domingo, 25 de setembro de 2011

Página 24


Caros autores, caros leitores,
tornei-me um membro-autor deste blog devido à minha participação no 1º Concurso de Poesia Autores S/A. Aqui neste blog, aprendi muitos caminhos para desenvolver minha escrita poética. Foram muitas rodadas com León Bloba, carregadas de emoção, apinhadas de ansiedade, vestidas de felicidade. Ler cada comentário, identificar lacunas, buscar soluções poéticas e construções de imagens para cada tema... foram etapas bem vividas neste tempo todo. E participar de um concurso com tantos poetas incríveis e tantos comentaristas e jurados competentes, me fez acreditar mais em minha poesia. Tudo muito bem moldado pelos organizadores deste blog. Obrigado, pela gentileza, pelo cuidado, pela boa disputa! 

Passado tanto tempo postando poesia por aqui, posto um texto meu, como fez o Dante em sua primeira publicação aqui como Autor S/A:


PÁGINA 24

Lavínia precisava decorar seu texto: 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica. Andava pelo apartamento apertado, entre móveis e acervos de outras peças que guardava, entre figurinos em sacolas cheirando à naftalina e entre espelhos – porque gostava de se ver falando. “Christofer, não há porque sonhar... a ilusão é tão irrisória...” – repetia, repetia, repetia. E sempre falhava. “Tenho tudo nas mãos, mas tudo escorre como água pelando” e outras balelas mais...

Sentava-se na privada de seu banheiro lilás e repetia as frases do autor desconhecido. Tomava seu banho relembrando o texto e algumas barreiras da produção, em silêncio, enquanto a água escorria pelando por seu corpo frouxo. Estava o elenco ainda em estudo do texto - leituras brancas, quase apagadas -, na mesa, em conversas. Não haviam começado os ensaios de marcação. Lavínia adorava marcar, ser dirigida e sentir-se surpresa com alguma fala do diretor, como “use isso a seu favor. Aproveite essa angústia e encontre o olhar da personagem nessa fala. Vem vindo da direita alta, em passos lentos.” – e isso fazia com que Lavínia se sentisse uma deusa dos palcos. Mas ela pescava as frases em silêncio, para passar uma idéia de humildade.

Chegando à sala de reunião, estava Everaldo, diretor formado em universidade, com um cigarro à boca e trajes suados - Lavínia cria em qualquer palavra que saísse de sua boca amarrotada. Conversaram sobre Pâmela, sua personagem sofrida, enquanto esperavam por Agnes - uma atriz mais velha e com pequena experiência no teatro, de muitos anos atrás - e por Leandro - um ator jovem, franzino, esquisito e inexperiente, de lábio leporino e olhos verdes, a quem Lavínia deveria beijar ardentemente na página 24 do roteiro. Quando todos chegaram, dentro de um atraso já esperado, sentaram-se, fumaram, tomaram café, água, comeram um biscoito vagabundo que Lavínia levou para a leitura. Depois leram a peça, discutiram cada fala com propriedade de quem disseca os sentimentos mais falsos de um ser humano inventado. Sonharam com a peça perfeita, em preto e branco, enquanto sustentavam a ilusão de suas personas.

Foram todos para suas casas, lendo os textos pelos caminhos, nos ônibus, nos metrôs, nas ruelas. E chegaram em casa, mas só Lavínia pôs-se ainda a sentar na privada com a personagem, a banhar-se projetando filmes de perfeição cênica, a rondar vestígios de outras realidades construídas no aperto de seu apartamento frio. Somente Lavínia deitou sua cabeça pesada num travesseiro de espuma gasta e chorou com Pâmela. Não sabemos se emocionada com o destino dramático da personagem amarrada a um amor impossível – Christofer, que nada se assemelhava a Leandro, em suas fantasias - ou pela impossibilidade de ser outra coisa em sua vida. 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica para viver outra vida.

Marcelo Asth


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aproveito este espaço para divulgar meus três blogs:

POESIA:
www.obelichedebloba.blogspot.com

CONTOS:
www.osotaovazio.blogspot.com

CONTOS SOBRE VELHICE:
www.gerontografia.blogspot.com

6 comentários:

Stella disse...

Marcelo, que delícia de conto! Adorei!

Camila Furtado disse...

Maravilhoso! Lavínia gosta de viver suas personagens, de sofrer junto, de sonhar, idealizar... eu meio que sou assim com os meus textos. Embora eu "sofra" inspirações alheias, às vezes choro ou sorrio junto as pessoas que habitam meus textos.

Amei muito seu texto, Marcelo. Seja muito, muito bem vindo ao nosso blog!

asth disse...

Obrigado Stella! Obrigado Camila! Vamos viver nossos textos!

Lohan disse...

Vivamos nossos textos! Seja super bem-vindo, campeão.

Arrasou como contista. Nada melhor do que você, artista perfomático, que domina as artes literárias e cênicas, para uni-las e construir um texto tão gostoso como este de ser lido.

Obrigado, meu caro!
Abraços,
Lohan.

Landoni Cartoon disse...

Seja bem-vindo, Marcelo "León Bloba" Asht! Lendo seu conto, não pude deixar de pensar que em toda viagem que nos salva de uma rotina indesejável a pior parte é sempre a volta. Pensei como deve ser bom esquecer dos nossos problemas com personagens falando e agindo por nós, por outro lado no apagar das luzes, no camarim...

Abs!!

Nathi disse...

Lavínia, pobre Lavínia. Na falta de vida vive de vampirismo, tentando sugar algo de quem nem mesmo exite. Como todo mundo que se torna parasita de trabalho, faculdade, relacionamentos, hobbies. Quem é que vive por independência e desprendimento total?

Lavínia me faz refletir, e isso dá dor de cabeça, que triste!