sábado, 22 de maio de 2010

O homem, a mulher, e o terapeuta

O casal entra na sala do terapeuta. O terapeuta, de óculos e cabelos lambidos por alguma química viscosa, exalando um perfume de aroma cítrico, sentado em sua poltrona confortável:
-Bom dia, casal. Entrem, sintam-se à vontade, mas não a ponto de recriminarem meu Adão e Eva de Botero.
-Meu o que? – Riu-se a mulher de cabelos loiros, pele branca feito giz, nariz levemente arrebitado e irritado por alguma espécie de alergia, a ácaros, talvez. Tinha a expressão descarregada, como se há pouco tivesse derramado um rio São Francisco de lágrimas. Sentou-se numa da três poltronas disponíveis defronte o terapeuta.
-Está vendo aquelas duas bundas maravilhosas penduradas na parede atrás de mim?
-Sim.
O homem, esbanjando uma careca brilhosa, pele negra feito um caroço de feijão, boa postura, aparência atlética; talvez dominasse alguma modalidade de luta oriental, ou fosse adepto à musculação. Tinha as pestanas pesadas, o globo ocular pouco móvel, porém atento, o que fazia dele um homem perspicaz. A expressão contrastava um pouco com a da mulher; não era nesse lugar que queria estar. Já acomodado à poltrona ao lado da esposa, esboçou um riso ao alçar seu olhar para quadro.
-Acharam graça das bundas?
-Achei graça na situação... Adão e Eva, gordos! Não achou, amor? – Entusiasmou-se a mulher.
-É interessante.
O terapeuta, que por falta de educação ainda não vos apresentei, Pierre (pigarreando bem nos “rr”), se levanta calmamente de seu assento, e dirige-se a passos macios até o quadro, colocando-se diante daquelas figuras gigantescas que decoravam seu aposento. De costas para o casal, ele proclama, sempre arranhando um leve sotaque de sua querida Sarkoland:
-Há muito mais detalhes a se observar em uma pintura como esta do que a gordura bem delineada de dois seres bíblicos. Botero foi genial... Ele deforma a figura, ou seja, ele modifica a forma padronizada, mas... E o que há por trás dos simples traços corpóreos?
-Você quer dizer a alma, seria isso? – Interessou-se a mulher, mesmo que desentendida de tudo.
-Rien de rien! Não! – Respondeu, de imediato - Certa vez perguntaram a Botero se os personagens por ele pintados tinham almas leves, e ele respondeu: “elas nunca quiseram ter almas”.
A mulher fez que refletiu. O homem nem isso. Estava enfastiado daquele colóquio. Pierre se virou para eles:
-Podemos afirmar que existe alma? “Não contamos nem com um só apoio onde firmar o pé para chegar ao vago conhecimento do que nos faz viver e do que nos faz pensar”. Grande Voltaire. – Concluiu, elevando o olhar para o teto, como quem venera a um deus.
-Desculpe, mas... Estamos mesmo em uma terapia para casais? – Inquieta-se o homem.
-Bien sûr! Estamos!
Pierre se aproxima dos dois, olha-os com minúcia, e sorri, satisfeito:
-Prazer, eu me chamo Pierre Valentine, e eu adoro atender casal café com leite!
-Você quer dizer... Um jovem casal, é isso?
-Não, preto com branco mesmo. A propósito, aceitam uma bebida?
O casal se entreolha, desconcertado.
-Está bem, esqueçam a bebida, nenhum doping será necessário, pois vocês me dirão a verdade, nada além da verdade.
Pierre volta a se sentar.
-Levantem suas mãozinhas direitas.
-Como?
-Mão direita, por favor.
O homem, ainda que contrariado, acompanha a mulher no ato solicitado.
-Prontinho. Agora, eu quero que você, querida, qual é o seu nome?
-Flávia.
-Flavinha, perdoe a intimidade, quero que repita: Juro pelo meu fitness dizer a sacra verdade, sob qualquer circunstância.
Flávia repetiu.
-Caso contrário, minha bunda acumulará tantas celulites boterianas que será comparada ao asfalto da Avenida Brasil.
Flávia sorriu, e cumpriu o combinado.
-Me desculpe, mas o que significa isso? Estamos num tribunal? – Reclama o homem.
-Qual é a sua graça?
-Não estou achando graça de nada. – Responde, impaciente.
-Eu perguntei como se chama, chéri – Disse o francês, a um leve tom de escárnio.
-Eu? – Apontando o dedo para si – Bráulio.
-Hum, que nome sugestivo. Bráulio, Bráulio, Bráulio, Bráulio... Agora não consigo tirar o Bráulio da boca. Oui, preciso me abanar.
Pierre apanha um leque espanhol sobre a escrivaninha, ao lado de sua poltrona, e executa rápidos movimentos. Em seguida, ele o fecha e repõe sobre o móvel.
-Pardon, casal. Bráulio, porque se incomoda em jurar?
-Simplesmente porque não acho que seja necessário.
-Vocês dois me procuraram a fim de que eu os ajudasse, correto?
-Claro – Adianta-se a mulher.
-Pois então, meus amores, eu sei o que é e o que não é necessário. Bráulio, jure pelo o que você mais ama que não dirá nenhuma mentira na minha presença.
Bráulio relutou. Flávia cutucou seu braço direito, e ele disse:
-Está bem... Mas antes, posso fazer uma pergunta?
-Diga, chéri.
-Por que três poltronas? Você não atende a casais?
-A poligamia é mais comum do que pensas, meu “carro”. Acredite. Além disso, quando penso ser necessário para a vitalidade do casal, eu proponho aqui mesmo um ménage a trois terapêutico, ou seja, um sexo a três verbalizado sob a vigilância de um terapeuta, ou seja de novo, eu.
-Você não poderia ser a terceira pessoa?
-Não, eu sou voyeur do sexo verbalizado.
Pausa para assimilação.
-Hora do juramento, Bráulio.
-Eu juro pelo Flamengo, pronto. Juro não mentir. Ta bom assim?
-O Flamengo é o que você mais ama, começamos bien. – Disse, irônico.
-Ah, você torce pro Vasco! – Deduziu Bráulio, a uma risada.
-A única coisa que eu torço... Oh, não queira imaginar, chéri. Odeio futebol. Se o Flamengo é a coisa que mais ama, sente pela tua família um amor secundário? Terciário?
Flávia olha para o marido, interessada na explicação dele.
-Não, você não entendeu... Eu apenas não quis colocá-los em risco. Jurar é coisa séria.
-Isso significa que já jurou cogitando mentir? – Imprensou Pierre.
-Se eu mentisse, o que aconteceria?
-Aqui, agora? Nada. Eu poderia levantar, no mínimo, suspeitas em relação ao seu comportamento.
-Como por exemplo...?
-Bem, se você mente aqui, na minha presença e na presença da tua mulher, o que te impediria de mentir para ela em outra situação? Você trabalha com o que?
-Eu sou professor de Português.
-Oui, professor de Português. No fim de mais uma exaustiva aula de orações coordenadas, subordinadas, de objetos diretos, indiretos, curvos...
-Curvos não existem.
-Existem... As cinturas à vista, das meninas de quinze anos, com suas calças saint-tropez, aqueles umbiguinhos salientes à mostra... Aquelas cinturas são curvilíneas como as estradas do demônio. Objetos curvos! Existem ou não existem?
-Eu não costumo notar esses objetos.
-Não vale mentir, Bráulio! – Repreende a mulher.
-Eu não estou mentindo, Flávia. Agora vem você também?
-Não existe homem que não repare em uma garota sensual!
-Eu sou um professor, o meu dever é ensinar, e não assediar minhas alunas. Isso vai contra a minha ética. Vocês estão me ofendendo!
-Está bem, senhor Inocência! Apenas farei uma suposição, não vou afirmar nada. Não há porquê se vitimar tanto. Como eu ia dizendo, após sua aula, uma dessas garotas lascivas, dessas com rostinhos de quem engole de um tudo que jogarem em suas bocas, dessas com os hormônios borbulhando a flor da pele rósea e macia como veludo, se aproxima maliciosamente de sua mesa, se debruça a graus calculados sobre ela, permitindo que seus seios juvenis, vulneráveis, clamando por mãos habilidosas no palpar, por línguas hábeis no chupar seus mamilos excitados, fiquem ligeiramente à mostra... Oh, que sonho de mulher... Ela está ali, diante do professor, que por sua vez se vê invadido por toda ética que toma sua propriedade de ser, de existir como homem instinto, homem carnal. Até que, já não suportando mais resistir àquela tentação, o professor se entrega, agarrando a aluna com toda a voracidade contida pela ética, pelos valores morais... Ali não é um local apropriado. Seguem então para um motel, discreto. Então a sua mulher te liga, perguntando onde você está. E então, o que você responderia a ela?
-Uma situação dessas nunca aconteceu e nunca acontecerá. – Afirma o homem, convicto.
-Hipoteticamente! Não seja tolo, Bráulio. Faz parte da terapia. Ou estão desistindo antes de começar?
-O que me diria, Bráulio? – Insiste a mulher.
-Eu mentiria, claro! Que homem diria a verdade numa situação dessa!?
-Ah, por isso que eu sempre digo: homem é tudo igual! E você acaba de comprovar isso! – Exalta-se Flávia.
-Está generalizando para atenuar a sua culpa, a sua responsabilidade! – Acusa Pierre, apontando o dedo para o homem – Toda generalização é falsa.
-Falso é o homem que responde que diria a verdade para a mulher num caso como esse. – Sorri Bráulio, feliz com o argumento.
-Então como vou acreditar em você, Bráulio? Serei obrigada a comprar um rastreador agora?
-Ah, para com isso, Flávia... Eu não sou o seu carro, ok? Já discutimos sobre isso em casa.
-Você confessou que mentiria!
-Pelo menos fui sincero, não, doutor Pierre?
-Quoi! Acalmemos esses ânimos. A questão é: a confiança de vocês está abalada, por algum motivo. Se já discutiram sobre isso em casa, é sinal de que a insegurança está batendo na porta do casal.
-Na porta dela, né, doutor.
-A porta da minha casa é a porta da sua casa, Bráulio.
-Mas eu não me sinto inseguro em relação a você.
-Como não? No dia que eu sai com meu amigo gay você discutiu comigo! Se isso não for ciúme, me diga o que é.
-Eu, com ciúme de um viado?
-Chega! Basta! – Vociferou Pierre, erguendo-se de ímpeto da poltrona, ajeitando o topete endurecido que ameaçara, naquele instante, ter um fio desfiado.
-Agora entende o porque estamos aqui, doutor? Brigamos toda hora. Estamos sempre muito estressados. – Revela Flávia, ainda agitada.
-É, deu para notar... Mas vocês são tão novinhos ! Quanto tempo estão juntos?
-Juntos nós estamos há uns três anos... Mas, casados, há um ano.
-Um ano de casados?! Se com um ano de matrimônio vocês procuram um terapeuta para casais, com três vocês estarão à procura de advogados para acertarem o os detalhes do divórcio. Saint Marie!
Bráulio balança a cabeça, indignado, e reclama:
-Como pode dizer isso, doutor? Ficou louco? Está azarando a gente?
-O Bráulio está certo! Se viemos até aqui, é justamente porque não queremos que esse futuro se realize. – Completou a mulher.
-Nunca atendi um casal tão recente, tão cheirando a leite... No caso de vocês, café com leite... Quoi, vamos direto ao ponto: vocês trepam todos os dias, imagino.
-Como?!
-Como? Cabe a vocês me dizerem como, ora – Sorriu, revirando os olhos - Eu conheço posições interessantes, e inéditas. É, eu gosto de inventar coisas, desde criança. Minha mente é mais fértil que o útero da Madalena Carnaúba, que gerou 32 pirralhos.
Flávia e Bráulio se relanceiam, risonhos e aturdidos com a linha de raciocínio desvairada de Pierre.
-Oui, sei que não acreditam, mas é verdade. Logicamente que esse casal não tinha televisão em casa. Nem livros, eu imagino. Nem fogão, eles não deviam comer, eles deviam se comer, quoi... A parteira devia fazer plantão todos os dias na casa dessa mulher... Quoi, vamos abstrair essa informação desagradável, não queiram ter 32 filhos, é o conselho que dou em letras maiúsculas. Tenham dois filhos, não dá um time de futebol, mas já forma uma dupla para o tênis de mesa.
Fez-se um silêncio; aquele silêncio fátuo, que roga para ser quebrado, como uma caneca avoenga, enclausurada em uma cristaleira, sem mais préstimo, a não ser o decorativo; silêncio cortado mesmo por uma frase esdrúxula, ou uma anedota que valha um minuto do dia.
O olhar do casal repousava sua atenção sobre o terapeuta perdido em suas idéias profundas e rasas ao mesmo tempo.
-Bem, se caso nasçam defeituosos, pás mal! Existem as Para-Olimpíadas, nada está perdido.
O casal, espantando, se entreolhava.
-Quanto às posições, se vocês quiserem, posso contar uma das minhas invenções sexuais... A minha agenda da Hello Kitty é o Kama Sutra do século 21, chéri.
-Não, não – Responderam os dois, em coro – Obrigado.
-Nós sabemos fazer sexo, doutor. Inclusive, fazemos todos os dias, como você disse imaginar. – Acrescenta o homem, orgulhoso.
-E como vocês fazem?
-Você diz em relação às posições?
-Sim, também. Qual a posição mais freqüente?
Flávia olha para o marido, com o cenho dobrado. Sua mudez eloqüente representava uma dúvida; devia ou não revelar aquele dado?
Bráulio não consente.
-Estão esperando o que para me contarem?
-Não vamos lhe dizer isso. É uma invasão de privacidade.
-Invasão é o que vocês fizeram. Entraram na minha sala, sentaram-se nas minhas poltronas de estofado alemão, e ainda riram do meu Botero.
-Não me leve a mal, mas nós pagamos por isso! – Altera-se Bráulio.
-Calma, amor...
-Pagaram para que? Para entrarem na minha sala, sentarem nas minhas poltronas e rirem do meu Botero? Pagaram para isso? Tem certeza que não pagaram para nada mais além... Disso?
Inclinaram as cabeças; o casal havia entendido o recado.
-Fazemos o... O chamado “papai e mamãe”. Pronto, falei. – Confessa Flávia, um pouco tímida.
-Que arcaísmo. Os neandertais faziam papai e mamãe. E não há revezamento no “quem fica por cima”?
O casal troca olhares, confusos.
-Não, eu sempre fico por cima.– Se apressa em dizer o homem.
-É, ele fica por cima. – Confirma ela, temendo ferir narcisicamente a imagem do noivo.
-E qual a velocidade do créu (“crerréu”, com a pitada do sotaque) que você faz, Bráulio?
-O que?!
-Nunca ouviu o créu? Até eu, um sujeito de ouvidos castos, que só ouve Bach, Madredeus, Mozart e Chico Buarque, tive a infelicidade de cruzar com um maldito alto-falante tocando esta... Não tenho palavras para definir esse amontoado de poucas palavras. Nesse dia pensei em me matar, engasgar-me com o meu patuá, morrer sufocado, foi terrible.
-Ah, você tem um patuá?
-Claro.
Pierre puxa o seu amuleto que estava sob a camisa e deixa à mostra.
O casal se espanta ao se deparar com tal amuleto.
-Isso é um... Pênis?
-Sim, um pênis. Um pênis chinês. Isso explica o tamanho, aliás. Dizem que traz bens numerosos para sua vida, pois o chinês é tão reprodutor quanto um barato.
-Barato?
-Barato, o marido da barata. Chéri, eu trato de casais, e casal unissex para mim é homossexual. Então, prefiro empregar meus gêneros. Agora diga, Bráulio, qual a velocidade?
-Eu não sei direito, não sei como dizer ao certo...
-Pois então, reproduza.
-Como assim, reproduzir, você quer que...
-Exatamente, amore. Levante-se e simule os movimentos que você faz com sua noiva.
-Isso já é demais, eu não vou fazer isso, Flávia, eu não vou fazer!
-Amor, você não quer salvar a nossa relação? Vai, siga o que ele manda, ele sabe o que está fazendo.
-Tenho lá minhas dúvidas...
Bráulio hesitou, olhou para um lado, para o outro, para o Botero, suspirou, e, finalmente, se levantou da poltrona.
De pé, diante de Pierre, Bráulio pergunta quando começar.
-Quando quiser, chéri. – Responde o terapeuta, a um riso mole, desmunhecando.
Encabulado, Bráulio iniciou, lentamente.
-Ele começa assim mesmo. – Diz Flávia, animada com a apresentação do esposo.
-Oh-la-lá...
Bráulio aumenta a velocidade dos movimentos.
-É assim! Assim até o final agora! – Ele diz, com a voz reverberada, devido os movimentos velozes que fazia com o corpo.
-Está bom, bom! Pode parar! – Ordena Pierre.
Bráulio cessa os movimentos, e se senta, sob carícias de Flávia.
-Velocidade quatro. – Decreta o terapeuta.
-Quatro? Pensei que fosse cinco, doutor!
-Não se sinta menos macho por isso. Todos os dias, e nessa velocidade, você vai acabar arrebentando o fígado de sua mulher mais cedo ou mais tarde. Além do mais, pelas minhas contas, a velocidade quatro equivale a cinqüenta e três penetrações por minuto.
-E o que isso tem a ver?
-Que, segundo a minha calculadora erótica mental, você goza em dois minutos e vinte segundos.
O casal se entreolha mais uma vez, abismados.
-Nossa, mas... Foi certeiro. – Atemoriza-se Flávia.
-Dois minutos e meio de sexo e duas horas e meia de ronco ao lado da parceira. Estou certo, Flávia?
-É, mais ou menos isso...
-Flávia, tem coisas que não precisam ser ditas... – Murmura Bráulio.
-Mas ele descobre tudo! Não adianta mentir! Além do mais, eu jurei pela minha boa forma, se esqueceu?
-A sua mulher está certa. Vocês realmente vivem mergulhados numa rotina estressante.
-Não, nós fazemos amor todo dia! – Salienta Flávia.
-Se vocês fazem todos os dias, e mal, por sinal, vocês estabelecem uma rotina. Uma rotina sexual. E no caso de vocês, uma rotina sexual egorgásmica.
-Ego o que, doutor?
-Egorgásmica. Uma das minhas invenções. Aliás, se por acaso vocês virem essa palavra numa daquelas revistas, Clube da calcinha, Nova ou Criativa, me comuniquem, pois irei exigir meus direitos autorais.
-Poderia dizer o significado desse belo neologismo, meu caro? – Se interessa Bráulio, cruzando os braços.
-Ego, pois vem da palavra egoísmo, e gásmico advém de orgasmo. Ou seja, um orgasmo egoísta. Só você desfruta o prazer desse ato sexual. E a sua parceira? Onde fica nessa história?
-Debaixo dele, naturalmente. – Diz ela, resignada.
-Mas você nunca reclamou, Flávia! – Se defende Bráulio.
-É que eu não gosto de comentar isso com você... Tenho vergonha. Mas, na verdade, eu gostaria que fosse diferente. Gostaria que durasse mais tempo.
-E você espera pra me dizer isso na frente desse... Desse terapeuta aí?
-Não gosto que se dirijam a mim com desdém, chéri. Esse terapeuta aqui, e não “aí”, se chama Pierre Valentine, o “carra”. E você, Bráulio? Que professor és? Um professor “aí”? Ou acolá? Nenhum dos dois, meu “carro”.
Pierre se levanta, e se dirige até Bráulio, que arregala os olhos, assustado com a postura impositiva do terapeuta, que por sua vez lhe aponta o dedo magricela e diz:
-Méthodique! Raseur!
-Traduza, por favor.
-Gramático chato tu és! Pleonasmo, todo gramático é chato!
Pierre leva as mãos às faces esquentadas:
-Ai, que terrible. Bráulio, você é um daqueles professores que expulsa o aluno de sala porque ele não soube acentuar o “é” do “café”, ou coisa “parrecida”. Imagino que as redações que você corrige retornam para as mãozinhas delicadas dos alunos completamente ensangüentadas!
-Ensangüentadas? Ei, o que quer dizer com isso, seu...?! – Bráulio ameaça se levantar, mas é contido por Flávia.
-Sangue, tinta vermelha! Para um aprendiz de redação, tinta vermelha é a morte de suas palavras! É o sangue que escorre pelos espaços, é o assassinato da sua criatividade! – Disse, enfatizando a última palavra.
-Doutor, vá com calma... – Pede Flávia, a um murmúrio.
-Não queira contestar o meu método didático, seu terapeuta maluco!
-Fou??! Não estou contestando, estou apontando para você o que você é. És o que és, meu “carro”! – Disse, apontando novamente o dedo para Bráulio – Abominas todo e qualquer tipo de criatividade, e por isso, na cama, com tua mulher, és um picolé de chuchu, egoísta, e sem criatividade! Papai e mamãe, papai e mamãe, Dieu! Modus vivendi sem surpresas! Flávia, como agüenta morar com este Liquid Paper em pessoa?
-Eu o amo, doutor! – Encara Flávia, desaprovando a maneira com que o terapeuta expunha as verdades.
-Amor? Amor por amor não basta, chéri! Precisa-se de outros fatores para que o amor sobreviva. No caso dele, por exemplo, imagino que tenha sido a sua cor de pele.
Bráulio salta da poltrona, enfurecido.
-Repita o que disse, seu filho da mãe.
-E do papi também. Apesar de eu ter tido muitos problemas com aquele homem que fecundou minha mãe, eu não posso esquecê-lo. – Diz, demonstrando tranqüilidade.
Bráulio agarra o colarinho de Pierre e exige que ele se explique.
-Bráulio, largue ele! Por favor, não crie confusão!
-Bráulio, se for para me agarrar, que seja por trás!
Bráulio empurra Pierre, que cai sentado em sua poltrona, abruptamente.
-Acha o que, hein? Que me casei com ela porque ela é branca azeda, é isso?
Flávia, que àquela altura também já estava de pé, olhou ofendida para o marido:
-Azeda, eu?
-Quantos de vocês não se casam com loirinhas que desfilam pelas praias da Zona Sul carioca? Historicamente, vocês negros são discriminados até pelas moscas. É natural que, inconscientemente, vocês procurem uma loirinha para elevarem a imagem de vocês.
-Abrirei ainda hoje um processo contra você! Isso não vai ficar assim, não mesmo! Vamos embora desse lugar, Flávia. Maldita hora que colocamos nossos pés aqui!
-A verdade é como a primeira vez, chéri. Dói.
-Que decepção, doutor Pierre. Esperava mais de você - Anuncia Flávia, desgostosa.
-E vou querer meu dinheiro de volta! – Esbraveja Bráulio, tomando a mão da esposa e a conduzindo até a saída. Eles saem, batendo a porta.
-Vão, seus ingratos!
Pierre cruza as pernas, abre a gaveta do móvel ao lado e apanha seu inseparável charuto francês.
Enquanto “degustava” daquele momento, sentindo a fragrância suave da fumaça expelida, Pierre se levanta e caminha até o seu Botero, retira o charuto da boca ressequida e diz, admirando tal obra de arte, esboçando um certo sorriso de satisfação:
-Há muito mais coisas por trás desses traços... Grande Botero... Como é bom saber que sempre há algo por trás dessas bundas.


6 comentários:

Camillo Landoni disse...

Estou muito impressionado. Vc é um talento, rapaz! Adorei seu conto! Vc tem um ritmo narrativo muito, mas muito bom!!! E há qualidade nos diálogos, uma ótima dinâmica das cenas... Parabéns!!! Que orgulho pra mim estar entre pessoas tão talentosas.

Grande abraço!
Allan (Camillo Landoni)

Lohan Lage Pignone disse...

Nossa, que elogio bom de ler! Comecei bem o meu domingo! Obrigado, Allan, eu é que me sinto honrado de participar com vc no blog, feliz por você ter aceitado o convite.
Há muito eu não postava um conto; abri mão um pouco dos poemas e voltei-me novamente ao mundo dos contos, da prosa, enfim.
Abraços, Lohan.

Andréa Amaral disse...

Estupendo, meu "carro". É tão bom sentir o autor que escreve embasado em pesquisas, conhecimentos, para ser irreverente, arrancar o pedantismo da dita cultura "inútil", que as pessoas não querem mais apreciar em nenhuma forma ou contexto. AMEI!
Você realmente a cada dia mais surpreendente. Parabéns.

Thaty Louise disse...

Adorrei, mon cher!!!!!!!!!!
Lohan, vc é flórida!!!!!!!!!!!

Carla Zeglio disse...

Adorei! Vou aprender a escrever com vocês! Obrigada pela oportunidade e por favor, continue me ensinando aquilo tudo que eu não sei!

Lohan disse...

Obrigado a todas vcs!
Thaty, Carla, Andrea, obrigado mesmo!
O elogio de vcs me põe em avante, sempre.
Escrever sempre!

Quem sabe não há o retorno de Pierre Valentine, hã?