segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O homem que queria ser outro - ÚLTIMO CAPÍTULO (PARTE 1) - O homem


Amigos leitores,

Sei que falhei em meu comprometimento para com todos em relação a publicação da história "O homem que queria ser outro", a qual vinha publicando regularmente a cada semana. Tive muitos contratempos durante dos dois últimos meses, os quais contribuíram para que eu me ausentasse e não desse a atenção merecida a essa história que vem sendo acompanhada por vocês já há um bom tempo.
Não sei se irão me perdoar por isso, rs, espero que o final seja compensador! Ele já está escrito há algum tempo, mas precisava de alguns reparos...
O último capítulo, devido o tamanho exarcerbado, foi dividido em duas partes. A primeira será postada agora, e a segunda logo em seguida. Antes, para me redimir um pouco e refrescar a memória de todos que acompanham a história, preparei um ''resumão'' de tudo o que aconteceu até então. Vale a pena conferí-lo antes de mergulharem no ultimo capitulo.
Obrigado, e, mais uma vez, me perdoem. Boa leitura! (Lohan Lage Pignone)


Resumão em apenas 15 tópicos:

-Ariano Bezerra e Euclides dos Santos tornaram-se melhores amigos na faculdade de Jornalismo. Ariano intercede por Euclides em seu local de trabalho, o jornal “Boca do Povo”. Ariano é apaixonado por Lia Neide, uma das secretárias do jornal. Euclides começa a desenvolver uma inveja sem igual de Ariano, ambicionando tudo o que o amigo possui, seus talentos, sobretudo o da escrita, e o que ele pode vir a conquistar.

-Ana Lucia e Julia são personagens vinculadas aos protagonistas Ariano e Euclides. Ana Lucia é colega de faculdade de ambos, tem um filho de oito anos, chamado Pietro, e é casada com o delegado Regis. Ela, uma mulher aparentemente depressiva, que se inunda de bebida alcoólica para fugir dos problemas, desenvolve uma boa amizade com os garotos, os quais ela muito admira. Alimenta o sonho de que seu filho será como eles quando crescer. Já Julia, redatora do jornal Boca do Povo, é grande amiga de Ariano e Lia Neide. Ela não simpatiza com o mais novo contratado Euclides.

-Lia começa a ser cercada por Euclides, que aos poucos vai se aproximando e demonstrando interesse na jovem. Lia Neide é uma jovem cuja vida anda rodeada por tragédias. Seu pai falecera recentemente, e seu namoro foi terminado logo em seguida. Ela se fecha para qualquer tipo de relacionamento amoroso, acirrando a batalha invisível entre Ariano e Euclides.

-Julia nota o interesse de Euclides em Lia Neide, e o quanto ele é falso com Ariano. Ariano se acidenta na escada da Universidade, devido um olhar de mau agouro de Euclides. Ele fica internado e, ao deixar o hospital, recebe recomendações de que precisa repousar e não sofrer fortes emoções, pois havia sofrido uma pequena lesão na cabeça.

-Lia Neide sofre perseguições de seu ex-namorado, Adalberto Rangel, homem por quem ela ainda guarda um sentimento. Ariano é provisoriamente afastado de sua função no jornal, dando espaço a Euclides, que almeja seu cargo de cronista literário. O editor chefe, Haroldo, cede este lugar a Euclides, a contragosto de Julia.

-Euclides publica no dia de Ariano e recebe muitas críticas. Enfurecido, ele rebate a todas, vorazmente, sendo flagrado por Julia. A essa altura, o personagem já assumira totalmente a postura de antagonista, demonstrando seu caráter através de mentiras, como o roubo da autoria da poesia de Ariano, a qual deu a Lia.

-No capítulo quatro, descobrimos o passado negro que assola a família de Euclides. Apresenta-se o clã dos Santos Figueiredo: Amália, sua mãe; Rodolfo, seu pai; e Hilda, sua avó paterna. Descobre-se que Euclides assassinara o irmão mais velho afogado numa piscina devido sua obsessão por reconhecimento e preferência. Hilda revela saber de toda a verdade, e acaba sendo assassinada pelo neto, que a joga da escada duas vezes. Agora, Euclides é mais do que um jovem invejoso e complexado: agora ele se mostra como um psicopata frio e calculista.

-Euclides se aloja na casa de Ariano por uma noite, e dá prosseguimento as suas armações, que agora viriam uma seguida de outra. Ele altera o medicamento de Ariano. No jornal, ele presencia uma discussão entre Lia e Adalberto. Planeja habilmente um modo de descartar o ex-namorado da jogada, ao ouvir de Lia que ela ainda o ama. Ele rouba o celular da jovem e envia uma mensagem a Adalberto, se passando por ela. Marca um encontro fatal, na praia do Leblon. Lá, Adalberto é friamente assassinado.

-Euclides vai se hospedar na casa do tio, Charles. No velório de Adalberto, ele surge para apoiar a mocinha Lia, que sofre muito com mais esta perda. A essa altura, Julia alerta a Ariano sobre o caráter dúbio de Euclides, e pede que o jovem permaneça atento. Ela diz ainda que sua missão é protegê-lo enquanto estiver viva. Euclides passa a receber mensagens anônimas em seu celular; mensagens que o ameaçam caso ele não se revele um grande criminoso.

-Vitor, melhor amigo do finado Adalberto Rangel, acusa Lia de tê-lo assassinado. O delegado Regis entra na história. Walter, pai de Ariano, assume o papel de advogado de Lia.

-Charles se recusa a ser álibi de Euclides ao desconfiar de que o sobrinho seja realmente culpado pelo crime que mobilizou o país. Euclides, acuado, mata o próprio tio, escondendo o corpo no porão da casa. A essa altura, Lia, Ariano e companhia já começam a desvendar as falcatruas do vilão, pondo em xeque a amizade entre Ariano e Euclides.

-Lia recebe ameaças de morte por telefone de Vitor. Euclides se demite do jornal, e no mesmo dia, recebe uma grande surra de seu pai, que o acusa, com base no testemunho do porteiro e de uma vizinha, de ter assassinado a senhora Hilda. Ariano fica balançado entre a amizade de Euclides e o amor de Lia. Não sabe em quem confiar.

-Ana Lucia deve manter segredo a respeito do seu casamento. No entanto, ela, que ainda confia em Euclides, vai visitá-lo no hospital e lhe conta sobre o aniversário de Ariano no dia seguinte, do qual ele não seria convidado. Regis aparece por lá e ela precisa se esconder às pressas do marido. Ariano tem mais uma prova da canalhice de Euclides: descobre que o amigo roubou sua poesia para dar a Lia.

-Euclides comparece no aniversario de Ariano, constrangendo a todos. Ariano se mostra superior, e o humilha com sutileza. Ariano ganha um carro de presente dos pais. Euclides é obrigado a presenciar o talento de Ariano expressado através da música, e sofre ao perceber que ele tem todo o reconhecimento da família, além do amor, o qual nunca recebera. Euclides agarra Lia a força na cozinha, e a beija. Os dois são flagrados por Ana Lucia, que por sua vez, contaria o que viu a Ariano.

-Ariano corta relações com Lia e Euclides, acreditando que ambos tramam contra ele. Desesperado, ameaça se jogar de um penhasco, mas é salvo por Rebeca, uma surfista que, através do diálogo, consegue fazê-lo mudar de idéia. Euclides contrata homens para seqüestrar Lia Neide. Ariano anuncia que vai matar Euclides.

ÚLTIMO CAPÍTULO - PARTE 1 - O HOMEM

Não havia ninguém em casa além dele. Era segunda de manhã. Seus pais haviam saído a compromisso.
Entrou no quarto dos pais com uma determinação nunca antes tida. Um objetivo maquiavélico, que não condizia com sua índole benévola.
Abriu e revistou todas as gavetas da cômoda; o próximo passo foi o guarda-roupa. Uma das gavetas inferiores possuía um fundo falso, como já previra. Retirou-o, e encontrou uma pequena caixa de sapatos. Abriu a caixa... Lá estava ela... Sua procura foi extremamente bem sucedida. Aquela mão delicada apanhou cuidadosamente o objeto que torna um homem dois homens. Um revólver, calibre 12, rutilante. Estava envolto num lenço de cor branca. Ao lado, um pequeno estojo de cartuchos.
-Touché.
Vitória? Talvez não. Somente o fim da história poderá dizer quem será o vitorioso e o derrotado. Euclides? Não. Este o qual me referi acima se chama Ariano Bezerra. E o fim... Eis o final que tanto se esperou.

Tudo ocorreu de forma agressiva, abrupta. Duas viaturas, seis policiais, incluindo o delegado Régis. Praticamente, a casa do cidadão fora invadida. Tomava café com sua mãe quando foi imobilizado por um policial, algemado e levado para a delegacia.
-Pelo amor de Deus, o que ta acontecendo? O que estão fazendo comigo?!
-Soltem o meu filho, ele não fez nada! – Gritava a mãe, acompanhando os policiais.
Vitor foi empurrado para dentro de um dos carros da polícia. Estava desnorteado. O delegado sentou-se no banco da frente.
-Delegado, eu não fiz nada com a Lia, eu juro.
-E por acaso alguém aqui disse que aconteceu algum incidente com a Lia? Você disse, Mandrake? – Indagou, sarcástico.
-Não senhor, chefe. – Respondeu o policial ao volante.
-Mas então... Por que isso?
-Na delegacia a gente conversa. Toca aí, Mandrake.

Euclides está sentado em uma cadeira de praia, sob um guarda-sol, avistando de não muito longe o mar calmo que quebrava suas ondas nos pés dos banhistas que por ali se divertiam. De óculos escuro, sem camisa e de bermuda, Euclides aproveitava o dia ensolarado com ares satisfeitos e tranqüilos. Ao lado, na areia, um coco furado com um canudo.
-E aí, meu irmão? Cumpriu direitinho o combinado? – Disse pelo celular, após discar pacientemente o número do receptor.
-Tudo na moral, bicho. Aqui não tem vacilão não, ta ligado?
-Estou mais ligado do que imagina. Bom saber que não tem vacilão, não to cuspindo dinheiro não. E ela, como está?
-Coé, ta preocupadinho com a mina?
-Eu amo essa menina, portanto, não quero um arranhão nela, entenderam?
-Ama? Valeu... Ela ta nervosinha... Mas ta segura, e em boas mãos...
-Não toque nela, ouviu bem?! A noite finalizamos o plano. Fiquem atentos.
-Xá com nós. Parceiro do Aranha é parceiro nosso.
-Assim que se fala. Até a próxima ligação.
Euclides fecha o celular, com um sorriso escapando dentre os lábios.
-Lia, Liazinha... Nossa hora vai chegar.
Lia estava trancafiada em um cômodo escuro, amarrada em uma cadeira e amordaçada. De seus olhos esquivos, lágrimas escorriam. Um negro forte e truculento abriu a porta ruidosa do cômodo, entrou e foi lentamente ao seu encontro. Ele abaixou-se, equiparando à sua altura na cadeira, afagou-lhe uma das faces e disse:
-Nunca raptei uma princesinha... Mas pra tudo nessa vida tem sua primeira vez, não tem, gracinha?
Lia gritou, mas sua voz foi completamente abafada pela mordaça. As lágrimas falavam pela sua boca, brotando incessantes dos olhos. Remexeu-se, tentando se livrar das amarras.
-Você tem cara de ser cabacinho... Que delícia.
Lia balançou a cabeça negativamente, em tom de desespero. Rogava para que ele não concretizasse a insinuação... O homem tocou a coxa de Lia, deslizando sua mão suavemente pela sua perna, em direção a seu órgão genital.
-Eu to doidinho pra ser o primeiro nessa lista... – Continuou, com uma voz repleta de tesão.
Nesse momento, Clóvis entra no quarto.
-Ei, Carlão, deixa a menina em paz! Sai fora daí, sai.
-E, qual é a sua, Aranha? Tu nem ta na jogada, ta fazendo o que aqui? – Retruca, tirando a mão da perna de Lia, que tremia feito vara verde.
-Eu indiquei vocês pro esquema, mas não quero sacanagem com o meu parceiro! A mina é dele, moro? Deixa ela quieta aí. Vem comigo.
Carlão lançou um último olhar ardente de desejo à Lia, passou uma das mãos em sua perna e levantou-se.
Clóvis olhou com compaixão para a Lia, que o encarou fixamente, com um olhar clemente. Clóvis desviou o olhar, retomou a postura e saiu do recinto com Carlão.


-Minha filha, seu desgraçado! O que você fez com a Lia!?
Esta foi a recepção de Vitor, na delegacia. Dona Beatriz estava muito exaltada, e tentou agredir o rapaz, que fora protegido pelos policiais.
-Tenha calma, senhora, calma!
Vitor foi levado, sem as algemas, para uma sala reservada pelo delegado Régis. Sentaram-se, um defronte o outro, separados por uma pequena mesa.
-O que está havendo, delegado?
-Onde está Lia Neide?
-Acredite em mim, eu nem sei o que está acontecendo! – Disse, ruborizado de raiva.
-A Lia Neide foi seqüestrada hoje pela manhã. Um Opala preto parou rente a ela e sua mãe que saíam juntas para irem ao mercado e a raptou. Um seqüestro relâmpago. Ela foi levada por dois homens encapuzados. Isso que aconteceu.
Vitor se mostra surpreso e confuso.
-Peraí... Quer dizer que... Não pode ser!
-Vitor, por enquanto estou mantendo a minha paciência com você. Eu não vejo em você um homem de má índole, se é que minha percepção não esteja ficando falha depois de velho. Eu apostei que você não arriscaria nada contra a integridade física da Lia depois daquela conversa que tivemos no sábado.
-Eu tive medo, aliás, eu to com medo... Eu posso parecer um machão, lutador, mas no fundo não sou assim. Eu ainda acho que a Lia é culpada pela morte do meu melhor amigo, não retiro nada o que disse. Mas retiro o que fiz. Agi por impulso quando eu a ameacei. Mas... Mas eu seria muito estúpido em cometer qualquer deslize com ela depois daquele papo que tivemos, certo? Eu simplesmente estaria pedindo pra ser preso!
-Você pode estar jogando comigo agora. Utiliza o argumento do “óbvio” para se apoiar.
-Preciso que acredite em mim... E de um advogado.
-Sim, você terá seu defensor. Vitor... Quem mais teria motivos para seqüestrar uma jovem tão doce, tão inofensiva?
-Inofensiva até que se prove o contrário. Sei que to sendo burro em insistir que ela é culpada, mas é a minha opinião. Isso não significa que eu tenha seqüestrado ela. Eu não seria tão idiota! Se eu pegasse essa menina, seria com minhas próprias mãos. Não ia pagar ninguém pra fazer isso.
-Quem teria motivos, Vitor?
-Não sei! Algum familiar do Adalberto, ou algum desafeto dela... Maldita seja esta pessoa que resolveu tramar contra ela justo agora! Aliás, isso é um caso a ser pensado, delegado. Quem garante que a pessoa que fez isso não tinha conhecimento das minhas ameaças?
-Eu já levantei essa suspeita... E vou investigar. Torça para que essa pessoa, se é que o criminoso seja mesmo outra pessoa, seja descoberta. Só assim você poderá sair da prisão.
-Eu vou ver preso?!
-Provisoriamente. O juiz analisou a situação e expediu um mandado de prisão temporária para você. Enquanto isso, vamos continuar averiguando, e tentando encontrá-la. Vitor... Se foi mesmo você, confesse agora. Quanto mais tempo demorar, pior será a sua pena.
-Eu não tenho nada a confessar. Podem me torturar, se quiserem.
-Nós não aplicamos estes métodos criminosos aqui. Mas existem outras maneiras de tortura, diferentes da física, que é a que você mais teme apesar de demonstrar tranqüilidade. Venha, vamos para sua nova moradia.
Vitor foi levado por um policial até sua cela. Logo sua mãe chegaria acompanhada por um advogado. Dona Beatriz estava aterrorizada. Regis a chamou num canto.
-Delegado, ele precisa dizer onde está a minha menina, delegado...
-Ele não vai dizer nada. Ele é inocente, Dona Beatriz.
-Como assim, inocente? Como...?
-Não foi ele quem mandou seqüestrar a sua filha. Não tenho provas que afirmem sua inocência, mas... Tenho uma boa carga de experiência.
-Então por que mandou prendê-lo?
-Pois ele estando preso teremos mais chances de pegar o verdadeiro culpado. Esta pessoa ficará relaxada, pensando que está a salvo com a prisão decretada do Vitor. Mas ela está enganada.
-Meu Deus... Como vamos descobrir?
-Com sua ajuda, e com a ajuda dos mais próximos a Lia. Se não for um seqüestro premeditado, o seqüestrador entrará em contato. Portanto, é melhor que permaneça em sua casa, juntamente com os policiais que enviarei para lá, entendido?
-Claro...
-Antes, gostaria de saber se a Lia teve algum desentendimento com alguém, seja no trabalho, com amigos, seja quem for. A senhora saberia me apontar algum caminho?
Dona Beatriz hesitou. Lembrou-se de Euclides, e das armações do rapaz para com a filha. Lembrou-se de Ariano também, e das duras palavras que dirigiu a Lia ao descobrir que ela e Euclides se beijaram dentro de sua própria casa.
-Sim, há dois caminhos que posso apontar, seu delegado. – Disse ela, com firmeza.


Ariano chega à delegacia com cara de poucos amigos. Estava acompanhado do pai, Walter. Fora chamado para depor sobre o desaparecimento de Lia. Estavam todos na sala de espera.
-Fique tranqüilo, filho. Não é culpado de nada, portanto, não há o que temer.
-Por maior que tenha sido minha raiva... Eu não chegaria a esse ponto, pai. Não com ela.
-Como assim, “não com ela?”.
-O senhor entendeu.
Ariano se afasta do pai, seguindo até o bebedouro da delegacia. Dona Beatriz se aproxima de Ariano, constrangida. Havia acabado de depor.
-Ariano... Quero que saiba que tenho muito apreço por você, e por sua família. Seu pai vem dando muita força à minha filha, e você também.
Ariano se vira para ela, após ter bebido alguns goles d’água.
-Gosta de mim e levantou suspeita contra mim? Não há uma contradição aí, Dona Beatriz? Acha mesmo que eu faria algo contra ela, mesmo depois da conversa que tivemos ontem lá em casa?
-Você não se mostrou agradável com a gente... O tempo todo impôs uma barreira contra a Lia. Não confiou na palavra dela em nenhum momento.
-Portanto, estamos quites. A senhora também não confia na minha palavra agora, confia?
-Eu confio, Ariano.
-Não é o que parece.
Ariano se afasta de Beatriz, voltando ao encontro do pai.
-Não fique magoado com ela, filho. Ela é mãe, está com os nervos à flor da pele. Você e a Lia tiveram uma grave... Ruptura, digamos assim, e calhou disso acontecer justo agora. Ela só está fazendo tudo que está ao seu alcance para descobrir o que aconteceu à sua filha.
Neste momento, Euclides entra na sala, com a rompância de costume. Estava levemente bronzeado, de aparência ótima. Nem parecia que ia realizar um depoimento nos próximos minutos. Surpreende-se ao encontrar a todos ali.
-Ora, ora, a cúpula está formada – Disse, em alto e bom som.
Walter repousa a mão sobre o ombro de Ariano, que explodia de ódio.
-Rapaz, saiba que não vamos cair nas suas provocações.
-Não estou provocando ninguém, estou?
Euclides olha para um policial que estava à porta, observando a situação.
Ele se senta num dos bancos encouraçados, disponíveis na sala. Beatriz, Walter e Ariano ficam a observá-lo com esgar.
-O que estão olhando, hein? Policial, estou me sentindo intimidado com tanta gente me olhando.
Ariano se aproxima de Euclides, olhando-o fixamente.
-Ariano... – Chama Walter, tentando detê-lo.
-Fica calmo, papai. Não vou fazer nada contra ele. A hora dele vai chegar, quando ele menos esperar. – Disse, sem desviar os olhos do crápula, que ria, cinicamente.
-Minha hora? Sim, falando nela, já se passaram dois minutos. Fui o mais pontual possível, pra que? Nada!
-Nunca pensei que fosse tão cínico e nojento.
-Por que essa raivinha aí, hein? O que mais te falaram a meu respeito? Devia estar me apoiando agora, como faz os amigos nas horas difíceis. Mas não. Fica aí, me encarando feito um cão raivoso. Pensei que você não fosse tão manipulável, Ariano. Mas agora começo a mudar de idéia...
-Você fala como se eu fosse um completo idiota, Euclides. Ou então, age na esperança de eu voltar atrás e ser reatar a amizade que tivemos. Você sabe que eu já sei das suas tramóias, e fica dando uma de santo! Mas eu vou te pegar, cara!
-Ouviu, policial? Estou sendo ameaçado aqui.
-Senhor, afaste-se, por favor. – Ordena o policial a Ariano.
-Filho, eu avisei pra não se alterar. Vamos sair daqui.
Walter leva Ariano consigo. Beatriz e Euclides trocam olhares eloqüentes. Ela também deixa o recinto, em seguida. Um minuto depois, Euclides é chamado para depor.

Euclides dos Santos. Delegado Regis. Ambos, frente a frente. O grande depoimento se inicia.
-Sr. Euclides, como se sente?
-Bem, obrigado. – Disse, demonstrando-se assaz confiante.
-Ótimo! – Sorri o delegado – Pois bem... Chega ser complicado iniciar este depoimento tão... Tão repleto de desdobramentos. Em cinco dias, uma turbulência de acontecimentos envolvendo você e algumas pessoas próximas a você têm movimentado os nossos trabalhos. A minha mente, principalmente. Sendo assim, vamos iniciar uma conversa informal antes de dar acesso às formalidades...
Regis pausou, movimentou uma caneta sobre a mesa e prosseguiu:
-Chega ser engraçado o rumo que as coisas andam tomando... Parece que... Parece não: há uma mão muito forte e controladora por detrás de todos esses acontecimentos. Uma mão que sabe exatamente quais peças moverem, bem como o momento em que elas devem ser movidas.
-Um jogo de xadrez, senhor.
-Sim, concordo. E, até então, um adversário poderoso leva muita vantagem sobre o outro... Mas o xeque-mate pode estar longe de acontecer para essa... Mente que mente. Enfim, é até difícil dizer de onde você deve iniciar seu depoimento. Você já foi acusado de dois homicídios, e agora...
-E agora?
-E agora está aqui.
Euclides desconfia do levantamento de Regis, imaginando que o delegado fosse mencionar o seqüestro.
-Euclides, Euclides... Diga onde estava no dia do assassinato de Adalberto Rangel.
-Eu estava na casa do meu tio, Charles.
-Você teria dito ao seu amigo Ariano que ia para um hotel, certo?
-Sim, mas mudei de idéia. Não tinha grana suficiente pra bancar hospedagem. Meu tio sempre gostou de mim, e no dia da morte de minha avó, ele me ligou e me ofereceu estadia caso eu precisasse.
-Por que ele te ofereceu estadia?
-Simplesmente porque ele presenciou a minha discussão com meu pai no velório.
-Qual a sua relação com este seu... Tio?
-Comigo, sempre foi boa.
-Por que, com outras pessoas da família ele tinha uma má relação?
-Meu tio Charles nunca foi bem quisto na família, digo, desde a morte do meu irmão.
-Hum... O que houve com seu irmão?
-Ele morreu afogado em uma piscina quando tinha dezessete anos. Meu tio estava próximo, e não correu para socorrê-lo. Era uma festa, e ele estava bêbado. Mesmo assim, a família o considera culpado.
-Que coisa... – Murmurou, cofiando o bigode – E por que você seria a exceção da família quanto a seu tio?
-Simplesmente porque discordo das acusações contra ele. Coitado, ele não teve culpa de nada.
-Realmente é uma acusação pesada e injusta. Como ele suporta essa acusação? Ele sofre por isso?
-Sofrer, eu acredito que sim... Mas não fala com meus pais há tempos. Além do mais, costuma afogar as mágoas em bebida e no trabalho.
-Em que ele trabalha?
-Ele é aposentado, mas trabalha como pintor. Na verdade, seria mais um hobbie do que um trabalho. Uma válvula de escape.
Regis se levanta da cadeira e caminha até o respaldo da cadeira onde Euclides se sentava.
-Pelo o que posso notar, você nunca teve um bom relacionamento com seus pais, teve? Essa briga com seu pai, essa discordância deles...
-Assuntos de família não vêm ao caso no depoimento, vem? Acho que já disse o suficiente sobre este bendito clã...
-Ok, Euclides. Quero que me diga o endereço do seu bondoso tio.
-Claro.
E assim Euclides o fez, sem mentir.
-Então tem um álibi, certo? Porém, um álibi suspeito. Primeiro que se trata de um parente. Segundo, que, mesmo estando na casa de seu tio, você poderia ter saído durante a madrugada, tranqüilamente, e ido assassinar Adalberto.
-São suposições. Quero saber onde estão as provas.
-É, você está certo! Onde estão as provas? – Gracejou, ironicamente.
-Quero fazer uma ressalva: eu não tenho álibi. O meu tio viajou e deixou a chave da casa comigo. Ou seja, na noite do crime, ele já havia deixado a casa. Eu fiquei sozinho.
-Olha, que novidade! Seu tio confia mesmo no sobrinho que tem, hein! Para onde ele viajou?
-Ele disse que ia para o interior, passar uns dias. Só não disse onde. Disse que precisava espairecer um pouco, andava estressado. Ele confiava mesmo em mim.
-Ele tem outra residência no interior do Estado?
-Não.
-Quero me dê o número do telefone dele no final do depoimento. Agora... Você poderia me dizer por que discutiu com seu pai no velório da sua avó.
-Isso vai influir no caso? Que eu saiba, o caso é Adalberto Rangel.
-Eu utilizo o artifício que eu bem entender, garoto. Por que está se esquivando dos assuntos familiares agora?
-Porque são condizem com o caso.
-Quem sabe se condiz ou não sou eu. Agora diga o que aconteceu naquele velório.
-Meu pai ficou furioso comigo por eu ter saído de casa naquela noite. Havíamos discutido em casa. Eles saíram para jantar, sei lá. Fiquei sozinho com minha avó. Saí, não quis dormir em casa. Então... Ela se acidentou e ele achou se eu estivesse lá, ela poderia ter sido... Salva.
-Para onde foi naquela noite?
-Para a casa do Ariano, meu... Ex amigo.
-Ex amigo... Espere um pouco: foi para a casa do Ariano na terça-feira à noite, certo?
-Sim, por que?
-Porque no dia seguinte não retornou para lá, uma vez que já tinha ficado uma noite? O que te impediu de voltar para lá na quarta-feira à noite?
-Nada me impediu. Foi uma questão de escolha, eu precisava ficar... Mais sozinho, se é que me entende.
-Estando na casa do Ariano, você não teria como executar o assassinato. Não teria como sair de sua casa sem que ninguém o notasse.
-Está me acusando levianamente, delegado. Está se aproveitando da minha vulnerabilidade, não está? Estou aqui de cara limpa, sem advogado, nada. Mas saiba que me garanto, e conheço bem os meus direitos.
-Bom garoto. Admiro sua coragem... Eu não o acusei. Apenas levantei uma suposição em voz alta.
Os dois sorriram em meio ao ar tenso. Regis retornou para sua cadeira.
-O que fez depois que deixou a casa de Ariano na quarta-feira?
-Eu fui para o trabalho, no jornal. Chegando lá, me deparo com a Lia discutindo com o falecido Adalberto na portaria do prédio. Ela parecia bastante irada com ele, a ponto de lhe dar um tapa na cara.
-Sim, e depois?
-Eu subi, fui avisado da morte de minha avó. Fui à sala da Lia, a convite dela, para fazer uma ligação. Em seguida, saí.
-Para onde?
-Fui para o velório da minha avó. O resto... O senhor sabe.
-Não tomou posse de nada que pertença à senhorita Lia?
-Absolutamente não. A Lia Neide planejou tudo, a meu ver. Ela não me chamou a toa até a sua sala. Caí na armadilha daquela loba em pele de cordeiro. Ela mesma ocultou o tal celular e agora me acusa de tê-lo roubado.
Regis deu uma gargalhada.
-Contei alguma piada, delegado?
-Não, não... É que há uma contradição nisso tudo. Quero que você defina para mim a sua relação com a ex-namorada de Adalberto Rangel: a Lia Neide.
-Eu era amigo dela. Nos conhecíamos do jornal.
-Só isso? E no momento, qual a sua relação com ela?
-Já sabe do beijo, não sabe? Sua esposa presenciou tudo... – Jogou Euclides, fingindo constrangimento.
-Como sabe que Ana Lucia é minha mulher?! – Indagou Regis, desviando o rumo do interrogatório.
Euclides sorriu.
-Oh, seu delegado! Imaginei que ela tivesse contado ao senhor... – Dissimulou.
-Contado o que?
-Eu não queria te dizer isso, principalmente neste momento, tão delicado... Nem vem ao caso, mas...
-Diga de uma vez, Euclides! – Exasperou.
-A sua mulher, Ana Lucia... Ela estuda comigo, você deve saber. Mas não deve saber que ela é louca por mim. Ela já propôs traí-lo comigo.
Regis ameaçou levantar da cadeira e pular sobre Euclides. A redatora do depoimento ergueu os olhos, assustada com a declaração do suspeito.
-O que pensa que é, seu... – Regis fechou a mão direita, controlando sua raiva - Está tentando tirar a minha concentração do caso, mas está tirando a minha paciência. E saiba que isso está longe de ser bom para você. Não queira me ver irritado. – Disse, trincando os dentes.
-Estou sendo sincero, apenas. Como eu saberia que ela é sua esposa se ela mesma não tivesse me confiado esse segredo? Ela foi até me visitar no hospital da última vez, aquela, em que o senhor foi me intimar. Sabe onde ela estava naquele momento em que entrou no meu quarto? Debaixo da minha cama, escondida. Ela o viu chegando e correu para lá. Quase que o senhor flagra... Um assédio, eu diria.
Regis dá um forte murro na mesa, agora encolerizado.
-A Ana Lucia jamais desejaria um homem que não fosse eu!
-Por que é tão convencido? Que prepotência dizer isso! Ninguém pertence a ninguém, delegado. – Continuava Euclides, perfidamente – Pra sua sorte, ou azar, não sei, eu me recusei a ter qualquer coisa com sua esposa. Ela não faz meu tipo.
Regis deu um salto da cadeira e foi até Euclides, agarrando em seu colarinho.
-Seu desgraçado, você conseguiu me deixar muito irritado!
Um dos policiais que estava à porta percebeu o tumulto e correu para apartar. Ele se aproximou do delegado, que fez sinal para que o deixasse cara a cara com Euclides.
-Euclides... Seu plano não vai funcionar comigo... Conheço essa tática, cara. Eu não acredito em uma palavra que me disse. Não quer continuar falando de Lia Neide? O que ela é para você? Ela faria seu tipo, Euclides?
-Não. Ela é falsa. O senhor poderia me largar agora, delegado? Ou serei obrigado a denunciá-lo por agressão.
Regis hesitou e soltou a camisa de Euclides, recuando dois passos do suspeito.
-E o beijo? Como explica o beijo, Euclides?
Regis estava visivelmente atordoado. Suava às bicas.
-Quer um copo d’água, delegado? – Ofereceu o policial, ao notar seu estado.
-Não, eu estou bem. – Afirmou, não dando o braço a torcer.
Euclides o encarou com seus olhos epiléticos, com um sorriso quase explícito dentre os lábios. “Aposto minha vida que ele não pára de pensar um segundo sequer no que disse a respeito de sua mulher... Eu desconcertei todo o esquema dele”, pensava Euclides.
-Diga, Euclides. O beijo.
-Bem, tudo que tenho a dizer é que fui até a cozinha no momento em que Ariano estava tocando piano. Não suportava mais assistir aquela babação de ovo na sala. Então ela me seguiu, me abordou na cozinha e disse que era louca por mim, mas que não podia ficar a meu favor neste caso, pois era a vida dela que estava em risco. A Lia sempre foi apaixonada por mim, desde que me conheceu. Só que eu nunca dei margem para ela se aproximar mais intimamente de mim.
-E por que não daria, Euclides? Ela é uma bela moça, não acha?
-Não se trata de beleza. Trata-se do meu caráter. Eu era o melhor amigo do Ariano, e sabia que ele é tremendamente apaixonado por ela. Eu jamais trairia meu amigo. – Disse, de uma forma tão convincente que chegou a arrepiar o delegado.
-Euclides... O que está afirmando é muito sério. Saiba que se estiver mentindo, eu vou descobrir.
-Certamente ela e sua patota negará. Negará até a morte, aquela falsa. Quando sua esposa nos flagrou, ela fez uma encenação espetacular. Aliás, com aquela carinha de santa, ela engana sempre, a todos. Pobre Ariano... Não sabe a quem dedica seu amor.
-A Ana não soube me dizer com certeza, mas... Segundo o que ela se lembra, você disse algo parecido com: “em breve todos saberão de nós”.
-Sim. Eu quis dizer essa relação de gato e rato que temos. Mas disse isso repreendendo ela, como quem diz: se você continuar agindo assim, vão pensar que somos um casal e que manipulamos juntos toda essa situação’’.
-Estou começando a contemplar esta hipótese.
-Eu não mataria o ex-namorado dela para ficar com ela.
-Ela disse que ainda o amava, e disse que confidenciou isso a você um pouco antes do desaparecimento do celular dela.
-Acredita nisso? Uma hora ela dá um tapa na cara dele, noutra ela diz que ainda o ama? Não é meio controverso? Aliás, não acha meio inadequado ela me confidenciar uma coisa dessas logo que fiquei sabendo da morte da minha avó? Eu não estava com cabeça pra nada!
-Ela estava a fim de mim, esta é a verdade. Mas agora a verdade está vindo à tona, graças ao flagra da sua mulher.
-A mãe dela afirmou que foi você quem a agarrou na cozinha.
-Achou que ela dissesse algo que fosse contrário a isso? Como já disse: elas negarão até a morte!
-Você sente raiva da Lia, Euclides?
-Sinto.
-Teria coragem de ficar frente a frente com ela nesse momento, dizendo tudo isso olhando nos olhos dela?
-Sem problemas! Aliás, seria ótimo!
-Quando o Vitor disser aonde ela está, nós faremos isso.
-Como assim?
-Ela foi seqüestrada a mando do Vitor, amigo do Adalberto Rangel. Ele vinha ameaçando a Lia, foi preso hoje.
-Nossa... Incrível. – Disse, estupefato.
Regis o analisou com olhos de águia.
-Então você se considera a grande vítima, Euclides?
-Desde o início, eu sou a vítima dessa história.

-Quem é a vítima dessa história, Ariano?
-Todos são vítimas. Até mesmo os culpados. São vítimas da própria maldade que o cerca. – Respondeu Ariano, com propriedade. Pediu ao pai para entrar sozinho, alegando saber se defender.
-Sim, concordo com você... A sociedade provoca a doença que ela mesma tenta curar. A sociedade gera os criminosos, que por sua vez, geram suas vítimas.
-Acredita que a Lia Neide seja tão ingênua quanto parece, Ariano?
-Pergunta difícil, não? – Sorri, nervoso – Eu cheguei à conclusão de que ninguém confia em ninguém. Por que eu devo confiar nela? Ingênua ela não é. Ela pode ser inocente, mas não ingênua.
-Quem ama confia, Ariano.
-Eu... Eu não a amo mais. Quem te disse isso? O Euclides, não foi?
-Você a ama sim, está escrito no seu olhar. Por mais que tenha raiva do que aconteceu, por mais que tente se afastar dela... O seu amor é verdadeiro. Eu sinto isso, Ariano. Você é uma pessoa transparente.
-Não sei se isso é bom ou ruim... Para um investigador, certamente é ótimo. É mais fácil pegar uma pessoa transparente do que uma pessoa de alma sombria.
-Com certeza, Ariano.
Regis sorriu, a um sentimento de leveza. A presença de Ariano era totalmente o oposto da de Euclides. Era leve, pueril, como uma canção italiana, ao som de uma harpa, tocada à em meio ao trajeto das águas clássicas de Veneza.
-Ariano, aonde esteve na manhã do dia de ontem? Rumores me disseram que você saiu repentinamente.
-Eu tentei me matar quando descobri o caso entre Euclides e Lia.
-Não me diga! – Assustou-se Regis.
-O Euclides sempre soube que eu amava a Lia e mesmo assim, fez o que fez!
-E o que ele fez além do beijo, Ariano?
-Ah, ele enviou poesia a ela – poesia que inclusive é de minha autoria. Convidou pra sair... Tudo pelas minhas costas.
-Como soube disso?
-A própria Lia me contou.
-E se ela estiver mentindo? E se o desejo dela por ele não for recíproco?
-Por que diz isso, delegado?
-Por nada, ora. Só uma hipótese. Ela não poderia gostar dele?
-Sim, claro... Mas não foi o caso. Bem, pelo menos foi o que ela me assegurou.
-Ariano, eu posso notar o quanto está confuso. Você está no meio de todo esse tiroteio, sem saber em quem acreditar. Entendo sua posição. Agora... Uma pessoa que tenta se matar é potencialmente capaz de matar outra pessoa. Afinal, não teria nada a perder, certo?
Ariano abaixou a cabeça, se sentindo acuado. Ele a ergueu e disse:
-Eu jamais machucaria a Lia Neide. Eu me mataria, mas não tiraria a vida dela.
-E quanto ao Euclides?
-Eu não posso garantir nada quanto a ele.
-Então sente ou já sentiu vontade de assassiná-lo?
-Nunca sentiu vontade de matar uma pessoa, delegado?
-Já. – Disse, rememorando rapidamente alguns fatos que marcaram sua carreira – Eu já matei uma pessoa, e não queira saber o quanto foi doloroso para mim, meu filho – Disse, em tom paternal.
Ariano observou a tensão que tomou conta do delegado naquele instante.
-Não queira construir essa lembrança na sua mente. Se em algum momento cogitou matar o Euclides, ou seja lá quem for, esqueça. Isso é pior que um suicídio.
Ariano sentiu aquelas palavras tocando fundo em sua alma.
-Está liberado.
Ariano saiu, silenciosamente. Regis acendeu um cigarro, com as mãos trêmulas. Havia chegado no seu limite. Precisava descansar.

Regis não conseguia mais pensar em nada além do que Euclides lhe contara a respeito de Ana Lucia durante o depoimento. Estava com os nervos agitados, a cabeça à mil. Chegou em casa. Já era noite.
-E então, querido? Notícias da Lia? – Disse Ana, indo recepcioná-lo. Não havia bebido.
-Nada. Ainda. – Respondeu, maquinalmente.
Regis penetrou um olhar frio nos olhos de Ana Lucia.
-Por que está me olhando desse jeito?
-Por que revelou nosso segredo justamente para o Euclides, o homem que estou investigando palmo a palmo, a cada gota do meu suor! – Vociferou, explodindo toda sua tensão recolhida naquelas palavras.
Ana Luca ficou sem reação por alguns segundos.
-Diga alguma coisa!!
-Eu já esperava que aquele... Aquele filho da mãe fosse te contar isso. Sim, eu disse a ele que você era meu marido.
-Estava no hospital quando... – Regis embargou a voz, temendo ouvir da mulher a confirmação do que Euclides dissera – Estava no quarto de hospital quando eu fui intimar o Euclides, na sexta-feira?
-Estava. Eu me escondi sob a cama dele.
Regis acerta um tapa na face direita de Ana. Virou as costas para ela, afastando-se a passos tortos, levando as mãos ao rosto.
-Por que... Por que fez isso comigo? – Indagou, arrasado.
-Pai?
Do alto da escada, Pietro, o filho do casal, havia presenciado a cena. Estava aparentemente horrorizado.
Regis se volta para ele, tocado por um súbito arrependimento. Ana Lucia lança um olhar vazio para Regis e vai de encontro ao filho na escada, levando-o para o quarto consigo. Regis fica parado, na sala. Desolado, ele começa a chorar. Despejava a carga pesada que carregava há muito tempo através daquelas lágrimas. Lágrimas que raramente expelia-se de seus olhos. Caiu sentado no sofá. Não sabia como explicar aquela atitude ao filho. Que exemplo ele era? Que profissional ele era? Nunca se sentira tão impotente em toda sua carreira! Um caso aparentemente simples, um homicídio com suspeitas evidentes! Como não ter desvendado ainda? Os jornalistas já batiam em sua porta, já começavam a atormentá-lo, em busca de respostas... Respostas. As respostas doíam, sempre, por mais que seu ofício o obrigasse a desejá-las, a todo e qualquer custo.

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Para vocês, quem é a maior vítima da história até agora? Aliás... Existem vítimas?

3 comentários:

ivelise disse...

Lohan meu amigo escritor!!!!Ja estava querendo ver o final dessa intrigante estória.....Se existe culpados e inocentes?????CLAROOOOOOO!!!Pra mim, o grande Manipulador c/ olhos epiléticos/e alma sombria...está chegando ao seu limite, ou seja o seu FIM!!!Ninguem consegue fingir por tanto tempo.... e mexer nas peças do jogo da vida de uma maneira maléfica como esse EUCLIDES....O fim desastroso o aguarda....Parabens p/ sua iniciativa e sua mente tào fértil!!! Grande Abç!!!

piedadevieira disse...

Sempre existem vítimas, somos falíveis.
Que história!
Aguardo o fim.

Lohan disse...

Obrigado, a vcs q acompanham e me prestigia com seus grandes comentários!
Piedade,q bom saber q vc tbm vinha acompanhando!
Bjs!