qualquer canto desse mundo... Viver enclausurado nunca mais.

E tornou a olhar para as nuvens. Quando ia acompanhá-lo, João é surpreendido.

-Tome esse livro pra você. A leitura ajuda a promover sonhos.

João recebe o livro, que já aparentava um certo desgaste.

-Obrigado. Onde conseguiu esse livro?

-Eu o trouxe comigo. Meu pai me deu, antes de morrer. Ele era um homem muito culto o meu pai.

-E vai me dar o livro? Ele não significa nada pra você?

-Significará mais para você agora. Acredite.

O velho se levantou, e voltou para a sua cela. João ficou ali, sozinho, a espiar o livro.

-Odes de Ricardo Reis...

Dois dias depois, João estava a ler tranqüilamente seu livro no pátio quando ouve uma balbúrdia, vindo do centro do pátio. Era o velho Lucio, envolvido em uma briga. Dois homens negros o cercavam, o empurravam de um lado pro outro.

Sem hesitar, João corre até a confusão. Alguns prisioneiros formavam uma roda em torno da discussão.

-Seu velho filho da puta, tu roubou o meu cigarro, eu quero o meu cigarro!

-Eu te vi fumando, seu canalha!

E acertaram um soco no rosto de Lucio.

João se mete na roda.

-O que ta acontecendo aqui?!

-Sai pra lá, ô boiola, o papo aqui é de macho, sacou? – Disse Marcão, o homem mais temido daquele presídio.

-Boiola é o seu pai, seu desgraçado. Deixa o velho em paz.

-Ih, o pintinho mal saiu do ovo e já quer dar logo uma de galo de briga, mane?! – Riu, a um escárnio – Vai tomar no cu, ô mané. O nosso esquema a gente resolve com o velho – Disse o braço direito de Marcão.

-Sai, João. Não se meta... – Pediu Lucio.

-Não, eu não vou deixar vocês baterem em um velho. Onde já se viu isso? Bater em um velho de setenta anos é mole. Quero ver encarar a homens da idade de vocês! Seus covardes!

Um dos negros agarra João por trás, aplicando-lhe uma gravata.

-Olha aqui, mané, tu se meteu com a turma errada... Esse velho é sacana, tu não conhece ele... E vem querendo defender ele... Melhor tu dá o fora, e agora!

Ele solta João.

-Eu vou, mas ele vem comigo.

-Vai contigo, né?

Marcão morde o lábio, na sanha de iniciar uma luta física. E ela começa; João leva uma rasteira, e cai. Lucio tenta defendê-lo, e leva um soco no rosto que o derruba. Os dois negros iniciam uma série de chutes nos dois, que, caídos, não conseguem se defender.

-Ele vai contigo é pra vala!

Quando já estavam ensangüentados, os policiais chegam e apartam a briga. João e Lucio são auxiliados a se levantarem. Lucio estava desacordado. João consegue se manter de pé, apesar das fortes dores nas costelas.

-Você vai morrer, seu filho da puta! Vai morrer! – Ameaçou Marcão.

Marcado para morrer. O destino de João estava selado. A qualquer momento ele poderia ser atacado, ser envenenado, ou sofrer qualquer tipo de violência brutal que o conduzisse a morte.

Lucio recuperava-se na enfermaria. João tentava se ater à leitura, mas aquela ameaça latejava em sua cabeça...

Naquela noite fria, João despertou de um pesadelo terrível. Trêmulo de frio e medo, ele se levanta da cama e apanha o livro e uma caneta. Encolhido na cama, ele abre o livro, e em sua página inicial, enxerga um bom espaço pra escrever quaisquer palavras que servissem de despedida.

Ciente de que morreria em pouco tempo, resolve despedir-se da mulher que amou de verdade por toda a sua vida.

“Querida Bia,

Se um dia este livro repousar em tuas mãos,

Saiba que meu amor por ti será eterno,

Se me for permitida a eternidade,

Pois a morte que de mim se aproxima

Através de horas, horas frias, sem rimas,

Não será capaz de abater o que sempre senti por você.

Peço o teu perdão. Já que nunca pôde me dar seu amor,

Peço apenas o seu perdão.

Apenas assim terei paz. Paz para sempre.

Te amo,

João”.

Fechou o livro, e passou aquela noite em claro.

O dia seguinte era mais um dia de agonia. Com o corpo machucado, desfilava pelo refeitório, tentando transparecer segurança. Os olhares diabólicos estavam voltados para si... Ele sabia disso.

Um deles passou pela sua mesa e revirou a sua refeição.

João foi visitar Lucio na enfermaria.

-Você desistiu de viver por minha causa, João. Você ainda tem tanto tempo!... Não podia, não podia... – Dizia o velho, melancolicamente.

-Tudo bem, velho. Eu fiz o que devia fazer. Quero te pedir um favor... Caso eu de fato morra, quero que entregue esse livro nas mãos de qualquer pessoa que seja ligada a mim lá fora. Peça ao policial, dê um jeito. Esse livro precisa ser entregue nas mãos dela... Aí sim, tudo o que eu vivi nesses últimos meses, até a minha a morte, não terá sido em vão. Aí sim, esse livro vai significar muito para mim, velho.

Ele coloca o livro nas mãos rugosas do velho Lucio, e sai da enfermaria.

Três dias depois, João é esfaqueado quinze vezes no refeitório do presídio.

Lucio recebe alta, e também sua liberdade daquele presídio.

Antes, cumpre sua missão, e repassa o livro à Karina Shuenck, a irmã mais nova de João, que vai apanhar seus pertences ao saber de sua morte.

Karina mantém segredo a respeito da dedicatória. Após o enterro de João, ela convida a amiga Simone para ir até a sua casa. Em uma conversa, a sós, ela confidencia a Simone o conteúdo delicado que havia naquele livro.

-O que eu faço, Si? Mamãe jamais pode saber disso, Deus me livre. Ela ficaria apaixonada pelo resto da vida.

-Sim, claro. Não mostre a ela, de forma alguma... Mas e em relação a Bia? O que ta pensando em fazer?

-Não sei, não sei. Eu to muito confusa, Si. Você é nossa amiga desde a infância, conhece a gente. Dê uma opinião sobre o que eu devo fazer!

Simone se levantou da cama e percorreu o quarto, pensativa.

-Não mostre a sua irmã também. Pense na dor que ela vai sentir ao ler isso. Ela vai lembrar de tudo outra vez, vai ser tomada por um remorso sem tamanho! Ele morreu sem o perdão dela. Imagine o que ela sentirá quando ler isso... Eu nem quero pensar.

-Você acha mesmo? Mas ele diz que só ficará em paz com o perdão dela. Seria errado a gente fazer isso com ele!

-Ele está morto! O João ta morto, Karina! Em quem vai doer mais: na Bia ou nele?

Karina inclina a cabeça, assentindo com as palavras de Simone.

-É, você ta certa... Ela não ia suportar se lesse isso. Viajou pra Europa pra esquecer isso de vez, tentar recomeçar a vida dela... Não seria certo revelar essa dedicatória a Bia. Vamos manter esse segredo, amiga.

-Claro. Pode contar comigo.

-Ah... Você se importa de ficar com o livro? Eu tenho medo de guardá-lo aqui em casa, mamãe pode encontrá-lo, é arriscado.

-Por que não queima esse livro? Pra que guardar isso?

-Ficou doida, Simone? Não! Essa é a última lembrança do meu irmão! Não, isso não. Guarde-o com você. Eu sei que você sempre foi apaixonada por ele... De certa forma, é um pedaço dele que ficará com você.

-Um pedaço dele dizendo que ama a Bia.

-Não importa. Mas aí está o cheiro dele, a grafia dele. Pra uma mulher apaixonada, isso é tudo.

Simone se mostra um pouco contrariada, entretanto, aceita em esconder o livro consigo. Tinha bons planos para usufruir dessa chance...

Dissimulada, Simone conseguiu convencer a Karina a não mostrar a dedicatória à sua irmã, Bia, mulher a quem sempre odiou. Algum tempo depois, resolveu dar uma utilidade àquele livro. Inescrupulosamente, ela chantageia Karina, exigindo-lhe uma quantia em dinheiro.

-Simone, você não pode ta fazendo isso comigo... Sempre confiamos em você, você, você... É quase da nossa família!

-Mas não sou. Antes fosse, Karina. Antes eu fosse tua irmã. Talvez assim o João tivesse me dado o amor dele.

-Você sente raiva, é isso. Tem raiva por ele nunca ter te amado.

-Pode ser, Karina. Eu não podia deixar de dar o troco.

-Por favor, não faça isso... Não conte a ninguém sobre a dedicatória!

-Se até amanhã você não me conseguir o dinheiro que pedi, eu não vou perdoar. Já pensou a sua mãe, coitada... Cardíaca, talvez não resistisse. E o nome da sua família, pra onde ia? Já pensou, estampado em jornais, “Incesto na exemplar família Shuenck”!

-Falsa! Eu vou te dar o dinheiro, Simone, mas será a primeira e a última vez. Nunca mais ponha os pés nesta casa, nem telefone, nem envie carta, nada, nada! Suma da nossa vida. E me devolva o livro.

-O livro eu vou queimar.

-Não, me devolva, por favor. Eu te pago mais.

-Não, Karina. Você nunca mais verá aquele livro.

Vinte anos depois...

Camila Furtado chega à redação do jornal O Globo. Ela pergunta por Karina Shuenck. Um dos jornalistas a acompanha até a sala da redatora.

-Bom dia, você me daria cinco minutos?

-Eu te conheço? – Indaga Karina, desligando o telefone.

-Não... Desculpe, eu sou Camila Furtado. Eu tenho uma coisa para você.

-Entre, por favor.

Camila fecha a porta e senta-se à mesa da redatora, que criara em sua expressão alguns traços de curiosidade.

-Não demore, eu tenho muito texto pra ler ainda hoje...

-Claro. Serei breve. – Dizia Camila, com seu peculiar sorriso cínico.

-Você vem de onde?

-De Nova Friburgo. Você morou lá, não foi?

-Exato. O que te traz até a minha sala?

-Fiquei sabendo que trabalhava aqui... Enfim, eu tenho algo que te pertence.

Karina arregala os olhos, altiva.

-Hum... O que seria?

Camila retira o livro da sacola plástica, e o apresenta a Karina. A redatora é tomada por um baque, chegando a cair encostada no respaldo da cadeira.

-Reconhece isso?

-Meu Deus... Não é o mesmo, não...

Camila abre o livro, antes que Karina pudesse suspeitar de um engodo. Lá estava a dedicatória.

-Deixa...

Karina estende a mão, na esperança de receber o livro. Camila recua, fechando-o.

-Na, na, ni, na, não. Eu costumo negociar objetos de valor.

Karina fica perplexa. Estava acontecendo outra vez... A mesma situação envolvendo aquela dedicatória.

-Eu já passei por isso. Não vou ceder outra vez. Foi ela quem te deu? Ela quem mandou você aqui?

-A Simone foi assassinada, há dois dias. Você é do tipo que só lê artigo de Economia, bem a cara desse jornal, por sinal.

-Eu não sabia que ela tinha sido morta... – Murmura, intrigada – E quanto ao assassino?

-Ainda não se sabe. Mistérios! – Sorri, de forma sinistra - Eu soube de toda a história, vim por conta própria. To precisando de grana, to na pior.

-E veio explorar a redatora otária? Pois você perdeu sua viagem, senhorita. Eu não quero saber desse livro. Passaram-se anos, o que me interessa isso?

-Talvez vá interessar à sua querida irmã, ou quem sabe, a sua mãe...

-Você não as conhece. Não sabe como encontrá-las.

-Não duvide de mim. Da mesma forma que eu te encontrei, eu posso encontrá-las. Além do mais, hoje em dia querida, existem vários veículos de informação que me permitem espalhar uma história épica, ganhar dinheiro com isso, e ainda queimar o nome de certas famílias. Eu sou escritora, tenho dois meses de prazo pra escrever um novo romance, e tenho certeza de que a editora não recusaria uma história verídica como essa. Você teria que mover seus advogados globais, correr atrás do prejuízo...

-Nunca li seu nome em nenhum artigo crítico, nem em cabide de banca de jornal. Escritora de merda deve ser você.

-Pois então, acertou! É justamente por esse motivo que preciso me utilizar de meios... Digamos, menos cristãos, para alcançar minha fama, meu pão de cada dia, entre outras coisitas mais.

-Faça o que bem entender. Não terá como provar nada. Quem garante que essa é a letra do meu irmão? Quem garante que esse João é da nossa família? Não há sobrenome, data, nada que especifique isso.

-Você é bem esperta... Mas e quanto ao livro, Karina? – Continuou argumentando - E quanto ao valor afetuoso que esse livro tem pra você, pra história da sua família? Imagine que essas palavras foram as últimas do seu irmão antes de morrer! Talvez seja até mesmo o momento de mostrar essa dedicatória à sua irmã, ela já deve ter a vida dela estabelecida, isso não vai mexer tanto com ela como seria no passado. Pense nisso. Talvez o seu irmão esteja até hoje esperando pelo perdão dela para ter paz.

Karina se mostra perturbada. Remexe em alguns papéis sobre a mesa... Um filme passa pela sua cabeça...

-A minha mãe, nesses vinte anos... Ela reclama freqüentemente de pesadelos. Pesadelos com o meu irmão gritando, gritando por... Ajuda.

Lágrimas escorrem dos olhos meigos de Karina. Ela rapidamente as seca, tentando não se fragilizar diante daquela mulher estranha.

Camila não se sensibiliza, mantendo a sua tortura psicológica.

-Sinais. Sinais de que este livro deve ser entregue a Bia.

-Quanto quer?

Camila avalia mentalmente alguns números e cifrões.

-Quinhentos reais. Não quero me aproveitar tanto dessa situação, quero apenas... Apenas o suficiente para eu acertar minha vida.

-Dessa forma, você nunca vai acertar nada em sua vida.

-Cada um vive de acordo com suas condições. Se eu não fosse uma professora e uma escritora de merda, como você mesma disse, e tivesse o seu emprego, talvez eu tivesse bons pensamentos nessa minha cabecinha.

-O meio social não influi, nada disso justifica. Você é o que você é, e ponto.

-Odeio teorias inatistas. E então, deal?

-Estou sem dinheiro aqui... Está com pressa?

-É, eu to. To de carro. Vamos até o banco mais próximo, você saca o dinheiro, eu te vendo o livro, e tudo está acabado.

Karina hesita, temendo sofrer algum atentado... Entretanto, no auge de sua indignação, decide reverter o jogo, e arriscar. Não podia permitir uma segunda extorsão. Estar lado a lado com Camila era uma possibilidade de capturar o livro sem precisar comprá-lo.

-Eu vou com você.

As duas saíram da sala. Karina aparentava segurança.

-Vou dar uma saída com uma amiga, já volto, Brandão! Segura as pontas pra mim!

-Ok, xá comigo!

Desceram de elevador. Karina não desgrudava os olhos da sacola plástica nas mãos de Camila.

-Seus irmãos chegaram a ter um caso? Rolou algum esquema entre eles?

-Cale a boca, sua mercenária. Quem é você para especular a respeito de casos particulares da minha família?

-Eu sou Camila Furtado, esqueceu?

O elevador alcança o térreo. As duas caminham até o carro de Camila.

“Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo”, pensava Karina, enquanto entrava no carro.

Camila assume o volante e dá a partida.

-Estamos indo a que banco?

-Qualquer um.

-Hum, mulher importante, você.

-Você não tem cara de quem passa necessidades financeiras... Você parece ser uma mulher solitária.

O semblante irônico de Camila se transforma em um tempestuoso.

-Solitária, eu?

-Sim. O seu olhar te denuncia, Camila – Continuava Karina, com os olhos fixos na motorista – Uma escritora mal sucedida, uma mulher sozinha. Nada deu certo em sua vida particular e profissional. E pra se sentir reconhecida, de alguma forma, você recorre a atos extremos. Busca o que está além de você.

-Você não sabe o que ta dizendo, baixinha... Quer fazer terror psicológico, eu sei qual é a sua. Buscar o que está além, esse devia ser o slogan de todos. Viver na mediocridade não dá.

-Mas você busca pelo caminho errado! Será que não vê? Suas atitudes prejudicam aos outros a sua volta, você não se importa com as pessoas, com o sentimento delas!

Camila mordiscava os lábios, contendo sua angústia. Karina passava a dominar a situação.

-Sentimento... Eu sinto tesão, esse sentimento me apraz.

Karina sorri.

-Você é uma pobre coitada. Vive de instintos, como um animal. Vive à caça de aventuras.

-Sou um animal mesmo, viver assim é meu método de sobrevivência. E você, vive como? Uma vida sistemática, regulamentada pelos bons costumes, pelas conveniências! Você é daquelas que vive negando o cuzinho pro teu marido, com medo de sentir a dor. A dor, Karina! A dor! Se não sabe o que é sentir dor... Aprenda. Basta ficar de quatro.

Enquanto Camila vociferava ao volante, Karina enfiava lentamente sua mão no interior de sua bolsa a tiracolo. Olhou de soslaio para o banco de trás: lá estava o livro.

-Eu tenho pena de você.

Após dizer essas palavras, Karina arranca da bolsa um frasco de spray e espirra nos olhos de Camila.

-Ai!!!! Sua vagabunda!!

-Agora você sabe o que é ardência também, piranha.

Karina se vira e estica o braço até o banco de trás para apanhar o livro. Camila puxa sua blusa com uma das mãos, enquanto a outra guiava o volante. Karina estava de posse do livro quando Camila o agarra, abandonando o volante. As duas iniciam uma luta pelo livro, e é Karina quem dá por si, ao verificar o semáforo.

-O sinal!! Freia!!!

O carro seguiu em linha reta, avançou a faixa de pedestres. Camila retoma o volante, sem conseguir enxergar nada a sua frente. Quando ela pisa no freio, já era tarde. Estava no meio do cruzamento...

O olhar de Karina pelo vidro do carro foi de adeus.

O carro é atingido em cheio por um ônibus, e empurrado alguns metros.

8 comentários:

Simone Prado disse...

Lohan,
Li esse “livro” (rs) altas horas da noite ouvindo a La Valse d’Amelie. Que coisa boa!
Estou muito curiosa para saber quem de fato matou a Simone (rs). Aliás, essa personagem heim.... Imaginei ela toda romântica, aflita de amor pelo Maury e acabou se revelando uma personagem sacaninha que só!(rs) Achei um barato o “companheiro” (será? tudo é possível nessa trama toda) do Maury. Ri muuuuuuuuuuuito!!!!! Mas que idéia? Só vc mesmo! Mas arrisco um palpite sobre quem matou a Simone, pode ser? Essa pessoa aparece um pouquinho em cada capítulo, muito misteriosa, parece que não sabe de nada... Mas está lá. Bem, para mim foi a Andrea quem a matou, será? Ou viajei demais ?(rs)
Um beijão!

Ah, deixo também para a personagem Simone (rs):

“Na clausura maligna

Da índole indecisa.

Presa da pálida fatalidade

De não mudar-me, me infiel renovo”

(Ricardo Reis)


Beijão!! Que venha logo o próximo post!

Passei a gostar mais dele, Ricardo Reis, depois desses textos!

Simone Prado disse...

Achei lindo esse trecho do Ricardo Reis!! É a cara dela !
Parabéns também ,Lohan, pelo cuidado em procurar e destacar trechos interessantes e lindos de Pessoa combinando com cada cena no texto. Ficou enriquecedor a leitura.
Abração!
Si.

Lohan Lage Pignone disse...

Nossa, esse trecho foi... Fundamental. Encaixou perfeitamente à personalidade que imprimi à personagem, incrível!

Si, muito obrigado por continuar acompanhando ''mais um livro'' meu. É de extrema importância a opinião de vocês.
Quanto ao seu palpite... Hum... Adianto ao público leitor que o assassino foi mandado por alguém... E esse alguém... Deixo aqui os suspeitos:
-Camila, Andréa, Edson, Mauri, Armando e Thaty.
Já em relação aos sacanas da história...
Tem que fazer uma enquete: que personagem é a mais sacana dessa história, porque haja gente da pá virada, hein! rsrs

a)Camila Furtado
(Já deu volta no Mauri, no Edson, no Lohan, na Andréa, na Karina... Suas armadilhas são de matar qualquer um! Inclusive, a Karina passou dessa pra melhor por causa da Camila...)

b) Simone Prado
(Essa começou a aparecer em tom de mistéiro, e aos poucos foi se revelando uma baita pioneira de escândalos, rs. Até morta ela coloca inocentes na furada! Já transou com um aluno, traiu o marido, chantageou a melhor amiga...)

c) Bianca
(Outra que deu o que falar nos primeiros capítulos! Eita menina danada! Doma os homens com seu instinto libertino, fez sexo na cama do próprio irmão, foi expulsa, não dá ouvidos à tia, costuma ser um tanto desbocada... O que mais ela pode aprontar?)

d) Edson Basílio
(O cara que pintou como o vilão da história, e teve o castigo que merecia. Assedia as professoras, apesar de ter rabo preso com algumas; mandou roubar o livro de Lohan, e ainda chantageou Camila para que se deitasse com ele... Essa flor também está longe de ter um perfume, meu amigo)

Será que vai pintar mais algum sacana nessa história? Quem é o pior, ou a pior?

Até o próximo sábado com o grand finale!

Ana Beatriz Manier disse...

Acabei de ver sua postagem. Vou ler com atenção. Comento hoje na sala e depois aqui!
bjs
Ana

Ana Beatriz Manier disse...

Acabei de ver sua postagem. Vou ler com atenção. Comento hoje na sala e depois aqui!
bjs
Ana

k@ disse...

Meu Deeus, eu morri e nem sabia!!!!!! rsrsrsrs, nem fui convidada pro meu velorio!!!!

Parabéns, Lohan!

Lohan Lage Pignone disse...

Karina, que barato, até vc está acompanhando a história!!! Eu também morria e não sabia! rsrs

Amanhã, o último capitulo!

Aguardem!!

Ana Beatriz Manier disse...

Caramba, Lohan, vc sabe fazer suspense!Essa Camila está diabólica, não deve ser ela não...